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terça-feira, março 07, 2017

Estou a avisar-te

Só um esclarecimento. Sócrates nunca afirmou ontem que as críticas do Presidente da República não se referiam ao Governo, e que este não se deixaria instrumentalizar pela Oposição. O que ele fez, e isso parece-me muito claro, foi um aviso ao Presidente da República, ou, como bem diz a minha prima afastada, enviou-lhe "uma carta sem selo". O que disse foi, "Senhor Presidente, as suas críticas não eram para este Governo, pois nãooo?! O Senhor Presidente não se vai juntar à Oposição, okaaay?!"
Foi isto que eu ouvi.

Um primeiro-ministo com muita pica

O debate com o Primeiro-Ministro, hoje, no Canal 1, foi crispado. Sócrates assumiu uma estratégia de defesa viril, indignada, mas sem perder a compostura, questionando a pertinência e oportunidade das questões colocadas pelos jornalistas, remetendo-os, por exemplo, para a consulta de documentos on line para esclarecimento de dúvidas relacionadas com investimentos públicos. Foi um osso duro de roer para Judite de Sousa e Alberto de Carvalho. Sócrates não estava ali para ouvir questões, para ser questionado, motivo pelo qual os jornalistas não tiveram sequer grande oportunidade de conseguir formular cabalmente as perguntas. Sócrates levava o seu conjunto de pergunta-resposta previamente estudado e ensaiado, e respondeu só ao que queria responder, e como queria fazê-lo. Flagrante foi o momento em que Judite de Sousa remete para o dvd do Freeport, agarrando a deixa que o próprio primeiro-ministro lhe "autoriza". Nesse momento, sorrindo ironicamente, Sócrates responde-lhe algo mais ou menos deste género, "mas foi preciso esperar que eu dissesse isto para me perguntar agora pelo dvd? Poderia tê-lo feito em qualquer outro momento." Tornou-se claro que a entrevista estava a ser dirigida pelo primeiro-ministro, que a ordem das questões era a que ele queria, à revelia dos jornalistas a quem essa função competia, e que nada ali o surpreendeu. Igualmente difícil foi interrompê-lo, ou interromper o seu raciocínio, não só porque reclamava disso, mas porque efectivamente não se interrompia. Ele levou a sua história; queria contá-la e não estava disposto a que alguém o impedisse. E resultou.
Respondeu prontamente, sem hesitações, não esclarecendo as dúvidas essenciais que o levaram ali, mas não deixando de responder lateral e eficazmente aos assuntos levantados.
Eu nunca dei um chavo político pelo primeiro-ministro, e continuo a não dar, essencialmente por ser um demagogo arrogante e prepotente, mas tenho de admitir que o homem não é parvo, fala muitíssimo melhor que qualquer licenciado em engenharia com diploma verdadeiro, e deixa em quem o escuta a impresssão de que sabe imenso sobre tudo, tem muitas certezas e nunca se engana. Mantém uma postura dialogal de uma certa firmeza espontânea, até um tanto emocionada, mas contida, que muito agrada aos portugueses. Para além do mais, é um homem muitíssimo bem parecido, isto para usar uma expressão dos tempos da minha mãe. E só isso, nesta democracia, são votos contados.
Não digo que ele tenha vencido este round com nobreza ou talento, mas usou a força necessária nos golpes fundamentais. Sendo um atleta de segunda classe, tem a capacidade de ganhar competições, se as preparar bem. Eu, para ser sincera, para sair ilesa de uma entrevista com questões tão delicadas como as que ele enfrentou hoje, teria de me encharcar com uma mistura de diazepan e cocaína. E mesmo assim não sei. Espero que não tenha sido o caso dele. Mas se for, também não me causa grande incómodo, desde que não ganhe qualquer maioria absoluta no próximo milénio.

Pensando nos meus amigos e leitores no estrangeiro, vídeo RTP, aqui.


domingo, fevereiro 15, 2009

Cadê o Partido Socialista?

