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quarta-feira, abril 16, 2008

Eu cá espetava-os todos contra as paredes do Ministério da Economia


Quando eu era nova havia uns mânfios que roubavam carros. Uma chatice. Roubavam-nos, levavam-nos para a loucura da noite, ouvindo Xutos, esses marados, e era sexo, e drogas, sobretudo drogas, drogas, e roubos por esticão; no dia seguinte, o Fiat Uno lá aparecia espetado contra um muro da Avenida das Descobertas, muito mazelado. Mas não compensava a assaltante nem a assaltado.
Hoje, os mânfios especializaram-se, e trabalham em bancos e têm salários de gestor. Ou administram fundações culturais e outras. Felizmente, acabaram-se esse ladrõezecos de meia-tijela, sem gosto, sem conhecimento da arte da ladroagem, do produto que vale a pena roubar. Agora temos o carjacker, individuo encapuçado e armado que vê muitos filmes de acção americanos, em vídeo ou dvd, e usa muito o comando para congelar a imagem, fazer pause, zoom, repeat, marker, etc. O carjacker pratica o carjacking, modalidade desportiva a que muito gostaria de dedicar-me, estando do lado de fora do veículo, naturalmente, isto se não tivesse que fazer à noite.
É que ainda há bocadinho estive a ver uma entrevista a um carjacker, no Canal 1, e, com toda a sinceridade, acho que fazia aquilo com mais estilo, sem medo que as mulheres se me atirassem ao capuz, e não diria, de certeza que não diria, "a seguir chamei ela".

segunda-feira, março 31, 2008

O animal bonito é o animal morto

Daniel Proença de Carvalho é o convidado especial do programa Sentido do Gosto, que passará amanhã à noite da RTP1, e no qual se discutirá o fascínio da caça.
Ah, eu também gosto muito de programas sobre caçadores. A ternura com que eles fitam os olhinhos mortos da lebre, da perdiz, do passarinho indiscriminado e, até mais ver, mole, comove-me. Ah, a caça, essa arte! Premir o gatilho, essa arte!
A natureza é perfeita e os caçadores adoram-na, e mais à bicharada. Olha, ali vai uma perdiz. Que lindo animal. Deixa cá ver se lhe acerto à primeira. Pum, pum. Busca, Bobi, busca.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Utopia em progresso

Barak Obama e mulher em campanha

Com um bocado de sorte, e cansaço, e raiva dos americanos, é provável que dentro de nove meses Barak Obama seja eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Até há pouco tempo não acreditaríamos que um homem negro tivesse hipótese de chegar à presidência dos EUA. Seria necessário esperarmos 50 anos. Talvez 80. Dizíamos. Parecia-nos muito mais provável que os americanos, influenciados pela Europa, escolhessem eleger, primeiro, uma presidenta. Hillary Clinton, naturalmente. Mas Hillary não parece prometer mudança com a autenticidade de Obama nem com a mesma voz, as mesmas mãos. Hillary esteve no sistema. Está. Não há grande garantia de que não seja mais do mesmo. Não convence. Ou melhor, não suplanta Obama, que discursa como um pregador, como um Luther King, um negro. Escutei o seu recente discurso da vitória, na Carolina do Sul, e apanhei-lhe a prosódia sincopada, arrastada nas palavras-chave, de quem ouviu com muito atenção o registo de I have a dream. Ele evoca de novo, aos americanos, esse sonho amputado de justiça para todos.
Mas Obama é, acima de tudo, uma ideia tornada possível por um produto televisivo. Quando, a 4 de Novembro, próximo futuro, tiver vencido as eleições, e eu espero que sim, agradecerá primeiro à mulher e às filhas, que pouco o viram no último ano, dirá assim, e, em segundo, aos guionistas, realizadores, produtores e actores envolvidos na série 24; só depois aos cérebros da sua campanha. Seria justo. Antes da série 24 nos ter posto perante a figura de um digno presidente americano, negro, nunca tal nos teria parecido possível. Era ficção. Real apenas enquanto ficção. Eis como um produto de televisão é responsável pela rápida materialização de uma utopia.


