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segunda-feira, outubro 20, 2008

A verdade do sexo


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A masturbação é tradicionalmente um tabu, não porque prejudique a saúde - não é só sexo seguro, é também incesto seguro - ou porque seja ilegal, mas porque temos medo de que nela esteja a verdade do sexo: qualquer coisa que fazemos sempre sozinhos. Os nossos amantes seriam um mero coman­do ou uma dica para nos lembrar do nosso próprio delírio erótico. Seriam pessoas que nos põem em contacto com outro lugar, deuses ou deusas apesar de si próprios, porque, enquan­to pessoas, são demasiado complicadas para nos excitarem. E
o erótico é uma simplificação.
Então, porque mantemos, pelo menos aparentemente, o sexo com outras pessoas? Porque é que as incluímos? Se, com a masturbação, se trata de ter o sexo da maneira que se quer, com outra pessoa trata-se de o ter da maneira que não se sabia que se queria. Outras pessoas são outra coisa. A virtude da monogamia é a facilidade com que se pode transformar o sexo em masturbação; o vício da monogamia é que não nos dá outra coisa. Dois podem ser um a mais, mas um também pode.
Quando nos masturbamos, escusado dizê-lo, estamos sempre a ter sexo connosco. Não há nenhuma sugestão de infidelidade, excepto, em certo sentido, relativamente ao nosso parceiro. Mesmo que a masturbação seja o meio de encontrarmos intenso prazer erótico, as nossas fantasias masturbatórias são repetitivas e nada inventivas. É emba­raçoso contá-las e maçador ouvi-las. A masturbação, como a monogamia, não costuma dar uma boa história. Mas a mono­gamia é a coisa desejada.
O nosso compromisso com a monogamia depende do nosso apetite por boas histórias. E do nosso apetite pelo apetite. O único relacionamento verdadeiramente monogâmico é o que mantemos connosco.

Adam Phillips, Monogamia, 2008, Angelus Novus
Tradução de Abel Barros Baptista

segunda-feira, agosto 18, 2008

O que eles dizem II


Sobre a sexualidade dos portugueses, em chegando Agosto:


"Enquanto o homem é como uma máquina simples que funciona ligando-se no botão on, a mulher é como um amplificador complicadíssimo, cheio de botões que estão ligados uns aos outros.
O homem, desde que esteja fisiologicamente bem, está sempre disponível e com desejo. A mulher é que não."

segunda-feira, outubro 29, 2007

O sexo alternativo chegou às massas


Enquanto seco a primeira demão de verniz azul opaco, voltemos, salvo seja, ao sexo anal, e a uma ou outra das chamadas parafilias.
Não ignoro que a busca do prazer sexual sempre transcendeu tabus. Não traz qualquer mal ao mundo que parceiros avisados desejem explorar o prazer e o façam numa moldura de "mútuo consentimento verdadeiramente livre". Convém ter presente aquele consentimento que se limita a ceder a uma pressão, o qual reveste uma submissão, constituindo, no mínimo, um acto de violência da vontade. Não se trata de livre arbítrio. Homem ou mulher que assinta relativamente à prática de actos sexuais que não deseja, mas que sente dever cometer para não perder o parceiro, não está realmente a consentir. Portanto, há que perder algum tempo na questão do consentimento. Do verdadeiro consentimento.
A corrente do sexo alternativo, tal como hoje se consome, advém de uma outra pressão que se exerce sobre todos nós colectivamente, e cujos frutos tenho vindo a observar: a do mediatismo sensacionalista assente na máxima "sexo vende, seja ele qual for". Sabemos como há pessoas que gostam de andar sempre na moda. Quem compra camisas com caveiras, porque é tendência do pronto-a-vestir 2007, igualmente adquirirá com facilidade todo um pacote ideológico relacionado com o outrora sexo marginal. De há uns anos a esta parte começaram a aparecer, na nossa Imprensa, as primeiras grandes reportagens sobre o tema do swing ou do sadomasoquismo, entre outros. Na altura eram curiosidades. Práticas privadas de grupos que pretendiam manter-se privados. Desde então, os discursos têm vindo a multiplicar-se, parecendo acompanhar uma prática alargada. Quase massificada. Tem sido o descalabro. Miúdos de 12 anos sonham com swing e chicotes. A minha amiga sueca conta-me que, no seu país, meninas de 14 anos são levadas a praticar sexo anal para não se sentirem out, uma vez que este se encontra completamente legitimado entre jovens. Casais aborrecidos procuram clubes de troca de parceiros para rejuvenescer a sua relação. O ti António quer ir ao cu à ti Joana. Convenhamos que a coisa tem limites, quanto mais não seja de mero bom gosto.
A revista Maria, e similares, que vendem milhares de exemplares, e são consumidas por individuos de ambos os sexos, e todas as idades, têm-se encarregado da legitimação cultural de uma prática que pertencia a uma élite de "exploradores sensuais" que devem hoje sentir-se insultados. A Maria apresenta reportagens semanais sobre as vantagens do swing, os prazeres da dominação e as melhores formas de praticar sexo anal,
com infografia e fotografia a cores. Quem pode ignorar? A revista Maria trouxe o sexo alternativo para as massas, e a massificação do sexo é desastrosa. Ter de escutar as confissões da dona Ermelinda, da tasca do Benfica, segredando-me que está com o rabo todo magoado porque o marido lhe disse que, se não deixasse, arranjava uma brasileira, até a mim me dói. O sexo enquanto arte deve permanecer com os artistas, os que desprezam Anal Ease. Precisar de analgésico anal é mau começo. E mau fim.
E vou agora para a segunda demão de verniz.

terça-feira, outubro 23, 2007

O circo do sexo


A palavra sexo é não só a mais procurada no Google, como a que mais equívocos gera nas interacções verbais.O adjectivo correspondente [sexual], não remete obrigatoriamente para uma actividade genital. Sexual refere também o conjunto de características fisiológicas distintoras dos seres. O macho possui as características sexuais A; a fêmea, as B. Do indivíduo com características A espera-se o comportamento X; do que possui as características B espera-se o comportamento Y.
Ora, a libertação sexual não foi apenas, como defendi no texto anterior, uma libertação para o sexo. Foi uma libertação do sexo. Do que os sexos se libertaram foi de uma moldura de comportamentos associados, a qual designava, invariavelmente, o género a que pertenciam, atribuindo mais ou menos culpas aos transgressores. Uma rapariga que subia às árvores era uma Maria-rapaz, e tal incursão em 'território alheio' valia-lhe censura.
O aprisionamento sexual não se tratava, portanto, de uma mera questão relacionada com a fornicação. A fornicação era o menos. O aprisionamento sexual correspondia a uma esfera de aço dentro da qual se encontravam os limites de comportamento para cada homem e cada mulher. O que podiam fazer, aceder. Os lugares da esfera pública e privada aos quais podiam aceder. Etc. Etc.
A libertação sexual libertou-nos dessa marca a ferro do sexo. Isto foi o que de mais interessante nos trouxe. A pornografia, o marqueting do sexo, legitimando o swing e o recurso a quinquilharia e práticas diversas, que certa Imprensa se encarrega de divulgar e promover, são anedóticos. Fazem-me sorrir, pelo menos. A maior parte das vezes prefiro acreditar que se trata de uma encenação teatral humorística. Tenho uma peninha das mulheres vítimas de penetração dupla! Se a Inquisição usasse tais práticas - se calhar usou - haveriam de lhes chamar tortura. Mas como é na cama, e alegadamente voluntário, ah, que delícia.
A libertação sexual não trouxe a ninguém mais e melhor sexo, apenas o liberalizou, remetendo-o para a praça pública como produto de consumo. Foi pena. A exposição da sexualidade tem-na transformado em acto estético e acrobático. Qualquer dia teremos de ser todos artistas de circo.


segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


segunda-feira, outubro 15, 2007

Entretém

Da série Conversas com a Minha Mãe

Isabela - Nove?!
Mãe - Sim, nove. A minha avó teve nove filhos. Cinco rapazes e quatro raparigas.
I. - Bem, antigamente era normal...
M . - Era. Havia mulheres que tinham aos 12 e aos 15.
I. - Credo. Não sei como é que elas aguentavam.
M. - Aguentavam. Antigamente não havia televisão nem cinema, nem os entretimentos que há agora.


sexta-feira, julho 13, 2007

Um corpo diferente todas as semanas

Foto: Michael V.

