quarta-feira, outubro 08, 2008

Marés vivas


Deitei-me ainda de dia, e ouvi lá fora o vento marítimo abanar as janelas, picando-as de areia arrastada e sacudindo os toldos de lona do Verão restante. Eram as marés vivas, o tempo levantado.

Soube-me bem. Aconcheguei-me na cama, como se já fosse Inverno. Quase antes de adormecer pensei que vivo a dez quilómetros da praia e que a composição que escutava não podia não vir do vento marítimo nem da areia levantada nem dos toldos batidos do Verão passado. Adormeci sem me importar.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Martírio


Ainda há bocado, estando eu no ginásio a realizar a quinta série na prensa, o Camané, meu treinador, passou por mim e exclamou, temos de martirizar muito esse corpo.
Peço a Deus que esteja a falar a sério, que o plural majestático não se trate de uma inconsequente figura de retórica.

domingo, outubro 05, 2008

Um estilo de vida excessivamente cancerígeno



A certa altura dos relacionamentos as mulheres consideram reunidas as condições para começar a chagar a cabeça aos namorados com a ideia do casamento, do juntar trapinhos e estar sempre perto como Deus e o Diabo. E eles engasgam-se, encolhem-se todos, arranjam desculpas sobre não ser a altura certa, que estão aflitos com um projecto, pedem tempo para pensar, defendem-se, coitados, como qualquer animal à beira do perigo.
A maior preocupação da mulher solteira consiste em convencer o namorado de que o casamento é mais económico, mais romântico e a ordem natural das coisas. Para além de que o sexo fica à distância de um braço esticado, argumento que normalmente resulta.
Enquanto isto, as mulheres casadas levam a cabo um combate diário com o homem que têm lá em casa, chamando-o à responsabilidade para o que é sensato e exequível. Pelo mundo inteiro, a cada segundo, 23 milhões de homens estão simultaneamente a ser acusados de infantilidade e imaturidade, topos de uma pirâmide de defeitos que englobam, a título de exemplo, a generalizada falta de higiene corporal e a inexistência de hora certa para chegar a casa. A mulher casada não se preocupa em convencer o marido a manter-se casado: ele já estudou todas a hipóteses de fuga e sabe que não vale a pena escavar um túnel durante 12 anos com uma colher de café: não há fuga. O casamento é a única prisão de alta segurança onde não é possível iludir a atenção dos guardas. Isso foi tarefa de que a esposa se ocupou lá para trás, enquanto encheu a barriga de amorosos filhos comuns e colaborou na contração de hipotecas para o bem do agregado. Para ter a certeza que a propriedade-marido está segura, se tem economias de solteira, empresta-lhas para que ele entre num franchising cujos lucros reverterão a favor dos filhos. Se não tem, mete-o em negócios de família.
Não compreendo a maratona das mulheres a favor da construção e manutenção desta prisão para si e para os outros. Este é um daqueles casos em que o exemplo nunca serve de exemplo. De fora, olhando à minha volta para as famílias no café, chego a sentir falta de ar. Que pessoas tão infelizes, dependentes, aprisionadas, fartas umas das outras. Eu não tenho sexo ao alcance do braço. Eu não tenho quem me traga um chazinho quando estou de cama nem me faça uma massagem ou o favorzinho de ir lá abaixo ao leite ou despejar o lixo. O que é tenho é a minha vida. Não pergunto a ninguém se posso, não tenho acusações a debitar ou a creditar. Estendo-me no sofá. Se não quero não lavo a louça. Se não quero não vou ou cinema nem ao supermercado. Ou vou. Tenho cá os amigos e bebo copos de vinho se me apetece. Às vezes janto maçãs. É a minha, minha vida.
Se tivesse em casa as pressões do emprego, ou similares, porque as pressões carregam por igual, e não pudesse furtar-me a elas, definharia como uma árvore sem água. Carregaria a vida como um condenado a trabalhos forçados eternos, um escravo da vontade dos outros. Não me pertenceria. Acredito que as pessoas tenham vivido assim. Acredito que vivam assim. Para mim, sinceramente, é um estilo de vida excessivamente cancerígeno. Acredito que o meu saia mais caro, mas a qualidade de vida tem os seus custos.


sábado, outubro 04, 2008

Escrever não sai bem todos os dias



Morreu ontem Dinis Machado, o escritor que não escreveu muito. Acreditar que o enorme sucesso de O que diz Molero não podia ser ultrapassado refreou-lhe a publicação. Escrever não sai bem todos os dias. Saramago tem dias maus e obras menores.
Eis por que ficaste a dever-nos, Dinis. Espero que tenhas deixado as gavetas cheias.

