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terça-feira, março 07, 2017

Esclarecimentos teológicos

Almoço de sexta-feira santa.

Mãe - O José Gabriel anda no Norte a mostrar as procissões.
Isabela - O José Gabriel?! Quem é o José Gabriel?
Mãe - ... aquele do programa da manhã... na televisão.
Isabela - Não sei...
M. - Aquilo é lindo no Norte. As festas, as procissões, e eles andam por lá a filmar tudo.
I. - (pensei, mas não disse, que precisava de uma profissão dessas - andar por todo o lado a filmar tudo) Hum, hum.
M. - Andam a filmar por todo o Portugal, mas o Norte é a parte mais bonita.
I. - Oh, mãe, por que é que se fazem procissões?
M. - O quê?!
I. - O que significam as procissões, as pessoas todas atrás do andor...
M. - São coisas muito antigas...
I. - Eu sei, mas o que é que significa?
M. - Sempre existiram, as procissões sempre existiram. É uma tradição sair o Corpo de Deus da igreja e andar com ele pelas ruas.
I. - Sim, mas por que não adoram o corpo de Deus na igreja? Porque não fazem o ritual lá dentro? É uma forma de espalhar a fé?
M. - Olha, é uma coisa muito antiga, sempre se fez assim, desde o tempo em que eu era pequena.
I. - Pronto, okay.

quinta-feira, maio 22, 2008

O Corpo de Deus

Foto Tomatello (Malea)

Oh, mãe, que feriado é este hoje?
Hoje é um feriado muito importante! Antigamente, neste dia, fazíamos farnéis e íamos todos para Chiqueda, para os Olhos de Água.
Porquê?
Juntávamo-nos todos e comíamos, bebíamos, conversávamos, molhávamos os pés na água que nascia nas pedras. Era uma alegria.
Era uma nascente perto de Alcobaça? Eram as termas?
Não, as termas são para o lado da Nazaré, aquilo era para os lados de Chiqueda; já lá fomos contigo uma vez, quando o teu pai ainda era vivo. Agora já não é o mesmo. Antigamente era campo, só campo. Íamos a pé, todos em grupo. Da Rua do Castelo lá ainda era um estirão. A água vinha das pedras, víamo-la brotar, fresquinha. Antigamente, nesta altura, já era Verão, não era este tempo de chuva.
Sim, é verdade, fui lá convosco e com o primo, e era um rego de água suja. Mas lembras-te de ser a nascente de um rio, de um afluente?
Não sei. Era uma mina. A água nascia no meio das pedras.
Se era um feriado religioso, por que iam para o campo?
Era muito respeitado. Nesse dia não se fazia nada, como na sexta-feira santa. Nesse dia nem os passarinhos iam aos ninhos.
Nem os passarinhos iam aos ninhos?!
Não iam aos ninhos. Os passarinhos não davam comida aos filhos acabados de nascer.
Oh, mãe, coitadinhos dos passarinhos, isso não pode ser. Nem os passarinhos iam aos ninhos! As coisas que os padres vos metiam na cabeça! Isso é que é um sacrilégio!
Não eram os padres, eram as pessoas, dizia-se. A tua avó tinha experiência. Olha que num dia de corpo de Deus andou a apanhar favas para ao dia seguinte vender na praça; apanhou uma sacada cheia, fava linda, fresca, daquela que ainda não enegreceu no olho. No dia seguinte, quando foi para vendê-la na praça, estava toda negra, como nódoas.
Se calhar porque enegreceram naturalmente...
Não, a tua avó sabia; tinha muita fé. Isto nunca lhe tinha acontecido, e ela fazia-o muitas vezes.
Mas eu não percebo o que é isso do feriado do corpo de Deus.
É o corpo de Deus.
Oh, mãe, mas que corpo de Deus? O que quer isso dizer?
...
É o corpo de Jesus? De Cristo?
Sim.
É o corpo do Cristo morto?
Sim. Há terras onde fazem procissões muito bonitas. Olha, nos Açores...
Mas procissões com o corpo de Cristo deitado morto?
Sim, o corpo de Cristo. Cristo não morreu na cruz?!
Ok.
...
Mas significa o quê? Que Cristo foi ter com o Pai e se tornou Deus juntamente com ele?
Não sei, era uma data muito sagrada, muito respeitada. É o Corpo de Deus.
Mãe, vocês antigamente não procuravam compreender os motivos das coisas em que acreditavam? Não perguntavam?
Não. Toda a gente acreditava. Não se perguntava nada. Era tradição. Acreditava-se e pronto. Não interessa saber os motivos. O que conta é acreditar.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Reposição 1