Percebi que os homens encaram a sexualidade da mesma forma, quer sejam gay ou straight.
Quando pergunto a amigos homossexuais como conseguem dissociar sexo e amor, é frequente responderem-me que sexo é uma forma de amor.
Medito no caso. Sinceramente, não consigo conceber tal separação, embora tenha momentos de honesto esforço; infrutífero.

Sexo é amor?! Como poderá ser assim? Sexo só poderá ser amor se existir amor, ou seja, um afecto consistente, que não termina com o final da excitação sexual. Sim, sou teimosa nisto; ano após ano, nego tornar-me moderna, podres de gira, e liberalíssima.

Porém, quanto aos meus amigos gay, quando os ouço descrever as suas variadas e recentes aventuras, aqui, acolá, com aquele, com o outro, parece-me perceber, naquele discurso, a realização do sonho de diversidade e inconstância sexual da maior parte da população masculina lusitana dita straigh, com ou sem aliança: uma pessoa diferente a cada semana. Nenhuma promessa. Nenhum compromisso. Nenhuma obrigação de amar. Relações abertas, etc.
Neste aspecto, os homossexuais servem-se melhor uns aos outros, porque, em princípio, ambos, ou os três ou os quatro, querem o mesmo, não existindo limites para a liberdade sexual da qual todos estão conscientes, e que desejam.
Não é que não conheça homossexuais que vivam juntos e fiéis há muito tempo, mas é raro. Embora o desejem, a partir de certa altura, as melhores intenções acabam por falir; o apelo do sexo fora da relação é muito forte. O apelo do sexo é sempre absurdamente forte nos homens.
Para os heterossexuais, coitados, é uma trabalheira quase sempre: o ritual de cortejamento, os piropos que convêm ser criativos, quando é que um não é um não ou um sim. As mulheres são labirínticas, e é raro o processo reger-se por um certo esquema gay explícito "és lindo, tu também, queres?, quero, vamos".
Mesmo na net, é preciso alimentar conversa de palha até chegar ao que interessa. Os gays que conheço, entram no mirc, e entabulam conversa aleatória, escrevendo, "olá, sou o Mike, 34, activo, chaser admirer, Picheleira, interessa?!" Não estou a ver isto resultar com uma mulher, a não ser que seja muito jovem, muito gira, muito moderna e precise de carregar depressa o telemóvel com 10 euros.
É por isto que às vezes tenho pena do macho lusitano não gay. Episodicamente. Só por instantes que rapidamente se evaporam. O paleio que têm de inventar! As mentiras que têm de conceber para convencer a mulher de que estão com os amigos, e a amante sazonal de que têm trabalho, ou vice-versa. Deve desgastar psicologicamente, e, claro, depois o sexo não compensa.
Era tudo muito mais fácil se aderissem ao movimento gay. O que o machão lusitano quer, mas não compreende, é ser gay com mulheres, e às vezes, inconfessadamente, com homens. E adiante.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Um favor que me fizeram

A semana passada esqueci-me da mala no elevador. Pousei-a no chão, juntamente com uma outra que trago, cheia de papelada, enquanto observava o correio tirado da caixa. Chegada ao meu andar, saí naturalmente, após ter-me inclinado ligeiramente para agarrar as asas, sem olhar. Levei para casa a dos papéis, mas a outra, a mala com dinheiro, documentos, batons, pacotes de açúcar, preservativos trazidos da ILGA, líquido para limpar as lentes dos óculos, e todos os outros objectos que uma mala de mulher pode conter, ficou para trás. Acontece. Apercebi-me disto uma hora mais tarde, quando precisei do telemóvel.

Deduzi que a tinha esquecido no átrio do prédio, junto às caixas de correio, pelo que decidi iniciar um périplo por todos os andares, perguntando aos vizinhos, que não conheço, se a tinham encontrado. No sexto andar tive sorte. Um senhor de bigode abriu-me a porta, sorriu-me com evidente censura, movimentando o indicador em gancho, como a chamar-me, e atirou-me, “como é que se pode perder uma mala num elevador?” Eu estava por tudo, até para receber lições do papá, viesse a malinha, e lá lhe expliquei o que tinha acontecido. Não lhe disse que era muito distraída. Achei que não lhe cabia saber.

O dito vizinho é uma pessoa que se vê bastante pelo prédio, com quem me cruzo frequentemente na porta de entrada. E disse-me, “tinha andado a ver se descobria quem era, e por acaso até reconheci a sua cara no bilhete de identidade, mas não sabia o andar. Tem aqui 190 euros! Sabe disso?!” Acrescentou novo olhar de censura. Sim, sabia; tinha acabado de levantar o dinheiro, estava bem consciente do que implicaria perder a mala, e estava preparada para lhe ficar eternamente agradecida por tê-la recolhido, ou pagar-lhe alvíssaras, se mas pedisse.
O vizinho exortou-me a contar o dinheiro na sua presença, acto que declinei; pareceu-me mal desconfiar de uma pessoa que acabava de me fazer um favor. E não desconfiava.
Agradeci muito, despedi-me, e foi nessa momento que ele chegou o seu rosto mais perto do meu, e quase me sussurrou, cúmplice, todo sorrisos, “estive quase para lhe roubar os dois preservativos que aí tem, mas depois pensei... se calhar ainda iam fazer-lhe falta...”
Rasguei um esgar. Meti-me depressa no elevador com o agradecimento eterno todo estraçalhado aos meus pés.


sexta-feira, dezembro 29, 2006

O poder na gaiola do sexo



Uma excelente realização sexual tem efeitos visíveis nos homens e nas mulheres, transcendendo largamente as sensações de mero prazer físico, objectivamente as menos relevantes, ou de alívio pela necessidade satisfeita. Os agentes experimentam não apenas satisfação, mas poder, e uma certa ideia de invencibilidade: pertencem ao mundo e o mundo pertence-lhes.
A realização sexual proporciona efeitos semelhantes aos da euforia da vitória, tal como uma dose de boa cocaína, e transforma-se, progressivamente, numa adição. Sexo pede mais sexo. Quem mantém relações sexuais periódicas, e as interrompe, subitamente, sabe que a quebra origina, inicialmente, carências físicas e psicológicas bem reais, as quais se podem ir tornando menos relevantes, com o passar do tempo, até, eventualmente, se diluírem ou transformarem noutras ordens volitivas conscientes. Ou não. Isto, no que respeita às mulheres.
Um dos fenómenos que, ao longo dos anos, tenho podido observar nas mulheres com parceiro sexual regular e satisfatório, e que atesta bem a forte relação entre sexo e poder, manifesta-se em comportamentos de autonomia, que estas demonstram, pela primeira vez, relativamente ao outro exterior à relação. Os outros, como as amigas, amigos, familiares, colegas, tornam-se, de repente, dispensáveis; figurantes de passagem rápida. O mundo centra-se na pessoa com a qual se desenvolvem os trâmites sexuais; tudo começa e parte daí. A outra pessoa é aquele com quem se teve ou se vai ter sexo, com que se esteve ou se vai estar em total intimidade, com quem ela se diluiu ou se vai diluir. Enquanto dura, é romântico!
É nesta altura que a maior parte das raparigas se afasta das amigas.
Entre muitas raparigas, sobretudo as que vêm de uma educação tradicional, as amigas ainda são encaradas, pelas próprias, e pelas famílias, como companheiras para passar tempo inofensivo enquanto não chega o eleito. Chegado o eleito, a agenda de encontros altera-se substancialmente para o lado do salvador, e tem início uma outra era.
Normalmente, voltam às amigas após os divórcios. Eu já fui a amiga preterida, oh, meu Deus, não tenho dedos que cheguem para enumerar os casos! Creio que só não me aconteceu ser a que pretere, porque, exactamente igual às outras, tive algumas particularidades que impediram, digamos, o amadurecimento de relações. Não vale a pena estar agora aqui a chafurdar na lama.
As mulheres tendem a centralizar as relações amorosas, construindo uma caixa de afectos onde o sexo tem um papel essencial, e dentro da qual se encerram com o objecto do seu amor. Essa caixa é o seu maior tesouro, a sua fonte de energia, poder e satisfação. Os homens, por seu lado, passado o encantamento sexual, que passa mesmo, e para ambos, mais tarde ou mais cedo, e por motivos diversos, tendem a rasgar a caixa por dentro, abrindo janelas por onde conseguirem. As mulheres têm um verdadeiro horror às correntes de ar.
O encerramento em relações, a dependência delas, tem, no entanto, custos muito mais elevados para as mulheres do que para os homens. Quando uma relação termina sem conserto, é mais frequente as mulheres já terem destruído a sua rede de relações anteriores ao envolvimento. Isto, com os homens, raramente acontece. Os homens estabelecem relações menos emocionais uns com os outros, e estas sobrevivem melhor aos longos períodos de hibernação na gaiola do sexo.


