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quarta-feira, janeiro 23, 2008

Problemas com as válvulas

Há uma idade em que a expressão mijei-me a rir deixa de ser uma inofensiva figura de estilo. Ninguém nos avisa antes.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Onde desembocam os esgotos de Almada?

Depois do bacalhau e das couves, arranjou maneira de deixar cair a dentadura dentro da minha sanita (a placa de cima e a de baixo); esqueceu-se completamente do acidente, puxou o autoclismo, e sentou-se a ver televisão com menos cinco centímetros de boca.
Este é o Natal da Isabela.

sábado, outubro 20, 2007

Da vida das filhas únicas (e solteironas) II

Os óculos

Isabela, estás a ver os meus óculos?! (mostra-me uns óculos com as hastes quase na vertical, todos tortos). Sentei-me em cima deles na banqueta da casa-de-banho. O que é que queres, não os vi! Não tinha óculos!

Como preciso de os ter quando me levares ao oftalmologista a semana que vem, por causa daquele medicamento que me receitou o reumatologista onde me levaste a semana passada, que ele não sabe se as vistas aguentam, tens de levar os meus óculos lá acima ao oculista para os endireitar, que eu preciso deles com muita urgência. E é que também não consigo ver a televisão.

Da vida das filhas únicas (e solteironas) I

A dentadura

Isabela, vem aqui depressa procurar-me a dentadura. Não me lembro onde é que a deixei, e se as cadelas a encontram, comem-na.

terça-feira, outubro 02, 2007

Grandes campanhas falhadas

Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!


quarta-feira, março 28, 2007

"Tão jovem! Que jovem era! / (agora que idade tem?)" *

Isabel Ruth


Rita Ribeiro afirma na capa de uma revista
Caras que decidiu eliminar as rugas, porque não suporta viver com a parte mais negativa de si. Incomoda-me a referência ao envelhecimento físico natural como "a parte mais negativa" de alguém.
Todos têm o supremo direito de agir sobre o seu corpo como lhes aprouver, modificando, rejuvenescendo, esculpindo. Hoje, intervém-se muito mais sobre o físico do que há 20, 30 anos atrás, não só porque os meios disponibilizados são quase infinitos, mas também porque o nível de vida melhorou. Abençoo muitas dessas intervenções que transcendem fins estéticos, melhorando a vida a tantos, eliminando fobias, traumas, restituindo o seu a seu dono. Outras, enfim... cada um faz do seu próprio corpo o que quiser; eu limito-me a interpretar motivações.
Desde sempre me lembro de ouvir as mulheres queixarem-se das rugas, e temê-las. Lembro-me de se vender muita banha da cobra para tal fim. Cremes milagrosos que, no máximo, hidratavam: os rostos das mulheres, e homens, que se besuntavam às escondidas, iam envelhecendo natural e alegremente. Indiferentes.
Quando era pequena parecia-me normal que uma pessoa de 50 anos fosse mais velha que uma de 40 - e é, não é?! As rugas e os cabelos brancos sempre tiveram lugar na minha ordem do mundo. Havia muita gente madura à minha volta. Quando fiz 10 anos os meus pais estavam a completar 50! O que me incomoda no envelhecimento não se relaciona com aspecto, mas com a perda de capacidades. Temo a fraqueza física, a falta de saúde, querer andar e não poder, precisar de ver e já não ter olhos. Isso sim! Assisti à lenta degradação física do meu pai. À sua revolta perante a impossibilidade de se locomover, de controlar os seus movimentos. À sua frustração perante essa impotência. Envelhecer como o meu pai envelheceu, e sem remédio, é um castigo que ninguém merece.
Mas o processo de envelhecimento natural não é a parte mais negativa de cada um de nós. Pelo contrário! Tenho pena de ter aniquilado muitos anos da minha vida por ser teimosa que nem uma viga de aço, e estupidamente orgulhosa, e não ceder por nenhum flanco; mas não lamento que os anos tenham passado por mim e tenham modificado o meu corpo, levando a frescura da minha juventude. Fui uma rapariga bonita, como todas as raparigas, mas não duvido que hoje sou melhor do que aos 20 anos, altura em que o mundo me pertencia. E o sonho, e a luxúria.
Não desejo voltar atrás por nenhum preço. Gosto da ideia de envelhecer, de saber que tenho um fim. A Terra é um lugar demasiado injusto e violento para se suportar uma existência eterna. Aceitar a inevitabilidade do envelhecimento talvez seja uma atitude mais saudável e realista; e estimá-lo, como se estima qualquer outra fase da vida. A juventude, o prazer imediato associado à beleza física, essas coisas todas juntas, não nos trazem felicidade suprema. O corpo é demasiado sensível, frágil e temporário para o hedonismo. Também não sei o que seja ser supremamente feliz. Nunca fui - senão uns ápices que não recordo. Esta vida, tal como a vivemos, não é favorável à proliferação de duradouros átomos de felicidade.
Hoje, enquanto folheava as páginas com fotos da aplicação de Botoina, ou qualquer produto aparentado, na testa de quarenta anos da Rita Ribeiro - não sei quantos tem - senti saudades do rosto muito enrugado da Isabel Ruth, do brilho muito intenso que aquele rosto tão cheio de pregas emitia.


