Mostrar mensagens com a etiqueta como conquistar um homem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta como conquistar um homem. Mostrar todas as mensagens

domingo, junho 03, 2007

Do recente interesse das mulheres pelo futebol


O que importa são as tendências. Para compreender o que se passa fora das nossas paredes, convém escrutinar amálgamas de comportamentos face à moda, à gastronomia, ao sexo, linguagem, desporto, e por aí fora. Nenhum fenómeno social aparece do nada. No nosso tempo, a falácia da liberdade sexual, gerou uma espiral de mudanças que nos soam estranhas.
Cá na minha ideia, o interesse das mulheres pelo desporto é uma tendência em tudo paralela ao uso de apetrechos sexuais, e à prática de sexo anal. Trata-se, no essencial, do mesmo fenómeno de descoberta, associado ao trabalho eficaz da máquina que hoje produz comportamentos e consumos: media e publicidade.
Quando tinha 18 anos, aos vibradores chamava-se-lhes massajadores faciais, e as raparigas riam-se de embaraço, quando os viam nos catálogos de vendas por correio. Hoje, estão nas prateleiras das farmácias de serviço, bem acondicionados, é certo, mas ao lado de qualquer outro produto Durex. Há umas semanas, cheia de honesta e ingénua curiosidade, perguntei à ajudante da farmácia onde me abasteço, o que continham as caixas lilás e rosa ao lado do Durex play; a senhora explicou-me, com a mesma seriedade com que descreve a toma do antibiótico, as diversas funcionalidades dos objectos que se encontravam nas duas ou três caixas de diferentes tamanhos.
Aos 18 anos, imaginava que o sexo anal fosse um comportamento assaz desviante, próprio do universo homossexual, mas hoje constato que querer dar ou levar na padeira, própria ou alheia, pouco ou muito, só para experimentar ou já nos domínios da parafilia, é fenómeno que atingiu a todos.
Mas, o futebol, senhores! Que nunca foi pecaminoso nem propriamente proibido às mulheres! Que apenas as enfadava! Como compreender o súbito interesse por fruto tão pouco apetecido?!

O recente entusiasmo das portuguesas pelo futebol - jogos, jogadores, clubes, campeonatos - surgiu primeiro noutros países europeus onde as mulheres atingiram, cedo, territórios masculinos, e aparentemente justifica a sua permanência nesse mundo que foi só deles: a repartição, o gabinete, o café, o grupo de colegas de escola, universidade ou emprego. Integra-as. Se as mulheres partilham os espaços profissionais e culturais onde eles eram maioritários, e reinantes, faz um certo sentido, numa óptica patriarcal, a única visão do mundo que as mulheres conhecem e aceitam, ainda, que passem a interessar-se pelos discursos que os moviam e ligavam nesses contextos. A saber, independentemente da classe social a que pertençam os elementos do sexo masculino: futebol, cervejolas e gajas.
As mulheres entraram no futebol, inicialmente, pela porta dos jogadores: conheciam-nos; o Simão tinha pernas lindas; o cabelo do Nuno era de morrer, e o rabo de não sei quem era delicioso. Lembro-me desta época. Lembro-me que achei estranho. Até aí, poucas mulheres se interessavam por bola. Eram sobretudo as mães de rapazes, que suportavam dominicais injecções de convívio futebolístico.
No princípio, os homens gozaram um bocado. Elas comentavam os atractivos sexuais dos jogadores?! Okay, justificava-se, eram mulheres. Era o mais longe que conseguiam chegar.




Demonstrar interesse por gajas não foi, para as mulheres, missão propriamente difícil. No meio de homens, e muito ajudadas pela suprema fantasia masculina do paraíso - miúdas no rebolanço umas com as outras - as mulheres perderam a vergonha de dizer abertamente o que me valeu fama de lésbica desde o 7º ano de escolaridade: que as mulheres são lindas e desejáveis, inclusive para outra mulher. Hoje, é lícito declarar-se, em grupos de mulheres, sem se ser olhada de lado, que as mamas de fulana são faraónicas. Que sicrana é belíssima. Mas há dez anos atrás, as mulheres ainda afirmavam não saber apreciar mulheres, mentira piedosa da qual me fui rindo em silêncio.

