segunda-feira, fevereiro 02, 2009
Os textos que escolhemos
segunda-feira, junho 30, 2008
A vingança da gorda
Ah, não interessa, responde-me o puto, as miúdas gostam. Está bem, meu amigo, mas a poesia é uma espécie de território sagrado, não é para engatar miúdas. Pode servir-te como isco, mas então chama-lhe isco. Prefiro que me digas, escrevi aqui este isco, veja lá, Isabela, o que é que acha. Percebes o que estou a dizer? Percebo. Não percebes nada. Não percebes nada de nada. Não fazes a menor ideia do que seja a poesia. E o pior que pode haver é um poeta vaidoso. São aos milhares, e não há nada pior. Um poeta vaidoso é pior que uma praga de pulgas na carpete da sala. Livre-nos Deus. Não percebes nada do que te digo, pois não? Percebo. Não mintas. Estás a zeros. Não estou nada.
Isto passou. O rapaz nunca mais me mostrou os poemas, graças aos céus.
Esta semana encontrei-o no autocarro. Sorrimos. É giro o rapaz. Tem as faces rosadas, ainda um certo ar de menino. Não fosse a vaidade poética, e simpatizaria mais com ele.
Saímos na paragem da fábrica, e quando se encontra a meu lado, mesmo junto à porta do autocarro, e lhe sorrio, descendo, o poeta vaidoso diz-me, veja lá não tombe o autocarro pró seu lado. Fixei-lhe o olhar, atravessando-o, já não sorrindo, e segui o meu caminho. Não tombe o autocarro?!; o sacana, o grande cabrão estaria a chamar-me gorda? Ai, pois estava, pois estava. Não tombe o autocarro, grande cumprimento matinal, sim senhor. E eu a pensar que me tinha livrado, com a adultícia, dos insultos adolescentes sobre a gordura. Lindo. Fiquei a matutar. O comentário jocoso devia ter caído em saco roto, mas não caiu, porque os fundos estão ainda bem cosidos. Devia ter-lhe dito, ó grande marmanjo, gorda é a tua vaidade. Devia ter-lhe dito, eu sei lá, qualquer coisa com espírito, que desvalorizasse a gordura, que desproblematizasse a questão. Mas não me ocorreu. Não fui capaz. Fiquei paralisada naquilo, no gorda, gorda, gorda... como um eco, como quem tem medo de elevadores ou de andar de avião.
A chamar-me gorda... Espera lá, espera, meu cabranito. Hás-de cá vir com os teus poemas da tanga, hás-de cá vir, hás-de, hás-de, meu menino!
segunda-feira, junho 02, 2008
Bailemos agora, por Deus, ai velidas

Bailemos agora, por Deus, ai velidas,
so aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.
Bailemos agora, por Deus, ai loadas,
so aquestas avelaneiras granadas,
e quen for loada como nós, loadas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras granadas
verrá bailar.
quinta-feira, maio 01, 2008
Da poesia
"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"
Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.
domingo, abril 13, 2008
A obra poética de Dick Hard I
WARNING
Tu, que te abandonaste ao gozo
sentindo a roçar no sexo
o húmido duma língua desejada
Tu, que fechaste os olhos em delírio
e afagaste os cabelos sedosos
dum ser que te deu prazer
Tu, que gemeste como louca
em noite de trovoada
com travo orgiástico
Tu, que sentiste na goela
o frio da lâmina
a cortar-te as veias
Tu, sim, tu
devias ter-te lembrado
antes de morrer
Os serial killers
também fazem
minete
Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo
Diverte-me o pastiche: a sátira à poesia neo-romântica de quinta categoria, presente no título, em presunçoso inglês; os vulgaríssimos paralelismos anafóricos, em início de estrofe, "tu", "tu"; o vocabulário barato, em "gozo", "orgiástico", semeado ao longo dum discurso pejado de lugares-comuns, como "cabelos sedosos", "gemeste como louca" e "ser que te deu prazer".
Agrada-me o humor negro, a sátira ao acto sexual fortuito e perigoso, e o ligeiro non sense relativo ao objecto poético, que devia ter-se lembrado de qualquer coisa "antes de morrer", enquanto se abandonava ao gozo e fechava os olhos em delírio.
Um poema destes é trabalho difícil, porque é difícil conseguir escrever mal, copiando todos os estereótipos duma pseudopoética risível, e fazê-lo bem, escrevendo bem. Este é um anti-poema feito no fio da navalha.