Fotos de Vlastimil Kula

sábado, outubro 21, 2006

O fim do mundo é agora


Não existo há muitos anos, mas percebo que o mundo mudou sob o meu olhar; que muda no espaço insignificante de alguns milhares de dias. Não estive atenta. Observei da janela, apenas. Vi passar. Vivi e atravessei os sobressaltos de terreno. Depois adormeci.
Quando acordei, em algumas horas tinham passado milénios, e tudo era outra coisa, ou já quase essa outra coisa.
A humanidade global muda indiferente ao que pensa cada um dos membros que a forma. Tomar consciência da existência de tal organismo gigantesco, informe, invisível, sem terra ou nome, que se move no fundo, sob o solo que pisamos, e mais rapidamente do que poderíamos imaginar, fascina-me nos limites do torpor. Na verdade, eu que mudei a vida inteira, detesto mudanças, e por isso elas me fascinam.

A nossa cultura forma-se sobre categorizações em fase de transcendência, perdendo níveis de importância a cada dia.
Logo após o nascimento, estamos sujeitos a uma série de "empacotamentos", numa ou noutra caixa, conforme somos homens ou mulheres, brancos ou negros, pobres ou ricos, e, mais tarde, hetero ou homossexuais. Estes, entre muitos outros. Deixarei, por agora, empacotamentos físicos e educacionais como, alto, baixo; magro, gordo; louro, moreno; deficiente, "eficiente"; bem ou mal vestido; com ou sem acesso à universidade.
A caixa que nos cabe transforma-se, com os anos, num grande caixote, e determinará o nosso poder, o qual agirá sobre aquilo a que chamamos autonomia financeira ou felicidade, mas a que, pessoalmente, chamo paz, bem-estar, liberdade, segurança.
O resto, a interessar, será secundariamente.

O novo mundo, ou mundo novo, como preferirem, este para o qual somos catapultados inexoravelmente, e que não saberei dizer se é perfeito, mas, apenas, que me parece ser um outro estado do mundo, destruiu violentamente, mais do que apenas "abalou", como se costuma dizer, as categorizações do mundo velho.
Para mim, e para outros, tornou-se indiferente ser homem ou mulher, preto ou branco, rico ou pobre, hetero ou homossexual. É verdade que muitas pessoas se apoiam, ainda, nestes pressupostos orientadores, o que compreendo!, mas apoiam-se em terreno pantanoso, em icebergues muito perto do seu nível mínimo de congelamento. Podem, assim, afundar-se ou desmoronar-se a qualquer momento. E ter-lhes-á batido à porta o fim do mundo, sem piedade. Porque o novo mundo é o fim do mundo; daquele mundo.





Quanto à vivência da sexualidade, no que toca à liberdade de escolha do parceiro, e respectiva legitimidade, aspecto que se tem mantido especialmente intocável, porque directamente ligado à reprodução, deixou de haver grande sentido na catalogação de cada um de nós como pertencentes a uma "subdivisão sexual". Há sexualidade, e ponto final. É necessário desclassificá-la, na medida em que a manutenção dos tabus, a meu ver, depende da qualidade/intensidade do envolvimento sexual, e não da sua natureza. Deixa de interessar quem se escolhe, mas a qualidade de quem se escolhe e o que se tem com quem se escolhe. Mais do que homo, hetero, bi, trans ou outra coisa-qualquer-sexuais, as pessoas são sexuais, apenas. Ou assexuais.
Dentro da "caixa", tornou-se muito complicado proceder a arrumações tradicionais; há quem escolha parceiros do mesmo sexo, de sexo diferente, ou tanto faz. Mais, há quem, tendo pertencido a um determinado sexo biológico, tenha mudado, e escolha, agora, companheiros do sexo a que passou a pertencer. Ou se tenha tornado... bissexual.
Tudo isto aconteceu, eximindo-se cada um de nós de sentimentos de culpa; não os reconhecemos já; deveras importante, porque determinou todo o sentido da mudança.
Outro exemplo, para que se comprove a irrelevância das categorizaçoes por sexo ou escolha de parceiro: hoje, nada impede que um homem, nascido mulher, tenha guardado para o futuro uma quantidade razoável dos seus óvulos, e venha a ter filhos naturais com outro parceiro, homem ou mulher: será pai dos filhos cuja fecundação os seus óvulos permitiram.
Complicado?! Isto é já o novo mundo! O fim do mundo. Já cá estamos.



domingo, outubro 15, 2006

Todo o sexo é tabu!

O sexo era uma grande porcaria, um sacrifício, uma obrigação inevitável, garantiam as nossas mães e avós, penetradas a seco pelos legítimos maridos, sem delicadezas.
Daí até ao "hi5 porcos e porcas" de hoje parece que se fez um longo caminho. Parece, escrevi eu. Fizeram-se quilómetros, mas a estrada não é melhor, está é aberta a todos. Abriram-se muitas portas, que sempre lá estiveram só no trinco; leio, ouço referências a práticas sexuais bastante “acrobáticas”, diria mesmo "truculentas", como a penetração dupla, e essa pérola da “pornocracia” desta primeira década do século XXI, o sexo anal. Assuntos amplamente documentados em vasos libatórios gregos e etruscos, e algumas pequenas e raras esculturas, mas sempre eram esculturas e vasos libatórios! Ora, a nobreza de um enrabamento ritualístico, vindo ele dum vaso libatório, que terá servido, numa cerimónia iniciática qualquer, para transportar a vaselina dos gregos e dos etruscos, tem logo outra semântica! É o sexo investido de um poder divino. Como se a sexualidade e o poder divino se excluíssem ou desamassem alguma vez!
Ambos continuam, na prática, a ser o mesmo campo de batalha dos séculos passados (a mesma urgência, a mesma obsessão e busca), mas o que se alterou no sexo reside no seu sentido enunciativo: o problema não está em fazer-se, mas em não se fazer. E fazendo, como fazê-lo o mais criativamente possível, ultrapassando mais e maiores tabus. De preferência, os mais terríveis, escondidos, inauditos, inomináveis, castigatórios, porque já não castigáveis.






Em determinados circuitos de convívio social, convém apresentar livremente um curriculum sexual recheado de actividades que possam atestar a insubmissão às regras, ou deixar pairar a ideia de que tal curriculum existirá, porque dar a ideia é importante, no processo: granjeia predadores ou presas; por exemplo, “ah, ele gosta de levar pancada, de ser amarrado e humilhado”; por exemplo, “mas ela é mestra em fellatio e adora sobremaneira que lhe ejaculem sobre o rosto, na boca, no peito”. Se isto é tabu? Caramba, é! Se pode ser realizado? Caramba, pode!, mas há contextos para o exercício do tabu, e ninguém se mostra disposto a preparar-se para cumpri-los.
Porque se assume a sua inexistência. Não há tabus, e, se os há, têm que se quebrar, porque o tabu não pode admitir-se numa época de total libertação sexual. Eis onde quero chegar, conversa que tenho adiado longamente, desde há meses: os tabus e respectiva época de libertação sexual!
Uma colega, no outro dia, telefonou-me para o tlm; tinha acabado de arranjar um namorado, e perguntava-me, cheia de dúvidas, "quer ejacular fora de mim, no meu peito, na minha cara, isto é normal?" Disse-lhe que não, e expliquei. A seguir, disse-lhe que sim, e também expliquei. Não a sosseguei nem terei servido de grande ajuda, porque o namorado, entretanto, desapareceu. Não estava preparado. Estava preparado só para lhe encher a cara de esperma; não para namorar com ela. Eu até peço desculpa por usar aqui este arcaísmo que já ninguém ousa, em completo desuso, como namorar.
É sobre estes assuntos sem importância que aqui venho hoje mostrar-me: só para dizer umas coisinhas mesmo sem valor.

