Esporadicamente desaparecem crianças sem que haja testemunhas, sem que seja possível incriminar alguém. Os suspeitos plausíveis estão sempre acima de suspeita: estranho padrão.
Em Portugal é muito conhecido o caso do Rui Pedro, porque a inconformada mãe do rapaz veio para a rua gritar a sua dor, chorar, acusar as autoridades, e exigir delas uma investigação empenhada, como eu teria feito se o meu próprio filho desaparecesse. Chamaram-lhe maluca. Que a mulher era uma histérica, uma desequilibrada. Que se calasse. Que ridícula!
Outros pais de crianças desaparecidas têm sofrido, num silêncio abatido, a perda incompreensível que os atingiu, até restar uma dor seca, morta.
Até hoje, em Portugal, a polícia investigava até onde conseguia, depois avisava as organizações internacionais, e sentava-se à espera que as crianças aparecessem, vivas ou mortas, por obra e graça do espírito santo. Muito de vez em quando, seguiam uma pista que dava em nada. Nunca nenhuma apareceu. O método, comprovadamente, não resulta.
Com Maddie, alguma coisa parece ter mudado.
Os pais de Maddie andam em tour. Acho bem. Quem, podendo, não moveria montanhas, não as rebentaria por dentro, não mandaria legados aos quatro cantos do planeta, com a missão de procurar o filho em casas pobres e ricas, pequenas ou grandes, sótãos, caves, arrecadações, armários, fundos falsos? Quem não mandaria furar o planeta até ao núcleo?
A mãe de Rui Pedro, e outros pais, portugueses ou não, não puderam fazê-lo. Não eram cardiologistas nem empresários de gabarito. Trabalhavam para pagar a comida, a renda e o carro. Não tinham rendimentos para tirar férias, quanto mais para viajar. Era preciso trabalhar e assegurar a sobrevivência dos restantes filhos. Não eram ninguém. Quem é ninguém não sonha ser recebido pelo papa nem pelos representantes máximos das polícias internacionais. Quem é ninguém não tem como andar em tour, buscando o seu filho. Quem é ninguém fica em casa, com os olhos presos a fotos, perguntando "porquê, porquê" até a palavra se tornar um gemido informe.
Maddie tornou-se um caso internacional, com grande exposição, e as polícias parecem realmente preocupadas. Já li sobre investigações via satélite. E acho bem, já disse.
Mas milhares de crianças que não são louras, nem particularmente brancas e abonecadas, nem filhas de pais britânicos de classe alta, com bom aspecto e vida perfeita, suficientemente fotogénicos e decorativos para merecer destaque nas revistas, têm desaparecido ao longo dos anos, continuarão a desaparecer, merecendo exactamente o mesmo tipo de tratamento, no que respeita à investigação dos seus casos pelas autoridades.
Não há filhos mais importantes. Há é pais com mais poder que outros. E esses, nisto, como em tudo, têm mais atenções.
