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terça-feira, março 07, 2017

Tenho o direito a desejar ser comida

Estive hoje a ouvir Vasco Pulido Valente comentar questões que lhe foram colocadas por Manuela Moura Guedes no telejornal da TVI. Passemos à frente as questões, a Manuela Moura Guedes e o jornal televisivo que apresenta.
Vasco Pulido Valente (VPV) fala com os bofes à bofe, como se estivesse a correr a maratona enquanto opina. O microfone não dissimula uns assobios que lhe escapam de qualquer válvula interna meio desapertada. Enfim, o coração ou os pulmões de VPV, ou ambos, estão nas últimas. Eu, que não sou médica, só tive vontade de correr aos estúdios da TVI com umas pastilhas que lhe pediria para deixar desfazer debaixo da língua.
O seu estado de saúde pouco famoso fez-me lembrar uma crónica da sua autoria, publicada no Público de Domingo passado, versando um assunto que tem a ver com saúde, ou melhor, com o direito à sua falta, e com o qual concordei inteiramente. Escrevia VPV:

Um leitor deste jornal, médico em Braga, assistiu estupefacto á minha oposição a uma iniciativa tão útil e tão nobre como a campanha contra a obesidade. (...) A diferença entre mim e o leitor de Braga é a de que o leitor de Braga parece não dar muita importância ao que chama, com certo desprezo, a "presumível liberdade" do individuo, que para mim constitui o fundamento absoluto de uma existência com alguma alegria e alguma nobreza (...). Cada individuo deve ser dono do seu corpo, desde que, evidentemente, não prejudique o outro. Ninguém tem a obrigação de ser um especimen em bom funcionamento, destinado a trabalhar com assiduidade e zelo e a durar até uma extrema e duvidosa velhice. (...) O prazer de comer e de beber (álcool), o prazer do tabaco e outros prazeres que não vale a pena mencionar (como o do sal no pão) são prazeres que se pagam. (... ) Mas não é aceitável que uma sociedade tente trocar os benefícios do SNS pela autonomia e privacidade do cidadão; ou que pretenda regular o comportamento dos seus membros, mesmo numa área à superfície tão inócua como a saúde.

Não serei ingénua: ele canta de galo; sei muito bem que quando lhe estalar a angina de peito, VPV não recorrerá ao SNS, não esperará horas sem fim numa urgência ou corredor de hospital público, atamancado entre indigentes gemeabundos em macas. Não precisa. Também sei que VPV pertence aquela elite que se pode dar ao luxo de não ter saúde, de comprar medicamentos para a tensão arterial sem desconto da Caixa, de não ter de comparecer em juntas médicas que lhe recusam uma pensão por invalidez mesmo que esteja minado de doenças, mas o que escreve é, apesar de tudo, uma verdade incontornável. Somos donos do nosso corpo para a vida e para a morte. Somos seus donos a um ponto tal que, desde que com ele não incomodemos ninguém, tudo nos é permitido fazer-lhe. Inclusive, dar-lhe um fim prematuro, tal como nos apetecer. Isto pode parecer muito estranho, mas do ponto de vista da liberdade individual, o indivíduo, que há uns anos, na Alemanha, combinou ser comido por outro, não praticou crime algum. Eles não dispôs de outros, mas apenas de si. O prazer de ser comido era um direito que lhe assistia. Sofrer de perturbações graves da personalidade, igualmente. Nenhuma doença pode ser constituída um crime, a menos que, e convém sempre repetir isto, não interfira com os direitos alheios. Se no meio dos meus ataques me der para ferir física ou verbalmente o outro, aí termina a minha liberdade e o Estado está no seu legítimo direito de agir, limitar-me, e internar-me à força. Fora isso, meus amigos... é assunto meu.
O corpo interessa-me porque me interesso pelo fenómeno da guerra, e a que travamos com o nosso corpo, e contra o dos outros, é de uma violência que me deixa perplexa. Ao abordar o tema corpo, e as mudanças que o novo mundo trouxe a esta esfera da existência, tenho como princípio esse direito inegável a uma total liberdade sobre si, que como muito bem diz VPV, não pertence ao Estado nem a nenhuma campanha.
Tenho o direito de encurtar a minha vida 10 anos por comer pão com manteiga? Tenho o direito de me transformar num homem e engravidar a seguir?Tenho o direito de mandar amputar o dedo médio da mão direita? De me tatuar? Furar? Rapar? De gostar de levar porrada? Olá, se tenho, desde que não obrigue ninguém a fazer-mo. É o meu corpo e a minha vida, e contra isto, batatas. Algumas questões éticas poderão aqui levantar-se, mas ficarão para outro episódio, contando que os leitores não deixarão me mas lembrar nesta caixa de comentários.


