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terça-feira, outubro 02, 2007

Grandes campanhas falhadas

Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!


terça-feira, janeiro 03, 2006

Deus tem número de telefone

O meu telemóvel vinha equipado com alguns contactos da própria rede, que agora coexistem, na minha lista pessoal, entre Anas, Bertas e Carlos. Um deles está no Q: quem sou eu?
Vou aos contactos, faço procurar, e passo inúmeras vezes pelo quem sou eu?
Incomoda-me, porque tento responder, invariavelmente, e não consigo. Mas se ligar para um número de cinco algarismos que lá aparece, talvez me dêem a resposta. E sinto-me tentada.

Houve um tempo sem cobardia

Explicaram-me que existe, agora, nos telemóveis, um determinado sistema, o qual permite mandarmo-nos mensagens, com o nosso perfil, aquele que escolhermos ter, à borla, desde que partilhemos uma mesma zona.
Perguntei qual era a utilidade, e responderam-me que era muito usado, nos bares, para os engates. E eu imagino-me no café a receber a seguinte mensagem, "Olá, miúda; sou o Tiago Nuno, 30 anos, 1, 85m, moreno, 107 quilos, engenheiro de minas, Mercedes xpto turbo-diesel, visto-me Gant e Helvetica, Sporting Club de Portugal, os meus livros preferidos são os mais fininhos do Paulo Coelho, curto Da Wiesel, todo-o-terreno, e o amor. Não sou transmissor de doenças venéreas, pelo menos ninguém se queixou".
E pergunto, ainda, então e o velho chat? "Donde teclas?"
E quando íamos ter uns com os outro, fosse onde fosse, e atirávamos, apenas , "Pá, eu conheço-te da faculdade, não conheço?!", mesmo quando não nos conhecíamos de lado nenhum.
E quando nos pediam lume na rua?
E quando, nos bailes, nos perguntavam as horas?
Saber levar uma tampa tinha a sua dignidade. Havia uma disciplina, na tampa. Uma ordem. Uma tampa era só uma tampa naquele momento. Mas respeitava-se; voltava-se à carga no próximo baile, se entretanto não se tivesse tido sorte por outro lado.
Agora, não se arrisca sem rede. Essa é a praga deste tempo: a rede protectora por debaixo do trapézio.
Eu, que sempre fiz piruetas no ar, saltos mortais; eu que dancei no trapézio e me segurei a ele pelo dedo mínino; que hei-de trabalhar no circo sem rede, para sempre, acho estes tempos tão cobardes!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...