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terça-feira, março 07, 2017

O novo mundo

Thomas Beatie


O que perturba o meu olhar nas imagens do homem-grávido? A extrema beleza do seu rosto, encimando um corpo de homem muito redondo e grávido; as cicatrizes visíveis no lado esquerdo da barriga e sob as mamas; o tamanho da barriga ampliado pela ausência das mesmas. A gravidez que me foi vedada.

A natureza é caprichosa. Tem o seu feitiozinho. Permite que um útero atrofiado pela testosterona possa hospedar um feto, e bem, e pari-lo. No entanto, mulheres jovens submetem-se a violentos tratamentos hormonais e não conseguem manter os embriões nelas colocados através da fertilização in vitro, e mulheres de todas as idades, com aparelhos reprodutores aparentemente normais, não conseguem reproduzir-se através da abençoada fornicação regular.

Thomas Beatie inseminou-se caseiramente com esperma encomendado via net, mais a ajuda da esposa, e o sucesso está à vista. Venham cá dizer-me que Deus Nosso Senhor está contra as mudanças de sexo. É evidente que se está nas tintas! Eu nem imagino o que é que a Igreja Católica fez com este caso! Excomungou a mãe, que também é pai, porque transgrediu as leis divinas ao mudar de sexo? Parece-me lógico. Mas terá, igualmente, de o abençoar pelo milagre da maternidade. Todas as mães são iguais para a benção do Senhor! Enfim, tudo isto me comove tremendamente.

Já todos percebemos que não somos livres. O fascismo rodeia-nos, transcendendo a esfera política. O social é fascista. Andamos todos a toque do que os outros decidiram, não sabendo quem, nem porquê, pelo que a liberdade individual é mais difícil de alcançar que sete medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos. Construímos toda a nossa vida sobre estes princípios segundo os quais se espera que vivamos, porque é assim, é assim que é, e não se discute.

Eu, muito sinceramente, para ser livre necessitava que a minha mãe, os meus amigos, os meus colegas de trabalho e os meus vizinhos me deixassem. E, simplesmente, não deixam. Tenho a obrigação de corresponder ao que esperam de mim. A uma ideia de mim. Há regras. Tenho de me pentear (não penteio), não rir alto (rio como me apetece), fazer afirmações inteligentes e sérias (adoro dizer disparates), não saltar dos eixos (não consigo manter-me neles por mais de 6 horas seguidas). De alguma forma, defraudo sempre as expectativas de alguém.

As pessoas têm sempre a sua opiniãozinha sobre a vida alheia. Por exemplo, à D. Vitória, vizinha da minha mãe, incomoda-a bastante que eu tenha agora duas amolgadelas no carro. No meu carro. As minhas amolgadelas. E isto são coisas vulgares. Imagino se me desse para aparecer lá no prédio com um namorado negro ou uma namorada branca ou, meu Deus, se dentro dos limites do que é a minha esfera de liberdade individual, eu tivesse compreendido, a certa altura, que tinha de mudar de sexo biológico. Haveria uma certa lutazinha a travar!





A vida dos outros constitui sempre uma grande história. Casamentos, divórcios, nascimentos, tudo bem desde que dentro das regras. O que as transcende é pecado, aberração, doença ou não parece bem. Nunca se trata apenas da nossa vida, assunto que nos cabe só a nós, e que não interferindo no percurso dos outros, se encontra dentro do chamado limite das liberdades individuais. Dou um exemplo: é-me permitido realizar operações plásticas e mudar completamente o meu aspecto. Posso aumentar as mamas, diminuir o rabo, transformar o nariz, tirar a papada, aumentar a testa, diminuir as orelhas, esticar a barriga, subir as bochechas, pálpebras e sobrancelhas, aumentar os lábios, delinear a cintura, arrancar verrugas, repuxar os olhos à chinesa, tirar os joanetes, enfim, escortanhar-me toda. Tenho essa liberdade. É um direito que me assiste. Agora o que não me assiste nada é querer mudar de sexo. Trata-se igualmente do meu corpo e da minha mente, mas se pretendo mudar de sexo, é certo que partirão do princípio de que padeço de uma patologia mental gravíssima e mo proibirão. Em Portugal, e em muitos países, é assim. Sou culpada antes de ser inocente. Tenho de ser o que os outros acham que devo ser. É por isso que não somos livres. Na verdade, uns mais, outros menos, nunca somos só o que desejaríamos ser.

