Há uns oito anos, uma mulher-a-dias ciosa das funções lavou-me com água e Ajax Lavanda um quadro a óleo, original, obra que adquiri a um amigo pintor. A tela tinha uns pretos baços, e pareceu-lhe sujidade; compreendi e calei-me. A limpeza está em primeiro lugar, e a obra ainda cá anda, até ver.
Talvez a memória amordaçada deste episódio me tenha cruzado as conexões entre neurónios, no domingo, quando senti o impulso de perguntar aos vigilantes como poderia arranjar um balde cheio de água a ferver, com lixívia e detergente, e mais uma escova boa para desencascar cera do soalho. Eu, sim, desejei esfregar das telas a camada de sujo amarelento, castanhoso que lhes rouba o brilho, o contraste, a cor, como se tivessem sido pintadas ao fumeiro.
Aconteceu-me enquanto percorria a exposição comemorativa do centésimo quinquagésimo aniversário do nascimento de Columbano Bordalo Pinheiro, no Museu do Chiado, em Lisboa. Percebo agora bem melhor a reacção dos pintores da geração do Orpheu, os quais deverão ter sentido a mesma agonia no confronto com tanta pintura histórica, tanto retrato, tanto castanho, tão escassa iluminação a vela de pavio curto, tanta tenebra sem moral.
Nunca gostei de Columbano, mas faça-se-lhe, apesar de tudo, alguma justiça: reconheço o domínio excelente da técnica figurativa, próxima de uma forma realista, tanto no desenho como na pintura. Mas custa-me tolerar, num artista da geração de Eça, o conformismo decorativo, o nada mais a acrescentar senão uma visão sem erro ou uma ilustração histórica encomendada. Custam-me os retratos em série de misóginos de perfil, todos do mesmo tamanho, da mesma cor. Custa-me a artezinha de academia, que não inova, porque não questiona nem se indigna. Custa-me que um dos maiores pintores portugueses - a expressão não é minha - , seja pouco mais que um extraordinário decorador de paredes. A técnica é fundamental, mas a técnica, e isso nos dirá qualquer iniciado de pacotilha, não chega.
Apesar de tudo, encontro na cortina amarelenta tão característica da pintura de Columbano, nessa grande ausência de brilho e cor que a embrulha, uma magistral interpretação simbólica da natureza sombria da nação a que pertenço. Uma nação de homens e mulheres tristonhos, fraquinhos, calados, decentezinhos, debitando rimas que não entende nem ama, como o Eusebiozinho de Os Maias, essa caricatura do que ainda hoje somos, do que sempre fomos. Isso, muito sem querer, creio eu, está em todas as telas deste artistazinho cujo único amor foi a pintura - a frase também não é minha.
Eu cá mantenho o péssimo hábito de, por regra, alimentar certa desconfiança relativamente àqueles cujo único amor humano tenha sido qualquer outra coisa que não o amor, mesmo mutável, transitório, incompleto e imperfeito.
Talvez a memória amordaçada deste episódio me tenha cruzado as conexões entre neurónios, no domingo, quando senti o impulso de perguntar aos vigilantes como poderia arranjar um balde cheio de água a ferver, com lixívia e detergente, e mais uma escova boa para desencascar cera do soalho. Eu, sim, desejei esfregar das telas a camada de sujo amarelento, castanhoso que lhes rouba o brilho, o contraste, a cor, como se tivessem sido pintadas ao fumeiro.
Aconteceu-me enquanto percorria a exposição comemorativa do centésimo quinquagésimo aniversário do nascimento de Columbano Bordalo Pinheiro, no Museu do Chiado, em Lisboa. Percebo agora bem melhor a reacção dos pintores da geração do Orpheu, os quais deverão ter sentido a mesma agonia no confronto com tanta pintura histórica, tanto retrato, tanto castanho, tão escassa iluminação a vela de pavio curto, tanta tenebra sem moral.
Nunca gostei de Columbano, mas faça-se-lhe, apesar de tudo, alguma justiça: reconheço o domínio excelente da técnica figurativa, próxima de uma forma realista, tanto no desenho como na pintura. Mas custa-me tolerar, num artista da geração de Eça, o conformismo decorativo, o nada mais a acrescentar senão uma visão sem erro ou uma ilustração histórica encomendada. Custam-me os retratos em série de misóginos de perfil, todos do mesmo tamanho, da mesma cor. Custa-me a artezinha de academia, que não inova, porque não questiona nem se indigna. Custa-me que um dos maiores pintores portugueses - a expressão não é minha - , seja pouco mais que um extraordinário decorador de paredes. A técnica é fundamental, mas a técnica, e isso nos dirá qualquer iniciado de pacotilha, não chega.
Apesar de tudo, encontro na cortina amarelenta tão característica da pintura de Columbano, nessa grande ausência de brilho e cor que a embrulha, uma magistral interpretação simbólica da natureza sombria da nação a que pertenço. Uma nação de homens e mulheres tristonhos, fraquinhos, calados, decentezinhos, debitando rimas que não entende nem ama, como o Eusebiozinho de Os Maias, essa caricatura do que ainda hoje somos, do que sempre fomos. Isso, muito sem querer, creio eu, está em todas as telas deste artistazinho cujo único amor foi a pintura - a frase também não é minha.
Eu cá mantenho o péssimo hábito de, por regra, alimentar certa desconfiança relativamente àqueles cujo único amor humano tenha sido qualquer outra coisa que não o amor, mesmo mutável, transitório, incompleto e imperfeito.
Nunca tinha visto o original deste retrato, e não podia imaginar que a tonalidade óssea da testa de Antero, que surge nas reproduções, não existisse, de facto. No original, Antero é todo amarelento. O contraste claro-escuro, que aqui visualizamos entre parte superior do rosto e restante superfície do quadro, não corresponde às tonalidades da obra original.