Embora custe a crer, a cervejola tem sido o principal obstáculo à progressão da portuguesa no mundo do futebol. A cervejola lusa amarga que se farta, mesmo gelada, mesmo a morrer de sede, e não fosse a ajuda do panaché, mais leve de sabor, enfim, bebível, e, recentemente, a bela ideia das cervejeiras, com as green, as pêssego, as framboesa... tudo teria sido mais difícil.

Mas repetir comportamentos masculinos, reforçando-os, para provar serem suas iguais, só seria útil aos grupos sociais se os homens fossem realmente o sexo forte. Nunca foram. E a nós também não nos interessará enfatizar tal concepção muscular e emocional de fraco e forte.
Esse tem sido o grande erro das mulheres: quererem ser aquilo que eles não provaram ser! Quem quer ser homem como os homens? Nem eles!
Evidentemente, a entrada das mulheres neste "pequeno" mundo do futebol não foi conquista alguma. Os homens também se adaptaram?! Passaram a gostar de patinagem no gelo, de néctares de pêssego?! Começaram a admitir que sabiam apreciar gajos?! Que fulano de tal, afinal, era giro?! Não me parece. Portanto, se apenas uma parte da população adaptou novos comportamentos, tudo ficou igual.
Temos, pois, que as mulheres permanecem doces e suaves, mas podem filiar-se no território dos homens, até porque são decorativas, dão graça, alegram. E que os homens continuam durões, aceitando mulheres doces e suaves filiadas no seu território - até lhes dá jeito tê-las à mão - mas, atenção, mantêm-se durões.
Isto foi só o princípio.

Depois, veio o Europeu, a seguir o Mundial - ou ao contrário, sei lá - ambos com a respectiva praga de bandeiras portuguesas, e de efeito pátria. Gostar de futebol já não era apenas gostar de algo pertencente ao território masculino, ao qual passámos a ter acesso. Gostar de futebol era também ser bom português, ou boa portuguesa. E isso contou muito.
Era verão, estava calor, passarinhas e passarões ferviam de exaltação. Sabia bem brincar ao Carnaval, ao final da tarde, depois dos caracóis na esplanada. Era um espectáculo de massas, martelado até ao esgotamento por todas as televisões, em todos os noticiários maiores e menores, e na publicidade, por fios de horas, de fios de horas. A mensagem visual transmitida pelos media, e publicidade, em concorrência, envolvendo mulheres jovens, bonitas e seminuas, ou velhotas gordas, de bata e lenço na cabeça, sacudindo bandeiras nacionais ou ramalhetes de panos da cozinha verdes e vermelhos agradou ao marketing do espectáculo. Promovia-o. Engrandecia-o. Gerava mais receitas. Portanto, a visibilidade das mulheres envolvidas no espectáculo de massas, chamou mais mulheres.
Creio que grandes finais internacionais de futebol desta década terão restabelecido os caudais mínimos de comunicação em muitos casamentos perto do estado pantanoso. De repente, a conversa animou ao jantar. Como tinha sido o jogo de ontem, e a seguir quem jogava com quem, que prognóstico era possível fazer... Nunca as portuguesas aprenderam tanto vocabulário técnico-desportivo em tão pouco tempo: marcar um canto, penalti, falta disto e daquilo... foi uma verdadeira acção de formação nacional massiva.

Acrescente-se-lhe, agora o salutar hábito conjugal mediterrânico, que em Portugal se respeita: gaja que é gaja, e gosta do seu gajo, esforça-se por dialogar com o dito - vem nos conselhos da revista Maria sobre como manter a magia no casamento. Se o seboso só consegue falar de futebol, fale-se de futebol; se não é possível ir com ele a mais lado nenhum, excepto o estádio, ou o café com écran gigante e Eurosport, venha de lá estádio e café com écran e Eurosport, porque, em Portugal, e isto aprende-se cedo, aprende-se em casa, mulher que é mulher, esforça-se primeiro por agradar ao seu homem, e depois logo se vê se vale a pena respirar, viver para além dele.