Ponto um, pensado e lido, e sobre o qual não alimento, neste momento, muitas dúvidas: há efectivamente tabus!
Ponto dois, e voltando a mais do mesmo, não vivemos uma época de total libertação sexual! Vivemos uma época de libertinagem sexual exactamente igual às anteriores, mas com mais electricidade. Quando era à luz da vela, sinceramente, ainda admito que uma pessoa se equivocasse e visse romantismo nos transportes realizados.
A prática sexual tem, obviamente, limites que transcendem a idade, o consentimento, a consciência e situação de igualdade dos intervenientes no acto.
Os limites, a que chamo tabus, dependem, para mim, da relação de intimidade estabelecida entre os parceiros. Se é útil, a uma relação, que um parceiro ejacule no rosto do outro, se é útil a ambos na relação que mantêm, se crescem um para o outro através da prática, se tem sentido para ambos, o tabu ultrapassa-se justamente. Se o realizam como um comportamento mimético da cultura e discurso porno, que nos rodeiam sem portas, abrangendo inclusive os mais novos, e forçando práticas não desejadas, apenas imitadas, porque todos fazem, "e agora até podemos experimentar coisas novas porque é preciso é atingir o prazer máximo", se calhar, nesse caso, o tabu mantém-se, e mais valia estarem quietos.
O sexo é uma prática iniciática, por um lado espontânea, animal, por outro reflexiva. E, nisto, complementando-se, sucedendo-se; por esse motivo, penso, continua a ser objecto de controlo - restrição ou estímulo - pelas religiões diversas. Por esse motivo, não apagamos das nossas vidas e memória, posteriormente, os amantes com quem fomos mais além (do que o sexo é de sexo, de carne). Não necessariamente os primeiros amantes, embora a inocência e ingenuidade desses primeiros encontros se torne inesquecível, intemporal, mas aqueles em que a prática produziu algo para além do prazer – porque reside aí o conhecimento e perigo maior do sexo: o que desperta, de claro ou de escuro, para lá do prazer.

O sexo pode constituir uma prática iniciática fora da religião - como, aliás, acontece maioritariamente, até porque o "sexo tântrico", tão na moda sem que se saiba bem o que se faz, depende, para resultar, do conhecimento e prática de uma série de preceitos místicos não acessíveis aos leigos - que, vagueando pelos terrenos do profano, pertence a uma ordem invisível de coisas, aproximando-se dela, involuntariamente, e operando alquimias de que não nos apercebemos. É por isso que o sexo prende, que nos prende a pessoas, a situações. É por isso que o sexo não é um território fácil, definitivamente conquistado, e nem sempre gera satisfação, encontro, identificação. Prende, pode prender, mas não preenche. E pode não preencher.
Não me refiro apenas à conquista do prazer orgástico, mas ao sexo enquanto relação completa, aquela que envolve tacto, visão, audição e produção de som, olfacto e sextos sentidos. E o orgasmo seria tudo isso junto, mesmo sem relâmpago cerebral e genital.Seria outro tipo de relâmpago; mas ninguém está preparado para isso. Nem quer. Nem procura.

O sexo ocasional, tenho muita pena de vos desiludir, é ginástica. Seria como darem-me agora, para resolver, complexa operação matemática, não sabendo eu mais do que somas. Posso colocar por lá alguns números e símbolos, aleatoriamente, mas não a resolverei, e aquilo terá servido nada. Apenas a ginástica, e isso, bem, sobretudo os músculos dos membros inferiores, e os pélvicos.
Penso que o sexo ocasional, que também já pratiquei, conhecendo-lhe os trâmites, quanto ao básico, seja uma forma eficaz de queimar calorias e emitir gritinhos, gemidos, esperando que ao menos sejam autênticos; citando um amigo, que por sua vez cita uma amiga: é masturbação em corpo alheio – isto com todo o respeito pela masturbação, actividade cuja natureza não se deveria desvirtuar nunca.

Ora, não sendo o sexo uma actividade de lazer, e não é, dêem-lhe as voltas que quiserem!, parece-me que a questão do tabu se deve equacionar da seguinte forma: o tabu sexual existe, sim, e pode ultrapassar-se, na condição em que sirva os interesses íntimos de uma relação, ou seja, a imersão na prática iniciática, progressiva, continuada dessa relação. Nesse contexto, será possível o que for necessário à relação. Será possível o que ela peça, não o que nela se force. Fora disso, fora dessa relação íntima crescente, fora desse amor, lamento: ginástica avançada!




Causa-me inenarrável espanto que possa valer tudo num primeiro encontro de pessoas que se desejam, apenas. Desejam-se, não se conhecem. Como pode entregar-se um corpo, e tudo o que contém de nós, a quem não pode respeitá-lo, porque não o ama com tudo o que contém de nós?
Como é que o sexo oral, uma prática tão íntima, pode ser tão banalizada e mencionada como se escapasse ao domínio de uma sexualidade a sério? Foi só um broche? Qual foi só um broche! O sexo oral é um desnudamento integral, uma entrega maior ao outro. Praticar sexo oral para se manter a virgindade ou a ideia de que houve tudo menos sexo, é a maior ironia que a cultura sexual produziu. Se há sexo a valer, sexo-sexo, sexo-total, carnal, místico, sexo-tudo, é o sexo oral. Portanto, o sexo oral, tal como, em primeira análise, toda a prática sexual, é tabu.
Nas sociedades primitivas, têm acesso ao domínio do tabu, a esse terreno sagrado, tão proibido, que não pode ser pisado nem enfrentado por qualquer um, apenas aqueles ou aquelas que receberam o conhecimento, ou dele nasceram investidos; normalmente, os feiticeiros, as feiticeiras.
Já receberam o conhecimento? Nasceram investidos dele? Eu, infelizmente, não.
Até lá, caros leitores e leitoras "contra o tabu sexual e libertos sexualmente", ou seja, todos, equacionem, se quiserem, como gerir os ímpetos irracionais do desejo muito breve, muito ocasional, daquilo a que o meu amigo de hoje chamou "a tomatada". Mas isto, se quiserem, porque o assunto não me diz respeito fora da sua teoria.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Sobre o aborrecimento sexual dos casais


As pessoas juntam-se para toda a vida! Erro.
Numa relação, excepto os filhos, nada é para toda a vida. As pessoas juntam-se para o tempo que for possível. E esse, que o vivam bem.
Se se partisse para uma união com a consciência de que é muito mais provável ela acabar em dois anos do que durar quinze, talvez durasse vinte, ou a vida inteira.
Os amigos zangam-se, os colegas zangam-se, os irmãos, os primos, os pais e os filhos. Por que carga de água é que os pares que formam casais do dito "amor fusional" não haveriam de zangar-se, e detestar-se, ocasionalmente, e pensar "bem feita!", e mandarem-se uns valentes berros, de vez em quando? E fazerem-se as pazes? E zangarem-se outra vez?
Juntam-se pensando que o quotidiano se compõe apenas de dias bons, de sorrisos? Eu pensava que nos juntávamos para podermos andar à porrada com mais eficácia, mais constância, quando é para esse efeito, e para podermos abraçar-nos mais rapidamente, mais perdidamente, quando é este.

O sexo, essa loucura!
Em que filme, em que livro, em que ópera é que foram beber esta ideia, sem pés nem cabeça, de que o sexo é uma espécie de fogo-de-artifício diário, um exacerbamento permanente?
Uma coisa é a necessidade fisiológica, outra o exagero. Por exemplo, eu gosto de bacalhau, adoro bacalhau, sabem lá o prazer que me dá comer um prato de bacalhau! A ser assim, por que não como eu bacalhau todos os dias? É muito simples, porque tudo o que é demais enjoa.
É muito simples, o repetitivo torna-se rotina, e a rotina é o que se realiza mecanicamente.
Exemplo: ir deitar o lixo orgânico no contentor depois de jantar.

