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terça-feira, junho 10, 2008

Voracidade

Marguerite Duras

O meu pai tinha uma cara grande e suada cheia de ódio ou amor conforme os dias. Tendo eu preferido os do amor, calharam-me muitos dos de ódio. Quando amamos e não podemos fugir, porque não há saída, enfrentamos de igualmente perto a face do amor e a do ódio, e não desviamos o rosto; sentimos o cuspe bater-nos nos lábios, nos olhos, e ouvimos até ao fim sem pestanejar, sem um movimento muscular que possa ser mal interpretado.
O meu pai era voraz, devorava, vociferava todos os sentimentos que conseguia exprimir, e conseguia muito bem, com uma expressividade tão brutal que causava vertigens.
Quando somos novos, acreditamos nesse amor ou nesse ódio porque aquele é o rosto de quem amamos, o da certeza. Não temos mais ninguém, estamos entregues às mãos daqueles que nos criaram e que dizem sermos seus. E somos. Mas custa ser de alguém a quem se deve uma fidelidade contra toda a lógica, sem limites.
Eu ouvi todos os discursos de ódio do meu pai, ouvi-os a dois centímetros do rosto, senti-lhe o cuspe do ódio, que custa mais que o cuspe do amor, e enfrentei, olhos nos olhos, a sua raiva, a sua frustração, a sua tão torpe ideologia e ouvi, ouvi, e não disse nada, nem um assentimento, nem um músculo se mexeu, e eu, inteira, era um não.
Tive medo do meu pai. Que me batesse com as manápulas, que me gritasse, que me dissesse tu não és minha filha, porque filha minha nunca fará isto e nunca dirá aquilo. Havia uma violência tão grande dentro de si, em amigável convívio com o amor que podia oferecer-me 10 minutos depois. De um momento para o outro.
Mas o meu pai não me arrancou um assentimento. Nunca ouviu da minha boca um tens razão, um realmente, um pois. No máximo, um percebi, como resposta a um percebeste? Porque ele podia obrigar-me a sentar, ouvir e calar, sujeitar-me a sessões públicas e privadas de ideologia rácica, mas não convencer-me das vantagens da raça nem do ódio.
O meu pai não me arrancou ao que eu era e pensava; o meu pai não foi capaz de formar o meu pensamento. Escapei-lhe. Ele repetira-me demasiadas vezes a sua lenda preferida, a de São Martinho, o que reparte a capa. Portanto, tendo eu absorvido uma mensagem tão amorosa, podia ele gastar à vontade o seu latim com a conversa dos pretos. Eu poderia ter ouvido a lengalenga 24 horas por dia nos altifalantes, como um prisioneiro em Guantánamo, e não teria mudado um centímetro. Porque eu pensava isto e aquilo com muita certeza.
Não foi fácil ser a filha do electricista. Sonhei muitas vezes que o electricista havia de morrer de muitas maneiras e deixar-me livre para pensar, para existir sem medo dele. Para lhe responder.
E um dia morreu mesmo, sem que possamos ter feito completamente as pazes, sem que eu estivesse totalmente crescida, e ele totalmente vencido, e agora está aqui sentado, a dois centímetros do meu rosto, a ler-me, e eu, sinceramente, só queria dizer-lhe que vivemos um tempo demasiado curto para o nosso amor, confuso, desajustado, injusto. Que foi só isso que nos aconteceu: um tempo, um espaço, um tabuleiro de xadrez errado para o amor.