Resumindo, que isto do futebol cansa-me, e excluindo desta conversa aquelas mulheres que sempre gostaram genuinamente de futebol, porque sempre gostaram de desporto, tal como muitos homens sempre gostaram genuinamente de patinagem no gelo, a maior parte das portuguesas da minha geração, e da que me precede, aprenderam a gostar futebol por motivo bastante ordinário: a integração num grupo de homens - agradar aos companheiros conjugais, de forma geral; acompanhar marido e os filhos; responder às bocas no horário de trabalho ou fora dele, com colegas.

No entanto, é muito provável que a actual tendência acabe por gerar um interesse verdadeiro nas raparigas das gerações futuras. O impacto do futebol junto das mulheres vai, certamente, implicar alterações culturais, e o futebol deixará de ser um feudo masculino. Espero que sim. Resta-me esperar, igualmente, que o futebol se transforme em efectivo desporto, não num mafioso reduto de violência, dentro e fora do campo, ou não as servirá a elas, tal como não os tem servido a eles.

sexta-feira, março 16, 2007

Objectos de fantasia


Sorrio com Bridget Jones. Compreendo-a. Quer ser magra. Eu também. Quer fazer tudo certo. Eu também.
Bridget é bonita, tem bom emprego, amigos e vida independente, mas como se sente insegura e insatisfeita! Falta-lhe tudo! Apenas não tem um companheiro, mas essa ausência condiciona toda a sua vida, gerando um stress habitual a quem busca e não acha, colocando-a em situação de enorme risco e desgaste emocional. Bridget, sem namorado, sente ter nada. A sua auto-estima tem dias, e toma o fracasso como certo. Esta percepção, tão generalizada, sobre a vida das celibatárias, aborrece-me. As pessoas não são muito diferentes, portanto, o que Bridget sente, eu já senti.
Temos a ideia de que avançámos muito desde o tempo das nossas mães. Eu não tenho. Enquanto continuarmos à procura de homem para nos sentirmos completas, e precisarmos de parecer, por dentro e por fora, o que consideramos fundamental para os seduzir e manter, e nos guiarmos por bitolas de beleza e bem estar que julgamos serem-nos impostas pelo gosto deles, mas que igualmente lhes são impostas pela ditadura das tendências, estamos no mesmo ponto em que estiveram as mulheres de há 40 anos.
É difícil não nos sentirmos a Bridget Jones. Todas as mulheres, não apenas as solteiras, se sentem Bridgets percentuais. Revejo-me muito na personagem, embora difiramos nos sonhos, sobretudo no que esperamos do amor: Bridget não abdica da ideia de príncipe encantado, e o seu objectivo é deixar de ser solteirona; conhece o estigma, e quer apenas confundir-se no anonimato da felicidade conjugal; eu, no que respeita a homens, ultrapassei a fase Bridget: já só agradeço a delicadeza de se manterem ao largo, e evitarem chular, para tabaco e outros vícios, o esforço do meu trabalho. Quanto ao resto, conheço bem os impulsos de fuga aos jantares com grupos de amigos acasalados; os sentimentos culposos de solteirona em permanente e absoluta contramão social; as deslocações desoras ao frigorífico, porque sinto uma falta. Não é bem fome nem sede nem dor nem comichão, mas uma falta ilocalizável que tem de ser preenchida. É uma falta de mim. É o desejo de ser outra. Isto, isto mesmo: o desejo de ser outra! Não eu, não nós, não aquela que se senta na mesa ao nosso lado, mas a mulher modificada e mediatizada que nos enfiam todos os dias em casa, via cabo. Um produto da fantasia, de uma estética imposta por ideais massificados, uma fruta do tempo, que passa, como tudo o que existe. Queremos ser uma imagem, uma ideia de mulher.





