sábado, setembro 20, 2008

As invejosas


Anteontem revelei às minhas colegas da linha de montagem que andava a fazer dieta. Têm-me visto a levar o almoço no taparuere, já nem vou ao refeitório nem nada, e intrigaram-se. Expliquei-lhes que agora estou a fazer uma dieta muito boa, muito certinha, que estou muito motivada, que vou à ginástica quatro vezes por semana, que já comecei a emagrecer, e que quando chegar ao Natal estou uma autêntica miss Portugal das Ex-colónias.

Riram-se, responderam-me, todos os anos dizes a mesma coisa, e viraram-me as costas caminhando na direcção do bar, onde, de certeza, iam enfardar-se de bolos de natas e doce de ovos. Gordas invejosas.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Um preto é um preto


A semana passada não houve tempo para comentar a interessante notícia segunda a qual os portugueses gostam mais de McCain do que de Obama, ao contrário da generalidade dos europeus.

A ditadura portuguesa foi das últimas a cair na Europa Ocidental, e não se tratou de um acaso. Os portugueses são conservadores, gostam de sentir o peso da autoridade, mesmo que prepotente. Vinga entre a maior parte dos sectores, não apenas na direita, a ideia de que "o papá é rígido e mau, mas o papá sabe o que é melhor para nós." Não uso aleatoriamente o termo papá. Os portugueses não saíram, política nem socialmente, da primeira infância. Não têm consciência do seu poder enquanto cidadãos reclamantes, e muito menos enquanto grupo. Não acreditam no exercício activo da cidadania como quem acha que nunca será capaz de conduzir uma automóvel, e nem tenta.
Mas esta notícia não me informava apenas sobre as nossas ideias conservadoras. Fornecia-me outra informação muito precisa: os portugueses não gostam de pretos; em Portugal nenhum Obama chegaria onde este chegou. Em Portugal, um preto é um preto.
No Domingo, uma senhora descrevia a outra, lá em baixo, umas cerimónias inusitadas em Fátima, uns festejos, e dizia que tinha sido uma coisa muito linda, que até tinham vindo de África uns tocadores de batuque acompanhados por um padre preto. E reforçou que era padre apesar de preto.
Os portugueses mantêm aquela ideia muito colonial de que o preto é bom para trabalhar barato, mas que nunca poderá equiparar-se profissional nem humanamente a um branco. Um médico preto, um professor preto e um advogado preto são, para uma boa maioria dos portugueses, profissionais de segunda classe, e sabe-se lá como conseguiram o diploma.

Deprime-me reconhecer no povo ao qual pertenço tanta ignorância, tanto atraso e um desenvolvimento tão incipiente dos valores humanistas mais elementares. Portugal degrada-se em ódio e ignorância, como uma velha peça que enferruja.

terça-feira, setembro 16, 2008

Os homens não querem cuidar


Não, não é português. É um americano num centro de cuidados paliativos. Ou, se calhar, é gay.


Cães e homens: os meus dois temas preferidos, pelo melhor e pelo pior. Ora vamos lá.
No último poste, alguns leitores lançaram a ideia de que um homem que se interesse por cães é gay. Não é verdade. Mas desenvolvamos a questão: o assunto merece atenção porque já tinha constatado que os homens não têm grande gosto por cães pequenos. Gostam de cães de caça, porque gostam da caça, mas não ficam a chorar o cão ficar perdido no mato enquanto eles regressam a casa com as lebres e as perdizes. Gostam dos chamados cães de poder, os doberman, os buldogues, os pitebuls, etc. Um cão de poder, como já referi, reafirma a masculinidade, ao permitir associações entre a força e agressividade do cão e as seu dono. Tenho cá a ideia que os homens estão para os cães, como para os carros: quanto maior e mais potente ele for, mais importante e viril aparentarei ser, porque a verdade é que não passo de um medíocre mesquinho, e sem força na verga, mas há que disfarçar.
No meu bairro, por exemplo, só vejo rapazes e velhotes a passearem cãezinhos. Não há muitos de 30 nem de 4o. Devem recear parecer amaricados, como dizia o leitor em poste anterior, ou, outra teoria minha, os homens relativamente jovens estão ainda demasiado cheios de si, da importância da sua imagem, de adrenalina e testosterona, e buscando satisfação, para se preocuparem com alguém. Os homens de certa idade são sacos de egoísmo, de egocentrismo e de vacuidade. Isto é científico.
Uma realidade que conheço bem: as associações de protecção a animais juntam menos homens do que mulheres preocupados com acções voluntárias do cuidado ao outro. São na sua maioria constituídas por mulheres. E não apenas as solteironas como eu, as que não têm filhos ou as viúvas e divorciadas, tudo mulherio perdido para o sexo até ver, que se vai entretendo com acções de benfazer. Estão cheias de mulheres casadas, com filhos, netos, trabalhos, absolutamente convictas que mais vale limpar as boxers de 50 cães do que passar uma tarde a aturar os complexos de superioridade dos maridos.
Tudo isto me leva a pensar que os homens, de forma geral, não gostam de cuidar, não querem cuidar, não lhes interessa o sofrimento alheio. Eles são todos "muito bons"! Nunca conheci um que pensasse não ser. E quando se lhes mete na cabeça que, para além de serem muito bons, são também muito idóneos e respeitadores, fazendo tudo como deve ser, aceitando a inevitabilidade da mudança, da vida, ainda pior. Cobardolas, é o que é! Quem os pode aturar! Até eu prefiro limpar as boxes da União Zoófila de fio a pavio, lavando o chão de joelhos com um esfregão encharcado em lexívia.

