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quarta-feira, dezembro 03, 2008

Um 2009 maravilhoso

Não há nada como, para terminar o dia, e uma pessoa se ir deitar bem disposta, dar uma boa gargalhada. Imaginem que um primeiro-ministro de um país europeu, no meio de uma crise económica danada, responsável pela descida das taxas de juro e do preço da gasolina, comunicava ao país que o ano de 2009 ia ser maravilhoso para os seus cidadãos, que o nível de vida ia melhorar muito, que iam ter mais dinheiro, exactamente porque as taxas de juro e a gasolina baixaram. Imaginem que, ao mesmo tempo, na sala ao lado, o seu ministro da Economia alertava para as necessárias resistências a desenvolver para sobreviver a um ano económico terrível e cheio de adversidades, o de 2009.

segunda-feira, maio 19, 2008

Assuntos da actualidade III

Fumar um cigarro num local proibido, quando fomos nós a proibi-lo, pode configurar uma situação de imoral abuso de poder, a fazer lembrar atitudes próprias dos responsáveis pelos sistemas autoritários do passado, e do presente, mas grave, grave, e isso, sim, poderia tornar-se complicado, seria comprar um diploma e fazê-lo passar por uma situação normal e legítima. Isso aí é que...

terça-feira, março 04, 2008

Os altos e baixos do Poder

Montagem pedida emprestada ao Kaos in the Garden (ele ainda não autorizou o empréstimo...)

A luta dos professores pelo direito a uma avaliação justa e digna, tal como a que devem aos seus alunos, remete-me para uma reflexão que tem a ver com os altos e baixos do Poder, ou seja, o poder do Poder, questão que hei-de moer enquanto não puder matar.

As reivindicações dos professores relativamente às alterações do sistema educativo, que criaram duas classes diferentes de docentes-colegas iguais, excepto em tempo de serviço prestado, são hoje rigorosamente as mesmas de há ano e meio atrás. Nessa altura preparava-se a aplicação do sistema de avaliação de que agora se fala. A diferença é que há um ano atrás, para a opinião pública, os professores eram uma classe preguiçosa e cheia de privilégios. Foi essa a imagem que o poder político, encabeçado pela sombria ministra, promoveu, entre outros através de publicidade que comprou na Imprensa diária, e a que chamou esclarecimento ao público. Pagou, com o dinheiro dos contribuintes, a criação de uma má imagem da classe docente, o que levaria a uma perda de poder dos professores, logo, a uma quebra na sua indesejável força reivindicativa. Tem sido uma das estratégias, sujas, deste Governo.

A mesma Imprensa que deu páginas de opinião anti-professores ao Governo, e divulgou com gáudio a mensagem do Poder, acha, agora, que, se calhar, este sistema de avaliação... é complicado demais, parece a rede do metro de Londres, os prazos são inviáveis...
Manuel Villaverde Cabral afirmou, ontem, no Prós e Contras, que os professores se tornaram uma classe diabolizada pelo poder político. Marcelo Rebelo de Sousa, Domingo passado, declarou que se tinha sentido incomodado com o enxovalho de que tinha sido alvo a ministra no anterior programa de Judite de Sousa, mas que a governante tinha colhido o que semeara. Que a revolta, a tremenda raiva dos professores era consequência de uma desautorização do seu trabalho, do seu estatuto e da sua honra, da qual ela tinha sido a principal agente. Que o desrespeito da ministra pelos professores se tinha reflectido num desrespeito por ela. Ora, o recente volte-face favorável aos professores, e toda a discussão sobre o novo sistema de avaliação dos docentes aprovado pela maioria parlamentar, agora de execução obrigatória, só se tornou possível porque o governo perdeu, nas recentes sondagens, sem apelo nem agravo, a maioria absoluta que já tinha perdido na rua, logo, perdeu poder.

