Safo de Lesbos, poetisa grega, século VI a.C.
Uma cama larga, partilhada com mais do que uma mulher de diferentes características físicas, que não só fazem amor entre si, como se entregam activamente, para total consolo, ao desejo viril: eis uma fantasia erótica masculina muito frequente, copiosamente reencenada pelo negócio da pornografia.
Desde que aí não esteja a sua, os homens não se sentem tradicionalmente ameaçados pelo sexo entre mulheres. A ideia é-lhes prazenteira. O envolvimento sexual mútuo não torna as mulheres lésbicas: a recusa do macho é que as torna fufas.
Os prazeres sáficos não constituem sexo sério, mas meras brincadeiras que desenvolvemos, umas com outras, enquanto não chega um homem para nos satisfazer capazmente.
Tamara de Lempicka, Duas Amigas, 1923
O imaginário tradicional associa sexo e supremo prazer sexual ao falo erecto. Um bom desempenho implica, culturalmente, mesmo no caso dos homossexuais masculinos, a penetração realizada pelo falo.
O prazer, e o poder do prazer, dependem, portanto, do macho. Numa cultura fálica não é a entrega e a partilha do desejo que se relevam, mas a realidade de uma posse física conseguida pela penetração. Possuir é penetrar: “eu entro em ti, eu lavro-te, logo, és a minha terra”. Não é uma ideia destituída de qualquer poesia, mas ignora, displicentemente, o corpo total enquanto zona erógena.
É precisamente a questão da posse pelo falo, que, no caso da homossexualidade masculina, incomoda tanto. Por isso se valorizam negativamente expressões como “pega de empurrão”, ou designações como “o rabeta”...
No contexto religioso, enquanto a homossexualidade masculina foi e é, ainda, impiedosamente condenada, a feminina, considerada um vício, tolera-se; rezados uns Padre-nossos, absolve-se. Não é coisa muito importante. Case-se a rapariga!
Estátua de Príapo, Pompeia
Numa relação homossexual masculina incomoda que a estratificação do poder se estabeleça entre dois homens, possuidor e possuído, sendo que o possuído personifica a fêmea; portanto, o mais fraco, o mais ridicularizado.
As mulheres podem beijar-se, roçar-se, manipular-se, mas nunca, porque destituídas de um falo natural orgânico, possuir-se. Proporcionam-se excitação, não o prazer rigoroso do falo. As mulheres permanecem, assim, simbolicamente roubadas do poder.
O prazer sáfico é decorativo, distrai. As fêmeas são, regra geral, agradáveis aos olhos: redondas, macias, suaves. Assim, a brutalidade associada à prática sexual entre dois homens opõe-se à suavidade do contacto físico entre mulheres. Os homens são brutais, as mulheres entregam-se a coreografias excitantes. Um bailado.
Contudo, quando abordo este assunto, gosto de lembrar que é possível dar e receber beijos mais poderosos, mais envolventes que a ordinária penetração.
Catherine Deneuve e Susan Sarandon em The Hunger
(Miguel Marujo, cumpro o prometido a 31 de Dezembro, que, entretanto, me cobraste!)