A ditadura da atracção sexual, e consequente necessidade de manter as características que estimulam o que consideramos ser o desejo masculino, obrigam Bridget Jones, e a maior parte das mulheres, mesmo as que se mantêm alerta contra estratégias de consumo, a uma violenta uniformização da aparência e dos comportamentos.
Queremos eliminar a celulite! Eu não compreendo o ódio à celulite. Sinceramente. Há coisas que posso compreender, mas, no caso das mulheres, viver sem celulite, é como viver sem bílis. Não podemos lutar dessa forma contra o nosso corpo. A celulite incomoda-nos particularmente?! Dói?! É natural, se pressionarmos as mamas também nos doem. Queremos eliminá-la porque temos vergonha de mostrar as pernas na praia - e aos companheiros de cama. Quem, senão nós, umas às outras, nos ensinou a ter vergonha da celulite?! Nós criamos as ditaduras em que vivemos no momento em que pactuamos com elas. É assim na política como na fisiologia. Não podemos aceitar, sem questionar, um livro de estilos que nos serve mal. A luta que as mulheres travam contra a celulite não é muito diferente do actual conflito Israel-Palestina: não há solução à vista! Não mudará enquanto não mudar toda a mentalidade.
A mulher que desejaríamos ser, necessitaria dedicar a jornada inteira à escultura de si. Teria de dividir o tempo entre o ginásio, o gabinete de estética e o centro de massagens. Não trabalharia a não ser na construção da sua aparência enquanto produto de consumo. Quem depende do aspecto para cobrar salário, como as modelos, apresentadoras de programas de televisão, actrizes, inclui o custo da manutenção no seu valor de mercado. Ser um produto do que a cultura deste tempo decidiu que deveria ser uma mulher ou um homem, implica trabalho a tempo inteiro, e dinheiro. É incompatível com a vida real; com o nosso horário e obrigações.
Detestamo-nos ao espelho, e no que julgamos ver nos olhos dos outros. Não nos aceitamos, e impomo-nos regras absurdas para tentar ser o que a natureza não programou. Castigamo-nos. Não queremos ser magras se somos magras, nem gordas se somos gordas. Não nos servem pernas finas, se as temos finas; não aceitamos perna gorda, se a temos gorda. Se nascemos com mamas pequenas, pagamos implantes de silicone; se os genes no-las fizeram grandes, sujeitamo-nos a reduções mamárias. Não toleramos depósitos de gordura no abdómen nem rabos ou mamas descaídos nem rugas nem papos nos olhos nem duplo queixo nem pêlos em parte alguma. Se temos o cabelo liso, queremo-lo ondulado, se o temos ondulado, pagamos para que no-lo alisem. Meu Deus, que violência absurda a que nos sujeitamos! Que nos auto-infligimos! Que ditadura! Viver todos os dias com quem detestamos, e sermos esse objecto de repulsa. Sonharmos com outro corpo, outra vida, uma casa californiana, viagens semanais, um guarda-roupa que não temos dinheiro para comprar. A ficção. Queremos ser mulheres de ficção, e a ficção não existe. Custa-nos aceitar essa realidade.



quinta-feira, abril 13, 2006

À noite, sonho que roo as unhas

Durante muitos, muitos anos andei em público de mãos cerradas e nunca apontei. Não mostrava os dedos. Roí as unhas toda a vida, e temi, e envergonhei-me do que esse incorrigível vício denunciava de mim.
Depois, foi necessário reconquistar um homem. Era uma questão de vida ou de morte, e não exagero. Reconquistar um homem é uma missão bastante mais difícil do que simplesmente consegui-lo pela primeira vez. Uma conquista requer algum trabalho, um ou outro cuidado aparentemente fortuito; mas uma reconquista, e de um homem, pede papel e lápis.
Senti que para retomar aquela praça teria de perder o tal vício. Não saberei explicar porquê; inspiração do momento. Deixei de roer as unhas. Sofri. Ficaram bonitas; arranjei-as; pintei-as discretamente. Gostei do resultado. Como consequência, movimentava mais as mãos, exibia-as, elaborava arabescos com elas no ar impecavelmente cuidadas e vistosas. Vaidosa.
Reconquistei esse homem. Consegui. Em pouco tempo e sem papel nem lápis. Inspiração, apenas. Tenho os meus segredos. Ele mirava-me as mãos e dizia, "que unhas tão bonitas; lembro-me que sempre tiveste as unhas tão bonitas! Estão iguais!" Não tive coragem de lhe dizer que sempre roí as unhas, que nunca as tinha tido assim, que tinha abandonado o hábito por sua causa, apenas. Nunca lhe direi. Há coisas que nunca podemos dizer.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Técnicas de caça

