Mostrar mensagens com a etiqueta animais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta animais. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, outubro 16, 2008

O preço do frango


No supermercado onde normalmente me abasteço, a carne de frango está a 1,75 euros. Se descontarmos ao preço final os custos de abate e transporte, concluímos que a vida de um frango valerá cerca de 50 cêntimos, ou seja, o preço da bica.
Os humanos dão grande valor às suas vidas, que consideram sem preço, mas se a maior parte das vidas humanas fosse taxável segundo valores realistas, com critérios assentes, por exemplo, na bondade das acções e dos sentimentos ou na capacidade produtiva, facilmente se perceberia que a existência do senhor Luís vale menos que a de uma barata de cozinha. É que não existe mal numa barata de cozinha, enquanto que no senhor Luís...
Desconheço o momento primevo da história da humanidade e do pensamento em que se atribuiu preço a contado à vida não-humana, mas foi um erro; toda a filosofia sobre comércio de animais está errada, e nós vivemos e compactuamos, convictamente, com um mundo profundamente errado.
A utilidade dos animais não reside na possibilidade de se tornarem alimento, como diz o Senhor no Velho Testamento. Os animais não racionais partilham a vida na terra com outros animais, entre os quais estamos nós. Se a racionalidade nos tivesse tornado realmente inteligentes, não os chacinávamos para manter a vida. Porque nenhuma vida consciente se pode manter inteira e limpa baseada na iniquidade. Ter perdido a inocência carrega-nos de uma responsabilidade maior relativamente ao mundo e aos seres que nele habitam. É uma responsabilidade que nos cabe só a nós e que não depende do livre arbítrio. É uma obrigação: aos humanos cabe proteger os seres mais fracos, e não explorá-los, dizimá-los.
No que respeita ao valor da vida, há um ponto em que os ateus e os crentes concordam: tenha ela sido um acaso ou resultado de uma intenção divina, a sua essência contém uma inexplicável "dimensão superior" que pode ser sentida, nomeadamente, através do normal desejo de manter uma vida longa e saudável. Esta "dimensão superior" é comum aos seres humanos e não humanos. É por isso que a vida de um frango não é menos importante que a de uma pessoa, por muito que a marquem a 1,75 euros.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Outro suave milagre




Perto da casa da minha mãe havia um conjunto de casas velhas com arquitectura operária, típica desta zona de Almada, datando dos anos 20 do século passado. As casas estavam abandonadas, por fim, graças aos esforços de certos empreiteiros que conseguiram expulsar quem lá morava a custo de nada. A zona é privilegiada pela localização, fácil acesso e profusão de transportes. Interessa ao capital.

