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terça-feira, agosto 12, 2008

Não agridam os vossos homens, por favor


Foto de Emmanuel Honold (exemplo de publicidade negativa para a marca Ecko)

Parece que estou sempre a esquecer-me que os homens também são vítimas de violência doméstica. Falha minha, realmente; 12 por cento das queixas são apresentadas por homens. Vou explicar isto melhor: em 100 indivíduos agredidos pelos parceiros com quem supostamente dormem e coabitam, 12 são dos sexo masculino. Entre esses 12 há os que são agredidos pelas namoradas e esposas, e os que levam dos marmanjos barbudos com quem coabitam.

É dramático: o dia todo a trabalharem na estiva, a beberem bejecas para ganharem força onde têm pouca, e chegado o final do dia, ao chegarem a casa frageizinhos do álcool, ainda por cima levam. Um homem a precisar de uma soneca reparadora para no dia seguinte continuar a beber e a discutir bola com os amigos, e torna-se ali vítima de pancadaria da grossa.

Não batam nos vossos maridos e companheiros, por favor. Olhem que é uma coisa muito má e muito feia estarem a exercer sobre eles o poder que as mulheres já não lhes reconhecem. Não sejam vingativas. Não incorram nos exemplos que testemunharam sob a agência dos vossos pais, avós, tios, irmãos. Se lhes estiverem com raiva, é melhor chateá-los a um ponto em que só encontrem sossego de alma atirando-se voluntários da janela do 10º andar. Que seja uma decisão pessoal e voluntária da parte deles. Não nos cabe interfir nas decisões de vida dos nossos homens. Eles são livres, livres, livres.

domingo, julho 08, 2007

O amor em Portugal

Foto: Monika Wiechowska, Bending


Em 2006, em Portugal, a violência doméstica provocou morte ou ferimentos graves a mais de uma mulher por semana (39 mortes e 43 agressões graves). Este dado, revelado na Imprensa, no final da passada semana, deveria levar-nos a questionar a ideia de que a igualdade de géneros, assunto tão em remissão nas agendas, se tornou uma realidade na nossa cultura, que efectivamente as mulheres ganharam estatuto de iguais na relação com o sexo oposto, e que, portanto, tais questões são um anacronismo.
Estes são os números oficiais. Falta-lhes juntar os inúmeros casos de violência doméstica, física ou psicológica, que por medo e vergonha das mulheres nunca chegarão ao conhecimento das autoridades e nunca serão contabilizados. Casos que me estão próximos, ou que testemunho em mulheres com as quais me tenho cruzado, no bairro, ou no exercício da minha actividade profissional.
Aquelas que levam bofetadas, porque foram lavar escadas às escondidas, e não estão em casa quando o marido chega, e a quem chamam puta; "por onde é que andaste, minha puta? Com quem te andaste a deitar enquanto saí, minha puta?"
Mulheres que são obrigadas a estar em casa, disponíveis para qualquer prepotência, a quem não é dado dinheiro, nem possibilidade de comunicar.
As que são sistematicamente violadas após cargas de porrada, como se a brutalidade do murro fosse um preliminar sexual.
Mulheres que têm medo, que mentem por medo, como se a verdade, a vida normal fosse um pecado que cometem. Que só podem, só sabem defender-se na mentira, criando o único mundo que lhes está autorizado.
Mulheres da minha idade ou dez anos mais novas ou mais velhas. De todas as classes. Conheço-as. Nunca fizeram queixa. Creio que nunca farão. Vivem no medo porque não sabem viver de outra forma. Não acreditam que se possa viver doutra forma.

domingo, agosto 06, 2006

As tribos sem deus

Olho as pessoas, procurando vê-las exactamente como desejam ser vistas, exactamente como se vestiram e falam para que nelas descubramos o máximo humano, em todas o máximo. Milhões de deuses e deusas, reis e rainhas, sem dificuldades financeiras, problemas com a justiça, a saúde ou a consciência.
Classe. Descontracção. Estilo. Ninguém tem feridas com pus. Ninguém está menstruado. Ninguém tem um linfoma multiplicando-se algures. Uma cárie ínfima. As pessoas são lindas. São estranhas. Mostram os sexos umas às outras, mesmo através da roupa. Estão vestidas. Não estão.
Ninguém é tocado para lá dos sentidos materiais do momento. Um beijo é só um beijo. E isso é tudo o que há para haver.
Uma culpa. Não. Ninguém carrega culpa alguma. inocentes, felizes.