A minha namorada adora colocar-me gelo por todo o corpo. Já estou farto desta situação, pois devido às correntes de ar cheguei a ficar constipado. Será o comportamento dela normal?

J.M. - Santarém

Ela chupa-me os mamilos. Não faço ideia onde a minha namorada ouviu dizer que os homens se excitam desta forma. A verdade é que me irrita bastante, mas não lho consigo dizer.

G.L. Tavira

(Revista Maria, edição desta semana.)

Meninas, parece-vos justo sujeitar os vossos namorados a tais sevícias, só porque leram, na Máxima, uns artigos, que até eu podia ter escrito, sobre como pô-los malucos a ponto de, finalmente, revelarem algum talento?
Pobres rapazes, sujeitos a correntes de ar, a constipações...; chuparem-lhes os mamilos...?! Desta vez estou do lado deles: não se faz: e prejudica a economia do país; é desmoralizá-los!
Os homens não precisam de preliminares. Macho que é macho, o único preliminar que reconhece consiste na emissão de um som de uma só sílaba: não!
Não vale a pena estudar o kama-sutra: basta um não. Mas trémulo. E depois outro. Umas negas hesitantes seguidas de sucessivas pequenas concessões, que eles pensam ter alcançado mercê do seu elaborado esforço de caça.
Explico: lá nos alicerces dos seus cérebros hominídeos, somos ainda o animalzinho inocente e tenro que eles querem abater para comer, o qual, óbvio, foge, por instinto, à perseguição. E do que eles gostam é da fuga seguida da perseguição, da armadilha, do jogo de estratégia e antecipação e, finalmente, do abate, que lhes servirá para manter a auto-estima, "ainda os tenho no sítio", coisa e tal. Portanto, não descansam enquanto não enfiam o balázio na corçazinha mansa que as águas da ribeira volvia, volvia.
O meu conselho sobre preliminares para homens é, pois, o seguinte: sempre "não", "não posso", "não fiz a depilação", "sou da igreja evangélica e nós não podemos", "não estou preparada", etc.: confio totalmente na vossa imaginação; sempre a afastar-lhes as mãozinhas, mas nunca completamente, como se não tivéssemos força, coitadinhas, como se não fôssemos capazes de lhes assentar uma joelhada nos tomates.
"Não, não, não", mas suave, assim como se não soubéssemos bem, permitindo, por fraqueza, umas abertazinhas aqui, acolá, mais adiante. Entendido?

Depois, depende de cada uma de vós, ou se deixam caçar, e, se estiverem muito esfomeadas, lá terá de ser, ou adiam o repasto para uma próxima caçada.
Eu era capaz de adiar, porque, lembrem-se, um caçador a sério não descansa enquanto não reencontra o lindo exemplar de cervozinho do monte que quase feriu, mas não conseguiu abater.

