
A masturbação é tradicionalmente um tabu, não porque prejudique a saúde - não é só sexo seguro, é também incesto seguro - ou porque seja ilegal, mas porque temos medo de que nela esteja a verdade do sexo: qualquer coisa que fazemos sempre sozinhos. Os nossos amantes seriam um mero comando ou uma dica para nos lembrar do nosso próprio delírio erótico. Seriam pessoas que nos põem em contacto com outro lugar, deuses ou deusas apesar de si próprios, porque, enquanto pessoas, são demasiado complicadas para nos excitarem. E
Então, porque mantemos, pelo menos aparentemente, o sexo com outras pessoas? Porque é que as incluímos? Se, com a masturbação, se trata de ter o sexo da maneira que se quer, com outra pessoa trata-se de o ter da maneira que não se sabia que se queria. Outras pessoas são outra coisa. A virtude da monogamia é a facilidade com que se pode transformar o sexo em masturbação; o vício da monogamia é que não nos dá outra coisa. Dois podem ser um a mais, mas um também pode.
Quando nos masturbamos, escusado dizê-lo, estamos sempre a ter sexo connosco. Não há nenhuma sugestão de infidelidade, excepto, em certo sentido, relativamente ao nosso parceiro. Mesmo que a masturbação seja o meio de encontrarmos intenso prazer erótico, as nossas fantasias masturbatórias são repetitivas e nada inventivas. É embaraçoso contá-las e maçador ouvi-las. A masturbação, como a monogamia, não costuma dar uma boa história. Mas a monogamia é a coisa desejada.
O nosso compromisso com a monogamia depende do nosso apetite por boas histórias. E do nosso apetite pelo apetite. O único relacionamento verdadeiramente monogâmico é o que mantemos connosco.
Adam Phillips, Monogamia, 2008, Angelus Novus
Tradução de Abel Barros Baptista
Tradução de Abel Barros Baptista