Os professores foram colocados na mó de baixo enquanto o Governo esteve na mó de cima; agora, que Sócrates e pandilha se têm esforçado por cavar a sua cova bem funda, as estruturas pensantes, e satélites do poder, devolvem aos professores a sua voz. E nisso, a honra perdida.
O poder tem os seus seguidistas, que barato o abandonam por poderes mais poderosos. A ver quais serão estes, por agora. O poder vai e vem. Tira e devolve. Embora seja interessante observar estes fenómenos,
considero que há algo de perverso para os professores no facto de a sua luta estar directamente relacionada com as vitórias e derrotas do Governo. É perverso que a desejável mas improvável saída da ministra da avaliação, implique uma derrota política e moral que o Governo não se pode dar ao luxo de admitir.

Mas termos chegado a um ponto em que os últimos cartuchos de crédito de um Governo dependem, tão só, da substituição da sua ministra da educação, não lhe augura grande saúde. E que nenhuma paz se conceda à sua alma! Deixem-no à merecida voragem das aves de rapina suas iguais. A ascensão e a queda sabem melhor em grande!
Entretanto, os professores preparam uma manifestação histórica para o próximo fim-de-semana, e mal posso esperar pelos episódios que se seguem.

domingo, fevereiro 10, 2008

Projectos de um engenheiro diplomado ao Domingo

Um dos edifícios com projecto assinado por José Sócrates. Foto do jornal Público, aqui.

A minha amiga sueca contou-me que no seu país, há uns anos, uma ministra foi obrigada a demitir-se do cargo, após a Imprensa ter descoberto que usava o cartão de crédito do governo para comprar chocolates Toblerone nas bombas onde parava para meter gasolina. O cartão de crédito adstrito às despesas de representação! Toblerone!

A minha amiga sueca acha graça à politica portuguesa. Ri-se e pergunta-me, "mas ele não cai?", "mas vocês não exigem a sua demissão?", "mas como é isso possível", e a seguir telefona para a Suécia e ri-se muito enquanto diz Portugal, Portugal, e uma outra palavra que me soa a palonços, palonços.
Numa democracia moderna, o caso "diploma da Moderna" teria afastado qualquer político do activo. A honra é uma coisa séria, e, quando se perde, está perdida. Ora, se o "diploma da Moderna" apenas feriu o primeiro-ministro, mas de forma alguma o desapeou do cavalo, a polémica sobre os lamentáveis projectos de construção civil numa câmara do centro-norte, não o matará. Quer dizer, Sócrates já está suficientemente morto. Apenas se mantém como chefe do governo cuja principal medida tem consistido na informatização da administração pública. Que os cidadãos não possuam competência para usar o referido software, ou mesmo hardware, não lhe diz respeito. Eduquem-se nas "Novas Oportunidades". Já não é mau. Ele também se formou depois dos 40, e etc., etc. E adquiram portáteis Toshiba.
Realmente, o primeiro-ministro não tem grande saída no que respeita ao caso divulgado pelo jornal Público a semana passada. Se os projectos de facto lhe pertencem, então não respeitou a exclusividade a que estava obrigado enquanto deputado, cargo que exercia à época. Mas isto não lhe causará mais mossa. Alcançar um diploma com data de Domingo é feito de que nem todos se poderão gabar, mas quebrar o dever de exclusividade...
No entanto, a questão do Domingo é importante, como se vê pelos projectos que podem conhecer seguindo o línque (legenda da foto). Um engenheiro de Domingo não pode ser tão expedito como um de segunda-feira. O engenheiro de Domingo fica na cama até às tantas, anda de fato de treino, vai lavar o carro ao Elefante Azul e engana-se a contar centímetros porque bebeu três copitos ao almoço, e está no seu direito. Porque é Domingo. Como pode alguém pretender que o cidadão Sócrates assine projectos melhorzinhos?! Há coisas que o homem realiza sem grande competência: uma é projectar edifícios, a outra, governar um país.