Ando sem tempo para alimentar o blogue. Podia ir enchendo com You Tubes, mas, sendo mulher piedosa, resolvi fazer a reposição de alguns textos já publicados, cuja recepção não me satisfez nem um bocadinho. Começa agora.


Dilema da carne


É paradoxal termos sido oferecidos de uma vida de carne para que possamos escolher viver sem ela.


terça-feira, janeiro 01, 2008

A vida sem grande moral

No passado dia de Natal, o Cardeal-Patriarca de Lisboa manifestou preocupação com o facto de a Igreja Católica ter dificuldade em atrair jovens. Exceptuando os escuteiros, não é fácil descortinar alguém com menos de 60 anos nos bancos das igrejas. Poderá a Igreja ser totalmente responsabilizada pela indiferença e afastamento dos seu fiéis naturais?
Vejamos, qual de nós não consegue enumerar mentalmente, em poucos segundos, meia dúzia de assuntos de alguma forma relacionados com a sexualidade ou o estatuto social das mulheres e de alguns grupos, relativamente aos quais a Igreja se mantém incompreensivelmente intolerante, afastando jovens e adultos? A haver renovação, seria de melhorar nestas esferas, embora admita não estar à espera que a Igreja abdique dos princípios nos quais se funda quanto à sua essência teológica, mas que, ao menos, se revele capaz de incluir e cuidar quem a procura, sem olhar a outra causa que a própria busca.




Por outro lado, as tomadas de posição da Igreja podem garantir o necessário contrapeso à confusão ideológica que assalta cada vida em particular. De uma Igreja espera-se, precisamente, que reflicta sobre os tempos e fenómenos que atravessa, e que, confrontando-os com a filosofia religiosa defendida, exponha eventuais consequências de um conjunto de crenças, elegendo-as ou rejeitando-as, e estabelecendo uma ética. Obviamente, não lhe cabe o papel de agradar, nem o de acompanhar as modas do tempo sem as meditar. Se alguma coisa louvo às Igrejas é exactamente a teimosia com que se mantêm fiéis a um conjunto de princípios quando todos se preparam para abandonar o velho barco, substituindo-o por um recente modelo em fibra de vidro, mais leve, porque, aparentemente, mais fácil de manobrar.

Escrever Deus com minúscula

Que responsabilidade detém a Igreja no que respeita ao facto de maior parte dos adolescentes escrever o vocábulo Deus com letra minúscula, revelando desconhecer o valor próprio e simbólico do termo?! O que isto significa, muito literalmente, é que a maior parte deles não recebeu formação religiosa de qualquer natureza, equação na qual entra a família.
As famílias de hoje, seja qual for a forma que revistam, não consideraram necessário fornecer às crianças os utensílios necessários para pensar a cultura na qual se movem, tendo excluído do processo educativo o ensino organizado dos fundamentos de uma moral cristã, ou de qualquer moral teológica. E eis o dilema: substituiram-na por que outra visão do mundo? Não tendo oferecido nada em troca, como olhar o mundo construtivamente sem a habilitação de uma moral? Como fazer para tomar decisões sobre a adequação de uma nova ideia ao edifício pessoal de crenças? Ou melhor, como integramos no nosso sistema de valores o que é novo? Compramos este produto ideológico ou nem por isso?