Há uns meses, o PS, e o resto da direita na Assembleia da República, inviabilizou um projecto-lei do Bloco de Esquerda e dos Verdes, relativo à união civil de homossexuais. Não porque não concordasse, mas porque não considerava oportuno, alegando ser necessário encaminhar o assunto para amplo debate social. Ora, todos nós sabemos como o PS é exímio em encaminhar projectos-lei, os seus, para ampla imposição social.
Com a candidatura de Sócrates a secretário-geral do PS, e consequente apresentação da respectiva moção política, percebemos a nega ao projecto da oposição: o PS pretende para si os louros do casamento de homossexuais. É apenas uma questão de currículo; servirá para defender que "nós é que". Ora, como há aqui basto interesse nos potenciais votos da esquerda, e da comunidade LGTB, convém não esquecer que este assunto já poderia estar resolvido desde Outubro, que isto é um bom exemplo da política oportunista do PS.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

O país onde se untam as mãos

Às oito da manhã já eu ouvia na Antena 1 os resultados da songadem da Católica relativos à possível contribuição do caso Freeport para a alteração da imagem do primeiro-ministro. Sorri. O que é que uma pessoa pode fazer senão esboçar um sorrisinho cínico?!
Tenho uma amiga sueca, mas por vergonha não lhe vou contar nada disto. Tem a mania de pôr muitas questões embaraçosas sobre determinados aspectos da nossa vida social e política, e pode ser que a notícia não chegue ao Báltico. Espero. No outro dia, perguntava-me ela porque é que o Fernando Mendes, do Preço Certo, tem uma menina em saltos altos e decotada para lhe tirar o casaco em pleno programa. Nunca tinha reparado. Ela repara em tudo. O que é que uma pessoa responde a isto?!
Conhecendo este povo como conheço, e conheço bem, um caso de corrupção não é coisa grave. Grave é ser-se doutor sem diploma, mas, por exemplo, aquilo que lhe dá origem, que é traficar influências para o obter, isso já é normal. Porque quem é que não paga umas luvazinhas? Quem é que não conhece um amigo de um tio?
Na minha família, que vem do cu da terra, sem apelidos com y ou consoante dobrada, poderia enumerar a quantidade de casos de corrupção que chegaram ao meu conhecimento. Uma cunha ali, dum padrinho que é doutor em leis, um favorzinho de um sobrinho, que é médico em Santarém... Sou do tempo em que se "untavam aos mãos" ao examinador para obter a carta de condução. Aliás, esta é uma expressão que toda a vida ouvi, "é preciso é untar-lhe as mãos", e faz parte indissolúvel da minha identidade cultural. Sou de um país onde se untam as mãos. Onde quer que vá é isso que lêem no meu passaporte, quando o apresento. Ainda no outro dia fui a Londres na Easy Jet para ver uma exposição na Tate, reparem como me cultivo, e assim que cheguei a Gatwick comecei logo a ouvir aos funcionários da alfândega, the flight coming from the paraise of bribery, sweet bribery, and so on. Ouvia-se distintamente. Todo o mundo sabe.
Depois, é preciso distinguir: a nossa corrupção não é uma organização em grande, uma máfia napolitana, embora configure uma teia que alastra por todo o tecido social, político e económico. Não se chama corrupção, mas favorzinho, jeitinho, um empurrão... e está embutido na casa de todos os que responderam à sondagem da Católica. É normal. Se calhar o primeiro-ministro deu um jeitinho no licenciamento de um projecto em Alcochete, e depois?!, aquilo não passava de um pântano de bicharada! E se ganhou alguma coisa com isso, melhor para ele, que só prova ser um homem desenrascado. Se eu tivesse uma filha haveria de a querer casar com um destes, dos que sabem fazer pela vida.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Tenho um pó aos Portugueses