Ontem acordei outra vez mais gorda

Foto: Leonard Nimoy


A foto de Leonard Nimoy apresenta-nos um objecto de carne em abstracto. Não é uma mulher nem um homem nem um porco ou um borrego. É carne gorda. Sem cabeça. A forma como a cabeça é escondida revela claramente que este objecto de carne não é uma pessoa, não tem identidade, não pertence ao mundo. É a gorda, ou o gordo.
Para quem carrega esse estigma desde sempre, e mesmo que a ele tenha sobrevivido digna e teimosamente, esta é uma imagem violenta, que expõe uma desigualdade baseada não em padrões culturais, raciais ou de classe, mas estéticos. É uma imagem dura, desconfortável ao olhar. Toca-nos a todos. Não queremos ser esse feio objecto de rejeição. Essa carne.
Somos desiguais porque somos gordos ou porque somos magros ou porque vestimos roupa esquisita ou rapamos o cabelo ou o temos demasiado comprido. O dia-a-dia assenta nas relações que mantemos com os nossos iguais ou desiguais, sendo que procuramos tanto uns como outros, e ambos nos confirmam. Ao longo da vida tenho-me sentido tratada de forma desigual por ser gorda, e não tolero bem que questionem as minhas razões - é assunto demasiado sensível para suportar que me digam algo como "ilusão tua" - , mas, por outro lado, pressinto que todos se sentem desiguais por motivos diversos. A desigualdade é uma excelente forma de controlo do grau de satisfação das massas, logo, das massas.


sábado, fevereiro 28, 2009

O monstro




As pessoas precisam de tempo para crescer.
Há quinze anos atrás, Mickey Rourke era um miúdo convencido, de voz fanhosa, com desempenhos interessantes, contudo afectados, muito sexy-passivo-agressivos, próprios dos descendentes da escola Actor's Studio. Hoje, é um actor capaz de transformar um filme sem grande história num produto assaz interessante.

O Wrestler não é um filme sobre wrestling nem sobre alguém que cometeu erros que resultaram na perda de família, dinheiro, e amor-próprio. O wrestler é sobre a luta diária. É combinada, mas tem surpresas. É violenta, mas aguenta-se. Eu também me sinto wrestler pelo menos cinco dias por semana. Tenho alturas em que chego a casa cheia de sangue, e, às vezes, chego mesmo a cortar-me com lâminas alegóricas.

O Pedro Paixão criou aquele belíssimo título do Viver Todos Os Dias Cansa. Viver todos os dias cansa mesmo muito. E O Wrestler é um filme sobre um homem cansado, para o qual é demasiado tarde para mudar. Para mudarmos precisamos de alternativas, e ele não as tem. Poderia, enfim, descer a um patamar sem aplausos, mas sejamos realistas, para quem um dia ouviu o clamor das palmas, porque foi o melhor, o processo é bastante irreversível. A aclamação constitui uma deificação fora da qual a vida normal, rasteira, pequena, é impossível. Estou a lembrar-me dos comportamentos da maior parte dos ídolos de Hollywood, entre outros famosos, escritores, por exemplo. Não se comportam todos, a certa altura, como deuses, não sabendo viver de outra forma? Descer a escadaria do céu é a morte.

Considero ofensivo para o talento tão sereno e limpo de Rourke, afirmar-se que se limita a representar documentalmente a sua vida. Nenhum verdadeiro actor representa a sua vida - que interesse teria? Pode acontecer-lhe confrontar-se com o papel de alguém que poderia ter sido ele, o que não deve ser fácil. Imagino como me seria impossível representar-me. Que distanciamento poderia eu manter, a ponto de conseguir trabalhar sem sobressaltos uma personagem? A prova de que Rourke não representa o seu papel é o facto de andar por aí, bem humorado, aparentemente de bem com a vida. Mudado.





A Imprensa nacional e internacional não se cansa de referir a transformação física do actor, ilustrada com fotos de antes e depois, as quais servem para destacar a evolução de homem para monstro. O adjectivo é muito utilizado: o monstro. Todos nos transformamos em voyeurs no intenso desejo de contemplar o rosto do homem que foi o mais belo de Hollywood e hoje se encontra irreconhecível. Uma mistura de horror e comprazimento. Quem é que não gosta de monstros? Um belo freaky show! Até pagamos, não é?