sábado, janeiro 12, 2008

Um país tão desgovernado

Não há problema algum no facto de o governo recuar nas suas medidas. Eu própria mudo de ideias pelo menos uma vez por semana. Ainda na quarta-feira, ao almoço, no snack-bar ao lado da minha fábrica, tive de chamar o senhor Lino, que é como se chama o empregado de mesa, e dizer-lhe, "olhe, desculpe lá, afinal não me traga a feijoada, que ando mal da figadeira; pode ser antes o peixinho", e não houve ondas. A questão não reside na mudança de ideias, mas no facto de, comprovadamente, o governo não pensar o que faz, quando pensa fazer. Trabalha em cima do joelho, logo, mal.
Enquanto habitante da Margem Sul, agrada-me que o distrito de Setúbal tenha sido escolhido como base para o novo aeroporto. No entanto, devo um reparozinho à acção do governo: se a escolha da OTA como localização para um novo aeroporto nunca foi consensual, os estudos adicionais encomendavam-se no momento em que se recebeu a pasta, não após o anúncio da primeira localização e respectiva contestação. E isto vale para todas as tomadas de posição, seguidas de recuo, nas quais o governo do cidadão Sócrates se tem visto envolvido. Primeiro pensa-se, pondera-se, depois age-se com certeza. Para além de que não se governa um país, nem uma casa, atirando culpas para o governo antecessor: avaliam-se situações e resolvem-se problemas.
Se me desse na veneta mandar construir uma vivenda de dois andares, com circuito de manutenção e parque de diversão para cadelas, preocupar-me-ia em eleger um local interessante, e possível, o lote de terreno mais adequado, uma boa arquitecta, empresa de construção civil, materiais, prazos, custos, entre outros. Só após ter reflectido tudo isso muito bem, ter pesado vantagens e desvantagens do empreendimento, me daria ao luxo de o tornar público junto de amigos e conhecidos. Trabalhar à cegas, sem avaliar abrangentemente um projecto, aparentando serviço e eficácia, só aparentando, isso é que jamé.
Igualmente, me sinto no direito de questionar se todas as medidas que o governo tomou até hoje, e nas quais não recuou, foram as melhores. Se calhar dava jeito que o governo reavaliasse, também, uma série de políticas injustas e desastrosas que implementou na Segurança Social, Administração Pública e outras áreas que se tornaria fastidioso enumerar. É legítimo pensar que também nessas se tenha enganado.
Cá fico, portanto, à espera da retractação.


quinta-feira, dezembro 06, 2007

Aguenta e não chora (uma crónica sobre altas finanças)


O Governo pretendia acabar com a poluição mediante a tributação do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP). Portanto, eu que já uso os do supermercado para colocar o lixo doméstico, sendo que os preços dos produtos comprados no Jumbo incluem os gastos da empresa com os ditos, e portanto nem sequer são à borla, passaria a pagar acrescidos cinco cêntimos por cada unidade. Parece-me bem. A algum sítio tem o governo do cidadão Sócrates e conjurados de ir buscar receita, continuando a deixar por resolver os fracassos estruturais, todos culturais, de que padecem as finanças da nação.
Fiquei muito satisfeita, logo de manhã. Ia no carro para a fábrica, ouvi a notícia na TSF, e passei o resto do dia sorrindo. Imposto sobre o saco de plástico: ah, leões! Podia ser finlandesa e ter a melhor educação do mundo. Podia emigrar para o Canadá e beneficiar de excelente Segurança Social. Tinha possibilidade de ir para a Suécia ganhar um bom ordenado. Se quisesse casava com o meu amigo espanhol, reproduzíamo-nos que nem ratos nas clínicas de fertilização humana, e receberia subsídios de maternidade uns atrás dos outros. Mas não, o que eu quero é mesmo ser portuguesa, porque me divirto mais.
Para que possamos não só resolver os nossos problemas ecológicos, como encher os cofres da nação e reduzir o déficit, à custa da pura exploração dos cidadãos, todos já de fio dental, ou seja, matar três coelhos de uma só cajadada, proponho os seguintes impostos: ainda no âmbito do plástico, temos outras realidades altamente poluentes e passíveis de taxa. Isto é só um supor, mas vejamos: Imposto sobre a Garrafa de Plástico (IGdP); Imposto sobre os Pacotes de Batatas Fritas, Bolycaos e outros Snacks (IPBFBeOS); Imposto sobre Embalagens de Legumes, Frutos Secos e Fruta Fresca, ou de Qualquer Natureza, Tipo Detergente, Shampô, Dentífrico e Etc. (IELFSeFFQNTDSDeE). E já agora, para que não se elimine apenas a poluição plástica, vamos à das latas: Imposto sobre Todo o Tipo de Lataria (ITTL). Quanto à quantidade de garrafas de cerveja largadas no chão das zonas da noite, muitas delas escaqueiradas: o impostozinho da ordem (IGCLCZN).
Como os postos de trabalho nas empresas de reciclagem diminuirão drasticamente, proponho um plano de acções de formação em processamento de impostos, custeadas pelos trabalhadores, os quais seriam integrados nas repartições de finanças, onde o trabalho se multiplicaria, mas tudo a recibos verdes.
Outros impostos que convinha ponderar devido ao elevado número de cidadãos a que se aplicariam: Imposto sobre a Respiração (IR) - com condições especiais para asmáticos; Imposto sobre o Cagalhão Canino (ICagaCan) - só para donos de cães ou simpatizantes. Neste caso, seria necessário criar uma Polícia do Cagalhão (PolCaga) ou, em alternativa, promover a denúncia entre vizinhos; como os vizinhos bufos são bastante poluentes da atmosfera social, só por existirem, criar-se-ia o Imposto sobre o Bufo (IBufa). Da mesma forma, proponho o Imposto sobre a Estúpidez (IEst), mas, neste caso, o Governo seria o principal contribuinte. Contudo, era apenas dinheiro a entrar e dinheiro a sair, para além de criar postos de trabalho, todos a recibo verde, cujo objectivo seria cobrar o imposto ao Governo e, numa fase posterior, receber o imposto do Governo.
Nunca imaginei a quantidade de interacções contribuitivas que o Imposto sobre o Saco de Plástico podia gerar, pelo que o considero mais uma das geniais ideias deste Executivo.

