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terça-feira, março 07, 2017

Roupa em 2ª mão

Foto: Yuki Onodera


Tenho muita roupa que me está larga ou apertada ou que já não uso. Debato-me com duas hipóteses, doá-la à Humana, fundação que financia projectos de desenvolvimento em África, através da venda de peças em 2ª mão, ou tentar negociá-la numa loja em Lisboa, ainda não sei qual. Aceito indicações. Talvez opte por uma solução mista, que consistirá em doar uma parte e vender outra.
Estou a escrever isto porque enquanto seleccionava as peças de que quero desfazer-me, deparei-me com t-shirts dos anos 80, blusas e túnicas que a minha mãe me fez quando ainda podia. Já não as uso, mas não sou capaz de me ver livre delas. Estive quase, mas ao olhar para os costurados da minha mãe, desisti. Seria como deitar fora uma parte da minha vida, e mesmo considerando que seja bom isso de se deitar fora partes inteiras da vida, estas não quero. Tenho-lhes demasiado afecto. Estou presa por vício a essa juventude, a esse amor dedicado. Há uma t-shirt de riscas vermelhas que nem me fica particularmente bem, mas que usei muito; vivi muitos dias com ela no corpo, e não consigo...
Há trapos que vou ter de carregar sempre comigo, e que alguém, um dia, deitará fora por mim ou venderá a bom preço para uma loja vintage.

Uma doce tarde de sesta

Não vou dizer que ela saltou para cima da cama e me lambeu a cara toda. Seria mentira. Ela já estava em cima da cama há muito tempo, procurou a minha cara, a arfar, e lambeu-ma toda.
Tinha-a tirado do seu cestinho, umas horas antes, dizendo-lhe, agora vamos dormir uma sestinha as duas, e metia-a comigo na cama. Eu tinha frio, e ela é um cobertor, o meu conforto. Dormimos uma bela sesta.
Depois ela acordou-me. Eram horas de comer. Ri-me e disse-lhe, conheço-te tão bem, conheço-te tão bem, e correspondi aos seus beijos e fiz-lhe festas. Sei-te de cor, disse ainda, e comecei a cantar-lhe o Sei-te de Cor do Paulo Gonzo, sei porque becos te escondes/ sei ao pormenor o teu melhor e o pior/ sei de ti mais do que queria /numa palavra diria / sei-te de cor, e percebia-se que ela estava a gostar. É praticamente o único ser que gosta de me ouvir cantar. Ela e o meu pai. A minha prima afastada diz que o meu pai compreendia-se, porque era meu pai.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Todas as horas

Imagem: Mary Ellen Mark, Matt Dillon, 1983


Estive a fazer zapping. Num canal qualquer passava um filme com o Harrison Ford muito jovem, muito belo, e uma actriz que não reconheci, com os olhos azuis cheios de rimel. Estavam abraçados na cama. Ela dizia-lhe, não sabia que isto estava certo. Tenho passado todas as horas, de todos os dias, esforçando-me por te esquecer, sem perceber que o que tenho é passado todas as horas a lembrar-te. Era mais ou menos assim.