E Mickey Rourke ter-se-á mesmo transformado em monstro?! Penso que sim. Era apenas um homem, um actor, e entretanto a vida passou-lhe toda por cima, como, aliás, nos passa a todos, e deixou sobre si grosseiros rodados, tranformando-o na tal pessoa-monstro e num monstro de actor. Os melhores filmes da sua vida, fa-los-á a partir de agora.

Mas ele não é o único. Olhemos para as nossas fotos de há 20 anos, e reparemos agora no nosso corpo. Nós também mudámos. Em alguns casos também estamos irreconhecíveis. Seria uma incongruência passar pela vida sem a devida bagagem no corpo. As marcas das operações plásticas constituem o mesmo tipo de bagagem. A operação plástica tira as rugas, as cicatrizes, mas opera uma manipulação física, um trabalho de mutilação dita positiva, e isso constitui uma enorme e vísivel cicatriz. Considerando a violência do dia-a-dia, as humilhações que sofremos dentro e fora do ringue de wrestling, havíamos todos de chegar aos 40 anos com o corpo rendado de profundas crateras vísiveis, de cicatrizes indisfarçaveis, como o tronco de árvore que atravessou muitas estações. O rosto de Rourke encaixa-se nesta categoria que me interessa. Não troco o seu rosto de hoje pelo de há vinte anos. Honestamente, não troco o meu corpo de hoje pelo de há vinte anos. Nessa altura detestava-me; hoje aceito o meu corpo, compreendo-o, não lhe exijo o que não pode dar-me.
Por último, o regresso de Rourke, na melhor forma, lúcido, capacíssimo, representa, para quem viveu os anos oitenta, a vitória desta época. A nossa vitória. É verdade que os anos noventa lixaram tudo, mas estamos de volta mais velhos, arrependidos em alguns casos, mas melhores, muito melhores.
Precisamos de tempo para crescer - e de dor; deliberadamente não usei o vocábulo, mas, chegados aqui, liberto-o, e venham-me cá dizer que não valeu quase tudo a pena.

sábado, agosto 09, 2008

As prostitutas andavam decentes


Foto: Anónimo, Nude Hiding her Face, Alemanha, 1920


A caminho de Alfarim com a minha mãe.

- Oh, mãe, e se fôssemos à praia do Meco?
- (ri-se) Só se fosse vestida.
- Não, nuazinhas.
- Nuazinhas andam elas todas nas outras praias, que bem as vejo na televisão. É um fiozinho a tapar o rabo e uma coisinha que só esconde o bico das mamas. Com a anca toda destapada... eu quer-me parecer que os homens já nem ligam.
- (rio-me) Ah, pois não. Antigamente é que era uma vergonha andar nu, não era, mãe?
- Antigamente, os homens ficavam malucos quando viam um bocadinho da perna. Olha, lá em Alcobaça havia as mulheres da casa amarela, as prostitutas; elas andavam decentes, mas nós sabíamos que eram prostitutas porque traziam menos de metade dos joelhos à mostra. Só uma coisinha de nada. Os homens iam esperá-las. Ficavam doidos com elas por causa dos joelhos.

segunda-feira, julho 07, 2008

Mamonas assassinas, 2ª parte





O que acontece, afinal, aos implantes mamários acidentados?! Ou o saco se desloca dentro da mama, quer seja um implante intra ou extramuscular, e se posiciona anormalmente, causando um inchaço e deformando a mama severamente, ou pior, o saco rompe, o que é muito frequente, e o conteúdo espalha-se pelo corpo, o que apresenta alguns riscos para a saúde.

Se o conteúdo for uma solução salina, espalha-se rapidamente, e a mama diminui de tamanho, como um balão que se esvazia. Se for de silicone, os estragos são menores, porque o silicone é uma substância com outra densidade, e não se escapa tão facilmente. Em qualquer dos casos, a mama terá que ser alvo de operação de carácter urgente, para substituição dos implantes acidentados.

A parte pior, a qual me incomoda especialmente, é a que se segue. Tirados os implantes, mediante incisão peri-aureolar, e à mão, claro - o cirurgião mete os dedos dentro do buraco aberto no mamilo, rebusca o implante velho, e extrai-o - o que resta de mama é um saco velho e amarrotado que cai sobre o peito da paciente. Uma pele. Como se nada existisse lá dentro para além do silicone. Nem gordura, nem glândulas mamárias. O Dr. Rey (ver poste de sexta-feira passada) puxa essa pele como se fosse tripa para fazer chouriço, abre-lhe a "boca" mamilar, despeja soro fisiológico, porque é preciso lavar o "saco", e prepara-se para inserir o novo implante. Nesta fase, ou insere um implante ligeiramente menor, ou do mesmo tamanho, mas nesse caso é preciso retirar pele, porque esta esticou bastante com o que já lá esteve, e a operação torna-se mais complicada, com mais cicatrizes; outra opção, a mais escolhida, consiste em inserir um implante maior, em consonância com a pele esticada que é preciso encher.

