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terça-feira, janeiro 31, 2006

Casamentos por interesse (1º parte) - O amor vem depois

O amor, esse conceito tão abstracto, que todos os dias aqui venho defender, contra não sei que vendilhões do Templo, é uma invenção contemporânea.
A minha mãe casou sem amor, em 1960. É certo que o parceiro lhe não foi imposto pela família, mas a pressão social exercida num meio rural, sobre uma mulher de 36 anos, ainda solteira, deve ter sido sufocante.
A minha mãe decidiu escolher, para companheiro da vida inteira (e esta ideia continua a parecer-me bonita, quero lá saber dos vendilhões do Templo!), um homem que conhecia muito vagamente; que, tendo integrando um contingente de brancos enviado para as colónias, a fim de exercer trabalhos conducentes ao desenvolvimento de projectos técnicos emergentes, a pediu em casamento, por carta enviada de Lourenço Marques; pediu-a logo ao primeiro contacto epistolográfico, enviando fotografia de fato completo, sorridente.
A fotografia fez furor. Era um rapaz perfeito. Alto, forte, sorridente.
A família da minha mãe foi às Caldas da Rainha recolher informação sobre o moço: sim, que era bom rapaz, trabalhador, muito amigo da mãe, muito dado às putas e às amantes!, mas bom rapaz. Servia-se das amantes só como como concubinas, não pensava permitir-llhes qualquer estatuto na sua vida. Sabemos que foi para África deixando por cá uma carrada de viúvas inconsoláveis; que era muito amigo da mãe, ponto final; que era trabalhador, ponto final parágrafo.
Nas poucas cartas que trocaram nos três meses que mediaram o pedido e o casamento, mostrou-se correcto, terno e brincalhão. Toda a vida o foi, aquele cabrão: correcto, terno e brincalhão. Com os brancos, claro. Nunca mudou. Foi isso, foi putanheiro, arranjou as amantes que pôde e as que não pôde. Adiante.

A minha mãe escolheu o parceiro que pareceu poder oferecer-lhe uma vida melhor. Não teria de continuar a aperfeiçoar peças de louça na fábrica do Raul da Bernarda, iria trabalhar na sua casa, para o seu marido, para os seus filhos, numa outra terra que não conhecia, mas onde sabia que se vivia bem.

Assim casou a minha mãe, em Outubro de 1960, e por procuração, no Mosteiro de Alcobaça; embarcou para Lourenço Marques, no Príncipe Perfeito, num certo dia de Janeiro de 1961.
À chegada, desceu de branco, quando o meu pai a foi buscar ao navio.
Via nessa altura, pela segunda vez, o rosto queimado do homem com quem se havia cruzado, dois ou três anos antes, no café duma prima. Não se conheciam. Não se amavam.
Eu nasci em 1963.
O meu pai morreu em 2001.
Viveram casados durante 41 anos, e eu, que andei por ali algum tempo, sei que se amaram sempre.



O Príncipe Perfeito

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Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...