A palavra fabrica a realidade. O real existe no silêncio, mas é a palavra que o exprime e torna perceptível. Uma existência privada do usufruto verbal, enquanto emissora ou receptora, não possui acesso a um mundo inteligível. Não o compreende, não pode recebê-lo, não pode devolver o pensamento criando novas realidades.
A palavra é a coisa, mesmo na ausência do objecto. A palavra é a terra. Frutifica, constrói. A palavra é o fogo. Trespassa, esmaga, destrói. Não precisamos de bombas para matar, basta-nos a palavra. Digo “bomba”, e morrem setenta pessoas. A última arma inventada é de todas mais simples, e os custos de produção são nulos: a linguagem verbal.
A este propósito, uma história que contei, há dias, numa caixa de comentários de outro blog: tive, em tempos, na mão esquerda, uma cicatriz que a atravessava na diagonal. Um rasgo escuro sobre a pele. Um salpico de óleo a ferver, enquanto fritava rissóis. Perguntavam-me, com frequência, o que tinha sido. Um dia, farta da enfadonha história real, “estava a fritar rissóis...” resolvi brincar com o assunto, e inventei um contexto que me pareceu inverosímil. Gosto de gente feliz ao meu redor.
“Quando era criança, acompanhando o meu pai numa caçada aos cudos, em Manjacaze, fomos subitamente atacados por um tigre esfomeado, que vigiava a mesma manada. Fui a presa seleccionada, por ser a mais frágil, mas a fera, antes de cair abatida por um tiro de espingarda, alcançou-me, ainda, derrubando-me com uma patada que me rasgou a mão. Esta é a marca!”
Disse isto com ar normal, e sem drama, não me ri. Um humorista não se ri das piadas que conta, ou a anedota não resulta. Quando acabei a história, e pude apreciar o silêncio dos ouvintes, não tive coragem de me desmentir. Não por mim, mas porque seria decepcionante. Admiravam-me.
A partir desse dia tornei-me uma pessoa respeitada. A cicatriz feita pelo óleo quente dos rissóis tornou-me alguém. Eu tinha enfrentado a morte e sobrevivido.
O meu pai foi realmente uma vez, que me lembre, à caça de cudos, perto do Xai-Xai. Não chegou a disparar a arma. Mulheres e crianças ficaram nos carros. Os homens regressaram de mãos vazias. Nunca vi um tigre na vida, a não ser no Jardim Zoológico.
Infelizmente, com o tempo, a mancha desapareceu.