
O técnico veio recolher o frigorífico às nove da matina. Estava eu a dormir com a minha Moreninha quase em cima da cabeça e a minha Micas no tapete, as três muito felizes e maravilhosamente acompanhadas.
Tocou. Anunciou "frigorífico"; respondi "um bocadinho, se faz favor"; lavei a cara, equilibrei os óculos, penteei-me desastrosamente, e vesti um roupão ridículo do qual toda a gente se ri, mas que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez, que o desenhou, cortou e coseu, e hei-de usá-lo até se esfarrapar.
O homem já assobiava quando lhe abri a porta. Entrou com um ar muito sábio e expedito, desejoso de debitar a sua moral electrodoméstica, e explicou, olhando para o frigorífico, não para mim, que afinal tinha conseguido "vir mais cedo", ao que lhe respondi mentalmente, "estou a rebentar de felicidade". Rapidamente deslocou o frigorífico do seu lugar e o carregou para fora, ajudado pelo filho de 12 anos, que vestia uma t-shirt com um horrível boneco cornudo fazendo um pirete.
Despediu-se, desejando umas "boas férias para os senhores". Ora, vejamos: ontem, quando o homem cá veio diagnosticar o problema, estava sozinha; hoje, ao abrir-lhe a porta, estava sozinha... terá o homem visto na minha casa companhia que para mim é invisível?!
Isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas. Vivem em casas normais, vestem-se normalmente, não escondem os bicos das mamas inteiriçados, não são púdicas, não se levantam cedo, não vão à missa, não sorriem timidamente, são umas chatas insubmissas, reclamam, resolvem os problemas sozinhas tornando obsoleta a ancestral protecção masculina, são excelentes, são bonitas, são desejáveis mas nem por isso fáceis. Como identificar hoje uma solteirona? Como pode o velho mundo reconhecer numa enorme solteirona, enormemente feliz, a solteirona estereotipada dos tempos em que uma mulher precisava de um casamento para existir? Não pode. Não consegue. Ainda não consegue.
Tocou. Anunciou "frigorífico"; respondi "um bocadinho, se faz favor"; lavei a cara, equilibrei os óculos, penteei-me desastrosamente, e vesti um roupão ridículo do qual toda a gente se ri, mas que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez, que o desenhou, cortou e coseu, e hei-de usá-lo até se esfarrapar.
O homem já assobiava quando lhe abri a porta. Entrou com um ar muito sábio e expedito, desejoso de debitar a sua moral electrodoméstica, e explicou, olhando para o frigorífico, não para mim, que afinal tinha conseguido "vir mais cedo", ao que lhe respondi mentalmente, "estou a rebentar de felicidade". Rapidamente deslocou o frigorífico do seu lugar e o carregou para fora, ajudado pelo filho de 12 anos, que vestia uma t-shirt com um horrível boneco cornudo fazendo um pirete.
Despediu-se, desejando umas "boas férias para os senhores". Ora, vejamos: ontem, quando o homem cá veio diagnosticar o problema, estava sozinha; hoje, ao abrir-lhe a porta, estava sozinha... terá o homem visto na minha casa companhia que para mim é invisível?!
Isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas. Vivem em casas normais, vestem-se normalmente, não escondem os bicos das mamas inteiriçados, não são púdicas, não se levantam cedo, não vão à missa, não sorriem timidamente, são umas chatas insubmissas, reclamam, resolvem os problemas sozinhas tornando obsoleta a ancestral protecção masculina, são excelentes, são bonitas, são desejáveis mas nem por isso fáceis. Como identificar hoje uma solteirona? Como pode o velho mundo reconhecer numa enorme solteirona, enormemente feliz, a solteirona estereotipada dos tempos em que uma mulher precisava de um casamento para existir? Não pode. Não consegue. Ainda não consegue.