O fascismo digitalizado

Nos velhos tempos, a educação religiosa fornecia-nos a cartilha de valores que permitia seleccionar informalmente o material ideológico que melhor nos servia; esse crivo supria as ausências parentais no que respeitava à transmissão de valores. Se em casa não se aprendia a diferença entre o Bem e o Mal (os adolescentes também escrevem Bem e Mal com minúsculas), ela aprendia-se na igreja, fosse qual fosse a confissão. Havia sempre uma igreja para cada um. Inclusive para aqueles cujos pais se tinham tornado ateus por excesso de uma errada ideia de religião nas suas vidas, o que faz todo o sentido. Contudo, fornecer aos filhos uma educação religiosa era uma forma de os iniciar na cultura a que pertenciam, para além de que decorar os 10 Mandamentos nunca fez mal a ninguém. Mas isso acabou. Os mandamentos de hoje são outros: rouba antes que te roubem; lixa antes que te lixem; nada importa porque tudo é relativo.
Reparo que os jovens que a Igreja Católica deseja ver no seu culto adquiriram já um sistema de valores assente no culto ao ego e ao prazer como princípio e fim. É um sistema que afronta o meu, por excluir deliberadamente valores que considero essenciais para os grupos humanos, como os da solidariedade. Não me espanta, portanto, que o nosso tempo pulule de jovens engravatados defendendo a economia liberal, o capitalismo, as leis da selva aplicadas aos actos económicos, políticos e sociais, resumindo, o fascismo digitalizado: elimina os pequenos e torna-te maior.

Bater nos padres (e nos professores)

Grupos que por desagrado ou vingança mandam espancar os seus padres, figuras sacralizadas, como ocorreu em Alijó, na véspera de Natal, perderam todo o contacto com o sagrado. Igualmente, cresceram ignorando o respeito que se deve aos detentores do saber e aos transmissores do conhecimento. Em que outro tempo e espaço teria sido possível agredir um ministro de Deus sem temer a irreparável condenação ao fogo eterno?! Ser-me-ia possível compreender atitudes de revolta anti-clerical e de condenação da religião enquanto entretém desresponsabilizador do povo, sempre que ela o foi, mas o que se passa hoje é diferente. A religião nunca saiu da vida dos agressores de padres, porque nunca chegou a entrar.
Creio que a educação dos valores entrou em lento colapso com a perda de influência da Igreja, após o 25 de Abril. Tal perda de influência terá constituído uma inconsciente penalização clerical, em alguns casos justa, já que a Igreja Católica colaborou inquestionavelmente na disseminação da ditadura e na sua manutenção, mas reflectiu, igualmente, a abertura da nossa cultura a uma errónea modernização através da glorificação do rápido e do fácil, que tão tortos frutos produzem.
A perda de influência da Igreja, com todos os males que acarretava, ocasionou danos culturais geracionais que não poderão já ser superados pelos jovens, ou jovens adultos, que a mesma cobiça.