A mim basta-me que alguém se sinta um homem ou uma mulher para que o seja. Quem sou eu para duvidar do que sentem profundamente os outros relativamente à sua identidade de género ou sexual? Quem sou eu para impor a outros uma experiência humana que os repugna, que não lhes pertence?





Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são mutáveis e aleatórios. Dependem da época, cultura e estádio socio-político do sistema no qual vivemos. Um transsexual grávido é motivo de grande perturbação social, hoje, mas daqui a umas décadas nada obstará a que homens como Thomas Beatie se candidatem a barrigas de aluguer. Nos anos 60, uma mãe solteira era uma pária social. As raparigas que engravidavam iam parir longe, dando os filhos a criar a amas. Isto, se tivessem de seu. Caso contrário, havia sempre a roda dos enjeitados.

Agrada-me a desorientação dos momentos de convulsão social, os conflitos de identidade pessoal, cultural, política, religiosa. Predomina um sentimento de perda, de insegurança; é necessário prover às necessidades de sobrevivência básicas; tudo corre num turbilhão e parece que o mundo se perdeu. É o Apocalipse. É de facto o Apocalipse, porque algo morre, enquanto algo nasce. São alturas propícias à alteração de convenções, de visões do mundo. Ao longo da história da humanidade, sucedem-se épocas de mudança que implicaram uma grande violência. Foram momentos de progresso mesmo quando se basearam em algo indiscutivelmente mau. As cinzas dessa morte fertilizaram a germinação de novos filhos. Há um processo de água e fogo encadeados, que se apagam e ateiam sucessivamente, se infectam e purificam, e constituem um contínuo de progresso.

O caso dos transsexuais grávidos - nos EUA, agora em Espanha, interessa-me muito. Constitui uma revolução na forma de encarar a família e a procriação, porque permite separá-las. Aliás, a taxa de natalidade do mundo ocidental precisa desesperadamente desta separação. Interessa-me que o transsexual americano nestas imagens, e que já se encontra grávido do segundo filho, seja a mãe biológica da criança que pariu, bem como seu pai afectivo. Interessa-me que a criança não tenha qualquer ADN da mãe afectiva, e que não se faça a menor ideia sobre quem é o pai biológico. Estes acontecimentos põem-me perante a realidade de uma cultura em mudança, e de relacionamentos que se baseiam em verdadeiros laços afectivos, os quais transcendem os antigos laços de sangue, tão inseguros quanto estes.




domingo, fevereiro 01, 2009

Está tudo mudado

Almoço de domingo com a minha mãe, que faz 86 anos dentro de alguns dias.

Mãe - Então, mas que confusão é essa com o Sócrates? Não sai das notícias!

Expliquei-lhe tudo. A minha versão.

Mãe - E dizem que ele, mesmo assim, vai ganhar as eleições.

Isabela - É possível; é muito possível. A maior parte dos eleitores vota PSD ou PS, e qual é a diferença, sinceramente? Os partidos mais pequenos, e de esquerda, juntos ou separados, não têm hipótese de mostrar o que valem.

M. - Bem, mas o que é preciso é que o Sócrates não tenha a maioria absoluta, para não pensar que é o rei, que manda e desmanda como bem lhe aprouver.

I. - Sim, isso é fundamental. Senão qualquer dia voltamos a viver como no tempo de Salazar. No tempo do Salazar não era assim?! Tudo caladinho, tudo cheio de medo?

M. - Era, ninguém piava, mas o Salazar tinha princípios morais, e nós não vivíamos melhor, não tínhamos tanto, como agora, éramos uns atrasadinhos, não sabíamos nada, eram só os bailes, e a igreja, mas éramos mais felizes.

I. - As pessoas nunca são felizes, mãe. Ou seja, todos somos muito mais felizes do que pensamos, mas não reconhecemos essa felicidade...