domingo, setembro 14, 2008

Donos de cães







No meu bairro são os donos de cães que estabelecem as melhores relações de vizinhança. Excepção seja feita aos donos de roteveilers, pitebules e raças concorrentes. Não compreendemos a mística do pitebule. Detestamos esses donos, não os animais sempre presos por trela curta, sempre afastados dos outros. Eles detestam-nos porque trazemos os cães à solta, podendo aproximar-se dos deles, ferozes, donos da rua, e porque os referidos cães os tornam, digamos, pessoas importantes. Para os nossos cães um pitebule é apenas um animal. Querem cheirá-lo.
Os donos dos cães normais, ou seja, rafeiros de pêlo curto e pêlo comprido, caniches, bolas peludas, salsichas falsificados conversam animadamente em qualquer troço do caminho. As primeiras conversas são sobre os nossos animais. Ai, o que é que dá de comer ao seu? E põe sal? Veja lá que quando o meu saiu do sofá deixou uma mancha de sangue; fui a ver e era dum testículo. A minha é muito mansinha. É cadela ou cão? Ah, ainda bem, porque o meu é cão. Este é um paz d' alma. Qualquer cão lhe impõe respeito. E já viu o tamanho dele? Olhe, não vá para ali que já lá passei e vi aquela mulher horrososa com o pitebule que morde. Tive de dar uma palmada no meu. Atravessou a estrada a correr. É um perigo. Qualquer dia é atropelado. A minha, no outro dia, ficou ali mesmo no meio de dois carros que passavam. Foi uma sorte.
Claro que passada a fase do diálogo canino, vem a discussão sobre outros temas da actualidade: dizer mal do Governo em todas as vertentes possíveis e imaginárias; falar do custo de vida; contar histórias começadas por "isto faz-me lembrar", relatar encontros com os fiscais da câmara que não deixam os nossos cãezinhos pisar meio metro quadrado de relva, mesmo que já tenham feito as necessidades todas. Estamos convictos que a culpa é toda atribuível à nossa presidente da Câmara, que não passa de uma tia que gostava de ser fina, mas que não é, embora se farte de imitar. Dizer mal da presidente da Câmara também liberta muito. Pessoalmente, é dos meus temas preferidos, a par das pragas rogadas ao Governo.
Como se imagina, estes encontros de donos de cães e respectivos animais dão azo à descoberta de novas pessoas e ao estabelecimento de relações que podem revelar-se gratificantes. No outro dia tive a veleidade de alimentar pensamentos pecaminosos relativamente a um vizinho da minha idade, sem aliança, giro, bem vestido, com dois cães que são um amor. Tão simpático. Tão bem falante. Mas hoje estive observá-lo melhor. A forma como fala quando se emociona, como anda, a sua gentileza, até a sua abertura e simpatia me dizem que é gay. É gay, gay, gay. Ponho as minhas mãos no fogo. Tenho este azar de seleccionar como homem ideal, entre todos os homens possíveis, um gay. Assim uma pessoa não desencalha.