terça-feira, novembro 13, 2007

Não fabricam tangas para o meu número


Embora por volta dos 17 anos tenha negado a existência de uma dimensão divina, sempre mantive um espírito religioso, pelo que o ateísmo durou pouco. Sempre me forcei ao racionalismo e à dúvida, pretendendo manter-me tão lúcida quanto possível, mas, em chegando às questões religiosas, soçobro. Percebo exactamente o que significa a fé. O que não pode explicar-se não se explica. Não é absolutamente necessário. Agrada-me não ter explicação para tudo; viver segundo a ideia de que algo mágico permanece ao meu redor; guardar mistério sobre realidades que não estão ao meu alcance; ter consciência de que sei nada.
Embora se tenham feito largos progressos desde o 25 de Abril, altura em que foi proibido acreditar em Deus, tendo mesmo chegado a existir um despacho normativo que regulamentava o assunto, o espírito religioso continua a não estar conforme ao evidencialismo deste tempo, e não tem grande saída que não seja a compartimentação, ou a oferta do peito aos mais alarves sarcasmos sociais.
Antigamente, tinha o hábito de me benzer antes de começar a conduzir. Tinha pouca prática e, caramba, o trânsito é o que se vê. Não me venham dizer que não se justifica rezar um terço antes de ligar a ignição. A minha prima afastada, no banco ao lado, ria-se em surdina. Isto implicava uma de duas soluções: ou abdicava da prática religiosa da auto-benzedura pública, e a guardava para compartimentos privados, ou a minha prima abdicava do gozo. Nem uma coisa nem outra. Continuo a benzer-me, e a minha prima a rir-se, quando me apanha. É certinho. Ela não se mete nos meus pai-nossos, e eu nunca tive a intenção de lhe dar missa. Vivemos bem assim.
Manter um espírito aberto ao plano imaterial implica consciência e livre-arbítrio. Compreendo muito bem os jovens seminaristas que, ao ser entrevistados sobre a sua escolha de vida, a crise de vocações e a prisão do celibato, afirmam sentir-se mais livres enquanto seres religiosos. Sinto-me das pessoas menos influenciáveis em matéria de Igreja, seja ela qual for. A institucionalização dos credos, e o seu comércio, não colhem frutos com as minhas mãos. Creio que a verdadeira atitude religiosa não se vende e não se compra, tal como não deve vender-se nem comprar-se o amor.
Como é que alguém pode lembrar-se de pedir 30 euros para limpar auras?! Em nome de que caixa registadora me vêm dizer que tenho de alinhar os chacras pensando na próxima ascensão do planeta que ocorrerá em 2012, e que tal me vai custar 50 euros? Quem verdadeiramente se preocupasse com a qualidade das nossas auras e do nosso destino não nos pediria dinheiro.
Isto vem tudo a propósito de umas mensagens que tenho recebido via e-mail, convidando-me para reuniões da seguinte natureza, e bem pagas:

"Iremos revitalizar-nos, tomando nas nossas mãos o poder e a força para dissolver velhos vínculos e amarras que nos mantêm ligados a contratos antigos, e que mantêm emaranhados energéticos, sejam eles verbais ou não verbais, conscientes ou inconscientes. Fortaleceremos o nosso “coração” e a nossa capacidade de amar, limpando a nossa aura das “cicatrizes” que restaram de relações terminadas, para seguir em frente numa nova vida."


Não há qualquer diferença entre este tipo de discurso e Fátima Shopping a 13 de Maio. É apenas mais uma entre muitas eucaristias de beatificação de pastorinhos.
Os misticismos transformaram-se num fabuloso negócio que financia inúmeras novas catedrais de Fátima pelo mundo fora, e ninguém parece reparar. Não podemos limitar-nos à crítica gratuíta do comércio católico, e a seguir pagar fortunas a não sei quem, que estava desempregado, foi fazer um curso de seis meses, tornou-se mestre de reiki, e agora "dá" uns workshops muito giros sobre técnicas de salvação empacotadas. Uma coisa é religião, outra, muito diferente, é tanga, e a tanga, a mim, nunca me passou nas coxas. Não há para o meu número.



domingo, agosto 19, 2007

O pensamento religioso


Gosto que os ateus me confrontem com os sete palmos abaixo de terra, e depois o nada, com o não-sentido da existência. Que puxem pelos meus incompreensíveis, improváveis argumentos de fé. O não-sentido da existência: eles têm razão. O grande paradoxo do ateísmo: um tão forte princípio religioso.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Proibir Deus

Buda


O governo chinês decretou que o actual dalai lama, bem como linhagens antecedentes ou futuras são ilegais. Mais, que a sua reencarnação é proibida, bem como a de qualquer outro ser vivo racional ou irracional. Assim elimina o governo chinês a possibilidade de uma mosca da fruta regressar à vida como borboleta de colecção, se se portar bem nos caixotes da royal gala.
Não é que seja novidade, mas torna-se impossível não desenhar sorrisos irónicos perante as tentativas de intromissão dos poderes laicos nos religiosos, e vice-versa.
A Igreja Católica, pelo contrário, tem-se especializado em manobrar sombrias influências executivas e legislativas. Por outro lado, já todos vivemos para testemunhar poderes socialistas proibindo qualquer manifestação religiosa, incluindo católicas, e mesmo a existência de Deus. Em Portugal, durante bons anos após o 25 de Abril, esteve muito fora de moda a crença e prática religiosas. Deus mereceu umas boas risotas. Ultimamente, com a crise, andam todos no reiki. O nome do deus não interessa, mas apenas o que se faz em seu nome, e como.
Que Deus não existe! Por decreto. Que Deus é uma excelente narrativa criada pelos humanos, por medo ao caos existencial. Que se Deus existisse não permitiria a miséria e a dor. Para mim, os argumentos têm a sua graça.
Tal como teria muito mais graça se os governos, uma espécie de ficção-Páginas Amarelas criada pelos humanos, por medo ao caos existencial, existissem menos para proibir, e mais para remediar a miséria e a dor que eles próprios geram, e à qual são cegos e surdos. Mas Deus, claro, tem as costas largas.