domingo, janeiro 11, 2009

Uma noite de sexo num hotel de estrada

Foto: Charlie Schreiner, Hand on TV, 2002, USA


A minha libido está adormecida, disse-lhe eu, mas quando passo por estes hóteis de estrada acorda completamente e só me apetece sexo, sexo, sexo abstracto.
Ela riu-se e exclamou como gostaria que a sua também tivesse adormecido... que essa noite tinha sonhado com um homem com duas pilas.... que se preparava para ter sexo com ele, mas acordou e estava a masturbar-se na sua cama... e só depois acordou verdadeiramente e verificou que a masturbação também era sonho.
Ri-me eu. Um homem com duas pilas... Uma já dá tanto trabalho! Não, a minha libido adormeceu. E ainda olhei para trás, vislumbrando as traseiras do hotel de estrada onde gostaria de passar uma noite quente, uma aventura apaixonada. Isso, apaixonada. Mas a minha capacidade para a paixão também adormeceu. Essa emoção que vem directamente do estômago para a garganta, perdeu-se. A semana passada, num zapping, apanhei o final de uma série, num canal qualquer. Apenas 30 segundos. Duas personagens, um homem e uma mulher, terminavam um diálogo e ficavam a olhar-se com desejo ainda não concretizado. Reconheci aquele olhar, aquela emoção. E parei; olhava para o écran mas não via a imagem. Imaginava a outra cena gravada na minha memória. Eu estava sentada no chão de um quarto com um rapaz mais ou menos da minha idade, folheávamos livros, revistas, papéis, textos. Era o quarto dele. Dissemos alguma coisa, olhámos um para o outro, ficámos parados nesse olhar demorado que substituía palavras, até que avancei e o beijei com sede e alívio. Nunca fui mulher de hesitações. Foi esse momento que vi. Muito bonito, muito apaixonado, muito desconfortável como recordação. E, claro, estragou-me a noite. A memória, que tão rapidamente se evapora, bem poderia fazer-nos o favor de apagar esses momentos que já não queremos recordar. Trocaria esta memória pela do nome e argumento de todos os bons filmes que vi, por exemplo. Para que quero eu recordar este beijo que nunca deveria ter acontecido?
Como poderia estar acordada a libido de uma mulher cuja capacidade de amar parou no tempo? Como poderia a mulher que recorda o beijo no chão do quarto ter uma aventura de sexo abstracto num hotel de estrada?
O que eu quero e o que eu sou não passa de uma fantasia inconcretizável, mesmo que possível.

sábado, novembro 22, 2008

Tudo o que há para aprender sobre o amor


Lucien Freud

Fomos as três à praia, corremos, fizemos buracos na areia, lemos 20 páginas de um livro do Coeetze, bebemos chá e chegámos a casa bem ensonadas. Deitámo-nos, ainda havia réstias de sol no horizonte, e adormecemos na paz do universo. Acordámos por volta das 9; ouviam-se as múltiplas sirenes das ambulâncias e dos carros de bombeiros misturadas com as luzes poéticas da cidade. Um grande rebuliço lá fora e nós muito quentinhas na cama. Levantámo-nos brevemente. Comemos porque tínhamos fome. Fizémos xi-xi porque era uma urgência. Concluimos que se estava bem no ninho, por isso metemo-nos outra vez na cama, umas a ler, outras a dormir. Tapei as pernas da Micas e disse-lhe, se não estiverem quentinhas depois vão doer-te. Disse à Morena, chega-te para lá, que estás toda no meu lugar. Mexeu-se um bocado. Estivemos assim toda a noite. Apagámos a luz por volta da uma. Dormimos embaladas pelos sonos mútuos, ouvindo sem ouvir os ruídos produzidos, sentindo sem sentir os movimentos em que se muda o corpo de posição, uma perna, um braço, o tronco todo, e nos empurramos, e aconchegamos, e quando acordámos percebemos sem perceber, porque era sobretudo um sentimento inexprimível, que há muitos anos nos havíamos transformado em apenas uma.

sábado, novembro 01, 2008

Este amor


Às seis da manhã, talvez às sete ou às oito, se calhar às cinco, a Morena enfiou-se por dentro da roupa e aninhou-se no ângulo entre as minhas coxas e barriga, e ficou ali muito quentinha, muito cheia de pêlo macio e eu acordei e adormeci confortada com este amor.