sexta-feira, setembro 12, 2008

A meteorologia do amor



Consigo escutar o vento na foto de Cartier-Bresson que ilustra o texto aqui publicado anteontem. Faz um frio de rachar, e a atmosfera carregada de humidade, de gotas de água salgada, cheira a mar batido. Rodeados pela intrepidez da natureza invernal, sentindo-a, contudo imunes a ela, os amantes sorriem. Sorririam se nevasse, se chovesse, se a temperatura baixasse para níveis insuportáveis. Desejam estar juntos e esse desejo suplanta a necessidade de conforto. O conforto é estarem juntos, sejam as condições o que forem.
Reconhecemos estes sentimentos desde o tempo em que vivemos um amor. Éramos novos e não tínhamos casa exactamente nossa onde os beijos, os afagos inocentes, depois adiantados, pudessem esconder-se. Deambulávamos pelos locais mais ou menos desertos. No Inverno, na praia gelada, fazíamos amor na areia, sentindo-a húmida debaixo de nós. Enregelávamos. Constipávamo-nos. A Costa da Caparica era um lugar muito apropriado para o amor. As praias mais afastadas estavam desertas. Mas também me lembro do vento cortante que fazia sempre em Cacilhas, enquanto nos aninhávamos num canto do cais dos cacilheiros para nos enrolarmos em beijos, no calor dos peitos quase afogados. Ainda passo por lá e sei apontar os cantinhos onde beijei os beijos mais afogueados, ao final da tarde, pela noite fora. Já não existe um café mesmo à saída dos barcos, onde nos recolhíamos da chuva. Era um café antiquado, com poucas mesas, muito frequentado por namorados. Na Cruz de Pau havia um outro café, junto à Estrada Nacional, que também procurávamos para fugir à chuva. Ainda existe. Tinha uns pastéis de bacalhau muito abatatados, e os mil-folhas eram de terceira qualidade. Por outro lado, o nosso porta-moedas tinha o dinheiro contadinho. Passo aí todos os dias. Para lá chegarmos tínhamos de nos ir abrigando das bátegas por debaixo das varandas da rua principal, a que desce até à Amora. Ficávamos tão encharcados no Inverno. Não tínhamos um lugar nosso. Éramos apaixonados que ocupavam o espaço público, viandantes.
A minha memória do amor é feita de molduras de frio, de chuva, de dificuldade.
Tive outras pseudo-amores depois desse amor. Menos difíceis, mais rodeados dos devidos equipamentos favoráveis à intimidade, mas não guardei memórias. Já nem me lembro do nome deles. O que aconteceu e onde e como, sei lá dizer! Mas o frio, o vento, e a chuva do amor autêntico perduraram na minha memória e nos meus sentidos até hoje.

À homem


Esta foi uma das fotos premiadas no World Press Photo de há dois ou três anos. Lamento ter perdido a referência autoral.


De novo no café do bairro, exercendo o mister do voyeurisme, actividade tão pouco praticada por estes dias.
Ao balcão, bebendo uma Super Bock, o rapaz de 20 e tal anos grita para o miúdo de 7, sentado a uma mesa com a tia:

- Então, pá, a escola começou hoje?
- Não. Na segunda.
- Eh lá, quero ver como é que te vais dar.
- Não sei.
- Não sabes mas vais saber. É para começar à homem, estás a ouvir, à homem.

Alguém deveria espalhar pelo bairro que as pessoas não podem falar assim à minha frente. Pergunto, o que será começar à homem? Começar à homem é melhor do que começar à mulher? Os resultados escolares demonstram que começar à mulher parece trazer mais vantagens. Cumulativamente, nas turmas onde existem mais rapazes do que raparigas os resultados tendem a baixar, o comportamento piora, revelam-se falhas de concentração e de estudo. Não há nada de errado com a inteligência dos rapazes. Passa-se que em grupo repudiam praticá-la para não parecerem gays nem toinos, e porque é muito mais divertido incendiar o conteúdo de um spray altamente inflamável com o isqueiro Bic. Começar à homem será começar com coragem? Os rapazes serão mais corajosos do que as raparigas? Do ponto de vista físico, talvez. Se aos sete anos já lhes fazem a lavagem cérebro-cultural do "à homem"...
Alguma alma caridosa fará o favor de me sugerir possíveis sentidos para a enigmática expressão?


quinta-feira, setembro 11, 2008

Uma coisa estúpida


Foto: Henri Cartier-Bresson, Generations


Quem teve uma vez um amor, e o perdeu, habitua-se a negar que tenha sido de facto amor. Diz-se, não foi amor, foi sexo, foi amizade, foi um impulso apaixonado, uma coisa estúpida que não deveria ter acontecido, porque não foi amor. Se tivesse sido, teria durado. Se tivesse sido, não teria acabado sem moral, sem história, dominadas as vontades pelo orgulho, pelo silêncio, pelo "se pensas que não me safo, estás bem enganado(a)". Porém, resguardados os casos em que o afecto e a raiva nunca se confundiram para ser breve vencidos pela intimidade e pelo desejo, é muito provável que tenha havido amor. Um amor que acabou mas não morreu, que viaja através do tempo recusando fixar-se num passado qualquer onde possa definhar em silêncio. Um apêndice imaterial vogando sobre as nossas cabeças, sorrindo e exclamando, olha, estou aqui. Sei que não me queres, mas deste-me vida há 10, 20, 30 anos, criaste-me, e agora acompanho-te, sigo os teus passos, acordo contigo, adormeço contigo, e dou-me ao luxo de interferir nos teus sonhos e pesadelos. Quem teve um dia um amor e o perdeu sabe que isto se sente desta forma.
Por isso, o amor do passado não foi uma ilusão, embora preferíssemos. Os seus sujeitos pensam nele como um incómodo, um vício maléfico do pensamento de que são os únicos culpados. Porque para eles esse amor nunca existiu, nunca existiu.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...