Ao redor das casas velhas desenvolveu-se vegetação de toda a espécie. As roseiras que por lá existiam tornaram-se selvagens, as trepadeiras continuaram a desenvolver-se, as figueiras a dar figos, os aloes vera engrossaram. De vez em quando gostava de me enfiar lá para trás com as cadelas. Era uma terra de ninguém com gatos e ratos e lagartixas. Metia um bocado de medo. Havia um certo sabor a pecado, a paraíso perdido, a uma solidão que me faz respirar fundo como se tivesse chegado a casa.
No final do Verão, os empreiteiros deram ordem para demolir as casas e vieram máquinas.
O interior de uma destas casas albergava ainda o recheio da última moradora, arruinado, é certo, mas era aí que os gatos vadios se abrigavam e as gatas pariam.
Nas casas velhas havia cerca de 12 gatos adultos, uma ninhada acabada de nascer e outra já crescidinha. Quando os homens vieram, pedimos-lhes que tivessem cuidado ao derrubar as paredes; que havia por lá bichinhos vadios que alimentávamos e estimávamos. O homem era novo. Um rapaz simpático que gostava de bichos e que nos disse logo que sim, que ia ter cuidado. Depois veio o capataz, um velho gordo e desbarrigado com verrugas no nariz. Disse-nos logo que não, com muito maus modos; que não podiam estar ali com cuidados e perda de tempo por causa de meia dúzia de gatos vadios. Que nós éramos mas era malucas.
Deixámo-nos estar.
A Teresinha, que teve uma embolia cerebral há seis meses, chorava. Eu agarrava-lhe a mão e pedia-lhe que não se enervasse. A Marília punha as mãos na cabeça. Os gatinhos, santo Deus! Vão morrer soterrados. Como é que podem salvar-se se aquilo cai tudo duma vez em cima deles. E o pó. Os gatinhos, meu Deus, que estavam todos no forro da casa. Se a gata conseguisse trazê-los cá para fora...
No outro dia, o rapaz da máquina veio cedo e começou os trabalhos. Foi demolindo lentamente. Alguns gatos saltaram. Vimo-los fugir. Outros assomavam, mas voltavam para dentro, com medo da máquina, do barulho. Conseguimos localizar e salvar a ninhada. Não vimos os gatos pequeninos que já andavam pelo seu pé. O rapaz manobrou a máquina como um santo, se é que isto se pode dizer da manobro de máquinas. O rapaz era um santo, e isto pode dizer-se, tenho a certeza.
Ao final do dia, as casas estavam no chão, e era necessário contabilizar mortos e feridos, o que só se poderia realizar à hora da comida. Os que estivessem vivos sairiam dos esconderijos e apareceriam debaixo da figueira maior, cheios de fome. Para nossa alegria, apareceram quase todos, menos uns pequeninos, que no dia seguinte, à luz do dia, localizámos no meio das pedras e do pó, em mau estado; quase não se ouviam os batimentos dos seus corações. Estavam a ficar longe, muito longe. Limpámo-los. Molhámo-los. Fizemos-lhe respiração boca-a-boca. Massajamos-lhes os tórax exactamente como se prestam os primeiros socorros a uma pessoa, e os gatinhos reanimaram-se. Tossiram. Respiraram com dificuldade, cansados, confusos, mas vivos. Tratámos deles com amor e arranjámos-lhes donos.
Nesse dia do final deste Verão achámos que tínhamos testemunhado um milagre e realizado outro. Ninguém nos tira esta ideia da cabeça.


Nota: os gatos vadios continuam todos por aqui. A nossa prioridade é esterilizar as gatas, o que é caro. Optamos por dar-lhes anticoncepcionais, o que também é caro, mas menos.
Os gatos vadios garantem-nos que uma parte do nosso mundo, nós não!, mas uma parte do nosso mundo permanece indomesticável.


terça-feira, setembro 16, 2008

Os homens não querem cuidar


Não, não é português. É um americano num centro de cuidados paliativos. Ou, se calhar, é gay.