domingo, maio 13, 2007

Hermenêutica (não autorizada) dos segredos de Fátima

Primeira parte do segredo

Texto manuscrito das memórias de Lúcia


Não me interessa questionar a autenticidade das aparições. Primeiro, porque estou convencida de que os pastores terão mesmo visto ou ouvido algo na Cova da Iria. Não interessa o quê. Acordemos que foi algo. Segundo, porque para reinterpretar segredos tenho que lhes atribuir uma origem.

O primeiro segredo oferece aos pastores uma visão do Inferno, e eis como no-lo descreve Lúcia (o texto respeita a sua ortografia):

(...) Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fôgo que parcia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fôgo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronziadas com forma humana, que flutuavam no incêndio leva­das pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nu­vens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dôr e desespero que horrorizava e fazia estre­mecer de pavor. Os demónios destinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transpa­rentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa bôa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promeça de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

Parece-me uma revelação pouco original e em perfeita consonância com outras tradições gnósticas. Muito embora, à época, a missa fosse em Latim, as crianças escutavam relatos do Inferno feitos por familiares mais velhos, pelos contadores de histórias da bíblia ou, com sorte, contemplariam imagens sagradas nos livros da igreja, na catequese. A imagética relacionada com o Inferno não seria, portanto, novidade para o seu imaginário: a sopa de fogo eterno, os demónios, as almas dos condenados em sofrimento perpétuo.

Poderiam tê-lo inventado, mas admitamos que não, que foi real. A visão foi impressionante, terrífica conta Lúcia. Admito que uma visão, que por definição é no dolby digital das coisas etéreas, será deveras impressionante. Eu também já tinha ouvido falar muito do Vietnam, mas tal Inferno só me impressionou a sério quando o vi no Apocalypse Now.


Convenhamos: uma entidade divina não desceria ao mundo para assustar criancinhas cujos pecados não iriam muito além de diabruras com caudas das lagartixas. Portanto, esta visão parece-me cumprir a função das esculturas de demónios nas gárgulas e colunas das igrejas góticas: a de amedrontar crentes, para melhor os subjugar à oração e manutenção da estrutura eclesiástica. Assusta-se primeiro, pede-se depois. Segundo Lúcia, foi exactamente isto que aconteceu:


A conhecida gárgula da igreja de Notre Dame, em Paris

Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:
- Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer establecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

Rezar para salvar as almas dos pecadores parece-me bem. O que estranho neste discurso é o anúncio, feito pela própria Senhora, sobre a delegação de poderes, como salvadora de almas, que Deus nela deposita.
Seguem-se os segredos anexos ao da inicial visão do Inferno:


A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra peor.
Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Considerando que se estava em 1917, a previsão relativa ao final da guerra em curso (1914-1918) não será grande surpresa, mas duvido que criancinhas analfabetas da Cova da Iria tivessem acesso a informação que lhes permitisse opinar ou inventar sobre a questão. A guerra acabaria mais dia, menos dia, porque, a bem ou a mal, sobretudo a mal, todas as guerras acabam; mas, em 1917, situar o início de uma outra guerra no papado seguinte, parece-me informação bastante precisa e credível.

A II Guerra Mundial começa sob Pio XII, e não Pio XI. Contudo, Lúcia argumenta que o que deu origem à guerra teve lugar durante a vigência de Pio XI, falecido exactamente em 1939 (Lúcia refere-se à anexação da Áustria, em 1938).