terça-feira, outubro 28, 2008

Mulher de 40 anos


Não, não gosto dele. A vida seguiu outro rumo. Sim, é verdade que não resisto a espreitar para dentro da janela da sua casa quando por lá passo, mas é apenas um hábito. Não tem as cortinas corridas, e é impossível deixar de reparar que as almofadas estão sobre os sofás, ou caídas, que a mesa está posta, ou ainda não, que os cães se estiram nos tapetes, ou os brinquedos das miúdas estão espalhados ao canto. Desviar o olhar, sim, seria dar excessiva importância ao que não a tem.
Ontem, até disse ao meu amigo sexy, eu cá não tenho ilusões conjugais ou de qualquer tipo de união, o que elimina da minha vida a hipótese do amor concretizado. O que me dava jeito, disse-lhe, era um homem asseado, de boas falas, que cá viesse de 15 em 15 dias, ou que eu lá fosse, mas que por amor de todos os santinhos, não me deixasse roupa para lavar nem louça, nem me chateasse com ciúmes e manias, e de forma geral não ocupasse demasiado o meu espaço físico e mental. Um homem com quem trocasse ideias, que eu ouvisse, que me ouvisse, já seria pedir demais, já tenho idade para saber que algumas coisas não passam de ideal, mas alguém de quem pudesse sentir saudades, enfim, a quem telefonasse duas vezes por semana.
Tudo isto é a prova provada de que não gosto dele. Que espreito pela sua janela só por vício de ver. Não queria ter a sua vida. Não queria ter com ele a vida que tem com outros nem a vida que poderia ter comigo, se tivesse existido. Agora já me tornei um bicho. Uma mulher com cabeça de cão. Quero dizer, agora, tudo isso, é tarde demais.

terça-feira, setembro 30, 2008

Nada é ridículo


As minhas cartas de amor não são ridículas. Quer dizer, eu não me sinto ridícula porque escrevo e destino a alguém as minhas cartas de amor. Se calhar sou ridícula. Mas o que não vemos não nos mata. Se o objecto do meu amor se ri das minhas palavras, se se enfurece com elas, se os assistentes se divertem no circo das minhas cartas de amor, isso é com eles. Eu amo, e no meu amor nada é ridículo.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Substância eterna do amor


Foto: Gregory Crewdson


Abro os olhos, e ao longe alcanço as altas montanhas negras que teria de transpor durante um longo, rigoroso inverno para te alcançar. Haveria de me enterrar na neve e gelar e passar fome. Imagino-me perdida, moribunda, mas cantando lá, lá, lá. Escutas? É o meu fantasma futuro. Que alegria a concessão da graça divina de poder enterrar-me na neve, e passar fome para te vislumbrar do outro lado, sério, muito sério, medroso, amante, ainda duvidoso, incerto, mas ver-te, e seres tu aquele, e que o que fosses estivesse cheio do teu primeiro lapso de tempo na noite.


Nota: versão de um poema que é a versão de outro poema

sexta-feira, setembro 26, 2008

Ex-amantes


O meu ex-amante odeia-me.
O que resta dos ex-amantes é a força demente com que se culpam e odeiam.


