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domingo, outubro 05, 2008

Um estilo de vida excessivamente cancerígeno



A certa altura dos relacionamentos as mulheres consideram reunidas as condições para começar a chagar a cabeça aos namorados com a ideia do casamento, do juntar trapinhos e estar sempre perto como Deus e o Diabo. E eles engasgam-se, encolhem-se todos, arranjam desculpas sobre não ser a altura certa, que estão aflitos com um projecto, pedem tempo para pensar, defendem-se, coitados, como qualquer animal à beira do perigo.
A maior preocupação da mulher solteira consiste em convencer o namorado de que o casamento é mais económico, mais romântico e a ordem natural das coisas. Para além de que o sexo fica à distância de um braço esticado, argumento que normalmente resulta.
Enquanto isto, as mulheres casadas levam a cabo um combate diário com o homem que têm lá em casa, chamando-o à responsabilidade para o que é sensato e exequível. Pelo mundo inteiro, a cada segundo, 23 milhões de homens estão simultaneamente a ser acusados de infantilidade e imaturidade, topos de uma pirâmide de defeitos que englobam, a título de exemplo, a generalizada falta de higiene corporal e a inexistência de hora certa para chegar a casa. A mulher casada não se preocupa em convencer o marido a manter-se casado: ele já estudou todas a hipóteses de fuga e sabe que não vale a pena escavar um túnel durante 12 anos com uma colher de café: não há fuga. O casamento é a única prisão de alta segurança onde não é possível iludir a atenção dos guardas. Isso foi tarefa de que a esposa se ocupou lá para trás, enquanto encheu a barriga de amorosos filhos comuns e colaborou na contração de hipotecas para o bem do agregado. Para ter a certeza que a propriedade-marido está segura, se tem economias de solteira, empresta-lhas para que ele entre num franchising cujos lucros reverterão a favor dos filhos. Se não tem, mete-o em negócios de família.
Não compreendo a maratona das mulheres a favor da construção e manutenção desta prisão para si e para os outros. Este é um daqueles casos em que o exemplo nunca serve de exemplo. De fora, olhando à minha volta para as famílias no café, chego a sentir falta de ar. Que pessoas tão infelizes, dependentes, aprisionadas, fartas umas das outras. Eu não tenho sexo ao alcance do braço. Eu não tenho quem me traga um chazinho quando estou de cama nem me faça uma massagem ou o favorzinho de ir lá abaixo ao leite ou despejar o lixo. O que é tenho é a minha vida. Não pergunto a ninguém se posso, não tenho acusações a debitar ou a creditar. Estendo-me no sofá. Se não quero não lavo a louça. Se não quero não vou ou cinema nem ao supermercado. Ou vou. Tenho cá os amigos e bebo copos de vinho se me apetece. Às vezes janto maçãs. É a minha, minha vida.
Se tivesse em casa as pressões do emprego, ou similares, porque as pressões carregam por igual, e não pudesse furtar-me a elas, definharia como uma árvore sem água. Carregaria a vida como um condenado a trabalhos forçados eternos, um escravo da vontade dos outros. Não me pertenceria. Acredito que as pessoas tenham vivido assim. Acredito que vivam assim. Para mim, sinceramente, é um estilo de vida excessivamente cancerígeno. Acredito que o meu saia mais caro, mas a qualidade de vida tem os seus custos.


sexta-feira, junho 08, 2007

E depois arranquei as penas

Camille Claudel


As histórias de amor não podem ter finais felizes.
Na sua essência, digamos, helénica, as histórias de amor são de uma exacta rigidez trágica: arrancam-nos o coração pela costas. E não há outra forma. Se existe uma ordem do mundo, esta regra está nela contida.

As histórias de amor que terminam bem transformam-se em comédias do quotidiano, da vida privada: e depois viveram felizes para sempre; ela lavava a louça, e ele limpava os pratos com um pano de cozinha às flores amarelas. Um dia rompeu-se um cano, houve uma inundação em casa, e quase tiveram problemas com os vizinhos de baixo, um casal de swingers, felizmente muito compreensivo.
Gostamos de comédia de costumes, mas a comédia, que nos liberta à sua maneira, não nos arranca o coração pelas costas.
Queremos o amor intemporal, que rasga com faca larga, arranca as entranhas num golpe frio, nos aniquila, nos suicida, real ou simbolicamente. Queremos a garantia de que ultrapassámos as circunstâncias do corpo, sagrado e estúpido, e já não somos o nosso lugar. Nenhum lugar.

sexta-feira, abril 15, 2005

O tempo das Camilas


Este blog tem mantido uma discreta atenção relativamente ao casamento de Carlos e Camilla. Mas o assunto é sério!
O triângulo de amor e ódio que envolveu Diana, Carlos e Camilla constitui uma história exemplar, e merece especial referência.
Façamo-la, antes que acabe a segunda lua-de-mel de Carlos!