David e Sherry Palmer, personagens da série televisiva 24

terça-feira, janeiro 15, 2008

Querida, vou trocar-te por outra

No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.


domingo, outubro 14, 2007

Baixar o som

Estive ainda agora no quarto, arrumando roupa com a televisão ligada na outra ponta da casa.
Acabei a interrogar-me sobre como conseguiu Júlia Pinheiro fazer carreira na rádio e televisão. Não tem uma voz, mas uma faca. É um espicho para abater animais, tenho a certeza. A voz da Júlia atravessa-me o coração e sai-me pelas costas.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Professor Martelo não dá Friskies a Gato Fedorento



Quem viu ontem o Gato Fedorento, e apreciou as rábulas a solo de Ricardo Araújo Pereira, funcionando como separador das restantes, e rematando-as ao estilo Diácono Remédios, compreendeu perfeitamente que o Professor Martelo não gostou da caricatura do Assim Não, soberbamente interpretada pelo mesmo humorista, na semana anterior; ficou claro que Martelo mexeu cordelinhos para pressionar o programa. Felizmente, os miúdos não estão à venda.
Ricardo Araújo Pereira interpretou, nas fronteiras do sarcasmo, o perfeito falso democrata: o fulano conhecido, vaidoso, poderoso, falso, que manipula o discurso da liberdade de expressão para exercer a sua tirania de pacote, sorrindo enquanto a impõe. Ricardo Araújo Pereira interpretou "a cobra" com um ritmo impressionante, quase a doer, e todos pudemos reconhecê-la, tal como manda fazer, mostrando os dentinhos cínicos, os olhinhos gelados. Vimo-la. Estava ali inteirinha. Foi brilhante.
Desde os tempos de glória de Herman José que a televisão portuguesa não via um bicho de humor com o talento original deste Estica, e o do outro, o que faz os papéis do Bucha.
O Herman não está morto, mas anda perdido na exacta medida em que se vendeu. Isso é insuportável num humorista.

terça-feira, outubro 03, 2006

Como dormir sem drogas, curando a ansiedade de forma natural

O desabrido leitor(a) estenda-se ao comprido no seu sofá, com o seu chá de estimação, e a televisão na 2, enquanto começa a passar A Letra L. Tape-se com uma mantinha e deixe-se ir apagando ao longo do entusiasmante enredo; prepare-se para acordar às 4 da manhã com a voz do pastor da igreja do Brasil, "nós podemos curá-lo, meu irmão!"

domingo, fevereiro 19, 2006

Boa pergunta

Numa rapidinha, antes de sair:
há bocado, estava na cozinha preparando o meu arroz de marisco, e eis que escuto a seguinte pergunta, feita pela repórter da TVI, a uma menina que assistia ao trigésimo-quinto funeral da irmã Lúcia:
- O que é que estás a fazer aqui?

sábado, janeiro 21, 2006

Constipada I (opção dvd)

RTP 1 - faduncho.
RTP 2 - Basílio Horta comenta não sei quê sobre economia.
SIC - telenovela brasileira.
TVI - telenovela portuguesa.
Quando é que alguns canais da televisão por cabo passam a ser à borla?

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Feriado de Nossa Senhora da Conceição

O Preço Certo em Euros agora tem um menino, para além das habituais meninas de top, a apresentar os electrodomésticos, a fazer festinhas nas impressoras, a dar palmadinhas nas secretárias do IKEA, ligeiramente arqueado sobre os objectos, sorrindo, com o rostozinho de lado.
Parece socialmente correcto, mas nem chega a mudar a decoração. É exactamente o mesmo, e não me alegra.
Do que eu gosto é da senhora de Gouveia, que levou as prendas da "cambra", e que impulsionou a roda com toda a força, seriamente, como se estivesse no seu trabalho, como fez toda a vida, em todas as circunstâncias.
E agora segue-se o Telejornal.



terça-feira, novembro 29, 2005

Filosofia pura I

Sentada no banco da cozinha, e olhando para o tambor da máquina de lavar roupa, enquanto lava, assisto a melhores programas, mais supreendentes, agitados, profundos e cromáticos do que em qualquer um dos quatro canais da minha televisão.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Desperate Housewives: o meu primeiro episódio


A menina recebeu uma carta de um ex-namorado que, segundo parece, num episódio anterior, se havia descoberto esconder-lhe factos graves sobre o seu passado; qualquer coisa deste género. Embora gostasse dele, a menina debatia-se com o seguinte problema, abrir ou não a carta e, portanto, ler ou não as justificações do dito macho, sabendo que ali poderia estar uma segunda mentira.
A amiga, vendo-a abraçada a essa carta fechada, muito apertada contra o peito, atirou-lhe, “Se os homens já mentem tão bem de improviso, imagina como é de papel e lápis?”
A menina devolveu a carta.
A isto chama-se discernimento.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...