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quarta-feira, março 14, 2007

Ter muitas tendências

As páginas seguintes pertencem à revista Def, perdão, Dif (revista mensal de tendências e guia cultural gratuito), a qual costumo trazer do Bairro Alto, quando por lá passo, de dois em dois meses, frequentemente, de três em três.
Adoro a Dif, editada em bom papel, com excelente impressão policromática. É produto para custar umas coroas pesadas a quem o produz! Aconselho-a a quem pretenda passar um serão sarcástico e barato, em casa, por exemplo. Se não fosse a Dif, o mundo trendy passava-me ao lado, e eu não quero correr o risco de viver tão em paz.
Leiamos os dois primeiros textos trendy-informativos, da edição de Março, deste ícone da Imprensa de entretenimento cultural. Clique-se algures sobre as imagens, para que as páginas possam visualizar-se em maiorzinho.



Villa Tinto corresponde ao nome comercial de um estabelecimento dedicado à prostituição legalizada, situado em Antuérpia, uma "das mais importantes cidades portueiras". Cidade portueira! Muito bem! Cidade com porto, logo, cidade portueira. Setúbal, Lisboa e Vigo são igualmente cidades portueiras.
Mas a novidade será a existência do bordel?! Não, Villa Tinto é notícia por se tratar de um bordel digitalizado, estilo Matrix. A prostituta, antes de pegar, coloca o dedinho indicador no scanner, e eis que se abre a porta para o local de trabalho mais objectivo do universo: uma montra, toda ela em néon, na qual se exibem as qualidades supremas da carne de consumo, mais branca, menos branca, mais gorda, menos gorda, de primeira, de segunda, etc.

É importante sublinhar que "lá dentro o ambiente é moderno, numa especíe [sic] de quarto de hotel de design, acolhedor e com bom gosto". Ora, folgo em saber que a clientela dos serviços do sexo pode finalmente foder em hotéis de charme com nome italiano. É outro luxo, outro conforto.

Tendências a reter: cidades portueiras, bordéis, digitalização de dados, montras com condições para exposição de carnes, a velha foda clandestina que deixa de o ser apenas para a puta, agora com uma profissão linda e de futuro; eu própria, se tivesse vocação para a gemideira, aderia, que bem preciso de mudar de ramo, mas acontece que ando com as cordas vocais muito folgadas.

Segundo texto - clique-se, de novo, sobre a imagem, para aumentá-la: Sari Liimatta, finlandesa, designer de jóias, "está na boca do mundo". Eis como a sinédoque "andar nas bocas do mundo" se transforma numa original metáfora. A designer não é apenas muito falada. Mais do que isso, ela encontra-se inserida, já, na máquina digestora do mundo: a sua boca. Temo pelo que possa acontecer-lhe.


O meu temor estende-se às consequências que o talento literário possa ter na saúde mental de FVF, redactor e editor da Def, Dif,
sorry. Não será por acaso. É possível que o alto nível de inovação trendy-literária a que se entrega possa prejudicar a recepção dos seus textos. Analisemos: "A oscilação de opiniões sobre ela é, de resto, vocação das suas propostas." Quererá o Autor afirmar que Sari Liimata propõe-se, deliberadamente, gerar discussão acerca da filosofia e estética da sua obra?!
"A artista apropria-se de peças geralmente dirigidas a crianças e cobre-as minuciosamente com matérias preciosas presas, por alfinetes dourados, tornando-as em objectos desejados". Torna-as, portanto, em objectos desejados devido às "matérias preciosas presas". E que matérias serão essas? Esmeraldas, rubis, pérolas ou missangas de alta qualidade?
"Por outro lado, o reverso é preenchido por pontas, que os torna repulsivos". Refere-se ao reverso do boneco? Lá vem outro problema: mas o que raio é o reverso do boneco? Os interiores do bicho? Preenchido por pontas? Pontas de quê? Não consigo perceber!
"Tem partes do corpo decepadas, acrescentando-lhes um aspecto berrante." Ah, decepados e berrantes! Percebo agora a tendência "desejável-repulsiva". Não percebo que relação existe entre decepamento e aspecto berrante, mas, adiante. Podia passar o resto da tarde comentando aspectos da sintaxe e semântica deste Joyce, mas já se percebeu.

Tendências: matérias preciosas presas, decepamento, repulsa, pontas, redacção trash-trendy.

Só mais uma página, esta de publicidade, a que não resisto: Moda Lisboa, evento que decorreu a semana passada, no Museu de História Natural. De facto, passei por lá Domingo à tarde, tendo verificado que a escadaria da entrada principal se encontrava pejada de jovens trajando normalmente, porque ser muito jovem e bonito é já estilo que baste.



