Nunca gostei de desperdício e estrago. Nunca desenhei, na casca das árvores, corações atravessados por setas, nem sequer o meu nome nas mesas da escola. Por isso, dificilmente compreendo a febre de escrever nas paredes, com tinta em aerossol, o gatafunho do próprio nome, ou um nick, actividade que, no meu subúrbio, se denomina tagging.

Tagging significa etiquetagem, e uma etiqueta é, por definição, um símbolo de identificação. A tag deve considerar-se, portanto, o anúncio de alguém. Quem deixa uma etiqueta em algo reclama a sua posse. Como é lógico, não ponho etiquetas com o meu nome nas malas dos meus companheiros de viagem, apenas nas minhas. Porém, muitos jovens deixam as suas etiquetas [tags] em paredes de edifícios, contentores de lixo e de reciclagem, cabines telefónicas, postos de iluminação pública, caixas multibanco, degraus de escadas, toldos, portões, esculturas, caixas da electricidade, gás e telefones, paragens de autocarro, às vezes nos próprios autocarros. No Verão passado reparei que não existiam, em Paris, carrinhas de transporte comercial que não estivessem completamente grafitadas com tags. Se existiam, não as vi.
No momento em que o tagger desenha o seu nome sobre uma superfície, declara pertença sobre o objecto grafitado; "este caixote do lixo e este lugar são meus", pensamos nós. Encaramo-lo como declaração de posse e, consequentemente, afirmação de um poder que assenta sobre a insegurança que gera. Um bairro com tags ganha o aspecto desordeiro próprio dos territórios pertencentes a um clã, e não a uma uma comunidade que vive junta, mas independente. A tag parece, assim, constituir uma poderosa afirmação de identidade marginal sem princípios que não os do máfia criminosa. Transmite-nos a impressão de que poderemos ser atacados com uma faca ou um pitbull na primeira esquina. Neste aspecto, a tag reveste uma muito eficaz forma de terrorismo.
Como desejei que o meu hóspede alemão de ontem não tivesse reparado nas horríveis pinturas que mancham as paredes do meu bairro! Mas reparou. A disseminada tag desfeia lugares sobre os quais houve uma tentativa de ordenação urbana, caso da minha rua, e tranforma-os em território aparente inseguro e perigoso. Percebi que foi essa a impressão com que o meu amigo ficou da zona: um subúrbio perigoso!, o que rigorosamente não corresponde à verdade. "Aqui, à noite, não há jovens fazendo distúrbios?", perguntou-me. Expliquei-lhe que vivo num bairro habitado pela classe média-baixa. Ninguém me parece especialmente rico nem especialmente pobre. As pessoas saem de manhã para o trabalho e regressam ao final da tarde, vivem, têm filhos despenteados, mal mas dispendiosamente vestidos, que vão à escola, bebem cervejas, fumam charros e ouvem música inaudível, como qualquer outro jovem. Quem se ocupa, então, da grafitagem das referidas tags? Sem sombra de dúvida, os filhos dos meus vizinhos, pelo que é impossível não me interrogar sobre a tão grande necessidade de inscrição que sentem estes jovens possuidores de computadores pessoais, leitores de mp3, telemóveis topo de gama, roupa de marca, grandes consumidores de bifes, batatas fritas e fast food.
Quando passeio as cadelas atravesso zonas cheias de tags e perco tempo a analisá-las. Normalmente são horríveis. Mal desenhadas. É uma grafitagem gratuita; parece não haver qualquer mensagem a transmitir. Quem as escreveu não possui caligrafia bem definida, e mal sabe desenhar símbolos sobre papel, a esferográfica, quanto mais na parede, e com spray. A legendagem é insignificante: abreviaturas, palavras em inglês incompreensível, vocábulos muito street, como merda, fuck, the boss, qualquer-coisa rules e nicks, muitos nicks, sobrepostos. Abundam nos lugares mais escuros, nomeadamente nas traseiras de prédios. É, portanto, algo que é feito às escondidas, a medo. Quem os faz, fá-los pouco seguro, vigiando os passantes. Quem o faz sente não pertencer a este território, embora viva nele. Mais do que reclamar a sua posse sobre o lugar, parece desejar que o lugar o possua. Ver-se espelhado.
Admitamos que uma assinatura nos inscreve em algo. Temos direito a uma assinatura num bilhete de identidade porque pertencemos a um país, e não porque o país nos pertence. Através da tag, os meus jovens vizinhos reclamam pertença ao mundo, exactamente como quem preenche uma ficha de inscrição para sócio da sociedade filarmónica. "Quero que me admitam no mundo", escrevem, e assinam por baixo, sem saber o que querem. Não é de estranhar que aqueles que trouxemos ao mundo, mas sentem nada poder esperar dele, que em nada acreditam, porque nada lhes oferecemos para acreditar, e que nada esperam, reclamem espaço, identidade, existência. As odiosas tags do meu território dizem-me "eu sou daqui".

