Conclusão do estudo: trata-se uma disfunção sexual da exclusiva responsabilidade das mulheres, sendo que poucas pedem ajuda ou consideram o assunto relevante; mais, o sexo é, para elas, uma questão psicológica.
Vejo-me obrigada a contrariar tão sábias conclusões: o sexo é, para as mulheres com as quais falei sobre o assunto (não muitas - não fomos habituadas a discutir livremente a problemática da foda), uma questão muito física.Claro que é muito bom conhecer o parceiro, estabelecer com ele intimidade, sentirmo-nos desejadas ou amadas, abandonarmo-nos e entregarmo-nos nesse abandono, e nisso se joga mais ou menos psicologia, mas o sexo é físico, ou nada o distinguiria da agradável leitura de um livro.Analisemos este discurso tão frequente: as mulheres têm dificuldade em atingir orgasmos, logo, o problema está nas mulheres. Não no macho lusitano, a quem chega enfiar o mangalho na rapariga, roçar-se nela três vezes, mal e porcamente, antes de, arquejando, cair morto. Ou roçar-se nela até aos limites da resistência vulvar ou do colo uterino, mal e porcamente, antes de, arquejando, nunca mais cair morto. Venha o diabo e escolha. 
Não me admira que um terço das mulheres portuguesas tenha dificuldade em atingir orgasmos, ou que nem sequer atinja um nível de excitação que lhe permita uma sexualidade minimamente satisfatória, mas sem orgasmo, entenda-se.
Para o macho lusitano, sexo consiste em “enfiar-lho”; ponto final. Escolhe-se a presa e enfia-se-lhe o balázio.
Não sei o que é o sexo, juro, não sei. Podia arranjar aqui muita filosofia, misturar umas figuras retóricas, mas não é o meu objectivo. Estou zangada. Estou mesmo muito zangada.
Não sei o que é o sexo, sei apenas que não se reduz a “enfiá-lo”. O assunto é pessoal, mas colectivo - a maior parte dos homens que conheci, no sentido bíblico, não fodia nem saía de cima. Ora, que não fodam, aceita-se, mas, nesse caso, reconheçam, e desenvolvam, connosco os esforços necessários para que agrade a ambos - ou saiam de cima, ou debaixo ou de lado ou de trás.
Os homens não gostam que finjamos o orgasmo! Ora, caros amiguinhos, eu também detesto ser mal fodida. Não julgando ser solução, compreendo-a, e já fingi. É o chamado mal menor. Perante uma manifesta falta de talento, e desejando poupar as superfícies orgânicas a esforços abrasivos, mantendo alguma cortesia, despacha-se o candidato com uma mentira piedosa. Sim, estamos loucas de prazer, mas, por amor de Deus, se não dão conta do recado, despachem-se e deixem-nos resolvê-lo sozinhas. Se afinal é só para um, e mau, e a aparência de excitação nos livra disso mais rapidamente, lixe-se a essência”.

Na prática, consentimos uma espécie de violação. Não estamos a gostar, mas deixamos que chegue ao fim... do outro. Apressamos o fim. Porque até sabemos o que fazer para o “levar lá”, já o contrário... Havia outra solução, muito mais honesta, que consistia em explicar, "olha, querido, isto está a correr mal, desculpa lá, tenho muita pena, mas não vale a ginástica". Infelizmente, a algumas ainda custa ferir tão ostensivamente a virilidade.
Eu, que sou a Isabela, fui educada para servir um homem. Não aprendi a limpar a casa para mim. Não me ensinaram a coser uma bainha para mim. Aprendi para, um dia, mais tarde, saber fazê-lo na minha casa, para o meu marido, para os meus filhos. Que isso não tenha acontecido, foi um imprevisto.
“Ele serviu-se dela”, era assim que a minha mãe designava o acto sexual: um homem servia-se de uma mulher, de um ser passivo que recebia outro. Escutei estas palavras frequentemente, na minha infância, sussurradas entre mulheres. “E depois ele serviu-se dela!” Ouvir isto era já um pecado. Não me ensinaram a valorizar orgasmo algum, apenas a suportar estoicamente a dor. Qualquer dor.

Não me venham dizer que as mulheres mais novas, que em princípio não terão sido educadas segundo este padrão, não fingem orgasmos. Não fingem sempre, porque, em situação de crise, todos nos poupamos; é a lei da sobrevivência.
São poucos os homens que, na cama, existem para além do seu falo erecto; para os quais a sexualidade transcende o prazer que o seu corpo obtém pelo posse do outro. São poucos os que encaram a relação sexual como uma relação. Algo recíproco. Normalmente deparamo-nos com uma posse. Poder. Possuí. Tive. Comi. Fodi. Fui possuída, tida, comida, fodida.
Ora, o meu corpo não começa e acaba na minha vagina.
Generalizando, como alguém me virá já lembrar, aí nos comentários: os homens são egoístas. Muito. Mesmo muito. E são-no, igualmente, no sexo. Muito. A manter-se este cenário cultural – e não vejo grande tendência para mudanças! - continuaremos a fingir orgasmos. Ou a tratar do recado sozinhas. Ou, e isto seria o ideal, começamos a dizer a verdade.
Não peço piruetas, nada do outro mundo, apenas disponibilidade, entrega; e depois, sejamos objectivos, calma e ritmo. O outro também se aprende. Eu aprendo-te. Tu aprendes-me. É isso que estamos aqui a fazer. Deve ser. Não quero fingir orgasmos. Quero dar e receber esse momento indomesticável que fracciona ou comunga corpo e espírito.
Não sei se isto tem sentido para alguém. Espero que isto tenha sentido para alguém.