Sobre o assunto, mas num registo sério, valerá a pena ler este poste no Quarta República.

terça-feira, novembro 06, 2007

Toma-nos por parvos

Antes do Verão, assisti, pela AR TV, a um debate na Assembleia da República no qual a deputada Heloísa Apolónio, dos Verdes, questionava o primeiro-ministro sobre a inclusão da vacinação contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinas, como já acontece noutros países europeus. Sócrates, com a arrogância que lhe é conhecida, praticamente ignorou a interpelação da deputada, respondendo, com enorme desvalor, que tal não era o caso em nenhum outro país da comunidade. Recordo mentalmente a expressão de Heloísa Apolónio perante esta resposta. Riu-se, incrédula. Eu também me ri. Humor negro. Sócrates possui uma incapacidade política grave: é surdo, para além de uma lamentável ausência de sentido de humor. As duas vão levá-lo à mais saborosa derrota política desde Cavaco Silva, e eu cá estarei para ajudar.
Hoje, no debate do Orçamento de Estado, Sócrates, esquecido do que respondeu a Heloísa Apolónio antes das férias, veio anunciar a inclusão da vacina contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinação. Pelos vistos, vamos ser pioneiros na Europa.



domingo, outubro 14, 2007

Aldrabão, traidor, vigarista e ladrão

Emídio Rangel, em artigo de opinião publicado, ontem, na página dois do Correio da Manhã, pergunta:


É democrático um primeiro-ministro deslocar-se oficialmente a uma escola, uma fábrica, uma empresa, eu sei lá, e ser recebido por uma "manifestação espontânea", com trinta ou quarenta cidadãos vindos de fora e que, a par dos assobios, despejam epítetos soezes, como , filho da puta e muitos outros "mimos" que fazem "corar as pedras da calçada"? Um cidadão, legitimado pela escolha dos portugueses em eleições livres, chamado a ser primeiro-ministro, tem de suportar, sempre que se desloca em serviço pelo País, estas ofensas e indignidades?