Passo a descrever, redundantemente, pois disponibilizo a imagem, o cartaz da Moda Lisboa, muito patrocinado pela Seat, o qual ostenta o que parece ser um ursinho em peluche, trajando macacão negro, inteiro dos pés ao escalpe, em tecido sintético, com furos na cabeça, orelhas e braços, penso eu que para facilitar a respiração do brinquedo. O referido objecto apresenta, ainda, uma coleira estranguladora ao redor da garganta, e não parece dispor de grande mobilidade. Para além da informação obrigatória num cartaz que divulga uma iniciativa - o quê, quando, onde - é possível ler a inscrição "play". Penso que seja um incitamento à brincadeira. E pronto, termino por hoje, sem qualquer moral, até porque não me atreveria. Cá vos espero no proximo poste sobre a Def, bolas, a Dif.

domingo, agosto 06, 2006

As tribos sem deus

Olho as pessoas, procurando vê-las exactamente como desejam ser vistas, exactamente como se vestiram e falam para que nelas descubramos o máximo humano, em todas o máximo. Milhões de deuses e deusas, reis e rainhas, sem dificuldades financeiras, problemas com a justiça, a saúde ou a consciência.
Classe. Descontracção. Estilo. Ninguém tem feridas com pus. Ninguém está menstruado. Ninguém tem um linfoma multiplicando-se algures. Uma cárie ínfima. As pessoas são lindas. São estranhas. Mostram os sexos umas às outras, mesmo através da roupa. Estão vestidas. Não estão.
Ninguém é tocado para lá dos sentidos materiais do momento. Um beijo é só um beijo. E isso é tudo o que há para haver.
Uma culpa. Não. Ninguém carrega culpa alguma. inocentes, felizes.

Na verdade é a culpa que nos carrega, e alija, porque pesamos, como pesamos.

quarta-feira, maio 03, 2006

Vida intelectual

Uma vai buscar um livro de culinária. Lê. A outra pega num volume encadernado sobre como fabricar jóias a partir de materiais recicláveis, e não lê. É pretexto para se sentar e conversar, enquanto passa os dedos pela capa e os olhos, de raspão, pelas ilustrações brilhantes.
São novas. Estão velhas. Têm medo e vergonha. Calam-se e estão gastas, cansadas, insatisfeitas e conformadas. A maior parte das pessoas traz a vida inteira a cair-lhe da cara, nos lábios, nos olhos. Calar não esconde o que julgam poder esconder.
A primeira procura receitas de beringela. Explica devagar como se prepara. Tira-se a parte negra, corta-se aos bocados... a outra nunca comeu essas modernices... beringela. Foi ao psiquiatra, mas o homem deve estar maluco. Receitou-lhe um novo antidepressivo que pode ter efeitos secundários sobre o fígado, e ela já teve hepatite! Ele devia saber. Monologa cinco minutos sobre o assunto. Telefona ao médico, ó doutor, ontem, receitou-me aqui um sepsil ou gepsil, isso... e é o seguinte: fui à farmácia aviá-lo, mas isto faz-me mal ao fígado, doutor ... sim... doutor, vejá lá, porque eu já não tenho um fígado. Não... pronto, está bem.. se posso, então! Desliga. Afinal posso, esclarece. Espero que não esteja enganado, senão ainda me dá alguma coisa. Mas uma pessoa toma tantos medicamentos que quando morrer nem o corpo se consegue corromper; ela não diz corromper, não se lembra da palavra; ironiza: se calhar vou ser cano..., ai... cano quê? A outra responde, canonizada. Isso, é assim que se chega a santa. A outra sorri placidamente enquanto estuda a beringela. Iniciam breve conversa sobre santas cujos corpos permanecem incorruptos. É dos genes, concluem.
Voltam às receitas. Ontem, a primeira fez sopa de alface. Estava boa. A segunda diz que a sua é sempre do mesmo: feijão verde, cenoura e couve-flor. A primeira faz arroz de tudo, até de favas. A segunda come sempre dieta. Falam mais baixo, de algo íntimo que não devo ouvir; levantam-se, vão ao bar. Que alívio!

quarta-feira, março 01, 2006

Tradução simultânea, por favor!

Nos anos 80 foi a idiossincrasia; nos 90, a epifania e o inefável; esta semana já ouvi três vezes, sem tradução, o vocábulo reificação.
Ai de quem não tiver estudado o seu latinzinho, o seu grego, o seu aramaico...

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Prendas

tinhas-me dado duas pedras que colheste no deserto uma no saara negra nunca pisada queimada a outra na fronteira com a líbia só duas pedras tinhas-me dado um seixo redondo muito polido apanhado na praia dos cães e uma concha grande e depois pagaste metade do meu jantar.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...