Em alguns casos o implante é introduzido já cheio, o que é mais difícil, porque o médico tem de o empurrar com os dedos muito para dentro da mama; e o implante lá entra, lá se encaixa, e lá fica apertadinho como o Rossio na rua da Betesga. Noutros, o implante é inserido ainda vazio, e enchem-no mediante um tubo que entra por cada mamilo. Quando os implantes estão cheios, saca-se o tubo e cose-se o resto do mamilo. Vê-se a mama ir enchendo, crescendo de tamanho, como as das bonecas insufláveis.

E é assim que as mamas das americanas vão aumentando de ano para ano, enquanto a pele for esticando.

Aprendi tudo isto só a ver o referido programa (conferir poste de sexta passada). Claro que no meio de todos estes procedimentos, a pergunta que mais me faço é "onde está a mama verdadeira, a que existia antes do implante?", porque tudo o que vejo é uma pele ser cortada, esvaziada, lavada por dentro e de novo esticada. E isto, desculpem lá, já não é uma mama, mas uma mera prótese cujos fins decorativos, de tão artificiais, me escapam. Onde estão as glândulas mamárias daquelas raparigas e mulheres?

Devo dizer que a maior parte destas cenas de bloco operatório são horríveis de se ver, e que de vez em quando tapo os olhos com os braços e pergunto à Morena, já passou?, já passou? Sujeito-me a visionar estes filmes de terror, apenas para informação dos leitores do blogue; atenção, meus amigos, que tanto altruísmo, sinceramente, merecia uma distinção qualquer...

O leitor menos habituado ao meu estilo poderá pensar que sou inimiga da operação plástica, mas não é verdade. A cirurgia plástica e reconstrutiva presta-nos bons serviços, mas este uso que dela se faz, associa o hedonismo ao consumismo da pior forma. Vai longe demais no que considero ser a ética dos actos de natureza médica, promovendo a fobia à natureza do corpo humano e cedendo a uma visão estereotipada da beleza e da perfeição. Não resolve os problemas destas mulheres, os quais não se situam no seu corpo, mas na forma como julgam que os outros as vêem, e como, por consequência, se encaram. Continuam a odiar-se após a primeira operação, e a segunda e a terceira. Os seus corpos estão sempre errados. E destroem-se, literalmente, sem a dignidade do envelhecimento.

Quando olho para o rosto da Manuela Moura Guedes lembro-me de como ela era interessante quando tinha rugas e expressão. Agora não tem rosto, mas uma estranha massa inchada no lugar da face. Que aberrações fazemos ao nosso corpo?!

Eu sei o que é odiar o corpo, porque odiei o meu durante muito tempo, e ainda, cof, cof, mas como dizia a minha psicóloga, de quem me divorciei, é possível que haja quem a ache gorda, mas não serão todas as pessoas a achá-la feia, pois não? E o mais importante é o que você acha de si. Acha-se feia, Isabela? E eu respondi.


(Talvez ainda continue. Não sei. Ça dépend.)

sexta-feira, julho 04, 2008

Mamonas assassinas

Dr. Rey, cirurgião-estrela de Dr. 90210

Desde que mudei para o Meo passei a apanhar um canal televisivo intitulado E!. No essencial, e no acessório, E! consiste numa espécie de revista do coração passada para a televisão. Quem é famoso, quem é o mais famoso entre o famosos, quem é sexy, quem é o mais sexy entre os sexies, episódios de novela da vida real com pessoas que julgo serem vip nos EUA, e o meu programa de humor preferido: Dr.90210. O programa não é de humor, mas para mim é como se fosse: que pratinho.
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.

As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?

