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quarta-feira, março 29, 2006

Adão nunca agradeceu a Eva


Gosto muito do Genésis e da alegoria do Adão e Eva, que surge noutros textos sagrados, nomeadamente no Alcorão.
Quase todas as culturas, excepto as orientais budistas, se servem desta alegoria para explicar o estatuto de inferioridade concedido à mulher. Ela veio de uma parte do homem. Ela é que pecou e induziu o homem ao pecado. Há mesmo representações da Tentação em que a serpente assume, literalmente, um rosto e peito de mulher. Portanto, segundo esta visão riquíssima do ponto de vista simbólico, ontológico, foi uma mulher que tentou outra. Parece-me correcto.
Aquilo que mais me agrada no Génesis está na relação entre Eva e a serpente, na insatisfação e curiosidade daquela, e na sua incapacidade em resistir à tentação. Era a árvore do Bem e do Mal, se bem me lembro, e quem provasse do seu fruto receberia o conhecimento. Ora bem, folgo muito que tenham atribuído a Eva a responsabilidade pelo conhecimento. Não fosse Eva e nem sequer nos tínhamos reproduzido. A obra do Senhor teria parado por ali, o que, no caso de Eva, seria uma pena. Penso que o tosco do Adão devia ter-lhe agradecido o favor que esta lhe fez ao ter-lhe proporcionado a oportunidade de perceber que não só ele estava nu, mas ela também, e que tinha mamas, e que até se podiam entreter com algo mais para além da observação dos diferentes tons de verde da relva do Paraíso.
Vem isto tudo a propósito do outro mito grego que atribui às mulheres, pela sua natureza, tudo o que é passivo, portanto, o espaço da casa, e, aos homens, a vida activa, portanto, o espaço público.
Não me parece que os homens sejam mais activos que as mulheres. As mulheres que observo são animais dotados de uma energia inesgotável. São terríveis. Estão realmente insatisfeitas, sempre. São curiosas e corajosas. Experimentam e reclamam. As mulheres falam muito e reclamam, reclamam e reclamam. Não se calam. São umas matracas insubstituíveis. E exigem. E vão à guerra e dão e levam. Isto tudo enquanto eles vivem acabrunhados que nem pepinos murchos. Eu adoro mulheres. Os homens são uns tristes.

terça-feira, novembro 22, 2005

Faça-se a Luz

Uma mulher, um homem – disparidade em confronto paradoxal, ansiando ligar-se rasteiramente numa mesma paz, num mesmo nome: claridade cega, energia pura.

domingo, março 27, 2005

«E Deus criou a mulher!»


