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quinta-feira, março 13, 2008

Isabela vai à médica de família



Fui à médica de família porque não ando a sentir o antidepressivo. E disse-lhe, doutora, é como se não andasse a tomar nada. Não me sinto melhor nem pior. Os dias correm bem ou mal, nuns rio, noutros choro, mas não sinto o antidepressivo, veja-me lá a dosagem se faz favor.
E desabafei. Melhor, não me controlei: o que ele me tem feito; as horas a que chega a casa; as manchas nas cuecas; que não o excito; que tem uma miúda. Que tem uma miúda, santo Deus, uma miúda! E quem sou eu na vida dele, afinal? O que vem fazer a minha casa? Contei-lhe, claro; tudo. Desde que a minha prima afastada foi viver para Roma, o meu maior interlocutor é a máquina de lavar roupa. Até isto lhe contei. Caramba, ela é médica; estudou para ouvir e aliviar a dor. Não são apenas os nomes dos ossinhos. As emoções doem como o reumatismo. Sinto-me um trapo usado e deitado fora... esteve longe durante anos e agora não o excito, que sou uma amiga... que respeita muito. Que tem uma miúda! E eu perguntei-lhe, andas metido na cama com miúdas?! Respondeu-me que para ter sexo com quem quisesse não precisava de ir para a cama, bastava-lhe um vão de escada.
E ela, que é médica, que estudou ciência, fisiologia, as emoções... atenção, não sou eu a falar, que me baseio só no que ouço dizer, e penso, e intuo; que acredito no invisível e incognoscível; foi ela, que é médica, disse-me, Isabela, convença-se, os nossos homens não prestam. Foi ela: os nossos homens não prestam. É médica. Estudou ciência. Fisiologia. Hormonas. E reforçou-me a dosagem do antidepressivo.

terça-feira, maio 01, 2007

Jogo de damas II

Marco Paulo - Quarenta anos de amor eterno


O nosso amor era grande. Havia esperança, depois filhos, uma casa, votos sagrados, tudo como Deus quer. Quando estavas comigo, eu era toda a tua menina; quando estavas com ela, ela era tanto a tua mulher.

domingo, abril 29, 2007

Jogo das damas


O teu amor era grande. Tudo o que era meu te prendia a atenção. Tudo o que me interessava te interessava, sobretudo as minhas amigas, as do coração.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Um português diferente

O meu amigo Zé Manel vive no mundo perfeito. Chegam-lhe lindamente as suas duas mulheres. Uma é loura, outra, morena, e em nada são iguais, e o sortudo só não sabe, de qual delas gosta mais.
Mantê-las na mútua ignorância, apenas porque as mulheres, essas deliciosas tontas, convivem mal com a pluralidade, poderia parecer-nos complexo, sobretudo aos que mentem pior, aos que se atrapalham na estratégia, mas não ao Zé Manel. O Zé joga, para além de damas, xadrez, pelo que está habituado a antecipar movimentações, não se esquecendo das posições anteriores e nunca se enganando nas referências, não venham de lá ciúmes e elas fiquem “anormais”, como ele diz. Se uma mulher sente ciúmes, já se sabe, levanta cabelo, e o Zé Manel gosta delas mansas e doces.
É perfeito, nisto. Claro que não aprovo a sua vida dupla; afinal, sou uma mulher moderna, vejo à distância; mas tenho de admirar tanta perícia, a forma descontraída, sorridente, amorosa como conta, a ambas, mentiras pouco elaboradas, as que melhor resultam, sem nunca ser apanhado. Quando não está com a loura, está em reunião de trabalho, e quando não está com a morena está em viagem de trabalho. Se há coisa que uma mulher respeita é o trabalho. O trabalho é o grande aliado dos bígamos. Mas o Zé Manel não é bígamo, tem gostos dispersos. Alguns de nós poderão considerar isto moralmente reprovável. Erro: o Zé Manel faz um favor à humanidade: enquanto fode duas, mantém duas felizes. A estes, o Ministério da Saúde podia conceder subsídio. No mínimo, pelo que se poupa em Prozac, uns benefícios fiscais!


Nathalie, de Anne Fontaine

sábado, julho 09, 2005

Traíram a traição


Foto - Robert Doisneau, Um regard oblique, 1948

Se amasse duas mulheres, havia de ser um género de especialista em tuning ou corridas de obstáculos: mentia; manobrava; jogava; dissimulava; desviava; iludia; distraía; omitia, enredava; despistava; fingia.
Na perfeição!
Se amasse dois homens, também.
Quem ama no singular parece andar em contra-natura.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...