Tive um único encontro com Dinis Machado há precisamente 20 anos. Gostava dele por causa do Molero, era uma referência, mas sobretudo porque tinha os olhos cheios de vida, e um ar verdadeiro, sem mentiras. A mim sempre me fizeram impressão os escritores que falam da literatura como uma água, um sopro, uma transparência. Não acredito em nada disso. Não acredito em retiros literários nem em exclusões nem em bolsas para escrever. Para o Dinis Machado escrever era algo de sólido, cavava-se, recavava-se, lia-se alto e a certa altura a coisa tinha música e saía. E sobretudo, andávamos no meio dos outros e olhávamos para eles. E depois para nós. Ou pela ordem inversa.

Depois, Dinis Machado tornou-se aquele a cujas afirmações me cabia corresponder, ser fiel. Sob o horizonte, abstractamente, ao longo destes anos em que não voltámos a encontrar-nos, pairava a vontade de o visitar, de lhe contar que não deixei de escrever, mesmo quando não me saía uma palavra, porque esse tempo aconteceu. Queria dizer-lhe que havia de escrever, e que havia de escrever melhor. Que me faltava tempo para ler.

O Dinis Machado é-me muito querido. Acreditou numa miúda sem nome, sem família, sem influências, que escrevia umas redacções velozes numa máquina de escrever velha, apenas porque se divertia com isso. Não me esqueci, Dinis. Um grande abraço atrasado, muito forte, muito forte, através do éter.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Um texto importante sobre política nacional


Uma pessoa que goste da palhaçada tem por força que ser fã do nosso Presidente da República. Cavaco Silva tem uma vantagem sobre todos os outros políticos actuais: diz o que pensa, com a candura com que o pensou, e sem estrangeirismos, numa linguagem que indicia uma idade mental que receio não chegar para tirar a carta de condução. O que eu gosto de o ouvir falar com as suas palavrinhas de nostalgia campestre, rectazinhas, bem-intencionadas.
Acabei de o ver na TVI, dirigindo-se a uma audiência de jovens agricultores, todos da minha idade, afirmando que achou a coisa mais linda ver as vaquinhas em fila, umas atrás das outras, a caminharem em direcção ao robot que as ia ordenhar, e a ficarem todas deliciadas durante o processo. Juro que o ouvi dizer isto enquanto gesticulava com as mãozinhas junto ao peito na tentativa de explicar melhor como fazia o robot, ou como as vaquinhas se compraziam, não percebi essa parte. Até telefonei à minha mãe para confirmar se ela tinha ouvido o mesmo. Que sim, disse ela, que o senhor presidente achou muita graça às vaquinhas.
Os discursos de Cavaco alijam-me o peso da crise, e à sexta-feira ajudam a relaxar os músculos da cara.

quarta-feira, outubro 01, 2008

As mulheres-cão

Toulouse-Lautrec, La Goulue chegando ao Moulin Rouge, 1892


Foto: Anónimo, 1920, França
Rara fotografia de La Goulue já velha, alcoólica e desamparada


Louise Weber, La Goulue, nasceu judia, perto de Paris, na segunda metade do século XIX. Foi bailarina de cancan, e estrela maior do Moulin Rouge. Tornou-se famosa pelos seus dotes de bailarina; conseguia arrebatar os chapéus dos admiradores elevando a perna até à altura das suas cabeças, enquanto deixava ver os culotes cheios de rendas. Posou nua. Posou para Toulouse-Lautrec e amigos.
Morreu em 1929, alcoólica, indigente. No final, vendia amendoins, cigarros e fósforos numa esquina perto do Moulin Rouge. Ninguém a reconhecia como antiga rainha do cancan. Os seus últimos e únicos amigos terão sido os seus animais.

terça-feira, setembro 30, 2008

Nada é ridículo


As minhas cartas de amor não são ridículas. Quer dizer, eu não me sinto ridícula porque escrevo e destino a alguém as minhas cartas de amor. Se calhar sou ridícula. Mas o que não vemos não nos mata. Se o objecto do meu amor se ri das minhas palavras, se se enfurece com elas, se os assistentes se divertem no circo das minhas cartas de amor, isso é com eles. Eu amo, e no meu amor nada é ridículo.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...