Foto: Koudelka, 1976

Marcelo Rebelo de Sousa, opinou, a propósito do caso Sócrates/Freeport, que o Primeiro-Ministro saía chamuscado de todas estas suspeições.
Eu tenho muito mau feitio. Embora seja uma santa duma mulher, tenho um feitio que não desejo a ninguém, e o meu feitio está aqui a dizer-me que nesta altura do campeonato governativo, Sócrates não está chamuscado, porque o homem já se transformou numa pira funerária das que se ateiam para queimar corpos, na Índia. Nunca um Primeiro-Ministro tinha acumulado tanta acusação de corrupção, nas suas diversas vertentes, como este cidadão aparentemente exemplar, barbeado e lavadinho. E continua por aí em pé, auto-elogiando-se com veemência, algo que sabe fazer na perfeição. Noutro país da Europa...
Ocorre-me dizer que em Portugal não se chega a cargo nenhum sem cunha, sem amiguismo, sem uma palavrinha, sem um telefonema, e que Sócrates é apenas um entre muitos. A grande corrupção, no nosso país, e a pequena, são uma filosofia de vida como acreditar no Senhor e casar na Igreja, porque assim fizeram os nossos pais. Arranja-se sempre qualquer coisinha para alguém: uns cargos, uns terrenos em área protegida. Tudo é possível e a gente sabe que é assim. A voz do povo sabe-o.
Por exemplo, ocorre-me perguntar, para onde foram os boys e girls que trabalharam no anterior ministério de Maria de Belém, que se não me engano era para a igualdade? Estão no desemprego? Não?! Arranjaram cargos em empresas públicas e privadas?! Como?! Candidataram-se, entre outros?! Abriram concursos internos e externos e concorreram ao abrigo da Lei?! Foram publicitados os referidos concursos?! E caso estejam todos empregados, já agora gostaria de saber como são avaliados, que eu desde a polémica avaliação dos professores passei a ter muito interesse sobre a avaliação de todos os funcionários necessários ao Estado: como são avaliados os senhores deputados, funcionários de ministérios, funcionários judiciais, polícias, militares, médicos e enfermeiros, assistentes sociais, funcionários da segurança social, bombeiros assalariados e por aí adiante? Tenho aquilo a que se poderá chamar uma curiosidade mórbida.
Hoje, na Antena 1, num fórum que dá pela hora de almoço, meia dúzia de portugueses fiéis à cobardia, diziam ao repórter encarregado pela emissão, "deixem o senhor Sócrates governar; já é tão difícil governar uma casa quanto mais um país!" "O senhor Sócrates é que sabe, e o que ele está a fazer, mesmo que não concorde com algumas políticas, é para nosso bem! Porque se ele lá está é porque sabe o que está a fazer".
Santa ignorância provinciana, com todo o respeito pela província. Fiquei com a impressão que aos portugueses não interessa muito quem está no governo, o que interessa é que os faça sofrer, que lhes tire tudo, começando pela dignidade. E claro que compreendo, ao escutar a vox pop, como foi possível manter a ditadura, e como seria possível instaurar agora outra. Os portugueses querem-no. E eu, sinceramente, tenho pena que não se possa partir o país em dois e deixar com Sócrates os que são de Sócrates, de preferência todos concentradinhos na praça de touros do Campo Pequeno... para se resolver, finalmente, de uma vez por todas, o problema da robotização.
Não sei como é que fui nascer portuguesa. É karma pesado. Eu que tenho um pó à cobardia geral, à dos portugueses em particular, à sua pequenez, pequenininha, muito inha. Eu que lhes tenho um pó que nem sei como poderei enfrentá-los amanhã na rua. Os cabrõezinhos pequenininhos. Todos.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Cai do cavalo, Quixote!

Recusei-me ontem a ver a entrevista com o primeiro-ministro na SIC. Tenho de me poupar. A saúde, caramba. Aquilo faz-me mal. Sobe-me a tensão. Só de lhe ouvir a voz, revolta-se-me o estômago.
Hoje recebo um e-mail da Irlanda a informar-me que o homem declarou que os professores estão satisfeitos com as reformas na educação, e arrependi-me, claro. Afinal perdi um belo excerto da encenação do D. Quixote lusitano.

terça-feira, novembro 06, 2007

Toma-nos por parvos

Antes do Verão, assisti, pela AR TV, a um debate na Assembleia da República no qual a deputada Heloísa Apolónio, dos Verdes, questionava o primeiro-ministro sobre a inclusão da vacinação contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinas, como já acontece noutros países europeus. Sócrates, com a arrogância que lhe é conhecida, praticamente ignorou a interpelação da deputada, respondendo, com enorme desvalor, que tal não era o caso em nenhum outro país da comunidade. Recordo mentalmente a expressão de Heloísa Apolónio perante esta resposta. Riu-se, incrédula. Eu também me ri. Humor negro. Sócrates possui uma incapacidade política grave: é surdo, para além de uma lamentável ausência de sentido de humor. As duas vão levá-lo à mais saborosa derrota política desde Cavaco Silva, e eu cá estarei para ajudar.
Hoje, no debate do Orçamento de Estado, Sócrates, esquecido do que respondeu a Heloísa Apolónio antes das férias, veio anunciar a inclusão da vacina contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinação. Pelos vistos, vamos ser pioneiros na Europa.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...