Exemplo: uma rapidinha antes de dormir. Não façam demais, mas façam bem. Só pode existir aborrecimento sexual se as pessoas deixaram de se amar, ou se insistiram na repetição de um exercício mal praticado, que cansa e não resulta.
O sexo não é um exercício, se bem me lembro.
É um ritual. Convinha que fosse. E os rituais fazem-se em ocasiões especiais.
Não, não é como ir deitar fora o lixo depois do jantar. É mesmo especial. Pode ser no vão da escada, mas, se for, que seja especial. Que não seja uma obrigação.
Informo: a cama também serve para dormir.
Mas podem inovar à vontade, mudar de ares e de decoração. Essas coisas todas que já leram nas revistas.
Agora, clubes de "sexo alternativo" para combater o aborrecimento sexual? Não, essa não me vendem. Nesse caso, separem-se e pratiquem amor-livre. Tem muito mais lógica.
Clubes de swingers para variar da rotina, sadomasoquistas, para variar... outras ideias que nem me passam pela cabeça, ou que passam, mas que prefiro remeter para domínio criminal, para variar e desaborrecer o casal? Qual casal? Não querendo ser chata nem moralista nem etc., - se calhar até quero! - um casal aborrecido, é um casal acabado. E se está acabado, acabou. Não insistam.
Bem, eu nunca vivi com ninguém mais que, sei lá, quinze dias seguidos, por isso não faço grande ideia... mas acho que deve ser assim como digo!
De certeza que é!


domingo, junho 18, 2006

O meu corpo que não foi meu

Para a Susana

Os homens não falam entre si. Falam pouco, só mesmo antes de estoirarem. Os homens não conhecem os homens. Por esse motivo, não podem crer que as meninas de 10 anos sejam alvo de assédio sexual grosseiro, violação, até, pelos seus amigalhaços. Não acreditam ou não querem acreditar ou são cúmplices, porque nós sabemos que os homens se protegem mutuamente.

Algumas mulheres ainda percebem as outras segundo uma visão masculizada do mundo. Exercem sobre elas o mesmo poder, por delegação inconsciente. Responsabilizam a puta da amante do marido, que o desencaminhou, não o marido; criticam a vizinha que se divorciou 3 vezes e casou 4 – uma vadia; juram a pés juntos que as mulheres, elas próprias, são umas víboras que se traem umas às outras na luta pelos homens. Não gostam de trabalhar com mulheres, porque são galinhas, intriguistas, conversadoras, superficiais e incompetentes.

Outras mulheres começaram a falar sobre si; cresceram, envelheceram, tiveram filhos, querem viver mais. Têm 40 anos e querem arrumar a casa. Deitar fora o lixo. É natural. Essas mulheres têm trazido para o espaço público a história do bas fonds institucionalizado da violação psicológica e física de que as fizeram culpadas.

Os homens, quando confrontados com relatos do assédio que sofremos toda a infância e adolescência, sem sabermos como nos defender, envergonhadas, caladas, perguntam-nos o que andávamos a fazer nesses lugares que não nos pertenciam – defendem que há lugares só para homens nos quais as mulheres não devem sonhar, ousar entrar.
Portanto, se vamos ao café, e no café há homens!, se formos alvo de violação física ou psicológica, a culpa é nossa. Não temos de que nos queixar. Não são os violadores que procedem mal, nós é que não devíamos aproximar-nos. Contemporizam: os homens são uns brincalhões, dizem umas frases picantes, mas que importância tem isso? É só brincadeira. Nós é que temos a responsabilidade de ter orelhas moucas; as mulheres sérias têm orelhas moucas, portanto eles estão desresponsabilizados.




Quando nos disseram aos 12, aos 13, aos 16, aos 19, etc., etc., «ai, anda cá, que coninha tão bem desenhada, o que tu precisavas era de um par de colhões bem pretos todos metidos lá dentro», e nos chocavam e corrompiam, era tudo só brincadeira. Se eu chegasse a casa a contar isto, ter-me-iam dito, “as mulheres sérias têm orelhas moucas”.
Estas brincadeiras afectaram a nossa relação com os outros, com os homens, connosco, a vida inteira; levaram-nos a ser injustas com gente que não merecia, encheram-nos de medo, posicionaram-nos numa plataforma destituída de poder, de resposta, de vontade.
Entretanto, outros homens, noutros sítios, diziam as mesmas grosserias às filhas dos que nos molestavam - as culpadas éramos nós, e as suas filhas.
À violência autorizada no espaço público, precedia a que havia de ocorrer no doméstico.
As mulheres começavam a ser abusadas em crianças. Quando casavam e eram mães, o abuso era já tradição.
Semelhante estrutura de poder paralelo e clandestino teve longo sucesso enquanto conseguiram fazer-nos sentir culpadas do seu opróbrio - enquanto não confidenciámos sobre as misérias de que nos culpavam. Não falávamos da intimidade. Do sexo. Das coisas más e vergonhosas. Todas já tinham feito, mas não diziam com quem. Não falávamos sobre violação, sobre falta de prazer, porque estávamos isoladas umas das outras, e dos outros, por barreiras de pudor e de estigmatização. Porque não era possível admitir violação e falta de prazer. A violação só acontecia às vadias sôfregas que não se sabiam preservar. Nós não éramos vadias. Sabíamos que os homens abusavam das mulheres, que tínhamos de fugir deles, portanto a culpa era nossa. Quanto ao prazer, se os homens diziam que nos tinham dado prazer, se eles achavam...
Depois começámos a falar. Nos anos 90, acho, começámos a falar. E descobrimos que todas vivemos o mesmo, caladinhas. As irmãs dos violadores também foram violadas permanecendo caladas.




Portanto, uma rapariga sozinha a pé numa estrada era uma puta. Se um carro parasse e dele saísse alguém para nos violar, nós estávamos a pedi-las. Uma mulher decente não andava sozinha. Aos 13 anos éramos meninas irresponsáveis que não podiam sair à rua, mas seríamos, paradoxalmente, mulheres se fôssemos alvo de violação física ou psicológica. Éramos as culpadas da nossa própria violação. Tínhamos a responsabilidade de ser já umas mulheres e saber que não nos podíamos expor a riscos.
Os violadores ofereciam-nos rebuçados porque éramos crianças, mas queriam foder-nos porque éramos mulheres.
Consigo lembrar-me de um senhor de 50 anos, rico e idóneo, que me oferecia bonecas à frente dos meus pais, mas, na sua ausência, me sentava ao seu colinho, afastando-me as cuequinhas para o lado e segurando-me com força para não fugir, enquanto me perguntava como ia a escola. Os meus pais confiavam muito nesse senhor e na respectiva esposa, e até me deixavam à sua guarda quando iam à Joanesburgo. Eram meus padrinhos.
Denunciava o meu padrinho aos meus pais? Com que palavras? A minha madrinha entrava no escritório, via-me sentada no colinho do marido, enquanto este me abraçava com ternura e me falava carinhosamente sobre assuntos decentes - e entalava o respectivo pénis na minha racha... E a minha madrinha sorria e dizia, “adoras a miúda” ou então “o teu padrinho é babado por ti”. Era, de facto, muito babado.




Só depois dos 40 anos consegui ter uma conversa suficientemente aberta com outra mulher a ponto de poder perguntar-lhe, “mas tu já fizeste isto e aquilo?” E ela respondeu. “E gostas?” “Como sentes o orgasmo, como sabes que vai acontecer?” E ela respondeu.
Nunca falei de sexo com as minhas amigas. Falávamos de namorados, não do que fazíamos com eles. Durante muitos anos pensei que tinha uma deficiência qualquer, porque os orgasmos me eram tão difíceis. Hoje ouço-nos descrever as mesmas experiências, sintomas e bloqueios. No momento do sexo, olhávamos o nosso corpo com os olhos dele, com o julgamento dos olhos dele sobre o objecto fodível. Durante o sexo vigiávamos os nossos gestos e gemidos para que correspondessem ao que eles viam nos filmes e revistas pornográficas. Queríamos ser aquele produto que eles valorizavam entre si. Não podíamos abandonar-nos, esquecer, ser só o prazer do corpo. Aquilo não era sexo, para nós, era uma coreografia para o prazer deles. Copiávamos a imagem de mulher que nos traziam o cinema e as revistas.
Éramos objectos deles, para eles. Desejávamos para nós corpos que não existem, que são montados de outros corpos; gestos impossíveis...
Lembro-me de um namorado me ter descrito certa prática que sonhava ter comigo. Explicou quais seriam as posições, por onde é que a minha mão teria de passar para segurar o seu pénis, e de onde apareceria a sua tocando os meus genitais. Deixei-o falar; depois, disse-lhe apenas, “isso é impossível pelas leis da física, da biologia. Para fazermos isso cada um de nós precisava de ter braços meio metro mais longos.” Garantiu-me que não, que tinha visto num filme.
Lembro-me que os mesmos homens que publicamente me gozavam por ter o rabo grande, ou a barriga proeminente, tiravam prazer privado do meu corpo, adorando esse rabo e barriga. Publicamente havia que obedecer a um discurso que não tinha reflexo na vida privada. Adoravam o meu corpo na cama. Mas nunca o admitiriam em público.
Levei anos a compreender isto. A pensar a ditadura dos discursos. Dos códigos sexuais aceites, que não correspondem ao desejo do desejo.



