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terça-feira, março 07, 2017

A liberdade enquanto ideal comprometido



A liberdade individual é um ideal altamente comprometido pelos afectos. Nenhuma pessoa envolvida no mundo, com pais, filhos, amigos, cães pode ser livre. Algo nos prende aos outros, mesmo que não a nós. A obrigação de existência que devemos aos outros cauciona, por amor, apenas por amor, as nossas acções.
Imaginemos que desejava ir viver para Nova Iorque, e trabalhar à noite, lavando pratos num restaurante de esquina, onde ganharia o mesmo que na minha fábrica. Sou livre para tomar tal decisão. Não o faço porque existe a minha mãe, e porque ela depende de mim, e eu aceitei tacitamente essa obrigação. Se eu desaparecesse do mapa, embora alguém tivesse que aparecer para assegurar as suas necessidades básicas, a minha mãe seria mais infeliz, e eu não viveria em paz com a minha consciência. De maneira que a liberdade total dificilmente existe. O alemão que se deixou comer pelo canibal de Berlim, dispôs de si e não dos outros do ponto de vista físico, no entanto, não tendo interferido nos direitos individuais das pessoas que lhe seriam chegadas, pais, irmãos e amigos, terá causado nestes dor e perplexidade. Ou seja, de alguma forma acabou por dispor igualmente dos outros.

Ocorre-me igualmente o fenómeno transgender. Homens e mulheres que gostam de manter uma aparência igual à do sexo oposto. No caso dos homens, tudo se torna mais complicado, por causa dos bigodes, das pernas mal feitas, da falta de mamas, etc. Há toda uma indústria destinada a satisfazer as necessidades transgender, com cintas especiais, mamas de silicone, cremes depilatórios, bases de maquilhagem especialmente densas, instruções sobre como esconder um pénis de forma que se possa usar um biquini, como qualquer mulher. O problema dos trangenders é não serem necessariamente homossexuais. Muitos deles são heterossexuais convictos, casaram e têm filhos e não pretendem mudar o seu estado civil.
Vejamos, eu casava com um individuo que me parecia uma maravilha, e passados uns meses descobria-o a vestir-se com a minhas roupas e a pavonear-se frente ao espelho. Costuma ser assim que as esposas descobrem. Mesmo para uma mulher que se considera de espírito aberto, como eu, isto constituía uma situação deveras delicada, sobretudo por não ter conhecido, à partida, a verdadeira dimensão do outro, com a qual me confrontava. Esta seria uma situação em que o direito do outro, ou seja, o direito do meu marido transgender a vestir-se como mulher colidiria com os meus direitos, as minhas liberdades. Não pretendendo visar-me, ele visar-me-ia, porque isso me causaria uma imensa mágoa. Sentir-me-ia enganada.
No entanto, vi noutro dia um documentário sobre este fenómeno no Reino Unido e foi interessante perceber que a maior parte das mulheres que se deparam com esta situação, passado o choque inicial, aceitam conviver com ela. Aceitam viver e sair à rua com um homem vestido e maquilhado de mulher. Mas isto já coloca uma terceira questão, de ordem cultural, sobre a educação das mulheres, que preferirei deixar para outro texto.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...