* O menino de sua mãe, Fernando Pessoa

segunda-feira, outubro 24, 2005

Velhos que aspiram a altos voos

NOTA: Dando cumprimento aos regulamentos de O Eleito, blog que passo a acumular com O Mundo Perfeito até à data de eleição do próximo Presidente da República, publicarei aqui os textos que escrever ali.
Não vice-versa.




General Norton de Matos

Tem oitenta e um anos feitos. Vejo-o com simpatia. (...) A sua estatura é meã, encorpada e robusta, o rosto sereno e nobre com todos os caracteres somáticos acentuadamente portugueses. Aparece-me no seu ambiente doméstico, vestido de preto, sóbrio, sem uma jóia. Tem imensa dignidade de presença, mas é simples, sem a mínima pose ou afectação. Será um presidente democrático num país democrático, não a contrafacção dum rei. Olhos vivos, candentes, o riso bem-humorado, a voz forte e bem timbrada. Conserva a plena lucidez intelectual, raciocínio arguto e amplo, vontade tenaz, palavra fluente, memória pronta. É ainda o homem de ferro que o país conheceu. É o digno representante da Resistência portuguesa.

Archer, Maria (1949), “O general Norton de Matos”, in Sol, nº 201, pp. 1 e 10,

Acho que ainda vivi no tempo em que os velhos valiam alguma coisa, e não se atiravam para o lixo final de casas colectivas onde, hoje, são mantidos vivos, para morrer sós, inspirando, no seu último sopro de ar, o fedor da lixívia mista de urina retardada.
Já não gostamos dos velhos. Já nada nos podem ensinar. Já sabemos tudo. Leis, história, economia, literatura. Queremos caras novas e bonitas, gente magra, a quem os fatos assentem bem, de preferência.
Os velhos dão trabalho. São teimosos. Inconvenientes. Atrapalham. Sujam e não limpam. Não temos onde os pôr. E o pior é que alguns têm o coração e próstata de ferro, e ainda refilam, e nos mordem os calcanhares, perguntando, onde vamos e a que horas regressamos.
Nada os deita abaixo. E, agora, reformados, estão melhores que nós, que, para alombar com a crise, a nossa e a dos outros, embicamos todos os dias na direcção do emprego, debaixo de chuva e de noites mal dormidas, enforcados na gravata ou no conjunto de saia e casaco nas cores oficiais permitidas, azul, cinzento, castanho, preto.
Há 50 anos já éramos velhos se chegávamos aos 80, mas ainda contavam connosco para salvar a pátria. Era-se digno, aos 80; tinha-se errado e acertado, mas havia dignidade ao longo dessa caminhada, mesmo que fôssemos raposas velhas – um velho é sempre uma raposa, e nada teria aprendido se não o fosse.
Hoje, aos 80, estamos arrumados, somos velhos. Qual experiência! Riem-se. “Não acha que já chega, que já fez o que tinha a fazer, não lhe chega ler os jornais à lareira?”


Cartaz da candidatura de Norton de Matos, 1949

Em 1949, o general Norton de Matos, candidato à Presidência da República, com 81 anos de idade, era a esperança dos que sonhavam o fim do Estado Novo; em 2005, Mário Soares, com a mesma idade, está velho. Argumento fraco.
Digam-me que Soares é uma raposa velha, digam-me que não olha a meios, que dribla a democracia para manter a democracia, digam-me o que quiserem, e eu assentirei, porque dele nunca esperaria pior!
Também estou à espera de chegar aos 81 para me candidatar a qualquer coisa importante!


Esta imagem de Soares, no S. João do Porto, é conhecidíssima; alguém sabe indicar-me a identidade do(a)profissional que a captou, para que lhe possa fazer a devida justiça autoral?

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...