A liberdade sexual dos homens e das mulheres há-de passar pela negação de códigos que transformam o sexo e o corpo numa ditadura estética. A liberdade sexual dos homens e das mulheres não banalizará a prática, mas desenvolverá um discurso limpo, livre sobre o prazer. Quando temos prazer ou não? E porquê? O que é o prazer? Só há prazer com orgasmo? Há quanto tempo não fazemos amor, quando não o fazemos? Por que motivo temos vergonha de admitir que durante sete anos da nossa existência não tivemos sexo, e nos masturbávamos de seis em seis meses, só para ver se aquilo ainda funcionava? Por que motivo a presunção de sexo e de prazer sexual valoriza socialmente os indivíduos? Porque motivo a presunção de sexo não valoriza a rapariga solteira, apenas o rapaz?

Vivemos o corpo e o desejo que o patriarcado de homens e mulheres, aliados enquanto senhores e serviçais fiéis, nos permitiram ter. Portanto, não tivemos corpo nem desejo. Não nos pertenceu.
A nossa vivência do sexo, tensa, acidentada, deve ao roubo desse corpo, desse desejo. Enforcámo-lo.
Estou aqui para pedir contas. Quero tudo o que roubaram. Quero garantir que as minhas filhas e as filhas dos outros não serão roubadas. Que os rapazes não serão ensinados a roubar pelas mães roubadas.

terça-feira, maio 09, 2006

A criação da mulher mutante

A revista Maria e congéneres, em tempos, foram úteis para as mulheres e contribuíram para a educação pública, ensinando o que faltava na escola, na família e no grupo social do café.
Nunca fui leitora assídua, mas apanhava os exemplares das colegas, os que encontrava nos consultórios, e mantinha-me informada. Sempre gostei de revistas cheias de conselhos sobre como tirar nódoas da roupa, diluir a catástrofe do sal em excesso na sopa, remendar erros de tricot, rega das sardinheiras, preenchimento e entrega de impressos de irs, solução de conflitos sociais, conflitos conjugais.
Foi assim que aprendi a fazer bolo-mármore com os tais efeitos psicadélicos do chocolate misturado à massa tradicional.
Estas revistas eram de leitura bastante gratificante, porque, a par dos conselhos práticos, motivavam as mulheres para uma vivência saudável e desinibida da sexualidade, motivavam-nas para o desenvolvimento de competências vocacionais fora de casa e da família, ensinavam-lhes uma nova forma de relacionamento com o parceiro, em que ambos tinham valor e responsabilidades por igual... Eu, que era uma menina de cidade, aprendi muito, pelo que posso intuir o impacto civilizacional que estas revistas terão tido naquilo a que chamamos província, e, nessa, no interior; e aí, em zonas congeladas no tempo.
A Maria e congéneres formaram uma geração de mulheres: a minha. Foi aí que aprendemos que a masturbação não provocava borbulhas nos rapazes, que não era um pecado mortal, que memorizámos desenhos com a fisiologia dos órgãos sexuais e aprendemos o que eram a uretra e as trompas de falópio, que seria possível engravidar praticando coito interrompido, mas que, sentarmo-nos numa sanita, seria inofensivo nesse aspecto, embora pudéssemos contrair fungos, bactérias, e o diabo a sete.
O consultório sentimental, que depois passou a sexual, sempre foi a primeira secção lida na Maria. Todos tinham vergonha, mas todos liam às escondidas, ou então em grupo, à gargalhada. Achávamos as perguntas ridículas, mas líamos as respostas, sempre formativas. Surgiam muitas questões sobre sexo na adolescência e a normalidade de certas práticas sexuais; rapazes, raparigas, homens e mulheres desfaziam mitos sobre contracepção: fazer amor de pé, afinal, não evitava a gravidez, e lavar muito bem a vagina com Bétadine, após o sexo, também não; mostravam-nos desenhos de diafragmas, preservativos enrolados e desenrolados, embalagens de pílulas e espumas e óvulos espermicidas. Explicavam muito bem os efeitos, e todos os aspectos práticos. Aconselhavam a visita a médicos, formas de falar com os pais em caso de acidente. Era muito bom, para dizer a verdade. Ensinava de forma despreconceituosa, informal, muito livre. A revista libertava-nos. Dos pais, dos professores, da pressão dos pares, dos preconceitos todos.


A Maria merecia que lhe fosse prestada a devida homenagem. A Maria antiga, até aos anos 80 e tal, noventa e pouco. Hoje, é insuportável; é o contrário do que foi. Os artigos de capa não formam, apenas legitimam as tendências sexuais e sociais da moda. Consistem em conjuntos de regras tiradas do senso comum cultural sobre como prender um homem, sendo diferente na cama todos os dias; como prender um homem, realizando as suas fantasias sexuais; como prender um homem, cozinhando com especiarias; como prender um homem, usando artigos de sex-shop; como prender um homem de toda a maneira e feitio, porque a obsessão é prender o homem que se vai embora se não formos uma espécie de bonecas insufláveis falantes. O medo de perder o homem, e o que fazer para o evitar, é o assunto favorito. Depois, sexo diferente: prenda-o à cama, deixe que a prenda, tape-lhe os olhos, vista-se de enfermeira ou então de Batwoman; as maravilhas do sexo anal: deixe que o seu companheiro a inicie numa experiência nova - não, peço desculpa, estou a enganar-vos, agora é: seja tolerante e deixe que o seu companheiro lhe mostre que a penetração vaginal também é possível; que não é obrigatório usar algemas na cama e rasgar 3 conjuntos de lingerie de renda por semana. Há uns anos, os homens escreviam para o consultório sexual colocando questões sobre como convencer as mulheres a fazer aquelas coisas rudes e excitantes que viam nos filmes pornográficos, tipo penetração anal, dupla, sexo oral, esfregar o pénis numa parte qualquer, porque elas queixavam-se, não queriam, não era romântico. Hoje em dia, os mesmos homens escrevem a queixar-se: desejam sexo normalzinho e as mulheres só têm prazer de empurrão. Não queria dizer isto, mas não posso tapar o sol com a peneira. Isto construiu-se a pouco e pouco. Não se aprende a reciclar o lixo, é chato, mas se para prender um homem temos de nos converter ao sexo nasal, vamos lá alargar as narinas! Também leio perguntas de meninas de 20 anos pretendendo saber se se pode alternar entre anal e vaginal, tira aqui, mete ali, sempre com o mesmo preservativo. Acho bem que esclareçam as dúvidas, por motivos de saúde pública, mas o que leio e não está escrito, mostra-me que a revista existe, hoje, para divulgar e legitimar práticas sexuais que aprisionam as mulheres mais do que libertam. Aprisionam-nas a um conjunto de comportamentos que não têm como objectivo a sua realização pessoal ou profissional ou sexual, mas a dos parceiros. Aprisionam-nas à ilusão de que são livres, e, por isso, as mulheres têm horror a isso do feminismo. Não são feministas, mas femininas, e desfiam todo o discurso masculino sobre o assunto. Bem aprendido. Ensinam que somos livres na medida em que praticamos sexo livremente, alternativamente, com direito legal à contracepção, ao divórcio ou a viver em união de facto. Estimula-se nas mulheres um conjunto de medos que deviam ter já sido ultrapassados por uma pessoa realmente livre; medos relativos ao aspecto do corpo, ao que se veste como roupa interior ou exterior, promovendo uma série de consumos relacionados com sexo: roupa, produtos de beleza, produtos de estimulação, tratamentos corporais. As mulheres têm, assim, maior temor a umas mamas flácidas que a um tumor mamário. Ter barriga é uma catástrofe irremediável; a celulite justifica a total exclusão social. E é curioso que assim seja, porque tudo isto é parte do corpo feminino, como a barba e os músculos o são do masculino. As mulheres têm mamas flácidas após amamentar; aparece-lhes barriga e celulite assim que as hormonas acordam. A ideia consiste em transformar o corpo feminino num objecto mutante, permanentemente sujeito a recomposições, para que possa servir um ideal de prazer. Não se coloca a hipótese de uma mulher gostar da barriga e das mamas que tem. Todas estão, à partida, em falha. Todas devem odiar o seu corpo e desejar o da modelo da revista. Nenhum corpo real deve ser autorizado.

