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quinta-feira, maio 24, 2007

Como os artistas plásticos realizam grandes obras

Enquanto Maria Teresa me hace una sopinha de grão-de-bico bem caliente, a ver se acabo aqui los cinzentos-névoa-horror, en el canto inferior izquierdo desta obra-maestra, que versa um grande bombardeamento durante la Guerra Civil.

Como as artistas plásticas realizam grandes obras

Se conseguir ver-me livre do Diogo, despachando, en lo mismo pacote, todo lo narcisismo y obsesiones, fico sem cuecas e peúgas para lavar e coser, acabam-se os cozinhados para apurar, e ainda evito los hijos de las otras, que me hão-de doer. No tenendo que lo aturar, talvez consiga fechar-me no atelier, e concentrar-me en la textura cromática del corazón de sangre que a figura sentada tem golpeado en el pecho.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Só Kahlo, não Ferida

Estou a ficar cansada de Frida Kahlo. Mas isto sou eu, porque consumi demasiado. De resto, aconselho vivamente a exposição que saltou de Santiago de Compostela para o Centro Cultural de Belém.
Frida nasceu ferida. A arte de Frida é aquilo que a autora foi no momento em que nasceu: herida. A sua arte existiu antes dela. Quero afirmá-lo porque já não suporto que se escreva que o que criou deriva directa, exclusivamente da sua experiência de vida. Claro que não estamos cá para ver passar carroças, e mesmo essas deixam rasto, mas arte é arte. É indissociável da vida, mas vive ao seu lado, não obrigatoriamente dentro. O pior que podem fazer a um autor é confundir-lhe obra e biografia. Fernando Pessoa padece disso. Florbela Espanca, muito pior. Frida, o mesmo. Porque, quando o autor é uma mulher, diz-se, "ela fez aquilo porque sofria muito", e não "ela fez aquilo porque era muito talentosa". Frida não foi a melhor pintora do mundo, mas criou uma estética da dor verdadeiramente original; um novo cristo colorido, uma mulher florida e partida; podia ser um homem florido e partido - por acaso foi uma mulher.
O que mais detesto, sobre Frida, ou outra autora qualquer, é essa confusão entre biografia e vida: casou não sei quantas vezes, mas o marido era infiel; foi lésbica ou bissexual, porque mulheres que se destacam têm de apresentar um problema qualquer associado à máquineta da feminilidade, e o lesbianismo ainda serve (feminilidade e autoria continuam assunto razoavelmente incompatível); e queria ter filhos, mas abortava. Este padrão é igual para todas. Com Florbela, com Frida. Com Claudel. Venham elas, que a gente devassa-lhes já a vida privada e rotula-as num instante: malucas, desajustadas. Não é arte, é desajuste. É só loucura. Uma mulher torna-se artista na medida em que a sua vida foi/ficou destruída.
Os homens são génios; as mulheres, lésbicas ou loucas.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A boneca Cindy e a boneca Isabela


Cindy Sherman, Sem título#112, 1982, Guggenheim Museum


Acredito na Cindy Sherman e na arte como arquitecta do mundo.

Acredito no sexo e nas vaginas portáteis, em silicone, e nas vaginas de carne, santificadas de todos os dias, lavadas com água de rosas, desinfectadas e prontas a usar.
Acredito nos contentores do lixo a fermentar ao calor e ao frio. E nos aterros sanitários aos quais o Tiago vai respigar embalagens já fora do prazo de validade, mas ainda muito consumíveis
Acredito nos beijos das cadelas. Nas mordidas e ganidos felizes das cadelas.
Na celulite. Nos vestidos Fátima Lopes. Na durabilidade da parafernália HP e nas vantagens do Mozilla Firefox. Em tudo o que acaba, e, mesmo assim, existiu.
Acredito que a vida é a minha arte, como a de Cindy Sherman. E que a arte precisa de mim, da boneca Cindy-Isabela. Acredito na Arte. E em Deus, que são a realíssima mesma matéria.
O meu amigo pintor via Deus, e Deus soprava no seu nariz, e movimentava-se nos seus braços e o que saía era lixo, eram latas de sardinha coladas numa tela com grude feito de farinha. Mas se o pintor tinha acabado de comer sardinha de lata, frita com farinha e ovo... que a arte fosse a vida que se lhe digeria nas vísceras.
O meu amigo pintor era Deus. Acreditei nele. Agora já não, porque agora aplica com rigor geometrias, e eu não posso caber na espessura de uma linha; eventualmente, no comprimento, se fosse infinita.
Acredito que ninguém gosta. De ninguém. Que todos fogem. De todos. Têm medo. De tudo.
Acredito nisso.
Acredito que um dia, o meu mundo, pelo menos o meu, vai ser perfeito. Acredito nisso



Cindy Sherman, Sem título, 1992



Cindy Sherman, Sem título, 1990

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...