Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Os textos que escolhemos

Mantenho certas dúvidas sobre a possibilidade de conhecer alguém através dos textos que escreve.
Não tenho dúvidas de que é possível conhecer inteiramente uma pessoa através dos textos que escolhe.


segunda-feira, junho 30, 2008

A vingança da gorda


Foto de Leonard Nimoy


É o funcionário novo lá na fábrica. Terá os seus 16 anos, idade legal para o trabalho, e anda a dar serventia. Tem a mania que é poeta. Se calhar é poeta, não sei, mas que eu sou cabra velha é uma certeza, e costumo dizer-lhe, olha lá, isto dos teus olhos são estrelas, eu percebo, eu e toda a gente, mas não tens maneira diferente de dizer a mesma coisa?
Ah, não interessa, responde-me o puto, as miúdas gostam. Está bem, meu amigo, mas a poesia é uma espécie de território sagrado, não é para engatar miúdas. Pode servir-te como isco, mas então chama-lhe isco. Prefiro que me digas, escrevi aqui este isco, veja lá, Isabela, o que é que acha. Percebes o que estou a dizer? Percebo. Não percebes nada. Não percebes nada de nada. Não fazes a menor ideia do que seja a poesia. E o pior que pode haver é um poeta vaidoso. São aos milhares, e não há nada pior. Um poeta vaidoso é pior que uma praga de pulgas na carpete da sala. Livre-nos Deus. Não percebes nada do que te digo, pois não? Percebo. Não mintas. Estás a zeros. Não estou nada.
Isto passou. O rapaz nunca mais me mostrou os poemas, graças aos céus.
Esta semana encontrei-o no autocarro. Sorrimos. É giro o rapaz. Tem as faces rosadas, ainda um certo ar de menino. Não fosse a vaidade poética, e simpatizaria mais com ele.

Saímos na paragem da fábrica, e quando se encontra a meu lado, mesmo junto à porta do autocarro, e lhe sorrio, descendo, o poeta vaidoso diz-me, veja lá não tombe o autocarro pró seu lado. Fixei-lhe o olhar, atravessando-o, já não sorrindo, e segui o meu caminho. Não tombe o autocarro?!; o sacana, o grande cabrão estaria a chamar-me gorda? Ai, pois estava, pois estava. Não tombe o autocarro, grande cumprimento matinal, sim senhor. E eu a pensar que me tinha livrado, com a adultícia, dos insultos adolescentes sobre a gordura. Lindo. Fiquei a matutar. O comentário jocoso devia ter caído em saco roto, mas não caiu, porque os fundos estão ainda bem cosidos. Devia ter-lhe dito, ó grande marmanjo, gorda é a tua vaidade. Devia ter-lhe dito, eu sei lá, qualquer coisa com espírito, que desvalorizasse a gordura, que desproblematizasse a questão. Mas não me ocorreu. Não fui capaz. Fiquei paralisada naquilo, no gorda, gorda, gorda... como um eco, como quem tem medo de elevadores ou de andar de avião.
A chamar-me gorda... Espera lá, espera, meu cabranito. Hás-de cá vir com os teus poemas da tanga, hás-de cá vir, hás-de, hás-de, meu menino!

segunda-feira, junho 02, 2008

Bailemos agora, por Deus, ai velidas


Fotos Leonard Nimoy

Bailemos agora, por Deus, ai velidas,
so aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.

Bailemos agora, por Deus, ai loadas,
so aquestas avelaneiras granadas,
e quen for loada como nós, loadas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras granadas
verrá bailar.

João Zorro

quinta-feira, maio 01, 2008

Da poesia

"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"

Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.


domingo, abril 13, 2008

A obra poética de Dick Hard I

WARNING

Tu, que te abandonaste ao gozo
sentindo a roçar no sexo

o húmido duma língua desejada


Tu, que fechaste os olhos em delírio
e afagaste os cabelos sedosos
dum ser que te deu prazer

Tu, que gemeste como louca
em noite de trovoada

com travo orgiástico

Tu, que sentiste na goela
o frio da lâmina

a cortar-te as veias

Tu, sim, tu

devias ter-te lembrado

antes de morrer

Os serial killers
também fazem
minete

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

Diverte-me o pastiche: a sátira à poesia neo-romântica de quinta categoria, presente no título, em presunçoso inglês; os vulgaríssimos paralelismos anafóricos, em início de estrofe, "tu", "tu"; o vocabulário barato, em "gozo", "orgiástico", semeado ao longo dum discurso pejado de lugares-comuns, como "cabelos sedosos", "gemeste como louca" e "ser que te deu prazer".
Agrada-me o humor negro, a sátira ao acto sexual fortuito e perigoso, e o ligeiro non sense relativo ao objecto poético, que devia ter-se lembrado de qualquer coisa "antes de morrer", enquanto se abandonava ao gozo e fechava os olhos em delírio.
Um poema destes é trabalho difícil, porque é difícil conseguir escrever mal, copiando todos os estereótipos duma pseudopoética risível, e fazê-lo bem, escrevendo bem. Este é um anti-poema feito no fio da navalha.
Dick Hard está eleito poeta-culto, poeta oficial deste blogue. A partir de agora, no more ai lave ius.