M. - Mas o Sócrates, agora, vai ter o voto dos homossexuais todos...

I. - Porquê, por causa do projecto-lei para o casamento dos homossexuais? Não sei!

M. - Pois, eles andam todos contentes, querem casar uns com os outros e adoptar e tudo (riu-se).

I. - Oh, mãe, a gente não se deve meter na vida dos outros. Se querem casar, por que não? O que temos nós a ver com isso? Deixemos os outros serem felizes à sua maneira. A mim alegra-me que os outros sejam felizes.

M. - Mas adoptar...

I. - Sim, por que não? Se forem pessoas boas, pessoas honestas, com bons princípios, o que os impede de adoptar e de serem excelentes pais ou mães? Mas não creio que seja por aí que o Sócrates ganhe votos.

(Não lhe disse que o Sócrates ganha votos por ser bonito.)

M. - Bem, lá em Espanha, onde está o teu amigo, eles já podem casar e adoptar.

I. - Pois já. E o Gil e o Artur, que tu conheces, também casaram em França.

M. - Pois é. Isto está tudo mudado (riu-se).

sexta-feira, agosto 08, 2008

Filhos de um gajo qualquer


Estava eu a contar-lhe que lera no
El Pais que uma ministra do PP espanhol, com 40 anos, conservadora, mantendo, portanto, posições públicas contra o casamento de homossexuais, contra a dissolução da família tradicional, embora divorciada, se tinha feito inseminar artificialmente com esperma de um gajo qualquer, numa clínica em Barcelona, ou em Madrid, não me lembrava, e que agora era mãe de uma linda criança, só dela.
Respondeu-me que, em 90 por cento dos casos, os nossos filhos são também filhos de um gajo qualquer. E que quando não são, há sempre a hipótese de o amado pai dos nossos filhos se tornar, em poucos anos, num verdadeiro gajo qualquer.
A minha prima afastada é uma mulher muito prática, nada romântica. Já lhe disse que é por isso que os homens têm medo dela. Por este andar, coitada, ainda fica solteirona.

sábado, julho 19, 2008

Separando o romance e o sexo da procriação


Este vídeo corresponde ao nascimento de Matilda, filha de duas lésbicas inglesas, sem bigode, sem músculos, sem voz grossa, porém, com com péssimo gosto musical; duas mulheres absolutamente normais, quem diria?! A criança foi fecundada através de inseminação artificial caseira (1), um método como qualquer outro, e o dador de esperma aparece numa das imagens do vídeo.
Eis o que considero uma família feliz. Não sei se o dador é amigo das mães, se apenas se conheceram para o efeito. Sei que a menina está ali, nasceu, e que nascem, desta forma, muitas meninas e meninos, todos os dias. É impossível controlar esta vaga procriativa que exclui
da concepção de um ser humano o romance e o sexo entre dois indivíduos. Essas crianças são aos milhões, por todo o mundo. Parece-me um extraordinário avanço civilizacional que um homem ou uma mulher não dependam de um casamento, ou de uma relação conjugal para se multiplicarem, mas apenas de uma generosa colaboração.

Uma jovem comentou, neste blogue, um dia destes, que teria muita vergonha se os colegas da escola descobrissem que era filha de duas lésbicas, caso fosse. Era o seu argumento contra a procriação em famílias homossexuais. Bem, minha querida, compreendo: na escola existe imenso bullying a propósito de tudo. Comigo, por exemplo, gozavam porque era gorda; com a Teresa Esparguete, porque era magricelas; com o miúdo do 7º F, porque parecia mariquinhas; com o do 8º H porque tinha a cabeça grande... é difícil sair-se ileso de traumas da escola, mas ainda se vive um bocado depois disso. Há pessoas que conseguem mesmo chegar a velhas. Além disso, por este caminho, a coisa está aí, impossível voltar atrás, deitar fora, fechar os olhos; dentro de pouco tempo, uma percentagem razoável de alunos começará a ter duas mães ou dois pais nas reuniões de encarregados de educação, e já não haverá razão para vergonhas. Podem é, porque a maldade é sempre infinita, gozar com os filhos das famílias tradicionais, que esses, sim, começam a rarear.