Resposta:

1. Filho-da-puta, sinceramente, tenho dúvidas. É capaz de ser injusto.

2. Hitler também foi legitimado pela escolha dos alemães, e contudo, a sua obra faz corar as pedras da calçada.

3. A democracia não isenta os cidadãos eleitos de terem de suportar as tempestades que semeiam com os seus ventos.


terça-feira, outubro 09, 2007

Grandes campanhas falhadas II


Todos leram nos jornais que o Ministério da Educação tem estado a oferecer computadores portáteis, bem como respectiva placa para banda larga, aos alunos do secundário que beneficiam do escalão 1 da Acção Social Escolar (ASE), ou seja, aqueles cujo rendimento do agregado familiar é tão baixo que não chega para pagar a conta da electricidade doméstica. Os alunos do escalão 2, cujos familiares conseguem pagar a electricidade de vez em quando, mas que mandaram desligar o telefone, beneficiam de um desconto bastante vantajoso. Os restantes alunos sem benefícios sociais podem obter o mesmo portátil pelo valor inicial de 150 euros, mediante contrato de fidelização com uma empresa de telecomunicações, e por módica quantia. Grande negócio. Para todos: empresa, governo, e, por último, os alunos.

Eu estudei sem computador. Batia os trabalhos à máquina e requisitava livros na biblioteca. O computador, o acesso à net e os downloads não me beneficiaram. Não tenho nada contra a internet. Já nem vivo sem ela. Bem usada é útil a todos. Mas acordemos que o sucesso escolar não depende da posse de um portátil pessoal, em nenhum nível de ensino. Pelo contrário, conheço alunos, alguns são da minha família, cujos pais precisaram de lhes vedar o acesso ao computador para que começassem a tirar uma ou outra positiva de vez em quando.
Creio que a fabulosa campanha "1 aluno, 1 computador" se transformará, no final do ano lectivo, em "a cada aluno o seu chumbo". O barato sai sempre caro.

terça-feira, outubro 02, 2007

Grandes campanhas falhadas

Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!


domingo, setembro 23, 2007

As salas de aula das escolas públicas



O Ministério da Educação considera que a DECO não tem competência para avaliar as condições ambientais nas salas de aula das escolas públicas, nomeadamente temperatura, circulação de ar e humidade.
Embora compreenda os fundamentos da reacção de Maria de Lurdes Rodrigues, uma vez que o seu ministério é veículo da maior parte das acções de propaganda do governo que integra, considero-a inteiramente responsável pelos ataques discriminatórios que são hoje feitos à escola pública por parte dos lobbies privados - os quais poderão estar na origem do estudo da DECO, ou não.
Maria de Lurdes Rodrigues criou a injusta má imagem que hoje a sociedade tem da escola pública, e dos seus agentes, e pagou-a com dinheiro dos nossos bolsos.
Pela minha parte, não matricularia um filho meu numa escola privada mesmo que a pudesse pagar, e talvez pudesse. Nenhuma escola privada pode garantir melhor educação que uma escola pública, e o motivo é muito simples: o ensino nas escolas privadas continua a ser mantido, em grande parte, por "perninhas" de uma ou duas turmas que os professores das escolas públicas aí fazem com o objectivo de alcançar mais uns tostões. O que as escolas privadas têm, é alunos cujos pais podem pagar melhores explicadores, melhor material e todo um suporte educativo que alguns dos que estão nas escolas públicas nunca conheceram e nunca poderão oferecer aos seus próprios filhos.
As escolas privadas não têm de fazer médias com meninos que vêm do bairro da lata; com meninos que só comem quando comem na escola; com meninos cujos pais saem de casa para o trabalho à hora a que eles entram, e que ainda não chegaram quando toca o despertador de manhã, e que nem sequer lá estão para lhes lavar a roupa, passá-la, dar-lhes o pequeno-almoço e beijá-los. Por este motivo, e só este, as médias das escolas públicas não podem competir com as das escolas privadas.
Agora, quanto às condições ambientais nas salas de aulas das escolas públicas, cada um de nós, que aí tem filhos, sobrinhos, afilhados e vizinhos reconhece que a DECO não errou. Cada um de nós sabe que mesmo nas melhores escolas públicas do país, os alunos permanecem com os quispos vestidos nas salas, onde a temperatura média rondará os 12/14º, no Sul, todo o Inverno, e que em Maio dificilmente aí respiram, transpirando hormonas até à náusea colectiva. É um facto que qualquer jornalista poderá constatar em entrevistas aos estudantes à saída dos portões das escolas. E o ministério sabe-o muito bem.

