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segunda-feira, janeiro 07, 2008

O meu anjo bebe até cair

(Para o meu anjo.)

Tolero quase tudo aos que amo. Lá me custa, lá remoo, mas engulo. O álcool como vício, não. Não falo de um copo aqui, uma cerveja acolá; quero dizer, tremer de vício, cheirar a ele. O álcool degrada, corrompe, marca, destrói velozmente; faz das pessoas aquilo que nunca foram. Cria monstros que se apaziguam com veneno.
Nada posso fazer por um alcoólico, porque ele está todo dentro da garrafa, só e imundo na sua garrafa, que é todo o seu mundo, tudo o que vê, e não consegue escutar-me, nem sentir comigo. Nem quer.
Isto ocorreu-me agora, enquanto assistia ao excelente documentário sobre o Luíz Pacheco que passou na RTP2: o filho mais novo, o que viveu com ele, revelava ser o alcoolismo o único hábito do pai que o incomodou, e que nunca tolerou. Compreendi muito bem. Também eu tenho os meus alcoólicos, em relação aos quais me sinto impotente como um muro de cimento.

domingo, janeiro 06, 2008

O trangressor passou-se

Luiz Pacheco


O Pacheco não pretendeu ser outra coisa que não um homem. Era a sua insubmissão, a sua graça, e a sua vitória sobre a cultura vã, povoada de senhoritos sem mácula, que não espirram, não mijam, não fornicam nem são vis nem piedosos nem nada, mas que vestem fato e gravata Massimo Dutti, lavam as mãos com Dove e recitam eloquentes poemas que não compreendem nem sentem.
O Pacheco tinha mácula, e isso tornava-o imaculado. O Pacheco era exactamente o que nós somos, mas de que fazemos segredo, para passarmos por educados, gente de classe, coisas assim, que os outros possam aceitar. Nós somos o Pacheco, mas o Pacheco dava-se ao luxo de ser gente por todos nós.
Não me dá jeito nenhum que o mestre tenha morrido a noite passada.


terça-feira, fevereiro 28, 2006

Experiência

Um dia destes a Junta de Freguesia manda pôr lá uma lápide evocativa da tua passagem, de cinco anos, por Massamá.

Tás doido. Aquilo era um cóio de vagabundos. Eu morava lá sozinho mas entrava e saía gente todos os dias, malucos, bêbados marginais. Só lá não foi parar o Beringela e o Mana Gorda, o resto caiu lá tudo: a Elsa, a Odete Calmeirona, a Miss Cacilhas, o Cabeça de Vaca, o Garcia Pereira, o Nhonhó, o Chico Bres, que um dia me pediu para lá dormir uma noite e ficou oito meses, o Sampaio, um rapaz que tinha um restaurante no Parque Mayer e foi preso por vender cocaína (não era cocaína, era farinha), sei lá mais quem. Aquela experiência não se repete.

Luiz Pacheco em entrevista a Rodrigues da Silva, "Um diário inteiramente livre", JL, nº 911, 31.08.05/13.09.05

O indispensável

Ainda lês?

Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: "De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim". Afinal não era arroz de pombo, mas arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo... Foder não é indispensável. Deixar de ver e ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.

Luiz Pacheco em entrevista a Rodrigues da Silva, "Um diário inteiramente livre", JL, nº 911, 31.08.05/13.09.05

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...