(Continua amanhã, ou isso.)

sexta-feira, abril 18, 2008

O corpo do meu pai era bom

Foto: Monika Wiechowska, Portrait of my parents


O meu corpo foi uma guerra, era uma guerra, comprou todas as guerras. O meu corpo lutava contra si, corpo-a-corpo, mas o do meu pai era grande, pacífico e de carne. O corpo do meu pai era dele e valia a pena. O seu corpo era o do outro, que estava em mim, mas sem guerra. Redondo, macio, arranhado, o corpo do meu pai dava-se ao riso, às cócegas, ao meu corpo.
O meu pai tinha os pés rosados, de uma pele muito branca e quebradiça; escamava; dizia que era a filária, e que não lhe puxasse as peles. A minha mãe não me deixava andar descalça por causa da filária, que dava muita comichão, e seria preciso queimar a pele, com gelo, até ao osso. O meu pai tinha, nos pés, umas escamas como massa folhada, que desejaria puxar e comer. A carne do meu pai era doce. A pele do meu pai era morna e morena.
Os seus pés eram bem acabados, cheios, com os dedos desenhados ao pormenor, como uma escultura do Renascimento, e as unhas redondinhas, transparentes, brilhantes. À hora da sesta de Domingo, quando eles se deitavam, e eu não tinha que fazer, a não ser brincar com o Piloto, que a minha tia envenenou em Alcobaça, anos mais tarde, e com os gatos, que ficaram em Lourenço Marques, desculpem, no Maputo, e que fugiram atrás das gatas, e foram, de certeza, apanhados, mortos e comidos como coelhos pela pretalhada esfomeada, disse a minha mãe, e que a pretalhada havia de amargar o que tinha feito aos brancos; nessas tardes eu ficava a brincar com os pés do meu pai, atravessada na cama.
A minha tia envenenou-me o Piloto em Abril de 1978, e acusou os vizinhos. Foi nas férias da Páscoa. Embalei o meu cão morto. Nunca tinha tido aninhado um cadáver contra o peito. Tinha os olhos abertos, vidrados, as patas traseiras contorciam-se rasando o focinho, duro, gelado. Segurei-o nos braços, e apertei-o, e chorei sobre o seu corpo inocente a minha culpa, dor, perda, impotência e abandono. Enterrei-o por debaixo da nogueira que existia na fazenda. Mais tarde abateram a nogueira. Os meus tios sempre me olharam com a mesma emoção com que se trata um electrodoméstico. O que era um cão? E que importância tinha o cão da retornada? Que a retornada, que roubara aos pretos, se tinha dado ao luxo de trazer para a Metrópole, quer dizer, para Portugal?! Se para retornados não havia lugar, para cães de retornados...
O meu pai apertava os pés um contra o outro, pressionava-os, fazia força, e ria-se. Eu não conseguiria separá-los, brincar como queria. Os pés do meu pai cheiravam a pêlo de cão. Era um cheiro seco e doce. Os cães cheiram a terra e a pão. Cheiravam a pão, sim, a terra e a pão, e eu queria tanto fazer-lhes cócegas, e morder-lhes, e ele ria-se, e dizia, larga-me rapariga, e eu ria-me, e fazia pior, e a minha mãe dizia, larga o teu pai, rapariga, e eu ignorava-a, tem juízo rapariga, vai para a tua cama rapariga.
O corpo da minha mãe era geométrico e seco. Não tinha autorização para lhe tocar. No corpo da minha mãe apenas me interessava o seu peito grande e mole. Que delícia haveria de ser poder mexer-lhe, mamar, chupar por todo o lado. Apalpar com força. Sacudia-me, está quieta. Tocar na minha mãe era uma atitude pouco própria. O corpo do meu pai, pelo contrário, sólido, redondo, disponível, era uma colina cheia de arbustos e vegetação à qual podia trepar, e sentir, cheirar, beliscar, morder. Puxava-lhe os pêlos, as unhas. A barriga das pernas do meu pai tinha uma curva tão harmoniosa, tão ondulada, e era tão cheia. Simulava que as mordia com muita força, e ele simulava gritar, ai, ai, está quieta rapariga. Que belas pernas tinha o meu pai. Brancas. Nem demasiado musculadas nem gordas, embora fosse gordo. Compridas, torneadas. Os calções assentavam-lhe a matar. Eram umas pernas quase femininas. Atiçava-me, provocador, sorrindo cheio da mesma falta de modéstia que tão bem conheço, querias ter umas pernas tão jeitosinhas como as minhas, Isabela?! Querias, não querias?! As minhas vão à amostra a umas senhoras. Dizia isto muito vez, quando estava bem vestido, vou à amostra a umas senhoras. E eu pensava que brincava. As pernas do meu pai, que raiva. Seguia-se uma competição de beleza de pernas, em que cada um mostrava os seus maiores atractivos e em diversas posições.