quarta-feira, maio 04, 2005

Miss Maio



Isto anda mau. O pessoal anda todo a sofrer de síndroma pré-menstrual.
Eu, sobretudo, mas nem a esse luxo me posso entregar.
Eu, que passei a tarde a discutir representações do feminino na literatura do século XIX, a urgência de um novo feminismo e as armadilhas do patriarcado! - vejo-me na contingência de fazer uso do discurso icónico do mesmo patriarcado com o objectivo de levantar a moral às tropas.
Ainda pensei colar aqui uma florzinha com umas palavrinhas cristãs, sobre o lindo dia de sol que vai estar amanhã, sobre a bonança que se segue à tempestade, mas pensei melhor: o que é que recupera eficazmente, sem falha possível, a moral às tropas? E lembrei-me da Marilyn no Vietnam ou na Coreia ou lá-onde-é-que-era a cantar para uns do "Apocalipse Now". Estou a ver-lhe bem o vestidinho e respectivo decote. Um decote realiza milagres. Constipações também, mas a minha vida pessoal não é para aqui chamada...
Enfim, só hoje, e porque isto é serviço público!, e porque valores mais altos se levantam!, perdoe-se o mal que me sabe, pelo bem que lhes faz.

quinta-feira, abril 21, 2005

Do que eles gostam...



Quando gostamos de um homem, ficamos que não podemos.
...capazes de lhes sangrar o galináceo para o sarrabulho, mesmo que sejamos vegetarianas, que não possamos ver sangue...
...capazes de lhes lavar as cuecas e as peúgas, à mão, com detergente para roupa delicada...
Quando gostamos de um homem, ficamos um bocado narcotizadas, um bocado desarrazoadas: espécie de queimadas africanas que se estendem por quilómetros, devoram a terra e deixam rasto; fogo posto sem pensar; tesouro descoberto no silêncio, na escuridão, que se dá com mil brilhos; mãos cheias de rosas de Abril, cheiradas de um só fôlego, desfolhadas, esmagadas com lábios; o mel mais claro e puro da urze, da laranjeira...
Somos irresistíveis, estonteantes, qualquer coisa para além da glória. Impossíveis de satisfazer... Queremos tudo: os gestos, as palavras. Tudo. O pacote inteiro. O deluxe.
As palavras são fundamentais. Uma mulher pode viver de palavras. Qualquer bom filho-da-mãe sabe isto. Não devia sequer lembrar, ao inimigo, como usar armas! Sou tão honesta!
Consequências da nossa excepcional paixão: telefonar-lhes 48 vezes por dia, mesmo que trabalhemos no mesmo edifício, só para lhes dizer que os amamos e temos saudades; para os ouvirmos dizer que nos amam, que têm saudades; para desabafarmos que, mal cheguemos a casa (dele ou nossa - nesta fase!), abraçá-los-emos, e...
Eles, mudos! "Sim, sim, eu também"; "mais logo; está quase; antes tenho de passar pelo «Ginja», que o Tó Bé faz anos!"; "depois, logo e vê!"
Ao almoço, no refeitório: "Doce, não aguento mais; vamos viver juntos; não me importo com os teus cães; não faz mal que ressones e que sejas sonâmbulo!".
Somos dadivosas! Todas feitas de amor, para o amor. Substância macia, transparente, completa - quer sejamos presidentes da Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher (CIDM), secretárias de direcção no Millenium BCP ou activistas da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). Magníficas!
Mas a nossa excelência é desbaratada, irreconhecida: assim que eles nos percebem no papo, desinteressam-se! Já não podem viver connosco; já não têm tempo para nos telefonar nem para ir ao cinema. Param de nos mandar flores da Romeira Roma; de nos oferecer mimos da Casa Batalha, que tanto apreciamos: anéis, broches, brincos... Nem falamos de joalharia a sério! De um anel de míseros 250 euros!
De repente, começam a conjugar os verbos todos na negativa: "não posso; não consegui; não me lembrei; não sabia..."

