A semana passada não houve tempo para comentar a interessante notícia segunda a qual os portugueses gostam mais de McCain do que de Obama, ao contrário da generalidade dos europeus.
A ditadura portuguesa foi das últimas a cair na Europa Ocidental, e não se tratou de um acaso. Os portugueses são conservadores, gostam de sentir o peso da autoridade, mesmo que prepotente. Vinga entre a maior parte dos sectores, não apenas na direita, a ideia de que "o papá é rígido e mau, mas o papá sabe o que é melhor para nós." Não uso aleatoriamente o termo papá. Os portugueses não saíram, política nem socialmente, da primeira infância. Não têm consciência do seu poder enquanto cidadãos reclamantes, e muito menos enquanto grupo. Não acreditam no exercício activo da cidadania como quem acha que nunca será capaz de conduzir uma automóvel, e nem tenta.
Mas esta notícia não me informava apenas sobre as nossas ideias conservadoras. Fornecia-me outra informação muito precisa: os portugueses não gostam de pretos; em Portugal nenhum Obama chegaria onde este chegou. Em Portugal, um preto é um preto.
No Domingo, uma senhora descrevia a outra, lá em baixo, umas cerimónias inusitadas em Fátima, uns festejos, e dizia que tinha sido uma coisa muito linda, que até tinham vindo de África uns tocadores de batuque acompanhados por um padre preto. E reforçou que era padre apesar de preto.
Os portugueses mantêm aquela ideia muito colonial de que o preto é bom para trabalhar barato, mas que nunca poderá equiparar-se profissional nem humanamente a um branco. Um médico preto, um professor preto e um advogado preto são, para uma boa maioria dos portugueses, profissionais de segunda classe, e sabe-se lá como conseguiram o diploma.
Deprime-me reconhecer no povo ao qual pertenço tanta ignorância, tanto atraso e um desenvolvimento tão incipiente dos valores humanistas mais elementares. Portugal degrada-se em ódio e ignorância, como uma velha peça que enferruja.