A obra poética de Dick Hard II

UM BOCADO CÃO

Sei que sou

um bocado cão

de manhãzinha

Quando vou
atesoado

à casa da vizinha

Eu deito-a na mesa
com o cu de fora

o rabo bem espetado

A minha ponta acesa
ora vamos lá embora
p'ra ficar aviado

E numa luta insana
ora a viver lá dentro
ora a murchar cá fora


Eu dou-lhe uma canzana
penetro pelo centro

ao romper d'aurora

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

segunda-feira, abril 07, 2008

A boa velha sátira pós-moderna



Denuncio um caso flagrante de discriminação masculina. Bem sei que é a primeira vez.
Temos aqui uma Adília Lopes muito legível e desenjoativa, mas como é homem chamam-lhe ordinário, devasso, esse grande taradão. Se calhar é capaz de ser, mas tarados, tarados, obra à parte.
Ultimamente, ando viciada na poesia de Dick Hard, aliás Luís Graça, meu conhecido dos tempos do DN Jovem. Encontrei, na FNAC, um livro seu de que me haviam falado nos seguintes termos: "o gajo publicou uma merda qualquer com erecções no título, umas bacoradas, o gajo está passado de todo".
O livro chama-se De Boas Erecções Está o Inferno Cheio, não é nenhuma "merda", e se o "gajo" está passado, resta-me dar graças a Deus. Deixo-vos com algumas pérolas. Não me coibirei de vos ir oferendo outras, nos próximos dias:



Pony Express
Se as paixões
não são correspondidas
a culpa pode muito bem
ser dos correios


Oh! As Mulheres Bilingues
As mulheres bilingues duplicam o prazer
da felação
as poliglotas
provocam-nos múltiplos orgasmos.


Poema Canino
Ontem vesti um par de boxers
cada um deles me comeu
um tomate
Eram vegetarianos.


Raiva
Ele saiu de casa
violou criancinhas
sodomizou velhinhas
e roubou cassetes à bófia

Partiu montras
fez cunilingus a um pinguim com frio
deu estaladas em cangurus
e saiu do zoo

Calmamente
entrou no metro sem passe
saiu no Marquês de Pombal
e foi a pé para casa

Chegou ao lar
tomou um duche
leu uma revista porno, rezou as suas orações
deitou-se e adormeceu.


Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

(O livro é baratíssimo, meia dúzia de tostões, seis euros se não me engano.Vale cada cêntimo. Um grande saravá para ti, Dick, e mantém-te Hard!)



sábado, dezembro 08, 2007

Não se explicam

Estávamos sentadas perto de uma miúda loura, mais colegas de grupo. Procuravam qualquer coisa sobre a cidade de Almada, no Google, e desaguaram num site sobre Almada Negreiros. Comenta uma delas, em voz alta:
- Almada Negreiros?! Quem é este gajo?
A minha companheira de leitura adverte-a:
- Oh, menina, o Almada Negreiros não foi um gajo. Está a falar de um dos nossos melhores escritores e pintores, portanto vamos lá ter mais cuidadinho com a língua.
A miúda engoliu em seco.
A minha companheira concentra-se na leitura. Um par de minutos depois, interpela-me:
- Ouve lá, Isabela: O mito é o nada que é tudo/o mesmo sol que abre os céus/é um mito brilhante e mudo... o que é que este cabrão queria dizer com isto?

domingo, maio 20, 2007

Toda a beleza do mundo

Foto: Monika Wiechowska


Raramente a poesia se encontra no poeta, seu inegável construtor, nem sempre habilitado a reconhecê-la acima da sua vaidade e da consciência da obra conseguida.
O poeta não interessa à poesia, que é de todos os bens públicos, o mais impudicamente público e inaprisonável de todos. A poesia circula no oxigénio do corredor da casa, é varrida pelo vento ao final da tarde de domingo, e pelas vassouras das mulheres de limpeza à segunda de manhã.
Por vezes, quase sempre, a poesia não tem forma nem lugar fixo, pelo que é facilmente captada por veios ignorados de certa inocência que passou ali, ou por manchas de pureza invisível que aqui ficaram esquecidas - aqui neste canto onde ninguém chegou.
Os sentidos do contemplador reconhecem a poesia mesmo que não tenham sido educados para a receber, mas a poesia não pertence aos sentidos: passa por eles, que a pulverizam como um perfume à roda do incauto e tolhido receptor.
Paralizado de poesia, o contemplador comove-se, e fecha-se, e por isso germina de si. A poesia encerra toda a beleza do mundo. Não há nada fora dela. Quando nos referimos ao amor como um ideal de harmonia e beleza, quando afirmamos, "ah, eu queria tanto encontrar o amor!", estamos de facto a dizer "ah, eu queria tanto encontrar a poesia!"
A poesia é o todo de tudo. Por isso, não há ainda qualquer linguagem humana para os poemas que as mãos constroem. É cedo.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...