Tagging significa etiquetagem, e uma etiqueta é, por definição, um símbolo de identificação. A tag deve considerar-se, portanto, o anúncio de alguém. Quem deixa uma etiqueta em algo reclama a sua posse. Como é lógico, não ponho etiquetas com o meu nome nas malas dos meus companheiros de viagem, apenas nas minhas. Porém, muitos jovens deixam as suas etiquetas [tags] em paredes de edifícios, contentores de lixo e de reciclagem, cabines telefónicas, postos de iluminação pública, caixas multibanco, degraus de escadas, toldos, portões, esculturas, caixas da electricidade, gás e telefones, paragens de autocarro, às vezes nos próprios autocarros. No Verão passado reparei que não existiam, em Paris, carrinhas de transporte comercial que não estivessem completamente grafitadas com tags. Se existiam, não as vi.
No momento em que o tagger desenha o seu nome sobre uma superfície, declara pertença sobre o objecto grafitado; "este caixote do lixo e este lugar são meus", pensamos nós. Encaramo-lo como declaração de posse e, consequentemente, afirmação de um poder que assenta sobre a insegurança que gera. Um bairro com tags ganha o aspecto desordeiro próprio dos territórios pertencentes a um clã, e não a uma uma comunidade que vive junta, mas independente. A tag parece, assim, constituir uma poderosa afirmação de identidade marginal sem princípios que não os do máfia criminosa. Transmite-nos a impressão de que poderemos ser atacados com uma faca ou um pitbull na primeira esquina. Neste aspecto, a tag reveste uma muito eficaz forma de terrorismo.
Como desejei que o meu hóspede alemão de ontem não tivesse reparado nas horríveis pinturas que mancham as paredes do meu bairro! Mas reparou. A disseminada tag desfeia lugares sobre os quais houve uma tentativa de ordenação urbana, caso da minha rua, e tranforma-os em território aparente inseguro e perigoso. Percebi que foi essa a impressão com que o meu amigo ficou da zona: um subúrbio perigoso!, o que rigorosamente não corresponde à verdade. "Aqui, à noite, não há jovens fazendo distúrbios?", perguntou-me. Expliquei-lhe que vivo num bairro habitado pela classe média-baixa. Ninguém me parece especialmente rico nem especialmente pobre. As pessoas saem de manhã para o trabalho e regressam ao final da tarde, vivem, têm filhos despenteados, mal mas dispendiosamente vestidos, que vão à escola, bebem cervejas, fumam charros e ouvem música inaudível, como qualquer outro jovem. Quem se ocupa, então, da grafitagem das referidas tags? Sem sombra de dúvida, os filhos dos meus vizinhos, pelo que é impossível não me interrogar sobre a tão grande necessidade de inscrição que sentem estes jovens possuidores de computadores pessoais, leitores de mp3, telemóveis topo de gama, roupa de marca, grandes consumidores de bifes, batatas fritas e fast food.
Quando passeio as cadelas atravesso zonas cheias de tags e perco tempo a analisá-las. Normalmente são horríveis. Mal desenhadas. É uma grafitagem gratuita; parece não haver qualquer mensagem a transmitir. Quem as escreveu não possui caligrafia bem definida, e mal sabe desenhar símbolos sobre papel, a esferográfica, quanto mais na parede, e com spray. A legendagem é insignificante: abreviaturas, palavras em inglês incompreensível, vocábulos muito street, como merda, fuck, the boss, qualquer-coisa rules e nicks, muitos nicks, sobrepostos. Abundam nos lugares mais escuros, nomeadamente nas traseiras de prédios. É, portanto, algo que é feito às escondidas, a medo. Quem os faz, fá-los pouco seguro, vigiando os passantes. Quem o faz sente não pertencer a este território, embora viva nele. Mais do que reclamar a sua posse sobre o lugar, parece desejar que o lugar o possua. Ver-se espelhado.
Admitamos que uma assinatura nos inscreve em algo. Temos direito a uma assinatura num bilhete de identidade porque pertencemos a um país, e não porque o país nos pertence. Através da tag, os meus jovens vizinhos reclamam pertença ao mundo, exactamente como quem preenche uma ficha de inscrição para sócio da sociedade filarmónica. "Quero que me admitam no mundo", escrevem, e assinam por baixo, sem saber o que querem. Não é de estranhar que aqueles que trouxemos ao mundo, mas sentem nada poder esperar dele, que em nada acreditam, porque nada lhes oferecemos para acreditar, e que nada esperam, reclamem espaço, identidade, existência. As odiosas tags do meu território dizem-me "eu sou daqui".
Quando Os Delfins cantaram que mais do que a um país, família ou geração pertencíamos só a nós e a mais ninguém, não poderiam ter imaginado as consequências perniciosas de tal filosofia. Cada vez que uma tag é grafitada, o que os jovens do meu bairro reclamam é a simples posse da superfície, e de todos nós, sobre si. Sentiram-na pouco: a posse, e todos precisamos de ser de algo, ser de alguém, e de conhecer os limites dessa pertença, para depois sermos selvagens, sermos nós. Tagging é apenas isso: a geração-nada deseja qualquer coisa. Por exemplo, pertencer. Para eles é já tarde: cresceram num vazio de pertença a ideias, a regras, a obrigações. Não estão filiados nem se filiarão. Não podem aceitar agora o que mais desejam. A tagging é o seu terrorismo inconsciente. E se pensarmos bem, merecemo-lo.