(1) Receita para inseminação artificial caseira (ingredientes e utensílios): esperma (para obter o referido fluído deve proceder-se exactamente como nas clínicas, quando se realizam testes de fertilidade para contagem de espermatozóides viáveis); um recipiente de plástico igual ao que se usa para guardar urina para análise; uma seringa de tamanho médio; uma cama; uma mulher em período ovulatório cheia de vontade de engravidar. Este método serve seja para quem for: alguns casais heterossexuais com problemas de ejaculação, independentemente do tipo de problema ou do motivo, são aconselhados a proceder desta forma.

domingo, julho 06, 2008

O lugar de procriação é o indíviduo, não a família





Manuela Ferreira Leite afirmou a semana passada, na TVI, que o casamento tem como objectivo a procriação, e que, portanto, as uniões de homossexuais, não sendo dessa natureza, não deverão beneficiar das mesmas regalias fiscais e civis de um casamento.

Manuela Ferreira Leite é uma política conservadora, pelo que as suas afirmações não devem causar espanto. Pessoalmente, parece-me bem que tenha enunciado o seu pensamento a este respeito. Gosto de pessoas que dizem muito claramente aquilo que pensam. Com quem fala claramente é possível dialogar; pelo contrário, quando não sabemos que filosofia se esconde por detrás de abundantes discursos eufemísticos, não é possível comunicar.

Manuela Ferreira Leite não fez mais do que enunciar em voz alta aquilo que 70 por cento da população portuguesa pensa: as uniões homossexuais são contra naturam.
A natureza contra naturam que as civilizações baseadas numa religião institucionalizada atribuiram às relações entre pessoas do mesmo sexo, baseou-se na preocupação com a procriação, e centrou-se numa visão exclusivamente sexual destes relacionamentos. Porém, a sexualidade é apenas uma parte da vida dos homossexuais, pelo que sempre considerei tudo isto de uma injustiça e preconceito atroz.

Ouço com ironia afirmações como, eles agora são todos do clube, antigamente não era assim, etc., etc., ignorando que a humanidade, desde os princípios dos princípios, foi livre sexualmente, muito mais livre do que hoje. O clube sempre teve inúmeros praticantes, adeptos e simpatizantes.
O relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo não pode ser considerado um pecado de natureza universal, como o vêem algumas religiões, porque outras religiões, igualmente legítimas, nomeadamente algumas orientais, não excluem a homossexualidade, não a castigam, considerando-a apenas mais um meio para atingir um fim. Portanto, em que ficamos? Trata-se de um pecado "local". No fundo, de um normativo. A noção de pecado associada ao sexo e à homossexualidade veio criar uma ordem social e sexual aparente, porque debaixo dos panos, tudo se manteve igualzinho.

O que escapa à sociedade em geral, e a Manuela Ferreira Leite, em particular, embora seja remediável, é que a família não é realmente um lugar de procriação. Como explicar, então, os inúmeros casais que não têm filhos, que se recusam a tê-los, ou não podem, e que preferem adoptar, ou não? Perdem o estatuto de família por recusar procriar ou por não poderem fazê-lo? Conheço meia dúzia de casos deste género. Vamos tirar-lhes os benefícios sociais e fiscais que o Estado concede ao que chama família? Convém sermos coerentes. Que diferença existe, ao nível de constituição de família, entre o senhor Belarmino e a dona Maria, que moram no prédio da minha mãe, e nunca tiveram filhos, e a Patrícia mais a Xana, que moram no meu, e tiveram há poucos meses uma bebé fruto de uma inseminação artificial?
A Xana inseminou a Patrícia com o esperma de um norueguês que contactaram através de um grupo de dadores existente na internet. O homem veio cá passar uns dias, pagaram-lhe a estadia, e foi-se embora todo feliz e cheio de escaldões. Não sabem a morada dele nem ele a delas. Foram três felizes encontros no hotel dele, em dias estratégicos. Chegou. Digam-me, por favor, quem é mais família? O senhor Belarmino e a dona Maria, ou a Xana e a Patrícia? É fácil, não é?

O lugar de procriação nunca foi a família, mas o indivíduo. Pensar desta forma implicaria voltarmos ao tempo de Salazar e ressuscitar o estatuto distinto do filho bastardo, com toda a ignomínia que acarretava.