Seguimos o casamento de Carlos e Diana, pela televisão, no longínquo ano de 1981. Conhecemos todos os preparativos. Comprámos todas as revistas e vimos todas as fotografias: noivos, vestidos, jóias, convidados... Diana era linda e a situação era perfeita - tão de acordo com o que nos ensinaram! Casar virgem e para sempre, com um homem que fosse alguém na vida; que nos respeitasse; nos pudesse amparar, se fosse preciso; nos desse filhos - constituir com ele uma família e ser feliz, sem amargos de boca! E, nos amargos de boca, ceder resignadamente.
Diana era virgem, o olhar doce, o sorriso tímido e inocente; meiga e submissa!; exercia a profissão ideal para uma menina, uma senhora: educadora de infância; adorava crianças. Cumpria todos os requisitos necessários para se tornar a princesa perfeita, o modelo de mulher.
Em 1981, o mundo parou para o casamento de Carlos e Diana, em 1941.
Explico: Diana casava mal; casava com o homem errado para um sonho que a época já ultrapassava. Não sabemos, com exactidão, como muda o pensamento, nem o que o altera; mas verificamos que muda, efectiva, periodica, radicalmente. E as estruturas (as sociais, as outras...) ou acompanham tais movimentos de mudança ou desagregam-se.
Diana casou, esperando viver num status de conjugalidade próprio dos anos 40 - o da rainha Isabel II - e foi isso que falhou redondamente. Para que Diana pudesse vir a ser a mulher e princesa que se esperava, Carlos teria de ser um outro homem, de um outro tempo antanho. E Diana também, mas na altura nenhum deles podia, ainda, ter grande consciência da mudança que os envolvia: estavam na mudança, eram a mudança!
Imaginemos um cenário diferente. Se Carlos a tivesse traído com Camilla, voltando para casa, manso e carinhoso, pedindo perdão, dizendo, "é de ti que eu gosto, querida, as outras são mera distracção! Perdoa-me as fraquezas de homem!", ter-se-ia o casamento aguentado? Não sabemos! É provável que não. Mais tarde ou mais cedo, Diana, como as outras dianas, acordaria do sonho e daria consigo nos anos 80!
Se houve, em Carlos, incontestável pioneirismo, no lugar que ocupava - e eu estou em crer que sim; honra lhe seja feita - consistiu em não ter fingido ser o que não era. Revelou-se sensível, contemplativo, passivo, carente - características tradicionalmente femininas; logo, Carlos nunca terá procurado uma "Diana" igual: frágil, tradicionalmente feminina. Não faz muito sentido. Dificilmente a terá desejado; terá gostado dela; tê-la-á considerado bonita, excelente mãe dos filhos de ambos... mas não a amou, não fingiu amá-la, não cedeu às chamadas de atenção de Diana! Para ela, foi o Inferno; para Carlos, não terá sido fácil.
Carlos desejava, nitidamente, uma Camilla, uma mulher que não tivesse dúvidas, que em vez de lhe perguntar "por que não me dizes amo-te?", lhe comunicasse, determinadamente, "estou doida por ti: não quero saber se me amas ou não!".
Neste contexto, Diana esteve condenada desde o início. Diana era linda; era doce, mas nunca passou do seu nome: Diana Spencer, a educadora de infância. Como podia ela competir com a fogosa e independente Camilla Parker Bowles?
Camilla Parker Bowles! É um nome saboroso! Tem classe, nobreza, musicalidade. Não era deslumbrante, como Diana, mas caminhava agilmente, falava alto; não pedia licença, agia; não sorria timidamente, dava uma gargalhada - e isso terá fascinado o Príncipe. Afinal, Camilla era tudo o que lhe exigiram, tudo o que nunca conseguiu ser: livre, descontraído, seguro de si, dono, rei...
Uma inversão dos papéis? Não, uma liberdade dos papéis! Eu diria, elasticidade, movimento. Eu diria, mudança!
Diana era boa rapariga, e eu tenho pena dela. Acreditou num sonho que não pôde ter; a mundividência que o gerou estava exaurida.

A história e destino do casamento de Diana e Carlos é comum a 50% (? - limitei-me a atirar uma percentagem!) dos casamentos realizados nas últimas duas décadas. O conceito de conjugalidade assente no casamento tradicional já, há muito, mostrou ter falhado - não se dá bem com este tempo.
O problema não está no amor, nem no "para sempre". Todos nós queremos amar e ser amados para sempre! Quem não deseja o amor?! O problema está no "para sempre, como?; em que condições?". O problema está na falta de elasticidade dos comportamentos; no fechamento ao exterior; isso é muito pior que a rotina do lavar a louça, do levar o lixo ao contentor, do fazer sempre as mesmas coisas, da mesma maneira, às mesmas horas, todos os dias.
O "problema" está na experiência da democracia; a qual transcendeu o domínio da coisa pública e entrou na esfera privada.
Para além disso, em tempos tão pouco agrários, tão pouco comunitários, a liberdade individual transformou-se num bem indiscutível! A frase chave deste tempo será, provavelmente: "o que é que os outros têm a ver com isso?" A extinção ou excessiva limitação das liberdades individuais tornou-se inaceitável.

Camilla foi, para Carlos, um enorme espaço de liberdade. E vice-versa. Ambos detestavam os respectivos casamentos! Camilla não esperou grande coisa, não alimentou ilusões, não se tornou bulímica - aproveitou o que podia! Duvido que alguma vez tivesse imaginado ver o Príncipe de Inglaterra suportar as consequências sociais, políticas e económicas de um divórcio real! Duvido que lhe tivesse passado pela cabeça a ideia de vir a realizar segundas núpcias, em Windsor, sob o olhar vencido de Isabel II!
Camilla não precisou de se esforçar: o tempo fê-lo sozinho!
Quem é o herói (a heroína!) desta história? Diana, a virgem, a bela, a boazinha? Não! Camilla, a licenciosa, a feia, a má. A que não sonhou o sonho. Enquanto Diana gerava herdeiros à coroa; Camilla gozava.
Este é o tempo das Camillas. Todas queremos ser, se calhar somos já, Camillas.
Como é possível não simpatizar com Camilla Parker Bowles? O seu percurso de vida dá uma história a sério; o de Diana, uma novela barata.
Isto só terminaria melhor se Carlos e Camilla, não sentindo qualquer necessidade de casar, vivessem felizes para sempre...

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...