Cães e homens: os meus dois temas preferidos, pelo melhor e pelo pior. Ora vamos lá.
No último poste, alguns leitores lançaram a ideia de que um homem que se interesse por cães é gay. Não é verdade. Mas desenvolvamos a questão: o assunto merece atenção porque já tinha constatado que os homens não têm grande gosto por cães pequenos. Gostam de cães de caça, porque gostam da caça, mas não ficam a chorar o cão ficar perdido no mato enquanto eles regressam a casa com as lebres e as perdizes. Gostam dos chamados cães de poder, os doberman, os buldogues, os pitebuls, etc. Um cão de poder, como já referi, reafirma a masculinidade, ao permitir associações entre a força e agressividade do cão e as seu dono. Tenho cá a ideia que os homens estão para os cães, como para os carros: quanto maior e mais potente ele for, mais importante e viril aparentarei ser, porque a verdade é que não passo de um medíocre mesquinho, e sem força na verga, mas há que disfarçar.
No meu bairro, por exemplo, só vejo rapazes e velhotes a passearem cãezinhos. Não há muitos de 30 nem de 4o. Devem recear parecer amaricados, como dizia o leitor em poste anterior, ou, outra teoria minha, os homens relativamente jovens estão ainda demasiado cheios de si, da importância da sua imagem, de adrenalina e testosterona, e buscando satisfação, para se preocuparem com alguém. Os homens de certa idade são sacos de egoísmo, de egocentrismo e de vacuidade. Isto é científico.
Uma realidade que conheço bem: as associações de protecção a animais juntam menos homens do que mulheres preocupados com acções voluntárias do cuidado ao outro. São na sua maioria constituídas por mulheres. E não apenas as solteironas como eu, as que não têm filhos ou as viúvas e divorciadas, tudo mulherio perdido para o sexo até ver, que se vai entretendo com acções de benfazer. Estão cheias de mulheres casadas, com filhos, netos, trabalhos, absolutamente convictas que mais vale limpar as boxers de 50 cães do que passar uma tarde a aturar os complexos de superioridade dos maridos.
Tudo isto me leva a pensar que os homens, de forma geral, não gostam de cuidar, não querem cuidar, não lhes interessa o sofrimento alheio. Eles são todos "muito bons"! Nunca conheci um que pensasse não ser. E quando se lhes mete na cabeça que, para além de serem muito bons, são também muito idóneos e respeitadores, fazendo tudo como deve ser, aceitando a inevitabilidade da mudança, da vida, ainda pior. Cobardolas, é o que é! Quem os pode aturar! Até eu prefiro limpar as boxes da União Zoófila de fio a pavio, lavando o chão de joelhos com um esfregão encharcado em lexívia.

sábado, julho 26, 2008

Deseducação à hora do lanche


Quando chega o bom tempo gosto de ir ler para a esplanada. Levo comigo as cadelas, que se deitam no chão, ao lado da cadeira, ou debaixo dela, e ali ficam contemplando o movimento, pachorrentas, lambendo as patas ou dormitando à sombra enquanto leio. Numa mesa perto, há de vez em quando uma criança lanchando, cuja mãe incentiva a beber o leite apontando para as minhas cadelas e dizendo, olha os cães, se não bebes vêm os cães maus e bebem-te tudo, olha os cães. Levantou a cabeça, vês?!, já está a olhar para ti, se não te despachas...
Tenho pena da mãe, mas tenho muito mais pena da criança.

segunda-feira, março 31, 2008

O animal bonito é o animal morto

Daniel Proença de Carvalho é o convidado especial do programa Sentido do Gosto, que passará amanhã à noite da RTP1, e no qual se discutirá o fascínio da caça.
Ah, eu também gosto muito de programas sobre caçadores. A ternura com que eles fitam os olhinhos mortos da lebre, da perdiz, do passarinho indiscriminado e, até mais ver, mole, comove-me. Ah, a caça, essa arte! Premir o gatilho, essa arte!
A natureza é perfeita e os caçadores adoram-na, e mais à bicharada. Olha, ali vai uma perdiz. Que lindo animal. Deixa cá ver se lhe acerto à primeira. Pum, pum. Busca, Bobi, busca.

sexta-feira, março 21, 2008

A complexidade do cérebro humano

Olhei lá para fora pelos janelões da sala. Que lindo dia! Entretanto, ouvi a Morena coçar-se furiosamente nas minhas costas, e pensei com os meus botões, é hoje que a meto na banheira, é hoje! Virei-me e disse-lhe, sorrindo, é hoje! Levantou-se com o rabo entre as pernas e foi-se esconder no quarto, debaixo da cama.
Ainda ontem tinha ouvido, num programa sobre fauna, no canal Odisseia, a seguinte frase: "o ser humano possui o cérebro mais complexo de todos os animais." Deviam estar a referir-se a uma outra raça humana, talvez noutro planeta.