A procriação não tem regras, ou melhor, recusa-as, por muito que no-las tentem impor. Quem quer ter filhos, tê-los-á, independentemente da natureza emocional ou sexual da relação mantida, ou na sua ausência; quem não quiser filhos, há-de evitá-los; e os acidentes, o foi sem querer, agora não calhava nada, o que é que eu faço, acontecerão sempre, com a mesma certeza com que vem a chuva e depois o sol.

Actualmente, com auxílio da reprodução medicamente assistida ou sem ela, porque os métodos artesanais também funcionam lindamente, nada, nada, nada impede um homem ou uma mulher, homossexuais, heterossexuais ou assim-assim, solteiros, casados ou a viver uniões de facto de se reproduzirem livremente. E aos núcleos de pessoas que escolheram viver juntas chama-se família, porque não há outra palavra para os designar. Que a porca torça o rabo como quiser torcê-lo, mas estas são famílias efectivas, funcionais, existem aos milhões por todo o lado, é impossível ignorá-las, não podem ser desfeitas, e terão de beneficiar dos mesmos direitos que os outros tipos de família, ou estaremos a estabelecer diferenças entre legítimos e bastardos, o que a própria lei não permite.

Portanto, é isto que temos de explicar à Dra. Manuela Ferreira Leite, com a formidável calma que advém da certeza e da segurança.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Concepção sem sexo


Ainda incomoda muito, isto das mulheres desatarem a tomar decisões inovadoras, com o seu corpo e dinheiro, desafiando as regras sociais, e até as do que se considera razoável em ciência, sem pedirem autorização a ninguém. Isto de não se encostarem a um canto, de não se conformarem com a telenovela, de não abdicarem de uma vida porque não arranjaram um homem, de já não serem as tradicionais solteironas sem remissão, de se estarem nas tintas para a relação conjugal, de conceberem filhos sem sexo, sem um pai... incomoda, incomoda muito.
Vejamos o caso da espanhola, mãe aos 67 anos, com auxílio da reprodução medicamente assistida. Alegam que foi um perigo, que a senhora é velha, que daqui a dez anos pode deixar dois órfãos. Se foi um perigo, foi-o para ela! Se as crianças não viessem a nascer, o mundo continuaria igual, já que a sua existência depende exclusivamente da determinação desta mãe, do perigo que quis correr. Quem se incomoda se um homem for pai aos 67 anos? Ou aos 70? Um pai de 60 anos, e uma mãe de 20, podem sofrer acidentes e deixar filhos órfãos. Em Portugal acontece muito. Mas o que pode correr mal conta mais quando uma mulher está sozinha. Se houver um homem, mesmo que à beira do ataque cardíaco, a questão já não se põe. Os homens, se ficam viúvos, e com filhos, arranjam outra mulher; ou arranjam uma prima, uma cunhada, uma perceptora como no Música no Coração, que bonito! Mas uma mulher que decide ser mãe aos 67 anos, porque adiou a sua própria vida durante a vida inteira é egoísta. Cometeu um acto censurável. Tudo muda porque é mulher.
Eu acho que fez muito bem! Tem, logicamente, todo o direito do mundo a escolher o rumo da sua vida, inclusive o de ter os seus filhos, seja qual for a sua idade. Vai criá-los, como os criaria se fossem seus netos, e a filha tivesse ido trabalhar para o Algarve ou para o Norte ou para Espanha, e nunca tivesse tempo para vir a casa, o que em Portugal também acontece muito.
Que maravilha! Reformada e agora com dois bebés! E sem sexo, caramba; que concepção tão limpinha!
As mulheres desejaram isto desde que se conhecem: não precisarem de aturar um homem para serem mães. Finalmente, o mundo perfeito!

sexta-feira, setembro 22, 2006

Controlem o mulherio, se conseguirem

Novas formas de concepção e parentalidade: outro post atentamente dedicado ao status quo português


A Teresa é minha colega e divorciou-se há coisa de dois anos, sem filhos, sabendo-se infértil.
Apesar de não ter voltado a ter companheiro, quer ser mãe. Precisa de viver essa experiência. "O corpo pede", explica-me ela no refeitório, enquanto espeta um rebento de bróculo com o garfo. Não consegue explicar muito, muito bem; o seu desejo é algo da ordem da poesia, do sagrado, de uma reconstrução ontológica que só ela percebe. Não precisa de parceiro. Filho. Só. É muito simples.
Ser mãe foi apelo que nunca senti, porque sou alérgica às noites mal dormidas, mas consigo intuir que algo dentro ou fora dela, algo que não sei dizer, nem eu, sequer; deseja um filho como se deseja um órgão que nunca se teve, e do qual se necessita para continuar a viver.
O relógio biológico da Teresa está na vigésima-quinta hora e não há saída: adopta, ou consegue uma doação ovular alheia.