(Muitas professoras e professores lêem O Mundo Perfeito. Gostaria de lhes pedir que aqui se manifestassem relativamente às condições das salas de aula nas quais leccionam.)

sexta-feira, junho 29, 2007

Do desenrascanço em ditadura





Tenho uma ideia para contornar este lamentável imbróglio do deficit de liberdade de expressão, proibindo funcionários de manter a alegria no trabalho, ao afixar comentários jocosos sobre o patrão ou patroa, nos placards do emprego.
Façamos assim: os funcionários do BCP pedem aos seus amigos e familiares funcionários públicos que afixem as expressivas mensagens de indignação nos placards dos ministérios onde trabalham. Por sua vez, os funcionários do banco encarregam-se de colar por todos os BCP's do universo fotocópias do certificado de habilitações do cidadão Sócrates.
Dentro da função pública, o problema pode resolver-se da seguinte forma: o pessoal médico entrega caricaturas do ministro, e respectivas legendas jocosas, aos funcionários do ministério da educação, para abundante afixação pelas escolas. Os funcionários da educação, por sua vez, carregam o pessoal médico de panfletos a espalhar por hospitais, e centros de saúde, com a carantonha da ministra lamentando-se: "diz-me, espelho meu, porque tenho medo, tanto, tanto medo de ir às escolas com aviso prévio?"
E assim já ninguém pode ver-se acusado de estar a gozar o patrão dentro do próprio local de trabalho.

quinta-feira, junho 21, 2007

Os cornos do diabo

Por que é que o cidadão Sócrates processa o autor de Do Portugal Profundo e não o jornal Público?

1 - Porque o Do Portugal Profundo acertou com os dedos todos na ferida.
2 - Porque o
Público não é uma "fonte muito perto da fonte" que lhe interesse calar.
3 - Porque a comunicação social "organizada" é controlável.
4 - Porque a blogosfera ganhou mais poder como veículo de opinião.
5 - Porque a única oposição relevante se situa na blogosfera, não na comunicação social (a oposição eleita democraticamente, e com assento na Assembleia da República, limita-se a ver os bois passar - desculpem a informação redundante.)
6 - Porque o cidadão Sócrates tem mais medo à blogosfera que aos cornos do diabo, e nos quer avisarzinho, e amedrontarzinho, para a gente ter cuidadinho com o tecladozinho, z, z, z.

segunda-feira, abril 23, 2007

O AVC que Eusébio não sofreu


Eusébio sentiu tonturas na madrugada de sábado, tendo-se deslocado a um hospital privado onde foi imediatamente examinado. A situação justificava internamento seguido de operação, a qual teve hoje lugar, com sucesso.
Fico feliz por saber que um cidadão foi correctamente assistido, e alvo de intervenção cirúrgica, num curtíssimo espaço de tempo. Eis um exemplo de excelente acção médica. Intervindo precocemente, podem evitar-se problemas graves e incapacitantes. Portanto, neste caso foi possível tratar o que frequentemente já nem é remediável.
Proponho, agora, um elementar exercício de cálculo: quantos AVC's viria a ter o Eusébio se ganhasse 800 euros, não tivesse seguro de saúde, não parecesse Eusébio, e tivesse recorrido à urgência do hospital da sua área?

Compliquemos mais: tratando-se de uma vulgar tontura, que o cidadão comum não tem a obrigação de associar a problemas graves de saúde, imaginemos que Eusébio, que não se pareceria com o Eusébio, marcaria consulta no médico de família para daqui a 2 ou 3 semanas, o qual lhe haveria de passar uma guia para realização de electrocardiograma e análises - mas só algumas, porque os médicos têm plafond de exames, tal como os profs, de fotocópias de fichas. Os resultados haveria Eusébio de os mostrar ao respectivo clínico, dentro de 1 mês, 1 mês e picos, para que este, esperamos nós!, considerasse passar-lhe a necessária credencial de consulta externa no hospital, a qual lhe seria marcada, com carácter de urgência, ou seja, para daqui a 5, 10 meses, talvez mesmo um ano. Ou dois.
Quantos AVC's é que Eusébio teria tempo de sofrer?