sexta-feira, abril 18, 2008

O corpo do meu pai era bom

Foto: Monika Wiechowska, Portrait of my parents


O meu corpo foi uma guerra, era uma guerra, comprou todas as guerras. O meu corpo lutava contra si, corpo-a-corpo, mas o do meu pai era grande, pacífico e de carne. O corpo do meu pai era dele e valia a pena. O seu corpo era o do outro, que estava em mim, mas sem guerra. Redondo, macio, arranhado, o corpo do meu pai dava-se ao riso, às cócegas, ao meu corpo.
O meu pai tinha os pés rosados, de uma pele muito branca e quebradiça; escamava; dizia que era a filária, e que não lhe puxasse as peles. A minha mãe não me deixava andar descalça por causa da filária, que dava muita comichão, e seria preciso queimar a pele, com gelo, até ao osso. O meu pai tinha, nos pés, umas escamas como massa folhada, que desejaria puxar e comer. A carne do meu pai era doce. A pele do meu pai era morna e morena.
Os seus pés eram bem acabados, cheios, com os dedos desenhados ao pormenor, como uma escultura do Renascimento, e as unhas redondinhas, transparentes, brilhantes. À hora da sesta de Domingo, quando eles se deitavam, e eu não tinha que fazer, a não ser brincar com o Piloto, que a minha tia envenenou em Alcobaça, anos mais tarde, e com os gatos, que ficaram em Lourenço Marques, desculpem, no Maputo, e que fugiram atrás das gatas, e foram, de certeza, apanhados, mortos e comidos como coelhos pela pretalhada esfomeada, disse a minha mãe, e que a pretalhada havia de amargar o que tinha feito aos brancos; nessas tardes eu ficava a brincar com os pés do meu pai, atravessada na cama.
A minha tia envenenou-me o Piloto em Abril de 1978, e acusou os vizinhos. Foi nas férias da Páscoa. Embalei o meu cão morto. Nunca tinha tido aninhado um cadáver contra o peito. Tinha os olhos abertos, vidrados, as patas traseiras contorciam-se rasando o focinho, duro, gelado. Segurei-o nos braços, e apertei-o, e chorei sobre o seu corpo inocente a minha culpa, dor, perda, impotência e abandono. Enterrei-o por debaixo da nogueira que existia na fazenda. Mais tarde abateram a nogueira. Os meus tios sempre me olharam com a mesma emoção com que se trata um electrodoméstico. O que era um cão? E que importância tinha o cão da retornada? Que a retornada, que roubara aos pretos, se tinha dado ao luxo de trazer para a Metrópole, quer dizer, para Portugal?! Se para retornados não havia lugar, para cães de retornados...
O meu pai apertava os pés um contra o outro, pressionava-os, fazia força, e ria-se. Eu não conseguiria separá-los, brincar como queria. Os pés do meu pai cheiravam a pêlo de cão. Era um cheiro seco e doce. Os cães cheiram a terra e a pão. Cheiravam a pão, sim, a terra e a pão, e eu queria tanto fazer-lhes cócegas, e morder-lhes, e ele ria-se, e dizia, larga-me rapariga, e eu ria-me, e fazia pior, e a minha mãe dizia, larga o teu pai, rapariga, e eu ignorava-a, tem juízo rapariga, vai para a tua cama rapariga.
O corpo da minha mãe era geométrico e seco. Não tinha autorização para lhe tocar. No corpo da minha mãe apenas me interessava o seu peito grande e mole. Que delícia haveria de ser poder mexer-lhe, mamar, chupar por todo o lado. Apalpar com força. Sacudia-me, está quieta. Tocar na minha mãe era uma atitude pouco própria. O corpo do meu pai, pelo contrário, sólido, redondo, disponível, era uma colina cheia de arbustos e vegetação à qual podia trepar, e sentir, cheirar, beliscar, morder. Puxava-lhe os pêlos, as unhas. A barriga das pernas do meu pai tinha uma curva tão harmoniosa, tão ondulada, e era tão cheia. Simulava que as mordia com muita força, e ele simulava gritar, ai, ai, está quieta rapariga. Que belas pernas tinha o meu pai. Brancas. Nem demasiado musculadas nem gordas, embora fosse gordo. Compridas, torneadas. Os calções assentavam-lhe a matar. Eram umas pernas quase femininas. Atiçava-me, provocador, sorrindo cheio da mesma falta de modéstia que tão bem conheço, querias ter umas pernas tão jeitosinhas como as minhas, Isabela?! Querias, não querias?! As minhas vão à amostra a umas senhoras. Dizia isto muito vez, quando estava bem vestido, vou à amostra a umas senhoras. E eu pensava que brincava. As pernas do meu pai, que raiva. Seguia-se uma competição de beleza de pernas, em que cada um mostrava os seus maiores atractivos e em diversas posições.

A barriga do meu pai descaía quando se deitava de lado. Que solenidade. Que importância, a de uma barriga assim dilatada. Tinha-lhe respeito. Ele protegia-a com os braços, e aos genitais, se bem que os últimos não me causassem interesse. Quando se deitava de lado, se vestia calções largos e curtos, era possível vislumbrar nesses lugares certas sombras medonhas. Desviava o olhar por vergonha e medo e nojo. As partes íntimas do meu pai eram uma mancha escura e mole. Que contacto visual tão desagradável.
Lembro-me do roçar da sua cara mal barbeada na minha cara, nos meus lábios. Vai fazer a barba. Já fiz a barba, agora vê lá. Querias ter uma pela tão maciazinha, não querias, Isabela?! Querias! Era macia. Lembro-me do cheiro a suor do seu pescoço. Suor de homem. Denso. Da massa enorme que era o seu corpo, tão segura, tão certa. Sentar-me ao seu lado, ao seu colo, às suas cavalitas. O corpo do meu pai era um trono. O corpo do meu pai era bom.