sexta-feira, setembro 12, 2008

A meteorologia do amor



Consigo escutar o vento na foto de Cartier-Bresson que ilustra o texto aqui publicado anteontem. Faz um frio de rachar, e a atmosfera carregada de humidade, de gotas de água salgada, cheira a mar batido. Rodeados pela intrepidez da natureza invernal, sentindo-a, contudo imunes a ela, os amantes sorriem. Sorririam se nevasse, se chovesse, se a temperatura baixasse para níveis insuportáveis. Desejam estar juntos e esse desejo suplanta a necessidade de conforto. O conforto é estarem juntos, sejam as condições o que forem.
Reconhecemos estes sentimentos desde o tempo em que vivemos um amor. Éramos novos e não tínhamos casa exactamente nossa onde os beijos, os afagos inocentes, depois adiantados, pudessem esconder-se. Deambulávamos pelos locais mais ou menos desertos. No Inverno, na praia gelada, fazíamos amor na areia, sentindo-a húmida debaixo de nós. Enregelávamos. Constipávamo-nos. A Costa da Caparica era um lugar muito apropriado para o amor. As praias mais afastadas estavam desertas. Mas também me lembro do vento cortante que fazia sempre em Cacilhas, enquanto nos aninhávamos num canto do cais dos cacilheiros para nos enrolarmos em beijos, no calor dos peitos quase afogados. Ainda passo por lá e sei apontar os cantinhos onde beijei os beijos mais afogueados, ao final da tarde, pela noite fora. Já não existe um café mesmo à saída dos barcos, onde nos recolhíamos da chuva. Era um café antiquado, com poucas mesas, muito frequentado por namorados. Na Cruz de Pau havia um outro café, junto à Estrada Nacional, que também procurávamos para fugir à chuva. Ainda existe. Tinha uns pastéis de bacalhau muito abatatados, e os mil-folhas eram de terceira qualidade. Por outro lado, o nosso porta-moedas tinha o dinheiro contadinho. Passo aí todos os dias. Para lá chegarmos tínhamos de nos ir abrigando das bátegas por debaixo das varandas da rua principal, a que desce até à Amora. Ficávamos tão encharcados no Inverno. Não tínhamos um lugar nosso. Éramos apaixonados que ocupavam o espaço público, viandantes.
A minha memória do amor é feita de molduras de frio, de chuva, de dificuldade.
Tive outras pseudo-amores depois desse amor. Menos difíceis, mais rodeados dos devidos equipamentos favoráveis à intimidade, mas não guardei memórias. Já nem me lembro do nome deles. O que aconteceu e onde e como, sei lá dizer! Mas o frio, o vento, e a chuva do amor autêntico perduraram na minha memória e nos meus sentidos até hoje.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Malgas de arroz


As cadelas comem ao final da tarde, numas boas malgas de cerâmica vidrada. A comida é quase sempre arroz ou massa com carne. O arroz é cozinhado com legumes ou azeite ou refogado, ou sem. A carne pode ser de frango, aparas mistas do talho ou uma pasta que vem em latas do Minipreço. Às vezes, sopa. Gostam.
A Morena come lambendo a malga com vagar. A Micas devora o jantar afogueadamente, esfocinhando e abocanhando. Quando acaba, prepara-se para roubar a parte lenta da Morena,e por isso estou sempre de atalaia. A Morena arrepia-lhe o focinho, mas, se está no fim, afasta-se e vai lamber a malga luzidia da companheira. É sempre assim. Os cães têm rotinas que nunca mudam.
No outro dia fui fazer um piquenique com as meninas. Levei mantas, e era minha intenção dormirmos uma bela sesta proletária, ao ar livre, mas não estiveram de acordo. Aproximavam-se do carro, emitiam gemidos que conheço bem. Queriam estender-se dentro do carro, que consideram um prolongamento da casa, ou seja, queriam vir dormir a sesta a casa. O desassossego foi tal que tive de as trazer de volta.
A Micas tem outro hábito muito engraçado: quando levanta a cabeça da malga de comida para descansar do afocinhamento, traz uma pirâmide de arroz com carne sobre o nariz. Rio-me sempre, e digo-lhe, esfomeada.

segunda-feira, julho 21, 2008

O meu dente-de-leão





Quando estava a varrer a cozinha, apareceu-me, dançando com os cabelos da vassoura, uma semente de dente-de-leão. Apanhei-a sem a magoar, e soprei-a. Que lindo! Tinha mil patas de aranha branca e um coração de palha. Larguei a vassoura junto ao lava-louça, e estivemos a brincar. Caía tão lentamente, com tanta suavidade. Como um floco de neve elegante. Se movimentava o meu braço para a direita, ela elevava-se ou virava à esquerda, inesperada. Impedi-a de pairar sobre o frigorífico, porque não queria perdê-la da vista, nem suportaria que ficasse a morrer entalada num sítio onde não pudesse aceder-lhe.
Bailámos
muito tempo, até que reparei na vassoura caída no chão; tinha ainda muito que fazer, e quis guardar a semente de dente-de-leão para brincarmos mais tarde. Como tinha medo que fugisse com a deslocação do ar, ou que acabasse nas patas das cadelas, procurei uma caixa onde pudesse conservá-la certa. Acabei por metê-la numa embalagem quase vazia de chá preto da Zambézia. Continuei a trabalhar, mas quando passava o chão a esfregona, lembrei-me que o chá é muito odorífero, se calhar a semente podia sentir-se mal, ou ter falta de ar assim fechada; eu também não gostava que me fechassem, e, portanto, tinha a certeza que ela seria muito mais feliz se pudesse voar, ser livre para sempre, noutras mãos, ou não. Mas livre para voar com o vento. Abri a caixa do chá, levei-a na mão até à janela, como se fosse um passarinho muito frágil e pequeno, e soprei-a para o infinito.