A barriga do meu pai descaía quando se deitava de lado. Que solenidade. Que importância, a de uma barriga assim dilatada. Tinha-lhe respeito. Ele protegia-a com os braços, e aos genitais, se bem que os últimos não me causassem interesse. Quando se deitava de lado, se vestia calções largos e curtos, era possível vislumbrar nesses lugares certas sombras medonhas. Desviava o olhar por vergonha e medo e nojo. As partes íntimas do meu pai eram uma mancha escura e mole. Que contacto visual tão desagradável.
Lembro-me do roçar da sua cara mal barbeada na minha cara, nos meus lábios. Vai fazer a barba. Já fiz a barba, agora vê lá. Querias ter uma pela tão maciazinha, não querias, Isabela?! Querias! Era macia. Lembro-me do cheiro a suor do seu pescoço. Suor de homem. Denso. Da massa enorme que era o seu corpo, tão segura, tão certa. Sentar-me ao seu lado, ao seu colo, às suas cavalitas. O corpo do meu pai era um trono. O corpo do meu pai era bom.

O que dele restou encontra-se arrumado numa gaveta da 8ª secção do cemitério do Feijó. Quanto ao resto que lhe pertencia, não consegui arrumá-lo em lugar algum. Não cabia. Não há-de caber.


domingo, abril 06, 2008

O meu corpo foi à guerra

Foto: Bjorn Moback


Observo o meu corpo nu ao espelho, coisa rara, já que me esforço tanto por esquecer que existe e me mantém em pé. Vou seguindo com os olhos e as mãos o rasto das cicatrizes de múltiplas operações, as manchas, porque me queimei aqui e ali, caí, ou rasguei-me ou fui atacada. O baixo-relevo de uma necrose de tecidos. As estrias na anca, nas coxas, nas mamas. Os sinais de nascimento. As marcas do meu quotidiano, hora após hora. A gordura. As borbulhas da Primavera e as de um chocolate. Um corpo miudamente tatuado pelo tempo, e, nesse aspecto, de uma grande beleza que não poderia ser captada à luz da ideologia estética que alimenta as imagens que consumimos. Seria injusto ter travado com este corpo uma guerra cruel e lenta e não ter podido guardar para sempre as marcas de tão longa batalha.

segunda-feira, novembro 05, 2007

domingo, agosto 12, 2007

É só para a posteridade

Pintura italiana do século XVII.
Retrato de um senhor que também gostava muito de croissantes com fiambre, e de massa com queijo, manjericão e azeite.



Certas funcionalidades das máquinas fotográficas digitais vieram infernizar qualquer inocente fotografia de férias. O zoom, por exemplo, serve apenas para confirmar que já não somos o que ainda imaginaríamos ser, com boa vontade: as manchas na cara, os dentes mais escuros, a falta de pêlo na cabeça e o seu excesso no bigode, a celulite no rabo, uma borbulha que pensávamos ter conseguido disfarçar, as olheiras, a papada, a filha-da-puta da papada... nada engana.
Os instantâneos de férias são o espelho desenfeitiçado da madrasta da Branca de Neve. Não há tempo para perguntar, "diz-me, espelho meu..." Eles dizem-nos cruamente o que não quisemos perguntar nem conseguimos compreender: «Eis a figura que nunca escolherias no catálogo de aspectos. És aquela olheirenta. Vai ali uma gorda de costas, e és tu. Olha os teus dentes. Sim, fazes esta expressão com frequência. As sobrancelhas mal arranjadas?! Não gostas?! És uma mera figura do catálogo da biologia. Quando te moves, gesticulas, falas, ris, amuas, sentes-te uma personagem parecida contigo, mas que não és tu. Detestas-te. És ridícula, não és?! És tu. Isto és tu. Isto é o que os outros vêem, quando te vêem.»

E depois, num segundo momento, pensando bem, qual é o problema de se ser inevitavelmente aquilo que se é? Uma mulher de 30 ou 40, igual a todas as outras, sobre quem não se pensa nada de especial. Que bom! Aquela que vai deitar o lixo às 20, depois do jantar, com chinelos amarelos de enfiar no dedo. A que passeia os cães. A que tem o Opel Corsa azul. A mãe da miúda que namora nas escadas. É simpática? Sorri? Então é bonita. Que maravilha ser apenas um ser humano cuja riqueza depende de um sorriso, de uma palavra agradável.

