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sábado, agosto 11, 2007

A maldição das solteironas


O técnico veio recolher o frigorífico às nove da matina. Estava eu a dormir com a minha Moreninha quase em cima da cabeça e a minha Micas no tapete, as três muito felizes e maravilhosamente acompanhadas.
Tocou. Anunciou "frigorífico"; respondi "um bocadinho, se faz favor"; lavei a cara, equilibrei os óculos, penteei-me desastrosamente, e vesti um roupão ridículo do qual toda a gente se ri, mas que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez, que o desenhou, cortou e coseu, e hei-de usá-lo até se esfarrapar.
O homem já assobiava quando lhe abri a porta. Entrou com um ar muito sábio e expedito, desejoso de debitar a sua moral electrodoméstica, e explicou, olhando para o frigorífico, não para mim, que afinal tinha conseguido "vir mais cedo", ao que lhe respondi mentalmente, "estou a rebentar de felicidade". Rapidamente deslocou o frigorífico do seu lugar e o carregou para fora, ajudado pelo filho de 12 anos, que vestia uma t-shirt com um horrível boneco cornudo fazendo um pirete.
Despediu-se, desejando umas "boas férias para os senhores". Ora, vejamos: ontem, quando o homem cá veio diagnosticar o problema, estava sozinha; hoje, ao abrir-lhe a porta, estava sozinha... terá o homem visto na minha casa companhia que para mim é invisível?!
Isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas. Vivem em casas normais, vestem-se normalmente, não escondem os bicos das mamas inteiriçados, não são púdicas, não se levantam cedo, não vão à missa, não sorriem timidamente, são umas chatas insubmissas, reclamam, resolvem os problemas sozinhas tornando obsoleta a ancestral protecção masculina, são excelentes, são bonitas, são desejáveis mas nem por isso fáceis. Como identificar hoje uma solteirona? Como pode o velho mundo reconhecer numa enorme solteirona, enormemente feliz, a solteirona estereotipada dos tempos em que uma mulher precisava de um casamento para existir? Não pode. Não consegue. Ainda não consegue.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O frigorífico e a amêijoa - duas histórias que quase se encontravam


1. O frigorífico avariou. Um furo na tubagem do gás refrigerante, esperando não estar a dizer nenhuma asneira.
Custo do arranjo: 140 euros; porque agora vai levar um kit em alumínio, "da cor das calças que a senhora traz", adaptado ao interior, e o material é caro, e mais conversa, que não pedi, sobre as mais-valias dos electrodomésticos "de qualidade", contra a fancaria dos que se compram nas grandes superfícies. Blá, blá, blá. O técnico. Que deve ter uma loja. E uma vivenda. E um Mercedes para o fim-de-semana. E um combinado deluxe em cada assoalhada. Certo. 140 euros.

2. Almocei uma deliciosa amêijoa vietnamita, cozinhada pela minha mãe, com cebola e coentros. Comprei-a congelada, no Jumbo, a 2 euros e meio o quilo. Feita a digestão, ainda não tive dores de estômago. Parece, portanto, que sobrevivi à maldição do produto congelado, esse mito urbano pouco explorado. Mas questiono como será possível transportar uns bichinhos congelados, do Vietnam e arredores, até à Europa, e colocá-los à venda a 2 euros o quilo, se o carapau na praça está a 4, no mínimo, e com o olho morto, e o técnico de frio me vai levar 140 mocas por uma peça que, de certeza, há-de vir da China.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...