Um cantonense, de 44 anos, pediu que lhe amputassem o pénis recém-transplantado, de um dador de 22 anos, poucos dias após a cirurgia. Foi há uns meses.
Em 2001, um neozelandês sujeito ao mesmo tipo de cirurgia, mas tratando-se de uma mão para a qual já não suportava olhar, obrigou os médicos, que haviam suado as estopinhas, ligando vasos, restabelecendo a circulação sanguínea entre coto e mão transplantada, a amputar-lha alguns meses depois.
Nos dois casos, as operações iniciais foram um sucesso; se ambos não tivessem rejeitado psicologicamente os órgãos recebidos, é provável que a sua qualidade de vida se aproximasse bastante da que haviam tido antes dos acidentes de que foram vítimas. No caso do chinês, o transplante peniano permitir-lhe-ia voltar a urinar normalmente.
Alegaram, como motivo para a rejeição, e consequente amputação dos membros transplantados, não suportarem saber que, órgãos de pessoas mortas, faziam parte de si.
Nos dois casos, as operações iniciais foram um sucesso; se ambos não tivessem rejeitado psicologicamente os órgãos recebidos, é provável que a sua qualidade de vida se aproximasse bastante da que haviam tido antes dos acidentes de que foram vítimas. No caso do chinês, o transplante peniano permitir-lhe-ia voltar a urinar normalmente.
Alegaram, como motivo para a rejeição, e consequente amputação dos membros transplantados, não suportarem saber que, órgãos de pessoas mortas, faziam parte de si.

Órgãos de pessoas mortas?! Os dadores morreram, é um facto, mas os órgãos continuaram literalmente vivos nos seus receptores. Dificilmente posso compreender que se prefira viver amputado, a usar um órgão necessário e compatível, embora não vital, transplantado de outro ser humano.
Questiono-me sobre se a aceitação pode depender da importância do órgão, ou da parte do corpo implicada. Recordo o caso recente, e gravíssimo, da francesa Isabelle Dinoire, operada o ano passado; Isabelle não rejeitou o seu novo rosto, o que implicaria viver com uma cratera de carne entre a pálpebra inferior e o queixo. Isabelle terá precisado de aprender a aceitar o seu novo aspecto, e não terá sido fácil.
Também não me parece que um homem ou mulher de há cem anos atrás, numa altura em que tudo isto era ainda ficção científica, e as preocupações com a simetria física muito menos relevantes, se desse ao luxo de rejeitar psicologicamente um órgão que lhe fazia falta, como uma mão ou um pénis.
Um homem amputado do pénis não está apenas impedido de realização sexual – e isso, sim, parece-me ter consequências psicológicas; vê-se igualmente obrigado a depender de meios artificiais para levar a cabo as suas necessidades fisiológicas, ou de uma nova cirurgia que visará a reconstrução e realojamento, no corpo, de uma diferente uretra. Portanto, não me parece que a localização e importância do órgão transplantado possam explicar totalmente a reacção dos rejeitadores.

Reacções desta natureza expõem, a meu ver, fantasmas do tempo da frivolidade hedonista e do consumo enquanto finalidade de vida.
O nosso corpo é de uma fragilidade extrema. Paradoxalmente, a sociedade contemporânea ignora tal fraqueza, vivendo uma relação doentia com a ideia do envelhecimento, incapacitação e morte, adiando a sua consciência, e negando-os.
O transplante de órgãos externos torna a morte excessivamente visível, próxima, mesmo quando serve para dar vida. A morte dissimulada suporta-se, mas ninguém quer vê-la exposta nas suas mãos. Uma mão transplantada não é apenas a mão de alguém que morreu; é a morte. Está ali. Um coração ou um rim transplantados não se rejeitam psicologicamente: estão fechados dentro do tronco; não se vêem. É, portanto, possível, mais fácil ignorar o quinhão de morte de que chegam manchados. Quem recebe um transplante de coração agradece, assim, o prolongamento da vida que lhe foi proporcionado pelo morto, cujo corpo parcial se continua num segundo corpo, e o viabiliza. Se isto é lógico, não seria igualmente lógico agradecer a dádiva de uma mão alheia transplantada, ou de um pénis?! É mais fácil a adaptação a uma prótese artificial? Transportar, para sempre, um saco para recolha de urina?!

Estes comportamentos iluminam mais longe, ainda. Não reflectem apenas a negação da morte, mas o asco ao outro. A tudo o que não é nosso. O sangue do outro. A carne do outro. A roupa do outro. Os filhos do outro. O outro que nunca tocamos. O medo do outro. Como se, entre o outro e o que nós somos, existisse a barreira inultrapassável de uma diferente matéria.
É um asco que encontra excelente resposta na sociedade de consumo. Se a biotecnologia permitisse fabricar ossos, tendões, vasos sanguíneos, tecidos, em suma, uma mão novinha em folha, não existiria rejeição psicológica. Escolher-se-iam modelos de orgãos topo de gama, como se escolhe um écrã LCD ou uma peça de roupa. “Não use uma mão velha, compre uma novinha em folha. Você merece o melhor.”
Adquirir, adquirir. Objectos novos, sempre novos. Coisas que não tenham sido maculadas pelo uso de outros. Casa, carro, mobília, roupa. Tudo novo. Não reutilizar. Não fica bem. Se lavamos e guardamos os frascos do doce, dizem-nos que qualquer dia estamos como os velhos que andam ao lixo.
Esse é o motivo por que se comercia tão pouco em segunda mão. Rejeitamos psicologicamente a reutilização de um sofá como a de uma mão: as necessidades de um corpo não escapam às leis do consumo. Não se aceitam corpos em segunda mão, nem dados. Estamos moldados para consumir em série as marcas que se fabricam em série.
Vão-se os anéis; amputam-se os dedos; mas pelo menos a televisão é nova.