terça-feira, junho 17, 2008

Os jovens amantes


Li na Visão, creio, que mulheres mais velhas e enxutas, sobretudo no Brasil, mas por todo o chamado Ocidente, Portugal incluído, arranjam rapazes mais novos como parceiros, e que eles não parecem importar-se especialmente com as rugas ou as carnes mais flácidas.
Compreendo ambos os lados: o relacionamento é passageiro, enquanto durar, e frutuoso.
Para eles, porque é sempre passageiro, mesmo jurando fidelidade eterna, essa falácia, mas também porque aventuras com mulheres mais velhas, estabelecidas na vida, os isentam de fazer por ela - é possível levar uma boa vida enquanto elas pagam as contas, desde que ninguém se importe especialmente com isso - em tempos não muito distantes foi quase sempre ao contrário: os homens pagavam para ter em casa e poder exibir amantes jovens, e pagavam bem; para elas, apesar da despesa, tem os seus encantos, oh como as compreendo!, um jovem amante cheiroso, vigoroso, após o inferno dos casamentos anteriores, das obrigações conjugais e tarefas domésticas que estavam excessivamente atribuídas às mulheres. Criados os filhos, ou mais ou menos criados, e estraçalhado, rasgado, em pedaços pelo chão, pisado, o amor em que se acreditou, a ideia de amor, como uma velha bandeira derrotada, é tempo de rir, de gozar, de perder as estribeiras, de atirar ao mar o gasto coração moldado a terra, e com um novo coração aquático, ou etérico, sem ideais, reconstruir para si toda a ideologia amorosa da nossa cultura. O amor, tal como nos foi dado, é uma mentira aprazada. Desse amor resta companheirismo, hábito, fraternidade. Dura cinco dias. Tem, como tudo, princípio e fim nesta terra. As estruturas que sobre ele assentam são enormes mentiras. Não estão em crise, mas em prelúdio da extinção.

quinta-feira, junho 12, 2008

Um dia fui muito nova

Foto de Stanko Abadzic, Girl with fish necklace, 2006


Tenho recordações muito vagas das festas de Santo António. Uma mole infame e suada subindo Alfama até ao Castelo - uma loucura de carnes e vozes e mãos. Nada de interessante a comunicar. Estamos aqui todos juntos, estamos aqui no meio, tentando furar, bebendo cerveja já morna, ou vinho ou qualquer coisa, porque é o que se faz.
Uma sardinhada com três conspiradores, e não sabia que seria contra mim, no antigo jardim de São Pedro de Alcântara. Acho que me ri. E bebi. Era inocente e tinha os olhos muito amarelos.
Lembro-me de beijos ao final da noite. Muitos, perdidos, cheios de fome, mordidos, a pouco. Mas afinal não era nada, apenas uma boca que mordia, que lambuzava, como carne que pede sal.

domingo, junho 08, 2008

Meu amor eterno

Entraste. Ouvi os teus passos. Andaste a trabucar fora do quarto, e depois entraste, estava tão concentrada, e no meu inconsciente pensei, entrou, e pensei, entrou uma pessoa, mas depois lembrei-me que estava sozinha, e voltei-me, e eras tu, Morena.