sexta-feira, abril 20, 2007

Eles comem tudo e não deixam nada

Coitado do senhor primeiro-ministro! Os exames ou trabalhos de licenciatura foram-lhe todos destruídos pela universidade sem quaisquer escrúpulos. Como se não bastasse, os serviços parlamentares deram sumiço aos documentos originais constantes do seu registo biográfico. Desapareceu tudo. Kaput! Que azar! Que perseguição maldita! Que coincidência fatal!
Espanta-me a falta de respeito com que neste país se tratam documentos relativos a um Secretário de Estado, a um deputado. Aposto que os meus registos profissinais, exames e outros, porcarias que não interessam ao Menino Jesus, estarão a criar bolor em arquivo morto, algures. Realmente, não há como ser-se um cidadão vulgar, e cumpridor, sem papel timbrado, para que a nossa inútil memória escrita perdure através dos séculos. Já os dados referentes a indivíduos com altos cargos em responsabilidade e honra, os quais interessaria conservar para efeitos biográficos, e elaboração da futura história económica e política, desaparecem sem rasto, sistematicamente. Corre-se o risco de nunca se vir a saber a verdade sobre o esforçado percurso de tão insignes personalidades.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Petróleo para o fogareiro, e, e...

Está bem que temos os salários mais baixos da média europeia, mas, em compensação, temos a terceira gasolina mais cara da Europa, e esse pódio ninguém nos tira!

quarta-feira, novembro 15, 2006

O poder do circo, mesmo sem pão

Eduardo Prado Coelho interroga-se, no Público de hoje, sobre a necessidade de se gastar um milhão de euros em iluminação de Natal, paga com dinheiros públicos, na cidade de Lisboa.
Junte-se-lhe a factura do Porto, e também as de Coimbra, e de Braga, e de todas as capitais de distrito e concelho, não esquecendo os fogos-de-artifício habituais, e as festas de fim-de-ano, e quererei saber, lá para os meados de Fevereiro, quanto se gastou em luzinhas e decorações.
Sou accionista desta empresa chamada Portugal, e tenho os meus direitos. Preferia deter acções da Portucel, mas a cada um o seu quinhão de graça ou desgraça.

As iluminações de Natal são mesmo necessárias?
São!

Tirem tudo ao povo, mas não lhe tirem o Natal. Ou melhor: o circo do Natal; a azáfama das compras na loja dos chineses; os fritos; a família que se ama ou odeia; o bacalhau, mesmo de segunda; o bolo-rei do dia anterior; o vinho, mesmo de pacote.
Mantenham-se calmas as hostes. E, pensando bem, três ou quatro milhões em iluminação, não saem escandalosamente caros à ditadura. Outras acções de campanha para o país inteiro têm desperdiçado muito mais fundos.
Convém que os portugueses mantenham a ilusão de que alcançam alguma luz (ao fundo do túnel), mesmo que sejam apenas reflexos de gambiarras; que julguem que ainda resta o Natal, a alegria do Natal. Que nada muda significativamente enquanto o Natal permanecer Natal.
Lá no fundo, a água que corre nos lençóis freáticos está gelada e suja. Mas que ninguém perceba!
Eu queria ver o País às escuras na noite de Natal. E no Ano Novo. Zero desfiles de Carnaval. Dessa escuridão poderia sair a única luz que nos interessa: rasgamento dos mantos diáfanos da fantasia: uma janela escancarrada para a verdade: isso mesmo, revolução, evolução!


quinta-feira, novembro 09, 2006

Voltando à vaca fria II

Maria de Lurdes, patroa, afirmou, num almoço de secretários pago com o salário dos próprios, e não com fundos resultantes dos impostos dos seus empregados, que está a pensar não autorizar o gozo de pausa no Carnaval. Isto, porque, "Carnaval têm eles todos os dias, e assim-comássim já estão habituados", concluiu, muito justificadamente, a referida gestora.