Não sei se a Irmã, naquela época, vivendo em recolhimento, teria acesso a informações relevantes sobre política mundial, mas vou acreditar que sim: dou o benefício da dúvida: imaginemos que a madre superiora leria, ao domingo, após o almoço, um jornal autorizado, ou um folheto da igreja com umas breves devidamente censuradas, o que justificaria os conhecimentos e explicações de Lúcia.

Quanto ao aparecimento de uma grande luz anunciadora da II Grande Guerra, Lúcia associa-a a uma invulgar aurora boreal ocorrida em Janeiro de de 1938. Seja.

A revelação sobre o início da II Guerra Mundial, datada com tal precisão, seria profeticamente consistente se as memórias de Lúcia não tivessem começado a ser escritas, por ordem do Bispo de Leiria, apenas em 1935.

Na primeira memória, exactamente a de 35, Lúcia descreve os primos, as circunstâncias das suas vidas, personalidades e mortes, e algumas consequências da primeira aparição, não revelando quaisquer segredos, os quais só aborda nas memórias seguintes, que datam de 1937 e 1941 (terceira e quarta memórias) - tornadas públicas alguns anos após a sua redacção.

Portanto, a revelação do segredo relativo à II Guerra Mundial numa altura em que já seria possível prevê-la (1937), embora não invalide a profecia, enfraquece-a. A existirem cartas ou documentos redigidos por Lúcia antes destas datas, e respeitantes a esta profecia, convinha que a Igreja os revelasse. Creio existirem, porque Lúcia afirma, no início das memórias, não saber porque lhe encomendam tais escritos, uma vez que a informação neles contida foi antes revelada. Se foi revelada, foi registada por ela ou por alguém em seu nome.
Na introdução das memórias que li, existe informação sobre outros documentos e cartas de Lúcia, os quais seriam menos extensos e importantes.



Segunda parte do segredo


Irmã Lúcia de Jesus

No segundo segredo, que é efectivamente o terceiro, a Senhora pede a consagração da Rússia à fé católica. Eis as palavras que a memória de Lúcia registou:

Para a impedir [a II Guerra Mundial - que não impediu] virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sufrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será consedido ao mundo algum tempo de paz.

Ora, o meu problema, no que respeita a este segredo, advém do facto de acreditar que entidades divinas não só não falam a linguagem dos mortais como desprezam a política mesquinha dos humanos.

Nossa Senhora interessada em questões de política de Leste? Deus e Nossa Senhora conferenciando, e considerando os ateus comunistas como perigosos? Vejamos, não lhes interessaria converter também os fanáticos árabes e chineses? E os negros animistas? Por que motivo só os russos?

A politização do discurso sagrado não convence quem tenha aprendido os mais elementares rudimentos do pensamento, mesmo que a fé seja grande. É que há a fé, mas há também uma lógica do discurso sagrado - que alguma terá.

Nisto, não é possível esquecer que politizar o sagrado foi especialidade da Igreja durante toda a sua existência. Tanto e tão bem como, hoje, o Islão.

A comunhão reparadora dos primeiros sábados, também referida no texto, gerará posteriores conversas entre Lúcia e o Menino Jesus, que lhe aparece no convento de Tuy, dez anos depois, com o objectivo de negociar formas conducentes à realização da comunhão sabatina para quem trabalhasse e não pudesse ir à igreja nesse dia. Portanto, em 1926, o Menino apareceu-lhe,

e Lúcia apresentou-lhe a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:

- Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

Ela perguntou:
- Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?
Jesus respondeu:
- Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a 1ª ocasião que tiverem de se confessar”.

Não pretendo que pareça má-vontade da minha parte, mas este diálogo aparenta mais semelhanças com um processo de negociações para aprovação de uma Lei do que com uma comunicação com o altíssimo.
E era Jesus! Posso jurar que a presidenta da minha empresa não desceria tantos degraus para me autorizar uma falta importante e justificável.


Terceira parte do segredo

Quanto à última parte do segredo, o mais simbólico e enigmático, o Vaticano apressou-se a associá-lo ao assassinato do Santo Padre, e elegeu o atentado da Praça de São Pedro como símbolo da crise de valores cristãos.
Conheçamos as palavras de Nossa Senhora, segundo Lúcia:

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: "algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma gran­de Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontra­va pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morren­do uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias clas­ses e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproxi­mavam de Deus.