Outra funcionalidade das modernas máquinas digitais socorre-nos, calando a amarga voz da inimputável lente: o botão do lixo. Carrega-se, e o sistema pergunta-nos, "deseja apagar esta imagem?" Sim, sim. Clique. Imagem apagada. Que alívio. Fintámos o espelho. Continuem a ver-nos como quiserem; como somos. Que interessa? Sei bem que sou uma princesa etérea, toda em ouro, chifon cor-de-rosa e azul-celeste, como nas mais belas ilustrações dos livros infantis que ainda recordo.


sábado, junho 16, 2007

Altruísmo

Monika Wiechowska, Nude on a Sofa


Era uma mulher altruísta, e havia decidido doar o corpo à ciência. Mas a ciência, pensou, "era fria, e não fazia uso cabal de cada centímetro útil de pele arável" - era mais as entranhas: o coração, os fígados, e custava-lhe pensar nas suas partes tão queridas que seriam desperdiçadas, atiradas para a incineradora do hospital como uma vulgar perna amputada.
Por esse motivo, decidiu doar o corpo inteiro, ainda em vida, à associação de lésbicas do seu município, e foi muito mais feliz.

terça-feira, maio 29, 2007

E Deus criou a gorda

Fotos: Amélia
(clique sobre as imagens para aumentá-las)



No final da rua Domingos Sequeira, em Lisboa, ao subir para Campo de Ourique, existe um outdoor da Clínica Persona que parece ter ficado esquecido da campanha do ano passado. Lê-se, em letras garrafais, "Eles não gostam de celulite"; atenção, trata-se de um portal para outra dimensão.

Se são corajosos, venham comigo. Atravessemos o portal. Do outro lado não há diferenças visíveis. A esquina da Caixa Geral de Depósitos, a do café A Tentadora, os eléctricos tocando, o trânsito difícil. Edifícios, pessoas, objectos; tudo igualzinho. No entanto, reparem, as mesmas coisas não têm o mesmo valor. As quatro fotos que aqui publico fazem ali parte de uma campanha publicitária para um novo perfume Dior. Estão a vê-las nos outros outdoors publicitários deste lado? Reparem, por favor.

As páginas de publicidade da Elle, da Vogue, da Marie Claire encontram-se pejadas de voluptuosas modelos com mais de 70 quilos, símbolos sexuais sem mãos a medir para entrevistas nas quais são obrigadas a explicar que regime seguem para manter curvas avantajadas. As mais sortudas não fazem nada. Tiveram a sorte de nascer assim. "São os genes", explicam. "Tive sorte. O meu pai era gordo. A minha avó era gorda..."





Estas mulheres, que todos desejam, e cujas imagens enchem páginas de blogues dedicados à beleza feminina, sentem-se obrigadas a relativizar o seu sex appeal. Sentem que é demais todo esse fascínio pelos seus corpos. Afirmam sentir-se mulheres normais, como quaisquer outras, que o corpo, afinal, não tem assim tanta importância, e que, "hoje em dia, os padrões de beleza têm tendência a tornar-se mais heterogéneos, neles cabendo, também, certo grau de magreza".

Nesta dimensão, a magreza é um estigma infame e um tabu. O assunto evita-se fora da esfera relacionada com os cuidados de saúde. Pode dizer-se a uma mulher que está mais gorda, "que linda estás, assim gordinha". Nunca, nunca se lembra o emagrecimento. Seria de muito mau gosto afirmar algo como "emagreceste imenso, ultimamente!" Evita-se!

As magras, essa subespécie entre o animal em más condições para abate e o deficiente culpado de o ser, incomoda, desagrada. Há imensas mulheres magras; estão por todo o lado, nas esquinas, nas paragens de autocarro, nos cafés bebendo garrafas de água das Pedras... Há imensas mulheres de 55 quilos descontentes com o seu corpo, sujeitando-se a tratamentos violentos, e caros, para conseguir engordar um pouco, ganhar celulite nas pernas, e gordura na barriga e nas ancas, já que desse objectivo depende a aceitação alheia, e, também, a que as próprias farão do total de si, não havendo outro aspecto a valorizar. Ou se é gorda e atraente ou se é nada; se vale nada. As magras são, obviamente, mulheres bonitas, como as gordas, mas o espelho não lhes devolve aquilo que não foram ensinadas a ver. Não se encontram, não se vêem, não se reconhecem como mulheres. São animais. Vacas escanzeladas.





