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domingo, maio 07, 2006

Tens uma letra tão bonita!

Aprendi a escrever maiúsculas e minúsculas copiando-as para um papel muito transparente, que prendia sobre a pauta com um clip. A pauta era o que as letras deveriam ser; a minha caligrafia não passava de uma distorção da perfeição. Travei uma luta inglória contra o desenho da minha letra, sempre muito miúda, com as letras entrelaçadas umas nas outras, separadas apenas pelo til e outros acentos despropositados. Detestava escrever algumas consoantes desequilibradas, cujo desenho está errado de base, sobretudo as das “pernas”, f, p, r. Os meus guês e ésses eram iguais. O traço da caligrafia tinha de deslizar redondinho, com curvas muito acentuadas, como se fosse um fio de cabelo encaracolado, flexível como um acordeão que abre e fecha. Esse é o carácter da minha caligrafia, contra o qual lutei. A minha letra de criança num caderno antigo, visivelmente insegura entre a norma e o desvio, com palavras no meu estilo caligráfico, e as outras, da maneira certa, porque me lembrei que os agás da pauta eram mais bonitos. A minha Cidade e as Serras anotada nas margens, aos 15, com as consoantes buscando um compromisso entre o que deveriam ser e o que queriam tornar-se. Vigiando-se. A caligrafia como retrato muito fiel da estrutura identitária que vamos erguendo. Por exemplo, a minha assinatura no bilhete de identidade, que já não sou eu. Esforço-me por copiá-la nos documentos oficiais. Parece que me estou a falsificar. Estou mesmo.
Com a minha letra a crescer, e a da pauta, e as duas sucedendo-se, escrevi milhares de cartas, milhares de páginas de apontamentos, de notas, em casa, na escola, nos transportes públicos. Ao longo da minha vida escrevi muito mais do que falei. Tenho pena que não se possa resolver tudo escrevendo. Quando terminava uma página observava de longe o efeito geral. Era elegante? Equilibrada? Não, havia ali uma dissonância! Não tinha conseguido manter o ritmo. Aqueles éfes não assentavam na composição. Manuscrevi pela segunda vez inúmeros documentos que se destinavam a outros, porque a letra não me agradava. A caligrafia não era apenas um meio de comunicar, de me exprimir, mas um objecto plástico muito personalizado mantendo, na raiz, as regras básicas: o modelo da pauta. Cultivava a caligrafia, orgulhava-me dela quando o efeito final era harmonioso.


Escrever à máquina era rápido, mas nunca me satisfez. Quando me enganava era praticamente impossível que a tira de papel-corrector ou a borracha de tinta não deixassem uma miserável mancha, quase sempre pior que a nódoa de uma letra simplesmente batida sobre outra. O processador de texto resolveu esse problema. Hoje conseguimos produzir textos bonitinhos, escolhendo tipos de letra originais, que obviamente não são os nossos. Na verdade, hoje, ninguém precisa de desenvolver uma caligrafia pessoal, porque já ninguém manuscreve. Tecla-se. É uma limpeza. Se tivesse de manuscrever este texto levaria o dobro do tempo. E, no entanto, seria tão bom manuscrevê-lo.
No trabalho, exigem-me textos impressos; ninguém quer ler a minha caligrafia, e já não serve para nada. Já ninguém diz, “deixa-me ler a tua letra, escreve-me uma carta com a tua letra tão bonita”.
Sei de cor as caligrafias de todas as pessoas que conheci. Vejo-as de olhos abertos. Sei como são os às, os vês.
Nos concursos públicos, na entrega do irs por via electrónica já ninguém precisa de assinar. Fornecem-nos uma palavra passe, constituída por uma sequência aleatória de algarismos e letras. Temos códigos para tudo. Não sei a data de anos de ninguém, mas vejo-me obrigada a guardar na memória dezenas de sequências de códigos estúpidos. Na sexta, li que os ministros vão passar a promulgar leis via mail, mediante submissão e consequente aceitação de um código, o qual os identifica como ministro ou ministra x. Já não é preciso aprender a assinar. Precisamos, apenas, de sistemas de segurança para guardar todos os códigos. Um cofre para códigos. Agora, isso chega.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...