(clique sobre a imagem para aumentá-la)


A interpretação foi feita pelo Vaticano, que perguntou a Lúcia se concordava. Esta, rapidamente confirmou a simbologia atribuída ao segredo. Mas Lúcia escreveu sempre porque lho pediram, e iniciava os seus escritos com declarações de obediência e humildade. Esclarece que as redige a pedido de outrem, e não por vontade própria.

Afinal, o bispo branco da revelação será João Paulo II ou tratar-se-á da morte simbólica da Igreja?
Este segredo só foi revelado na passagem do segundo milénio. Estou em crer que as estruturas não saberiam o que lhe fazer, como explicá-lo. A tentativa de assassinato de João Paulo II deu muito jeito.
Na verdade, a Igreja perdeu poder, tem vindo a perder poder, e os homens de branco, e todos os seus seguidores, têm vindo a ser destituídos; destruídos.
É
bem provável que o terceiro segredo, na prática o quarto, o qual a Igreja relaciona com a tentativa de assassinato do Papa por alguém sem comprovadas ligações ao comunismo, ou sequer à Rússia, seja a única profecia aceitável; a que terá sofrido menos intervenção no pós-aparição.
Talvez o último segredo anuncie o declínio de uma cultura eclesiástica falsamente sagrada que cobriu de cadáveres o chão que pisou. Mas, nesse caso, não faria sentido que o enviado divino de 1917 pertencesse ao panteão iconográfico católico. Nossa Senhora? E se a Senhora que apareceu na Cova da Iria, não fosse nossa nem senhora? É uma bela questão, não é?!

Este texto baseia-se na leitura de Memórias da Irmã Lúcia, 11ª ed., 2006, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima.
Optei por não incluir notas, quando me refiro às declarações de Lúcia, por se tratar de uma leitura sem fins científicos. No entanto, as notas referentes às páginas onde recolhi informação poderão vir existir, ou poderei fornecer essa indicação, caso exista interesse.
No que respeita ao texto dos segredos, baseei-me na parte final do livro (páginas 191 a 232).


Próximo episódio (assim que tiver tempo): como conseguiu Lúcia matar os primos à fome.

domingo, abril 29, 2007

As beatas da minha rua


Ouço sem querer as conversas das beatas que passam por mim a caminho da missa das onze, sozinhas ou em grupo, ruminando, enojando-se das cadelas, tendo muito medo que lhes esfacelem a cara e uma orelha; "os cães que se caguem" ou "merda para os cães" dizem, comentam com as outras, muito indignadas, todas enfarpeladas com fato de saia e casaco, e sapato de bico; e continuam devassando a vida da Almerinda, que é uma porca, e a da Angelina, por quem fizeram tudo e nada receberam, e o Eduardo, que não larga o vício, e os filhos já vão pelo mesmo caminho; os costumes das próprias famílias, uma chusma de mal agradecidos. Tudo está mal, tudo é mau e sujo e vicioso excepto o senhor padre, tão lavadinho, e o corpo de Cristo que se regalam de receber no seu.
Dou comigo a pensar que Deus Nosso Senhor havia de preferir que as beatas não frequentassem à missa, e que fossem umas reais porcas, umas incorrigíveis ingratas, umas viciadas e viciosas sem remissão, enfim, umas perdidas, como aquelas em cuja casaca vão tesourando a caminho da missa. Deus haveria de preferir que fossem cadelas como as minhas, que tanto as enojam. Se fossem cadelas, Deus abençoá-las-ia mesmo sem oração, por não haver nelas mancha de pecado. Haviam de roubar uns ossos do caixote do lixo, mijar no tapete de vez em quando, havia de ser uma luta para as meter na banheira, tirando isso, umas santas!
Mas o pior seria o senhor padre, que não aceitaria abençoar cães, nem pregar para eles nem dar-lhes a comunhão, por não estar habituado a pastorear rebanho tão puro. Contudo, se o senhor padre pregasse para os cães, oh, haveria de pregar muito mais certo!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...