Asia Argento


Não torce o nariz à adopção, mas “demora muito, dois anos, no mínimo, papelada, chatice, investigam-me os cantos todos à vida, metem-se-me em casa, controlam demasiado, o filho nunca mais é meu”. É o que diz.
Somos colegas há uns anos. Não amigas, amigas. Bem, falamos de tudo no trabalho, mas a Teresa não frequenta a minha casa. Por nada em especial. Talvez porque eu e a Daniela não abrimos muito as portas, acho. Porque nunca a convidámos. Talvez sejamos amigas... eu gosto da Teresa... sim, acho que somos amigas, que parvoíce!
O meu relógio biológico, já expliquei, nunca deu horas, nem o da minha companheira, pelo que ando há décadas a desperdiçar óvulos saudáveis todos os meses. Não lhes tenho qualquer amor particular. São pedaços de carne que nascem em mim e desaparecem da pior maneira possível. A Daniela diz que para uma mulher que não sente o apelo da maternidade, a menstruação e a ovulação são praticamente um castigo divino. É uma espécie de ponto negro que não conseguimos espremer. E rimos. Com todo o respeito, claro, porque as lésbicas também temem a Grande Deusa!
Neste contexto, ofereci-me para doar os meus óvulos à Teresa, que espero me não fique agradecida para toda a vida. Tirando os dias que vou faltar para o efeito, e esperando que o processo não me cause grande dor, é coisa que não me custa. Até fico contente.
Por outro lado, a Teresa tratou de arranjar um espanhol, amigo de uns amigos, igualmente divorciado e disponível para doar sémen, desde que isso lhe não acarrete qualquer responsabilidade paternal. O homem chama-se Paquito ou Pepito ou lá o que é, e nome de família nunca lho conheceremos, embora o abençoemos, bendigamos, etc.
Resultado: isto vai-lhe sair um bocado caro: no mês que vem passaremos uma semana em Madrid, em consultas e tratamentos numa clínica especializada em procriação medicamente assistida. Não podemos fazê-lo em Portugal, certo?! - retirar-me-ão um óvulo, o qual, posteriormente, será fecundado com sémen do dador, e introduzido no útero da Teresa. Vamos ver o que acontece na primeira tentativa.
Gostava de a ver com um filho a crescer no útero, finalmente.
Isto é uma coisa da Teresa, só da Teresa. São as suas despesas, a sua responsabilidade. É como se eu lhe doasse sangue, um rim, medula, um bocado de qualquer coisa que possa ser doada. O que a cultura fez disto é para acabar de vez. Eu é que não vou ser mãe, tal como o outro não vai ser pai. A Teresa, sim.
A parte chata disto é termos de ir a Espanha todos os meses, até se conseguir. Gasta-se.
De resto, depois a Teresa vai ter de enfrentar aquele problemazinho no registo civil, quando for registar a criança sem nome de pai - a menos que opte por pari-la em Espanha, e registá-la lá.
Já lhe disse o que tinha de fazer, mas ela considera embaraçoso chegar com aquela conversa...
A mim não me custava nada. Olhem, queridos, isto foi assim... estava eu muito bem no Bairro Alto a beber umas cervejas na rua, e às tantas, de repente, dou comigo num vão de... pois, não sei... não sei... é verdade, sou uma rameira de gabarito, mas o que é que se pode fazer agora?!
Quanto ao material genético que vai crescer dentro dela, e ser seu filho, questão que algumas outras amigas e amigos, uns da onça, outros menos, têm alvitrado, vejamos: a minha família é de Al-jubarrota; a da Teresa, de Al-meirim, e quanto à do altruista futuro dador, acho que a mãe do dito-cujo ainda mora em Al-geciras.
Portanto, isto com um bocado de sorte, ainda descobrimos que somos primos muito afastados.
E às tantas ainda vou ser madrinha do puto, ou da... miúda! E isso é que vai ser mau, porque me há-de pesar o ar na bolsa!