Dick Hard está eleito poeta-culto, poeta oficial deste blogue. A partir de agora, no more ai lave ius.
A obra poética de Dick Hard II
UM BOCADO CÃO
Sei que sou
um bocado cão
de manhãzinha
Quando vou
atesoado
à casa da vizinha
Eu deito-a na mesa
com o cu de fora
o rabo bem espetado
A minha ponta acesa
ora vamos lá embora
p'ra ficar aviado
E numa luta insana
ora a viver lá dentro
ora a murchar cá fora
Eu dou-lhe uma canzana
penetro pelo centro
ao romper d'aurora
segunda-feira, abril 07, 2008
A boa velha sátira pós-moderna

Temos aqui uma Adília Lopes muito legível e desenjoativa, mas como é homem chamam-lhe ordinário, devasso, esse grande taradão. Se calhar é capaz de ser, mas tarados, tarados, obra à parte.
Ultimamente, ando viciada na poesia de Dick Hard, aliás Luís Graça, meu conhecido dos tempos do DN Jovem. Encontrei, na FNAC, um livro seu de que me haviam falado nos seguintes termos: "o gajo publicou uma merda qualquer com erecções no título, umas bacoradas, o gajo está passado de todo".
O livro chama-se De Boas Erecções Está o Inferno Cheio, não é nenhuma "merda", e se o "gajo" está passado, resta-me dar graças a Deus. Deixo-vos com algumas pérolas. Não me coibirei de vos ir oferendo outras, nos próximos dias:
Pony Express
Se as paixões
não são correspondidas
a culpa pode muito bem
ser dos correios
Oh! As Mulheres Bilingues
As mulheres bilingues duplicam o prazer
da felação
as poliglotas
provocam-nos múltiplos orgasmos.
Poema Canino
Ontem vesti um par de boxers
cada um deles me comeu
um tomate
Eram vegetarianos.
Raiva
Ele saiu de casa
violou criancinhas
sodomizou velhinhas
e roubou cassetes à bófia
Partiu montras
fez cunilingus a um pinguim com frio
deu estaladas em cangurus
e saiu do zoo
Calmamente
entrou no metro sem passe
saiu no Marquês de Pombal
e foi a pé para casa
Chegou ao lar
tomou um duche
leu uma revista porno, rezou as suas orações
deitou-se e adormeceu.
(O livro é baratíssimo, meia dúzia de tostões, seis euros se não me engano.Vale cada cêntimo. Um grande saravá para ti, Dick, e mantém-te Hard!)
sábado, dezembro 08, 2007
Não se explicam
- Almada Negreiros?! Quem é este gajo?
A minha companheira de leitura adverte-a:
- Oh, menina, o Almada Negreiros não foi um gajo. Está a falar de um dos nossos melhores escritores e pintores, portanto vamos lá ter mais cuidadinho com a língua.
A miúda engoliu em seco.
A minha companheira concentra-se na leitura. Um par de minutos depois, interpela-me:
- Ouve lá, Isabela: O mito é o nada que é tudo/o mesmo sol que abre os céus/é um mito brilhante e mudo... o que é que este cabrão queria dizer com isto?
domingo, maio 20, 2007
Toda a beleza do mundo
O poeta não interessa à poesia, que é de todos os bens públicos, o mais impudicamente público e inaprisonável de todos. A poesia circula no oxigénio do corredor da casa, é varrida pelo vento ao final da tarde de domingo, e pelas vassouras das mulheres de limpeza à segunda de manhã.
Por vezes, quase sempre, a poesia não tem forma nem lugar fixo, pelo que é facilmente captada por veios ignorados de certa inocência que passou ali, ou por manchas de pureza invisível que aqui ficaram esquecidas - aqui neste canto onde ninguém chegou.
Os sentidos do contemplador reconhecem a poesia mesmo que não tenham sido educados para a receber, mas a poesia não pertence aos sentidos: passa por eles, que a pulverizam como um perfume à roda do incauto e tolhido receptor.
Paralizado de poesia, o contemplador comove-se, e fecha-se, e por isso germina de si. A poesia encerra toda a beleza do mundo. Não há nada fora dela. Quando nos referimos ao amor como um ideal de harmonia e beleza, quando afirmamos, "ah, eu queria tanto encontrar o amor!", estamos de facto a dizer "ah, eu queria tanto encontrar a poesia!"
A poesia é o todo de tudo. Por isso, não há ainda qualquer linguagem humana para os poemas que as mãos constroem. É cedo.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...