O que dele restou encontra-se arrumado numa gaveta da 8ª secção do cemitério do Feijó. Quanto ao resto que lhe pertencia, não consegui arrumá-lo em lugar algum. Não cabia. Não há-de caber.


quarta-feira, abril 09, 2008

Fantasma

Disse alto, com voz forte e jovial, muito perto da minha cabeça:
- Olá!
Era um olá grande, impositivo, ao qual me seria impossível não responder.
Reconheci a sua voz, e, ainda no sono, pensei, não podes ser tu; tu já morreste. E abri os olhos.

sexta-feira, abril 04, 2008

Algumas cartas que queimei




Encontrei uma carta escrita pelo meu pai à minha avó, na Metrópole, datada de 17-07-1973, Cidade Salazar, nome que a certa altura deram à Matola. Estava na caixa de fotografias, juntamente com umas que vieram de casa da minha avó. Relatava-lhe ele o meu insucesso no exame da 4ª classe.
Eu já ando há muito tempo para escrever mas a disposição tem sido pouca, 1º porque a Isabela estava muito atrasada para o exame e tive que ser eu a puxar por ela todos os dias e a todas as horas que tivesse livres. O que ele queria dizer, era que tinha sido ele a dar-me enxertos de porrada diários, depois de jantar, e que a minha capacidade de aprendizagem em questões aritméticas teimava em resistir ao seu excelente método da bofetada, até porque todo o meu corpo estava concentrado no cálculo da relação peso-velocidade da próxima bofetada e respectivo impacto. E continuava, porque isto é a Rainha das Mandrionas, mas tanto apertei com a coisa, que estraguei tudo, ela sabia, e sabe o suficiente. Mentira, não sabia a ponta dum corno em aritmética; a D. Adelaide, minha professora, chamava-me burra com b grande. Mas na altura do exame, caras novas, ela muito nervosa, muito recomendada que tinha de fazer tudo, resultado, chumbou logo no ditado. Mentira, que infâmia, como é que ele pôde escrever isto à minha avó?, por que não admitiu a verdade?, que eu nunca dei um erro, e chumbei na aritmética, senhores, na aritmética. Já não teve apelo, e por acaso era aquilo em que ela era melhor. Paciência mais um ano de sacrifício. Mais um ano de sacrifício para mim, que continuei a não conseguir aprender Matemática segundo o eficaz método da bofetada, exemplarmente levado a cabo pelo meu pai e suas incontroláveis manápulas. Eu era malhadiça.
Li esta carta com um grande sorriso. Era a voz do meu pai. As desculpas do meu pai. Pareceu-me ouvi-lo falar, naquele momento.
Lembrei-me que já nada resta das cartas que eu e os meus pais trocámos entre 1975 e 1984, fase em que estivemos separados, eles em Moçambique, trabalhando para comprar uma casa, um carro, pouca coisa, mas digna; eu cá.
Talvez possa ainda haver uma ou outra espalhada por qualquer gaveta em casa da minha mãe, ou no sótão. Perdida. Não sei. Lembro-me que por volta de 1985, 86, queimei todas as que encontrei, num acesso de raiva, numa afirmação de revolta e liberdade face ao que eles eram, representavam, e esperavam de mim. Foi um auto de fé de que não tirei qualquer benefício. Primeiro, porque as cartas também ardem mal, e tornou-se uma má experiência de fogo, fumo, sujidade e cheiro, depois, porque não obtive satisfação do acto. Não me tornei mais livre nem me pacifiquei, senão muitos anos depois. Para além disso, não confessei tê-lo feito. Não sei se me perguntaram por essas cartas, se lhes sentiram a falta. Não me lembro. Eu sinto-lhes a falta. Gostaria, hoje, de poder ler tais palavras cheias de angústia e esperança que lhes dirigi, e que me dirigiram. Quando vens?, está quase! Ao queimar esse passado, e sei que queria queimá-lo, eliminei a possibilidade de reconhecer, factualmente, episódios dessa época. Tudo o que hoje sei é uma reconstrução, um esforço de memória. E arrependo-me muito.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...