domingo, fevereiro 17, 2008

O animal que de verdade sou

Canal Odisseia. A mamã ursa-castanha roubava mel da colmeia que derrubara. As abelhas atacaram-na, pelo que fugiu para junto das crias, com a barriga cheia e uma ou duas picadas no focinho. Os ursinhos brincavam. Quando a mamã chegou, deitou-se de costas, expondo as quatro tetas húmidas, disponíveis. Os três bebés treparam para cima dela e, escarranchados no enorme corpo fofo, chupavam-lhe o leite, enquanto seguravam a saliência da mama e a pressionavam delicadamente, para que corresse mais, para que corresse melhor. Larguei o Público aberto sobre o sofá, e deixei-me estar boquiaberta, os olhos fixos no écran, sequiosa da teta sobrante e do corpo enorme e macio no qual também eu queria escarranchar-me, sem idioma, despida e igual, gozando o doce manto oloroso, para poder ser, de verdade, o animal que de verdade sou.

domingo, junho 24, 2007

Mulher grizzly

Foto: Dahlia Schweitzer


Durante muitos anos recorri a uma fantasia que me ajudava a adormecer.
Imaginava-me vivendo com uma comunidade de animais peludos: cães selvagens, lobos, ursos..., e adormecia com eles, a céu aberto, na rostilhada do seu calor, odor e protecção. Não fantasiava coisa alguma sobre as minhas ocupações diurnas, afastada da civilização. Interessava-me a noite sem luz ou abrigo artificial.
Na noite dos animais havia conforto. Eu era um ser de carne entre outros seres de carne, tão juntos que quase se amalgamavam. Essa evocação dos corpos quentes, olorosos, que se empurravam contra as carnes mútuas para se aquecerem, sossegava-me, e adormecia, finalmente, na minha incoerente noite civilizada.
Ao longo da vida desejei ser apenas um animal selvagem. Ter o cheiro não lavado de um bicho peludo: uma mistura agridoce de terra, vegetais, sangue, suor e excremento. Procurei dar importância apenas ao importante, usando a tabela de valores de um animal, para o qual um prato de ouro, um sabonete, e uma mola da roupa, são objectos da mesma ordem.
Tenho sido, até onde me deixaram ser, naturalmente selvagem. Não fossem a leitura, o cinema, a música, e as artes plásticas e cénicas, que aqui me prendem, porque me libertam tanto quanto mais selvagens se assumem, e todo o interesse pela cultura humana haveria de me passar ao lado. Que se lixassem todos e mais as suas lutas, que me ferem tanto. Mais os seus ódios, egoísmos, egotismos, que me ferem tanto, e nos quais tenho de me envolver, porque afinal não sou apenas um animal. Nem cega nem surda nem autista.

Os animais não são bons nem maus nem sabem o que é a justiça tal como a concebemos, nem a solidariedade ou a liberdade. Sentem-nas. São associais e apolíticos. Contudo, têm uma ética e respeitam-na. Lambem as feridas uns dos outros. E os olhos, os focinhos, as orelhas, as vulvas, os ânus sem nenhum outro interesse que curar, conhecer, procriar, limpar. E lutam por domínios, mas lutam corpo-a-corpo, com as garras e as presas. Mordem-se, arranham-se, mutilam-se; uns ganham, outros perdem, mas olham-se bem nos olhos ao longo dos processos. Tocam-se. Rasgam-se. E comem-se, se têm fome, porque têm fome, mas olham-se nos olhos. Tudo isto me parece sempre muito mais humano do que a nossa vida humana.
Sigo avidamente casos conhecidos de meninos ou meninas selvagens encontrados após anos de vida com os animais. Tenho sempre pena deles. Por terem sido encontrados. Vejo desgosto nos seus rostos; prisão, inadequação; desejam fugir, regressar à selva para dormir na rostilhada morna dos animais.
Eu também preferia ter vivido sempre com os lobos e os macacos e os ursos, e morrer quando tivesse de morrer, mas andar nua e descalça e ser livre, e não ter de fingir nem ser o que não sou nem interrogar-me todos os dias sobre aquilo que, sendo impossível ou indesejável, os seres humanos possibilitam até ao descarnamento da essência da vida.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...