A revista Maria, e as outras, hoje, porque precisam de vender, e têm de acompanhar a cultura do tempo, não fazem mais que reflectir o culto do sexo como valor primeiro, como sucedâneo da heroína e de todos os outros prazeres que o estado limita. Não fume, compre um vibrador. Não coma, ponha silicone nas mamas. Não beba álcool, faça uma lipo-aspiração. Não foda à antiga, encene o sexo, compre adereços, e obrigue o seu corpo a decorar um texto autorizado: o de que somos todos sensuais deuses do sexo, temos todos intenso, inenarrável prazer numa vida sexual única, irrepetível e melhor que todas as outras, mesmo que tenhamos saudades de, em resumo, levar ou dar uma na enfadonha posição do missionário. Mas hoje é uma vergonha, isso do missionário, portanto iniciam-se as manobras pelo sexo oral, que não é coisa nada íntima para começar. Mas o que é isso da intimidade? Proporciona orgasmos plásticos?

Tive um namorado que me beijava no porão do cacilheiro e me masturbava com cuidado, por debaixo da roupa, não fosse alguém aparecer. No outro dia encontrámo-nos e lembrámos esse tempo, e sorrimos. Era muito bom. A certa altura, confessou-me que a recordação mais erótica que guardava do nosso namoro era tão simples quanto isto: estávamos em casa dos meus pais, à porta, prestes a sair; enquanto eu falava com a minha mãe, marcando hora para chegar, meteu-me a mão por debaixo da saia só para me tocar o rabo, clandestinamente, mas encontrou um rasgão no collant, entre pernas, por onde fez deslizar dois dedos, que sentiram, para sempre, a textura e o calor dos meus pêlos púbicos. Talvez ele se tenha libertado da memória. Eu, que fiz um esforço para me lembrar, terei de viver, agora, desassossegada por esta imagem fantasma de uma luxúria tão inesperada quanto inocente. Ele tocou os meus pêlos púbicos através de um rasgão no collant. Era Inverno, portanto. Devia estar frio. Isto nunca mais voltará a acontecer.

segunda-feira, maio 08, 2006

Sexo e equívocos sobre liberdade sexual

A liberdade sexual confundiu o público-alvo e tornou-se uma tendência da moda, como usar transparências ou snifar linhas de coca. Algumas práticas são tendências. Agora, que o sexo anal, tão popularizado pela massa gay, a qual nos veio lembrar que todos tinham rabinho com terminações nervosas, se encontra em decadência, estamos em plena era sado-masoquista. Agora, o que está na moda são as correntes, os inibidores do andar, os açaimes, os cintos de castidade, os chicotes genitais, a obediência, a prática do poder, a humilhação total, a pancada até ao limite do prazer-dor, às vezes um pouco mais além. É só uma tendência. Eu, sinceramente, prefiro a moda dos sapatos de cunha.
Liberdade sexual não deveria ser entrar por aí a foder a torto e direito tudo o que mexe, todos os dias, a todas a horas, todas as pessoas que correspondam a um estereótipo fodível. Que o sexo seja livre, mas que o desejo venha puro e macio e digno. Que não sirva para magoar o outro. Que seja uma benção pagã, física e mental. Não é preciso fazer muito, mas que se faça com mútua entrega, que seja absoluta com o parceiro. Com o fito nesse ideal. Depois, a respiração e os batimentos cardíacos retomam os valores normais, e tudo se acalma até ao próximo tsunami.
O sexo não é moda. Não é assim como "vamos enrolar um charro, bora lá, pá". O sexo é um poderosíssimo instrumento de poder, de crescimento pessoal, social, de amadurecimento. O sexo torna-nos melhores.




segunda-feira, março 06, 2006

Prisão sexual com Joaquín Cortés

Em Agosto pediram-me que ajudasse uma rapariga da minha idade, em sofrimento devido a uma relação fatal. A rapariga precisava de falar com alguém "normal como eu". Alguém que já tivesse levado porrada vinda de todos os pontos cardeais, e, sobrevivido, continuando a sorrir. Aceitei. O meu espírito missionário não resistiu.
A rapariga vestiu os melhores trapinhos, pintou a cara, e levei-a às docas. Era jeitosa.
Corri com ela as discotecas todas. Entrámos, saímos, voltámos à primeira.

À saída de uma, penso que da Queen's, li, afixado, que num dia certo da semana, se realizava ali um show de strip masculino. A "minha amiga" que, entretanto, apesar de não ter esquecido o amor fatal, tinha arranjado, no Indochina, engate com um puto novinho em folha, vestido de cabedal da cabeça aos pés, e com quem 5 minutos depois trocava sms's cujo conteúdo semântico me abstenho de revelar, delirou com a perspectiva. Do strip. E do puto também. Mas do strip. "Oh, vamos lá. Oh, eu não me importo de vir de propósito. Oh, eu gostava tanto de ver. Mas eu não conheço ninguém cá, tens que ser tu". Disse-lhe que sim para a calar, para a conseguir arrastar dali. Eram 5 da manhã! Mas, comigo, nunca ela foi a qualquer sessão de strip.





A emancipação sexual mudou as mulheres da minha geração e mudou o mundo. Marca os comportamentos das pessoas de hoje. Mas a emancipação sexual pode ser um retrocesso. Porque, tal como a liberdade não deve ser o abastardamento e banalização do que se liberta, também à emancipação do sexo convirá respeitar tal ética.
Não estou disposta a assistir a nenhum espectáculo de strip masculino, ou feminino. Não quero que um homem depilado e musculado, ordinaríssimo, venha roçar em mim os biceps oleados, mostrar-me as nádegas duras compradas aos fat burners, mais os peitorais anormais. Que me interessa esse homem de plástico? Com a sua vulgaridade estampada nos traços do rosto, nos olhos, na boca? Pura exibição hormonal. Estes também são exemplares de macho ficcionados, impossíveis, desnecessários.
Mas, principalmente, não aceito contribuir para indústria do sexo, como lhe chamam agora. Os strippers são bailarinos ou trabalhadores do sexo? Vejamos, o que se passa numa sessão de strip é a exibição de um corpo que deve ser desejável, em posições excitantes, mostrando um máximo de pele, ocultando, mas não totalmente, não demasiado, o deus que ali se cultua, o órgão sexual, masculino ou feminino. São trabalhadores do sexo?
Se já era degradante ver homens em bares de strip emitindo urros quando as meninas lhes viravam o rabinho para a cara, é-o, igualmente, agora, suportar os gritinhos das senhoras cheias de vergonha e "ai nem posso" quando os strippers se lhes sentam ao colo, ou melhor, lhes pedem que se sentem elas nos seus, que espreitem para dentro da tanguinha, que deslizem as mãos pelos braços, costas, e elas, entre o medo e sei lá quê...
Sentar-se em cima de um maganão que não conhece de lugar nenhum e passar-lhe as mãos pelo corpo de touro enraivecido, suado e oleado, é coisa que excite uma mulher? Quando é que os strippers pagam para tanto?
Este comportamento, mimético do masculino, que a liberdade sexual trouxe às mulheres não será, antes, uma prisão como qualquer outra, como a que prende os homens?





Joaquín Cortés um bailarino espanhol de origem cigana, vem a Faro, no final do mês, para um espectáculo único, e os bilhetes esgotaram de imediato.
Joaquín Cortés dança flamenco, e cria um bailado de fusão estremamente plástico; muito sensual, também. Gera imensa energia em palco, o que não acontece por acaso. Cortés estuda a lição dos strippers que agora exaltam hordas de meninas com namorados e de senhoras casadas: tira o melhor partido de características mistas do seu corpo: é um belo homem moreno, com um tronco largo, não demasiado musculado, contudo viril, que exibe nu, quase sempre; a isso, associa um cabelo escuro, liso, comprido que solta despenteado, selvagem, ou que agarra em rabo de cavalo. Tem um rosto algo feminino, que trabalha através de um corte de barba e patilhas minuciosamente desenhado.

