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quarta-feira, maio 07, 2008

Parto, e não voltarei

Foto de Tom Stoddart


Foto de Shehzad Noorani, Bangladesh


Foto Morris Berman, Helping Hands, USA

segunda-feira, maio 29, 2006

Parir de gatas

Gostaria de parir como as vacas do meu avô: no pasto, toda alargada em cima da terra e das ervas; ou no curral, refastelada numa cama de palha nova. Ou de cócoras, agachada; ou sentada no bordo de uma boa cadeira a cujos braços me prendesse com toda a força quando tivesse de puxar para expulsar, gemendo. Ou na banheira, com a água a 38 graus; ou numa cama larga com lençóis brancos de algodão; ou no chão, para que pudesse movimentar o meu corpo como sentisse que precisava movimentá-lo. Quereria ao meu lado as mulheres que já tivessem parido, como eu paria; motivassem-me a ter força, a fazê-la, que estava quase. E que me aturassem tudo quando clamasse que queria desistir, e que era a primeira e última, e todas aquelas frases que as mulheres desesperadas dizem no meio do choro e do parto.
Não me mantivessem presa a uma cama de hospital, numa sala desconhecida e impessoal, com cheiro a Betadine e éter, as pernas abertas e apoiadas, ao alto, nos estribos; ligado, o meu corpo, a frascos de que me desceriam tubos às veias; a máquinas cujos fios se colariam a mim; o foco de luz incidindo sobre a racha inchada que me rapariam, e, depois, rasgariam, sem poder mudar de posição, sem um rosto dos meus rostos, eventualmente um companheiro igualmente desesperado.
Em situações de gravidez normal, deveríamos parir como os outros mamíferos. Agachadas, de gatas. É a posição em que nos colocamos, por instinto, quando sentimos aquilo a que se chama dores de barriga. Ajoelhamo-nos e dobramo-nos, enquanto nos abraçamos.
As formas de parto natural acima referidas são praticadas em hospitais do Brasil e em Espanha, como forma de humanizar o nascimento, reduzindo o stress, logo, a dor e o medo. Há hospitais equipados com salas multifuncionais, adaptáveis às necessidades da grávida.
Estas podem escolher, conforme a fase do parto em que se encontram, caminharem pela sala, permanecerem sentadas ou deitadas no chão, ou numa cama, ou numa banheira com água quente. Decidem em que momento devem passar de um lugar para o outro, conforme precisam de mais ou menos ajuda, conforme sentem mais ou menos dor, e controlam elas o processo, acompanhadas pela doula ou parteira ou médica e família.

Trata-se de trazer para o hospital o ambiente do parto caseiro, beneficiando dos equipamentos hospitalares.



Qualquer destes métodos/posições facilita o posicionamento do nascituro e a postura física da mãe. Adaptam-se os dois corpos: um, à estreita passagem; outro, ao corpo a que abre passagem. É um trabalho dos dois, em que dois se sentem e compreendem em silêncio. Ele quer sair, ela ajuda-o. Ele ajeita-se. Ela ajeita-se. Os corpos criam as condições para o inevitável milagre.


Só recentemente ouvi falar das doulas, mulheres que se especializam em acompanhar a gravidez e o parto, substituindo a família próxima, que antigamente ajudava a parturiente. As doulas podem ajudar a criança a nascer em casa, ou estar presentes no hospital, no momento do parto. Em gravidezes normais, sem risco, as parturientes podem escolher uma doula que a acompanhará ao longo da gravidez, e a ajudará a parir naturalmente, em casa. Deve, contudo, salvaguardar-se a necessidade de chamar com urgência um médico previamente contactado, caso surjam complicações, ou mesmo, enviar rapidamente a parturiente para o hospital mais próximo.


O objectivo é "humanizar" o nascimento, aproximando-o da sua natureza animal, intuitiva; portanto, num sentido literal, trata-se de uma desumanização. Torná-lo acto intimíssimo de uma gravidez que não termina no momento em que o recém-nascido respira o mesmo ar da mãe. A gravidez culminou naquele momento, mas continua nos meses seguintes, porque o bebé e a mãe continuam a ser um do outro, a estar um dentro do outro, a ser um só, ligados pela boca, pela mama, pelo leite que os atravessa e os liga por dentro, como um novo cordão umbilical. A gravidez termina muito tempo mais tarde. Quando o bebé se equilibra sentado, quando pára de mamar, quando consegue dizer as primeiras palavras, e começa a dar os primeiros passos. Talvez vá mais longe: a gravidez não termina nunca, mas há um momento em que é preciso deixá-los ir.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...