quinta-feira, maio 29, 2008

O amor eterno

Amou-a 20 anos em silêncio, mas um dia ela pronunciou "lábios", "mijo" e "lixo" numa mesma frase. Ele não gostou. Pareceu-lhe porco, pareceu-lhe vil, injusto. Que mulher horrenda, que desperdício de sentimento. E em 20 minutos desamou-a. Que digo eu? Em 20 segundos desamou-a para sempre. Respirou fundo e retomou a vida.
Sim, o amor é cego, mas quando vê, oh, meu Deus, quando começa a ver...

quinta-feira, maio 01, 2008

Da poesia

"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"

Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.


sexta-feira, abril 18, 2008

O corpo do meu pai era bom

Foto: Monika Wiechowska, Portrait of my parents


O meu corpo foi uma guerra, era uma guerra, comprou todas as guerras. O meu corpo lutava contra si, corpo-a-corpo, mas o do meu pai era grande, pacífico e de carne. O corpo do meu pai era dele e valia a pena. O seu corpo era o do outro, que estava em mim, mas sem guerra. Redondo, macio, arranhado, o corpo do meu pai dava-se ao riso, às cócegas, ao meu corpo.
O meu pai tinha os pés rosados, de uma pele muito branca e quebradiça; escamava; dizia que era a filária, e que não lhe puxasse as peles. A minha mãe não me deixava andar descalça por causa da filária, que dava muita comichão, e seria preciso queimar a pele, com gelo, até ao osso. O meu pai tinha, nos pés, umas escamas como massa folhada, que desejaria puxar e comer. A carne do meu pai era doce. A pele do meu pai era morna e morena.
Os seus pés eram bem acabados, cheios, com os dedos desenhados ao pormenor, como uma escultura do Renascimento, e as unhas redondinhas, transparentes, brilhantes. À hora da sesta de Domingo, quando eles se deitavam, e eu não tinha que fazer, a não ser brincar com o Piloto, que a minha tia envenenou em Alcobaça, anos mais tarde, e com os gatos, que ficaram em Lourenço Marques, desculpem, no Maputo, e que fugiram atrás das gatas, e foram, de certeza, apanhados, mortos e comidos como coelhos pela pretalhada esfomeada, disse a minha mãe, e que a pretalhada havia de amargar o que tinha feito aos brancos; nessas tardes eu ficava a brincar com os pés do meu pai, atravessada na cama.
A minha tia envenenou-me o Piloto em Abril de 1978, e acusou os vizinhos. Foi nas férias da Páscoa. Embalei o meu cão morto. Nunca tinha tido aninhado um cadáver contra o peito. Tinha os olhos abertos, vidrados, as patas traseiras contorciam-se rasando o focinho, duro, gelado. Segurei-o nos braços, e apertei-o, e chorei sobre o seu corpo inocente a minha culpa, dor, perda, impotência e abandono. Enterrei-o por debaixo da nogueira que existia na fazenda. Mais tarde abateram a nogueira. Os meus tios sempre me olharam com a mesma emoção com que se trata um electrodoméstico. O que era um cão? E que importância tinha o cão da retornada? Que a retornada, que roubara aos pretos, se tinha dado ao luxo de trazer para a Metrópole, quer dizer, para Portugal?! Se para retornados não havia lugar, para cães de retornados...
O meu pai apertava os pés um contra o outro, pressionava-os, fazia força, e ria-se. Eu não conseguiria separá-los, brincar como queria. Os pés do meu pai cheiravam a pêlo de cão. Era um cheiro seco e doce. Os cães cheiram a terra e a pão. Cheiravam a pão, sim, a terra e a pão, e eu queria tanto fazer-lhes cócegas, e morder-lhes, e ele ria-se, e dizia, larga-me rapariga, e eu ria-me, e fazia pior, e a minha mãe dizia, larga o teu pai, rapariga, e eu ignorava-a, tem juízo rapariga, vai para a tua cama rapariga.
O corpo da minha mãe era geométrico e seco. Não tinha autorização para lhe tocar. No corpo da minha mãe apenas me interessava o seu peito grande e mole. Que delícia haveria de ser poder mexer-lhe, mamar, chupar por todo o lado. Apalpar com força. Sacudia-me, está quieta. Tocar na minha mãe era uma atitude pouco própria. O corpo do meu pai, pelo contrário, sólido, redondo, disponível, era uma colina cheia de arbustos e vegetação à qual podia trepar, e sentir, cheirar, beliscar, morder. Puxava-lhe os pêlos, as unhas. A barriga das pernas do meu pai tinha uma curva tão harmoniosa, tão ondulada, e era tão cheia. Simulava que as mordia com muita força, e ele simulava gritar, ai, ai, está quieta rapariga. Que belas pernas tinha o meu pai. Brancas. Nem demasiado musculadas nem gordas, embora fosse gordo. Compridas, torneadas. Os calções assentavam-lhe a matar. Eram umas pernas quase femininas. Atiçava-me, provocador, sorrindo cheio da mesma falta de modéstia que tão bem conheço, querias ter umas pernas tão jeitosinhas como as minhas, Isabela?! Querias, não querias?! As minhas vão à amostra a umas senhoras. Dizia isto muito vez, quando estava bem vestido, vou à amostra a umas senhoras. E eu pensava que brincava. As pernas do meu pai, que raiva. Seguia-se uma competição de beleza de pernas, em que cada um mostrava os seus maiores atractivos e em diversas posições.