Na verdade é a culpa que nos carrega, e alija, porque pesamos, como pesamos.

sábado, junho 17, 2006

Entre homem e mulher mete sempre a colher!



Serviço de Informação a Vítimas de violência doméstica:
telefone 800 202 148


Em nove colegas divertidas, com quem nos damos no trabalho, três são vítimas de violência doméstica.
Um terço das mulheres, em Portugal, são vítimas de violência doméstica?!
Mas não somos iguais?! Até deixámos de ser feministas porque já não se justificava!
Já vamos beber cervejas com eles, e ver os jogos; o meu chefe até adora trabalhar com mulheres, tem 8 secretárias. Não somos iguais?!

Um exercício de aplicação. Pensem nas vossas três colegas preferidas. Visualizem os seus rostos. Uma dela é vítima em silêncio. Qual?

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Violência extrema

- Por que lhe telefonaste se sabias que te ia tratar mal?
- Porque não resisti à tentação de ser agredida.
- À tentação?!
- Enquanto estive a ser agredida pude ouvir a sua voz!

segunda-feira, setembro 12, 2005

A Dor (pública)

Uma criança do sexo masculino, com seis anos de idade, surda-muda, a qual acumulava graves deficiências motoras e mentais morreu a semana passada, vítima de um inumerável rol de torturas que lhe foram infligidas pelo namorado da mãe: uma outra criança do sexo masculino, com dezasseis anos de idade, e graves deficiências psicológicas, aparentemente nunca detectadas.
Ambos nasceram em famílias sem recursos económicos, como tantas outras; pior, ambos nasceram em famílias sem quaisquer recursos socio-afectivos.
O primeiro vivia publicamente num bairro com vizinhos, como tantos outros bairros com vizinhos; recebia apoio diário numa instituição pública, supostamente capaz de dar resposta a crianças com tais necessidades, e morreu, publicamente, num hospital público onde já havia dado entrada, urgente, oficial e pública, dias antes, exactamente pelos motivos que o conduziram à morte.
Esta criança morreu vítima de dois agentes que operam de forma cíclica, e, por vezes, articulada:
1) A herança do desamor perpetuado geracionalmente, que insensibiliza a um ponto em que não é possível reconhecer grande diferença valorativa entre Bem e Mal.
2) O exercício abusivo e incontrolado de poder, de quem o tem, sobre quem o não tem.
A criança a que me refiro morreu completamente indefesa pela impossibilidade de comunicar a sua dor.
A Joana do Algarve, de quem tanto se falou o ano passado, alegadamente assassinada pela mãe e pelo tio, que não era surda-muda nem possuía deficiências mentais ou motoras, também não pôde comunicar a sua dor. Se a comunicou, ninguém foi capaz de a ouvir.
A dor existe publicamente. Existe, todos os dias, a cada ínfimo grau de todos os nossos pontos cardeais. Cruza-se fisicamente connosco. Fingimos que não a vemos, mas, muitas vezes, é ela quem não se deixa encarar. Não é capaz.
A dor ocorre neste momento, perto de mim e de quem lê este texto, onde quer que esteja; está a acontecer, profunda e inominavelmente, no momento em que digito esta última sílaba: ba. Agora.
A maior parte de nós pensa que sofre ou que já sofreu, mas a dor verdadeira, a dor a que me refiro, poucos conhecem.
A dor destrói e cala, mesmo quando não somos mudos.
A dor é pública, mas ninguém a vê. Não é remediada nem socorrida nem tratada, porque a dor sobrevive no silêncio e na escuridão. Para a dor não existem médicos nem advogados nem psicólogos: nem justiça nem esperança. A dor não conhece esses vocábulos nem ideais.
A dor reconhece apenas o alívio, quando este chega.
O menino que morreu na segunda-feira, e a Joana, o ano passado, reconheceram-no, no momento em que chegou.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...