O Génesis é o meu livro preferido da Sagrada Escritura. Depois do Génesis vem o Êxodo, que, só para situar, contém a história das pragas sobre o Egipto; e isso é giro; mas logo se segue um livro de terror, o Levítico, muito apropriado para a Páscoa, no qual o Senhor desenvolve, minuciosamente, os procedimentos a seguir quanto ao sacrifício do cordeiro pascal; quais as partes para si e as que devem ser queimadas fora da cidade (por exemplo, pele, intestinos e respectivos excrementos). Se o panorama, até aqui, não se pode considerar entusiasmante - geração sobre geração, sobre geração - para diante agrava-se, pelo que aconselho a comprar o resumo da Porto Editora ou, em alternativa, a saltar directamente para os Livros Sapienciais; por exemplo, o Cântico dos Cânticos; embora seja uma intrujice pegada, tem certa eufonia, lê-se bem: a gente sabe que o esposo e a esposa, ao fim de três anos de elogios à força de um, e beleza de outro, engordam para além do razoável, e rosnam toda a vez que se cruzam no corredor... mas, desde que descobrimos que os lindos poemas do Eugénio de Andrade não eram para nenhuma Virgínia... ficámos por tudo.
Não é preciso ter lido muito, ou desenvolvido sobremaneira o raciocínio lógico-dedutivo, para se concluir que quem escreveu o Génesis não entendia peva de literatura, ignorando um dos conceitos básicos - o de verosimilhança narrativa.
Ou a história está mesmo mal contada (e o erro é do escritor!) e desmerece o Senhor, ou o Senhor não era perfeito (e, nesse caso, o erro é do próprio Senhor). Ou as duas coisas. Vejamos: se, no primeiro dia, Deus criou a luz e as trevas; no segundo, separou céu, terra e água; no terceiro, fez aparecer “verdura, erva com semente, árvores frutíferas” que dessem “fruto sobre a terra, segundo às suas espécies e contendo semente”; no quarto determinou estações, dias e anos, sol, lua e as estrelas; no quinto, peixaria e a passarada, tudo com a ordem de crescer e multiplicar-se; no sexto, a bicharada toda, dividindo-os logo em domésticos, ferozes e répteis – e se só depois disto tudo!, no último dia, já ao pôr-do-sol, se lembrou de fazer o homem, para que guardasse e cultivasse o Seu feudo, somos levados a concluir que não investiu grande coisa na espécie humana! Sumariamente, criou um escravo para lhe tomar conta da herdade enquanto gozasse o sétimo dia. O homem, nas condições em que foi fabricado, não podia sair, portanto, grande espingarda.
Sou sincera, se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, não encontro razão para tanta adoração, tanta abnegação, tanto sacrifício! Ou Deus não é perfeito, e alguém nos tem andado a comer as papas na cabeça, ou estava com um esgotamento sério. A memória faltava-lhe, sem dúvida: como é possível que, ao criar o homem, não recordasse as palavras que pronunciara nos dias anteriores, ordenando, aos restantes seres concebidos, crescimento e multiplicação?! Não pretendia Ele que o homem experimentasse o gostinho de se multiplicar?! Não se compreende! Disse-lhe apenas, “pá, olha, desenrasca-te; amanhã é sábado, quero levantar-me mais tarde, sornar o dia inteiro; come uns kiwis!, mas, atenção, não te aproximes da árvore ao centro; essa é só minha e de lá não poderás comer!”. Ora, isto é, no mínimo, desdivino, para além de anticonstitucional; não lhe ter deixado uma palhota sequer, uma enxerga, nada com que se entretivesse...
Adão, proibido de comer da tal árvore-maravilha, e destituído da necessária esperteza para desobedecer, via coelhos e coelhas no truca-truca, o galo a saltar para a espinha da galinha, o leão montado na leoa por trás!, e pensava, se é que se pode chamar a isso pensar, “falta-me qualquer coisa, não sei o quê, mas qualquer coisa!”
Não sabemos quanto tempo Adão viveu nesta solidão, nem como resolveu o problema - embora eu tenha cá as minhas suspeitas: mas algo não correu bem, porque, a certa altura, o Senhor concluiu não ser “conveniente” que o homem estivesse só!, sendo que resolveu oferecer-lhe uma auxiliar semelhante a ele. Teve, então, a ideia de hipnotizar o homem, de lhe arrancar uma das costelas e preenchê-la de carne. A ideia de Deus era só esta: preenchê-la de carne! Mas, ou porque tivesse já descansado bastante, e a cabeça se encontrasse fresca, ou porque nesse dia se sentisse artisticamente inspirado, criou a mulher. E todos sabemos como, em momentos de génio, é possível surgirem obras tão, tão perfeitas, que se tornam capazes de escapar autonomamente às intenções do autor... Porque, repare-se, a mulher foi feita já fora do plano da criação – era uma escultura de carne, uma peça de arte que saiu bem demais e se animou. Foi nesse momento de glória artística, que, e aqui aplica-se, objectivamente, a interjeição “Graças a Deus!”, a Terra começou a ter algum interesse e a perder a monotonia.
Deus levou a mulher ao homem e este, quando a viu, arregalaram-se-lhe os olhos, embora não percebesse, ainda, para que servia. Era ignorante, não por sua culpa!, mas o olfacto e as hormonas de bicho, diziam-lhe que aquilo era bom; logo veria que utilidade dar-lhe. Sempre eram duas mãos extra para o ajudarem a tirar a pele aos kiwis.
Mas a mulher era de alimento; trazia uma fome inextinguível (que permaneceu insaciada ao longo das gerações! - sabendo-se como o homem foi criado, facilmente se compreende porquê!), e intrigou-se com aquela árvore de belos frutos de onde não se podia comer. Aproximou-se, contemplou a serpente com a cabeça levantada e gostou do que viu. Para além do mais, a serpente falou-lhe docemente. Não só levantava a cabeça, como articulava em sussurro, e dizia-lhe, suave, “come...”, porque, se comeres, “abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal”. E a mulher viu “que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto, e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido (...). Então, abriram-se os olhos aos dois”. Foi nesse instante, só nesse instante, e finalmente, que o homem compreendeu o que a mulher já calava há uns tempos – que estavam ambos nus e que havia nisso certa utilidade!
Eis, portanto, onde quero chegar: não tivesse a mulher nascido esfomeada e impaciente, não desejasse e procurasse ela saciar a sua fome com intuição e arte, e o homem não só não teria vingado, como jamais faria, hoje, uma pálida ideia dos motivos por que se pode dizer que a vida é bela!
Ainda ele esgaravatava o chão, obediente, já ela procurava a sublime ciência que os iria salvar. Não fosse ela, estaria a roda por inventar!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...