Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!