O mercado do prazer valoriza exclusivamente a mulher gorda. Só os tarados procuram as magras. Diz-se, sobretudo pensa-se, que um homem só arranja uma magra se estiver desesperado. Entre eles, comentam que as magras, enfim, também desenrascam, para além de que são alvos mais fáceis, devido à ausência de auto-estima, e à dificuldade em arranjar parceiro sexual. E pronto, vendo bem as coisas, são mulheres, têm mamas e um buraco ao fundo das pernas, até dois. E quando se está desesperado, caramba...

O corpo feminino, nesta dimensão, continua a vender todo o tipo de produtos: sumos, cuecas, papel higiénico, cremes hidratantes, pneus, jantes, aparelhos de televisão, mas o mercado é cruel na sua selecção. Mulher que pretenda almejar uma carreira como modelo publicitário, ou de moda, como actriz, intérprete musical, apresentadora de televisão ou socialaite, esforça-se por atingir 65 quilos de peso mínimo. Recentemente, uma modelo com 64 quilos e trezentos viu-se impedida de desfilar na Moda Lisboa. Demasiado magra!
O problema da dimensão em que nos encontramos, e de onde espero possamos sair depressa, está em que os cidadãos são, desde crianças, bombardeados com mensagens profundamente negativas relativamente à magreza e à relação das magras com o seu corpo. No cinema, as crianças magras são preguiçosas, lentas, sujas e burras; às mulheres magras e esguias cabem os papéis maus: obsessivas, taradas, histéricas, ridículas, pérfidas; as anti-heroínas. Só as gordas podem almejar papéis de destaque românticos, sensuais, misteriosos, selvagens. A máquina de marketing musical procura candidatas anafadas para constituir as suas girls band. As tunas académicas cantam, até ao enjoo, "A mulher gorda / a mim só me convém /Como posso andar na rua/ sem as banhas de alguém?!" Nenhuma jornalista pensa chegar a pivot de telejornal sem competir com a Alberta Marques Fernandes, esse sensual portento moreno. Num meio no qual só a imagem de uma mulher cheia e redonda satisfaz o receptor, não é de espantar que a magra se veja relegada para uma espécie de gueto que, ao aceitar, acaba por legitimar.





Este problema, na dimensão onde ainda nos encontramos, advém de se ter fixado, durante décadas a fio, um modelo universal de beleza que estigmatiza a verdade: o corpo humano na sua verdade. Tal como um corpo humano é. Vário. Como se, na dimensão à qual pertencemos, e para onde seguiremos rapidamente, se Deus quiser, tivéssemos excluído as ruivas de sardas ou as morenas de cabelo frisado.

Imaginem, agora, caros leitores e leitoras, que na nossa dimensão... e saiamos agora, vamos lá, preparem o salto - Gancho, não se importa de levantar um pouco mais a perna, por favor?!-, cuidado!, três de uma só vez não passam; olhem os eléctricos, não atravessem à maluca... Desculpem... imaginem, agora, que na nossa dimensão reservávamos para as nossas formidáveis gordas, e gordos, claro, o tratamento que as bestas do outro lado guardam para tão belas magricelas?! Impensável, não é? Que coisa mais estúpida, mais sem sentido! Felizmente, estamos deste lado a salvo.

quarta-feira, maio 23, 2007

Moldaste o meu corpo em barro

See beauty in every living creature

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The NU Project
(Pessoas reais. Corpos reais.)

pelo fotógrafo Matt Blum


sábado, maio 05, 2007

A pedra filosofal dentro do meu corpo


O meu corpo droga-me, sozinho. Destila químicos que do interior me injecta nas veias. A maior parte dos dias luto contra drogas que usa para me derrubar, me fechar os olhos, me entorpecer as pernas. Noutros, faz-me voar rente ao chão que os pés mal tocam, e sei que se abrir as asas à boca da janela, voarei muito leve e grácil como os outros pássaros.
Nesses dias enlouqueço de gozo e ar dentro do meu cérebro. Os médicos dizem que são endorfinas. Eu penso que é a merda da vida a chicotear-me. É a merda da vida que me arranha as costas, me ata, desatando-me para me possuir só um bocadinho, finalmente, como eu sonho, eu quero, e me diz, grande parva, podias ter isto, podias ter tudo, podias ter mais.

terça-feira, abril 24, 2007

Corpo às avessas

Por que motivo me sinto um saco velho nos dias em que me arranjo para parecer bem, e naqueles em que não me arranjo, porque não preciso parecer bonita para ninguém, acho que não estou mal de todo?

sábado, novembro 25, 2006

Malditos genes

Uma verruga no centro da testa?! Uma verruga no centro da testa?! Mas como é que eu vou viver com uma verruga no centro da testa?!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...