Cortés é um excelente bailarino, mas não vende bilhetes por ser bom no que faz, mas porque dança nu, porque é viril e sensual, e cada um paga para ver o seu corpo movimentar-se como uma mulher, como uma garça, como um gato, como um homem, como um touro enraivecido. Pagamos para nos deixarmos enfeitiçar, para nos apaixonarmos por ele. Pagamos aquele corpo que baila. Pagamos aquele corpo. Pagamos.




Penso que, analisadas as motivações sob as quais assenta a compra em massa de bilhetes para os seus espectáculos, Cortés poderá ser considerado um trabalhador do sexo. Com a vantagem de que ninguém pensa no que paga, quando está a pagar. Cortés sabe-a toda.

quarta-feira, março 01, 2006

As mulheres-objecto, ainda

Comentário que a Ana nos deixou, hoje, em "Tradução simultânea, por favor!" (ler também este texto).

A glorificação do corpo volta a reduzir-se à mulher objecto, numa total dependência do ponto de vista masculino, mas acima de tudo, nessa trivialização do próprio acto sexual, cada vez mais genitalizado.
(...) Somos e continuamos a ser um objecto da sociedade e dos homens! Primeiro porque somos nós que tomamos os anticoncepcionais e sofremos as consequencias que daí advêm, boas ou más, para o nosso organismo; depois, somos nós que não obtemos o orgasmo quando eles praticam o coito interrompido; depois, somos nós que abortamos e ficamos com sequelas físicas e psicológicas para o resto da nossa vida, incapacitando-nos de ter outro filho ou até levando a uma frigidez! E se decidimos ter um filho com muito gosto e sentimento, somos despedidas, ou estagnamos no local de trabalho porque temos de amamentar e não se coaduna com uma carreira promissora no mundo de trabalho!
Sofremos anorexias para ser belas e fazer carreiras no mundo da moda e aparecer nas séries da TV e ser desejo dos homens!... Aumentamos os seios, porque se eles saírem do decote é in e os homens nos vão desejar bué e é muito fixe... Fazemos muitas dietas e vivemos em função do desejo e dos prazeres dos homens e somos o verdadeiro objecto deles! E quando eles nos possuem muitas de nós MULHERES OBJECTO E FRUSTRADAS, nem um orgasmo temos, nem um filho lhe conseguimos dar, fodemos só por foder, nem dizer de verdade o que queremos de verdade sabemos dizer...
(...) Muitas de nós continuam a fingir em suas casas, com os seus namorados que são livres e nunca são usadas, e são as mulheres mais felizes e realizadas à face da Terra, porque até contornam bem todas as vissicitudes e nem se sentem usadas são elas que usam! Pensam ELAS!...
Há coisas que não tem preço, a nossa liberdade de escolher e de sermos usados em determinado momento e função!
Temos sido usadas e mutiladas em prol da libertação sexual! Os homens nem uma pílula podem tomar, nem sequer se inventa...

domingo, fevereiro 12, 2006

Mal fodida

Conclusão do estudo: trata-se uma disfunção sexual da exclusiva responsabilidade das mulheres, sendo que poucas pedem ajuda ou consideram o assunto relevante; mais, o sexo é, para elas, uma questão psicológica.
Vejo-me obrigada a contrariar tão sábias conclusões: o sexo é, para as mulheres com as quais falei sobre o assunto (não muitas - não fomos habituadas a discutir livremente a problemática da foda), uma questão muito física.
Claro que é muito bom conhecer o parceiro, estabelecer com ele intimidade, sentirmo-nos desejadas ou amadas, abandonarmo-nos e entregarmo-nos nesse abandono, e nisso se joga mais ou menos psicologia, mas o sexo é físico, ou nada o distinguiria da agradável leitura de um livro.
Analisemos este discurso tão frequente: as mulheres têm dificuldade em atingir orgasmos, logo, o problema está nas mulheres. Não no macho lusitano, a quem chega enfiar o mangalho na rapariga, roçar-se nela três vezes, mal e porcamente, antes de, arquejando, cair morto. Ou roçar-se nela até aos limites da resistência vulvar ou do colo uterino, mal e porcamente, antes de, arquejando, nunca mais cair morto. Venha o diabo e escolha.





Não me admira que um terço das mulheres portuguesas tenha dificuldade em atingir orgasmos, ou que nem sequer atinja um nível de excitação que lhe permita uma sexualidade minimamente satisfatória, mas sem orgasmo, entenda-se.
Para o macho lusitano, sexo consiste em “enfiar-lho”; ponto final. Escolhe-se a presa e enfia-se-lhe o balázio.
Não sei o que é o sexo, juro, não sei. Podia arranjar aqui muita filosofia, misturar umas figuras retóricas, mas não é o meu objectivo. Estou zangada. Estou mesmo muito zangada.
Não sei o que é o sexo, sei apenas que não se reduz a “enfiá-lo”. O assunto é pessoal, mas colectivo - a maior parte dos homens que conheci, no sentido bíblico, não fodia nem saía de cima. Ora, que não fodam, aceita-se, mas, nesse caso, reconheçam, e desenvolvam, connosco os esforços necessários para que agrade a ambos - ou saiam de cima, ou debaixo ou de lado ou de trás.
Os homens não gostam que finjamos o orgasmo! Ora, caros amiguinhos, eu também detesto ser mal fodida. Não julgando ser solução, compreendo-a, e já fingi. É o chamado mal menor. Perante uma manifesta falta de talento, e desejando poupar as superfícies orgânicas a esforços abrasivos, mantendo alguma cortesia, despacha-se o candidato com uma mentira piedosa. Sim, estamos loucas de prazer, mas, por amor de Deus, se não dão conta do recado, despachem-se e deixem-nos resolvê-lo sozinhas. Se afinal é só para um, e mau, e a aparência de excitação nos livra disso mais rapidamente, lixe-se a essência”.





Na prática, consentimos uma espécie de violação. Não estamos a gostar, mas deixamos que chegue ao fim... do outro. Apressamos o fim. Porque até sabemos o que fazer para o “levar lá”, já o contrário... Havia outra solução, muito mais honesta, que consistia em explicar, "olha, querido, isto está a correr mal, desculpa lá, tenho muita pena, mas não vale a ginástica". Infelizmente, a algumas ainda custa ferir tão ostensivamente a virilidade.
Eu, que sou a Isabela, fui educada para servir um homem. Não aprendi a limpar a casa para mim. Não me ensinaram a coser uma bainha para mim. Aprendi para, um dia, mais tarde, saber fazê-lo na minha casa, para o meu marido, para os meus filhos. Que isso não tenha acontecido, foi um imprevisto.
“Ele serviu-se dela”, era assim que a minha mãe designava o acto sexual: um homem servia-se de uma mulher, de um ser passivo que recebia outro. Escutei estas palavras frequentemente, na minha infância, sussurradas entre mulheres. “E depois ele serviu-se dela!” Ouvir isto era já um pecado. Não me ensinaram a valorizar orgasmo algum, apenas a suportar estoicamente a dor. Qualquer dor.




Não me venham dizer que as mulheres mais novas, que em princípio não terão sido educadas segundo este padrão, não fingem orgasmos. Não fingem sempre, porque, em situação de crise, todos nos poupamos; é a lei da sobrevivência.
São poucos os homens que, na cama, existem para além do seu falo erecto; para os quais a sexualidade transcende o prazer que o seu corpo obtém pelo posse do outro. São poucos os que encaram a relação sexual como uma relação. Algo recíproco. Normalmente deparamo-nos com uma posse. Poder. Possuí. Tive. Comi. Fodi. Fui possuída, tida, comida, fodida.
Ora, o meu corpo não começa e acaba na minha vagina.
Generalizando, como alguém me virá já lembrar, aí nos comentários: os homens são egoístas. Muito. Mesmo muito. E são-no, igualmente, no sexo. Muito. A manter-se este cenário cultural – e não vejo grande tendência para mudanças! - continuaremos a fingir orgasmos. Ou a tratar do recado sozinhas. Ou, e isto seria o ideal, começamos a dizer a verdade.
Não peço piruetas, nada do outro mundo, apenas disponibilidade, entrega; e depois, sejamos objectivos, calma e ritmo. O outro também se aprende. Eu aprendo-te. Tu aprendes-me. É isso que estamos aqui a fazer. Deve ser. Não quero fingir orgasmos. Quero dar e receber esse momento indomesticável que fracciona ou comunga corpo e espírito.
Não sei se isto tem sentido para alguém. Espero que isto tenha sentido para alguém.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...