Estacionei, subi pelas escadas rolantes que desembocam no meeting point do centro comercial, a fervilhar de povoléu; esfomeada, ferida de colossal neura. Precisava de comer qualquer coisa rapidamente, um leite creme, por exemplo, um avantajado leite creme no restaurante típico alentejano, qualquer coisa substancial, porque a fome era muita; já não comia desde o almoço, ou seja, já lá iam 3 horas...
A caminho do piso 2, onde seria possível saciar-me, atravessei o labirinto de corredores com lojas que, nos centros comerciais, obrigatoriamente temos de cruzar até chegar aos lugares que interessam. Parei numa montra de anéis; ficavam-me todos bem e imaginei-os na minha mão, esticando os dedos; olhei para a montra de relógios modernos, deitei-lhes o olho, lembrei-me de como preciso de um relógio decente; passei uma loja de roupa e estaquei, hipnotizada: uma blusa de linho branco, 100%, levemente bordada por finíssimo fio azul, corte medieval... que bem ficava com as calças de ganga novas. Entrei, arrebatei-a do bastidor, escolhi uma écharpe esvoaçante a condizer... entretanto, os olhos foram bater numa outra, excelente algodão, 100%, decotada no peito e nas costas para lá do razoável, estampada, duas orquídeas cor de lava, exactamente no tom da saia nova, comprada com as calças...
Escolhi uma gargantilha a condizer, para que o peito não ficasse tão nu. Gabinete de provas.
E não é que aquilo me ficava deliciosamente, como se tivesse sido costurado de propósito para o meu corpo, o meu tom de pele, a minha cor de olhos e cabelo! Tudo. Mirei-me, aprovadora. Saí do gabinete de provas para me observar no espelho maior, de longe... Remirei-me, ofereci-me com agrado a todos os olhares - que agradeci, com um leve sorriso.
Retornei ao gabinete de provas, dobrei com cuidado a farpela, procurei o cartão de crédito, e, num ápice, dei comigo na caixa; logo a seguir, fora da loja, com um saco na mão. Feliz, feliz, feliz... sem vestígios de fome, enojada só de pensar em leite creme, os olhos a brilhar, fabuloso humor...
Fui sentar-me, muito civilizadamente, numa pequena mesa redonda do Café de Roma, a beber, com classe, uma meia de leite com adoçante, de perna cruzada, pescoço levantado, sentindo-me a mulher mais sexy do planeta, antecipando os maravilhosos dias que a metereologia me vai oferecer, esta semana, para que possa estrear os trapinhos novos e sair à rua como uma deusa - é como me vou sentir quando me olhar ao espelho, dez segundos antes de atravessar a porta! - caminhando natural e indiferentemente, fazendo de conta que não sei que estou maravilhosa, que sou maravilhosa, fazendo de conta que sou todo o meu perfume, a totalidade da minha cor, o rasto a fêmea que deixo atrás dos meus passos.
A moral da história, claro, deixo ao vosso critério.