quinta-feira, setembro 21, 2006

Ponham-lhe travão, se conseguirem


Novas formas de parentalidade: um post dedicado ao status quo português

Eu e o meu amigo Zé Manel, ambos solteiros, livres de contratos de natureza civil, temos uma normal relação de amigos. Visitamo-nos, jantamos ou almoçamos, vamos ao café. Conversamos sobre cultura, política, género.
Má-língua, momentos de comunhão e paz com os outros. A vida.
Nem sempre estamos de acordo. Discutimos, mas rapidamente fazemos as pazes, porque não só eu tenho sempre razão, como não sou de ressentimentos. Tenho muito bom feitio. Passa-me depressa.
Somos cépticos. Idealistas. Pessimistas. Sonhadores. Rimos. Choramos.
Nunca fomos para a cama, ou, se fomos, não interessa para o caso. Não estamos nessa fase, nem é essa a natureza da nossa relação. Nunca sentimos um pelo outro aquilo a que se chama atracção amorosa tradicional. Somos amigos.
Ora, sendo ambos solteiros e sem descendência, um de nós, ou os dois, acossados por um qualquer fenómeno que será de natureza biológica ou cultural, ou ambas, sentimos um crescente desejo procriativo, e acordamos ter um filho conjunto. Um filho biológico.
Planeamos continuar a viver as nossas vidas normais, acrescidas da responsabilidade que envolve tratar e educar um filho. Manteremos as nossas casas separadas, à distância de 30 quilómetros, tal como agora, bem como o nosso namorado ou namorada, se existirem. Ou quando existirem.
A partilha da criança é conjunta. Nos primeiros cinco meses, a criança passará mais tempo comigo, sobretudo por causa da amamentação, e porque pretendo gozar integralmente a licença de parto. O Zé Manel, para acompanhar o nosso filho, gozará, igualmente, todos os dias que a Lei permite.
O Zé Manel pretende ter o bebé nos braços o máximo de tempo possível. Quer embalá-lo, dar-lhe banho, trocar-lhe as fraldas, levá-lo ao médico, fazer gu-gu, dá-dá, passeá-lo, adormecê-lo. Vamos andar mais babados que a criança. E aflitos.
O Zé Manel, ultrapassada a questão da amamentação, é absolutamente capaz de cuidar de um bebé, pelo que o terá consigo conforme acordarmos. Conforme for conveniente a ambos.
Eu e o Zé Manel, vamos ter este bebé. Vamos com calma. Somos amigos e introduziremos um dado novo na nossa relação. Somos também pais de uma mesma criança.



Jan Saudek, First Steps, 1963


Uma coisa é certa: não nos vamos divorciar, e não teremos discussões conjugais; apenas as normais no que respeita à educação dos filhos - porque o Zé Manel terá, com a criança, atitudes que não me agradarão, e vice-versa – deve ser como com os meus vizinhos do lado no que respeita à Margaridinha.
Eu e o Zé Manel só queremos ser felizes, e ter um filho feliz! Ambos queremos acordá-lo, deitá-lo, ser dele, e ele nosso, até voar.
Passaremos momentos difíceis, bem sabemos, mas não deverá ser muito diferente do que se passa aqui ao lado com os pais Margaridinha. Até pode se melhor.
Até pode ser que a Margaridinha venha a sofrer um período emocionalmente conturbado, quando os pais se divorciarem, se isso acontecer, porque sempre é uma alteração dos hábitos.
Comigo e com o Zé Manel, é possível que o nosso filho não venha a gostar muito do namorado que arranjarei em 2012, e vá fazer queixas ao pai, ou que mas venha fazer das paixões que o pai inventa – e lá teremos que remediar a ciúmeira filial.
Quanto ao resto, prometo não dizer ao Zé Manel, nem ele a mim “como é que me podes abandonar? Não pensas no teu filho?” Também não pensaremos “este casamento já deu o que tinha a dar, mas estamos presos pelo filho!”
O que vier logo se vê. Mas não será diferente do caso da Margaridinha e papás. Só se for melhor.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...