A barriga do meu pai descaía quando se deitava de lado. Que solenidade. Que importância, a de uma barriga assim dilatada. Tinha-lhe respeito. Ele protegia-a com os braços, e aos genitais, se bem que os últimos não me causassem interesse. Quando se deitava de lado, se vestia calções largos e curtos, era possível vislumbrar nesses lugares certas sombras medonhas. Desviava o olhar por vergonha e medo e nojo. As partes íntimas do meu pai eram uma mancha escura e mole. Que contacto visual tão desagradável.
Lembro-me do roçar da sua cara mal barbeada na minha cara, nos meus lábios. Vai fazer a barba. Já fiz a barba, agora vê lá. Querias ter uma pela tão maciazinha, não querias, Isabela?! Querias! Era macia. Lembro-me do cheiro a suor do seu pescoço. Suor de homem. Denso. Da massa enorme que era o seu corpo, tão segura, tão certa. Sentar-me ao seu lado, ao seu colo, às suas cavalitas. O corpo do meu pai era um trono. O corpo do meu pai era bom.

O que dele restou encontra-se arrumado numa gaveta da 8ª secção do cemitério do Feijó. Quanto ao resto que lhe pertencia, não consegui arrumá-lo em lugar algum. Não cabia. Não há-de caber.


quinta-feira, abril 17, 2008

Os que me amam

Dali e Gala

O homem era um romântico. Não sei, talvez não. O que é um romântico? Todo o contacto que tomava comigo o perturbava. Se nos víamos de relance na passadeira do Almada Fórum, tremia, e não ousava voltar-se para trás; se nos encontrávamos na Feira do Livro, trocávamos palavras de circunstância, titubeava, percebia que me mentia, que os sentimentos que mantinha por mim permaneciam bem escondidos no seu sorriso social; era a sua sisudez excessiva, os olhos muito abertos, apavorados; se olhava para mim, se me descobria, tremia. Não o percebia trémulo, pelo contrário, parecia-me bem seguro, indiferente, e contudo, eu sabia, ele tremia. Lia uma palavra minha. Descobria-me a caligrafia num livro que alguém lhe emprestara. Ouvia o meu nome no corredor. No elevador parecia-lhe sentir o meu cheiro. Aquela mulher, vista por trás, tinha o meu corpo. Ao longe, pelo corte de cabelo, parecia eu. Uma mulher com dois cães... Uma mulher com uma mãe, talvez levasse a minha a passear. Um carro igual ao meu, mas com outra matrícula. Tremia. Eu era viciante. Eu era o vício. A ideia. A fantasia de mulher. De vida. O sonho. O futuro. O brilho do dia. O sol na solidão do quarto. Podia confiar: eu era o seu mais seguro nada.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...