Ontem fui ao Minipreço. Ir ao Minipreço não é um acontecimento em si. Vou todas as semanas. Mas ontem havia uma novidade: um agente da polícia do lado de dentro, de costas viradas para a porta, vigiava o estabelecimento. Pude observá-lo bem enquanto estava na fila da caixa. Os alvos de atenção do polícia eram escolhidos segundo o sexo e a raça. As mulheres não lhe mereciam preocupação e os brancos muito menos. Portanto, eu poderia, se quisesse, ter praticado alguns pequenos crimes à vontade. No entanto, dois jovens negros e altos que entraram lestamente para comprar pão e leite, foram alvo de grande vigilância. Partir-se do princípio de que todos os jovens negros são potenciais assaltantes revela enorme ignorância, incultura e falta de educação. Aquilo a que chamamos racismo é isso tudo junto.
Enquanto o polícia ia vigiando os negros que entravam fui-lhe tirando a radiografia: era um homem dos seus trinta anos, simples, aparentando a escolaridade mínima para o cargo, com aquele aspecto policial que confunde autoridade com exercício arbitrário do poder. Não tinha um ar inteligente nem vivaz, mas podia mostrar-se curioso, atento, pronto, activo. Não. Estava ali aquela figura de corpo presente a vigiar clientes negros que acabavam de sair do trabalho, cansados, desejosos de chegar a casa. Não creio que aquele homem pudesse defender-se de dois ou três atacantes que o agarrassem (lembro que estava de costas para a porta!). A pequena arma encontrava-se tão bem embrulhada e fora de mão, tão inofensiva, que duvido que tivesse tempo de a empunhar antes de ser atingido com uma murraça nos queixos. Este agente é a imagem que nos é oferecida da polícia portuguesa. Agentes preguiçosos, indiferentes, cheios de preconceitos, destituídos de poder, incapazes de exercer a sua missão como seria desejável. Para mim, aquele polícia estava a pedi-las. Se tivesse entrado uma quadrilha no Minipreço, sei lá se me teria oferecido para ajudar a manietar o agente e ir-lhe sussurando ao ouvido, quietinho aí!