Voltando à vaca fria I

Maria de Lurdes, patroa, prepara-se para autorizar os seus empregados a gozar meia pausa, no período do Natal, mas só com declaração assinada pelo cura da freguesia, posteriormente carimbada na junta, comprovando que são cristãos, de preferência ortodoxos, que vão à missa do galo, e que comungam contritamente.
Quanto às restantes comunidades religiosas, testemunhas de Jeová, budistas, hindus, muçulmanos, espíritas, satânicos, etc., Maria de Lurdes pondera a hipótese de lhes conceder tolerância de ponto no dia 24 de Dezembro, autorizando que saiam aí pelas 18h23, mais coisa, menos coisa.
Maria de Lurdes mandará comprar duas páginas inteiras de um jornal diário de grande tiragem, ao fim-de-semana, para divulgar a bondosa medida. Realizará, em breve, conferência de imprensa para anunciar que pagará tudo do seu bolso, e nada com os fundos que lhe chegam dos impostos dos seus empregados. E que quando deixar de ser patroa, nada ficará como foi antes, olé!

sábado, novembro 04, 2006

Portugal: um catálogo de feudalismos no século XXI

(Resposta ao comentário de um leitor, neste poste.)

A comparação que estabelece entre Madeira e Portugal parece-me bem apropriada.
Lembro-me do desperdício que fizemos dos dinheiros da Europa Civilizada nos primeiros tempos, e parece-me natural que ela nos tenha fechado a torneira.
Pássamos a pertencer à Europa, mas não nos "civilizámos", continuando a funcionar como corruptos do terceiro mundo, onde uma nota a untar as mãos resolve muito.
Mudámos a aparência, porque somos peritos em aparências.
NO ENTANTO, e já vou à Madeira em concreto, civilizar não é tornar autista. Civilizar não é ficar surdo e cego, ter perdido o tacto, como acontece com este desastroso governo. Civilizar não é instaurar novos estados autoritários, infantilizando os cidadãos que elegerem quem governa. É insultuoso que assim seja. É inaceitável.
Se numa casa não há dinheiro, corta-se no desnecessário, sim, mas não no essencial da sáude nem da educação ou justiça. Corta-se nas contas de telemóvel paternas, nas despesas em consumíveis de escritório (dou um exemplo: sabe quantos milhões gasta o gabinete do primeiro-ministro em material de escritório e comunicações?).
Cortar cegamente não é uma boa política. Cortar nas despesas com os "filhos" e manter as suas é altamente questionável. Portanto, este governo cego, surdo, autista, insensível, não é um bom governo. Governa-nos mal! Governa-se bem. E, nisso, mantém-se igual a qualquer outro. Portanto, que venha de cima o exemplo, e que seja edificante.

Agora, Madeira:
- a afirmação de AJJardim é correcta. Temos todos sido vítimas de uma campanha de mentiras. Este governo é especialista em desinformação, em calúnia. Em estratégias de marketing e desculpabilização de si mesmo. Um discurso da dificuldade, mal disfarçado de afecto, de "coitadinhos de nós, tem que ser". Portanto, nesse aspecto, AJJardim acertou, de forma geral.
No seu caso particular, AJJ governa os dinheiros regionais sem parcimónia, privilegiando os privilegiados, sabe-se. Não é que a Madeira não precise de dinheiro, porque cinco quilómetros acima da cidade do Funchal, e do outro lado da ilha, continua-se a viver em grande pobreza.
O Funchal está bonitinho, desenvolvido, limpinho, arranjadinho, nem parece Portugal, mas em subindo por aquela serra, as pessoas continuam sem canalizações para esgotos, sem apreço pela educação ou pela cultura, e os costumes são um bocado medievais, para dizer a verdade.
Portanto, o dinheiro da Madeira tem sido desbaratado por um racista, xenófobo, crápula sem moral nem ética, que bem merece uns apertões, sendo que o maior deles seria não voltar a ser eleito.
Mas para isso era necessário que os madeirenses recebessem educação para ultrapassar o feudalismo. Não aconteceu até agora. E com AJJ não vai acontecer.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...