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sábado, setembro 22, 2007

A verdade é uma profissão de alto risco


Um primo meu afastado, filho de uma prima que viveu muitos anos no Zimbabwe, mantendo, em plena selva, uma cantina na qual vendia peixe seco aos indígenas, é hoje técnico de saúde num hospital de grande tiragem da região de Lisboa.
Não é que lhe tenha grande afeição. Partilha certos ideais da política liberal da moda, e de vez em quando solta umas graças machistas, o que me desgosta, mas os laços familiares, bem como favores prestados pela sua família à minha, obrigam-me a certos rituais socializantes.
Ontem, veio cá jantar uns bifes de cebolada, e relatou-me algumas das suas preocupações de âmbito profissional. O rapaz não compreende por que motivo os médicos do seu serviço permanecem fechados nos gabinetes, enquanto os doentes esperam horas pelo atendimento de urgência. Não percebe, por exemplo, por que aguardam que se acumulem as inscrições de vinte utentes para começar a atender o primeiro; não percebe como podem deixar para os enfermeiros, auxiliares e seguranças a função de acalmar as hostes aflitas e bravias com a dor própria e alheia, cujo alívio alguns clínicos adiam até à fronteira da correcção deontológica, enquanto comentam entre si, num encolher de ombros, que "os utentes reclamem a quem de direito", e "que não se fazem omoletes sem ovos".
Ouvi-o com muita atenção. Afinal, a infância na selva fez dele um idealista objectivo. Acredita na justiça, nos bons princípios e no zelo. Também eu. Por isso é que lhe respondi que tão mau como não haver ovos para omeletes, é haver, mas não se lhes conseguir quebrar a casca para que realizem o milagre de matar a fome a quem a tem.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...