A partir desse momento, temos uma única solução: dar-lhes desprezo, ignorá-los, fazê-los sentir que são a existência mais desinteressante à face do planeta. Que qualquer amostra de lingueirão tem mais atractivos!
A receita consiste em evitá-los; sair das salas em que entram; não frequentar aquelas onde sabemos que, com toda a probabilidade, estacionarão - se for mesmo inevitável entrar, fazê-lo rapidamente, atravessando com o passo ágil, o pescoço alto, os olhos colados ao infinito abstracto, um ligeiro sorriso geral de Mona Lisa, aparentando não perceber que nos estão a contemplar, 30 centímetros à esquerda; se for obrigatório parar, voltarmo-nos de costas, ou só a meio corpo, e responder, rindo glamorosamente, por muito desinteressante que seja a peça. Mostrarmo-nos divertidas, descontraídas...
Estar lindas. Estar frescas. Estar muito melhor do que quando nos interessávamos por eles. Do que quando nos oferecíamos e nos podiam ter. Porque até queríamos ser tidas. Porque agora já não podem, já não queremos! Eles que o sintam totalmente!
Sempre, fugir com os olhos; nunca permitir que se cruzem; negar o sorriso, o brilho, a clareza da nossa presença. Se nos vêem ao fundo do corredor, e caminham na nossa direcção, entrar por uma porta qualquer, pode ser o departamento jurídico ou as escadas de serviço... Se o confronto for inevitável, mastigar, sempre andando, e sem esperar resposta, um "Olá. Tudo bem?!"
Deixá-los plantados a olhar para essa vertigem de nós, passante, indiferente ao amor, esquecidas daquela tarde, daquela música.... Como é que se chamava? Sometimes it snows in April??? Oh, já não nos lembramos!

A partir deste momento, encaram uma única solução: começar a seguir-nos os passos; os movimentos pendulares da anca; a procurar-nos o rosto avidamente; a arranjar pretextos para ir à nossa sala entregar-nos resmas de papelada...
Não é que os seus olhos de cão esfomeado - pedintes, abandonados, interrogativos - nos sejam indiferentes! Mas não podemos ceder. Eles que nos venham comer à mão, e que venham mansinhos...
Mais dia, menos dia, convidam-nos para um café - que até podemos aceitar, desde que demonstremos pressa, enfado! Perguntar-nos-ão, "por que estás tão distante? Nunca te vi assim..."
"Distante, eu?, estás parvo!; se soubesses a quantidade de trabalho que tenho, logo vias..."
"Isa, estou a precisar tanto de falar contigo, mas aqui não, na minha casa... Amanhã? Este fim-de-semana..."
"Sim, sim, claro; depois, quando estiver mais leve de trabalho, aviso-te... Este fim-de-semana vou para fora!"

Assim é que eles gostam! Gostam de levar porrada!
Depois, vão para casa, desaustinados, escrever livros de poesia dos quais constituímos objecto poético: poemas sobre o sol que habita os nossos olhos, os fios de ouro reluzente das nossas ondas capilares, as covinhas infantis do nosso sorriso, os arabescos sensuais que as nossas mãos desenham no ar, o nácar das nossas unhas, a gentileza dos nossos pés...
Deus lhe valha: miramos mãos, unhas, pés e nada encontramos de invulgar; mas seja! Até vestimos uma saia no dia seguinte... Até compramos uns sapatos abertos... Inquieta-os?! Que pena!

De repente deixamos de ter celulite, a nossa pele torna-se a mais macia e, a nossa voz, morna e musical...
E se aparentarmos não perceber o objectivo daquilo, se o trabalho for bem feito, acabam por confessar-nos, "sabes, estive a pensar; acho que devíamos ir viver juntos! Tenho saudades tuas!"
Mantenhamo-nos em silêncio, com os olhos fixos na bica - vá, só mais um pouco, está quase!
Levantemo-los só quando disserem, "e não é só isso, fofinha, eu amo-te, sabes bem - e não aguento mais a forma como o Manel Zé olha para ti!"

Nesse momento, temos duas hipóteses. Pessoalmente, prefiro a segunda.
Primeira: não lhes respondemos, puxamo-los à mão larga, e assentamos-lhes o beijo da vida deles e da nossa; mordido e lambuzado!
Segunda: "Desculpa, distraí-me. Estavas a dizer o quê? Estou tão cansada, hoje. Ontem à noite, fui ao cinema com o Manel Zé e, a seguir, ainda fomos tomar um copo!"

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...