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sábado, maio 24, 2008

Até ao fim de uma terra qualquer

Aeroporto de Lourenço Marques (anos 60/70)


Na noite já longa, lá fora, homens cavalgando camelos aproximam-se do avião para prestar assistência técnica. Vejo-os passando sob a asa. Alguns, param.
É uma imagem invulgar, portanto estranha. É noite, e uma noite especialmente só. A primeira noite em que ninguém me mandou apagar a luz, e em que me encaminho para a mulher que escreve estas palavras. A mesma mulher, ainda menina, o mesmo cabelo e os olhos claros vazados pela miopia, as mãos com muitas linhas, as pernas gordas nas coxas, que continuam a rasgar as calças exactamente no mesmo sítio. A mesma pessoa, como poderei explicar isto melhor: a mesma pessoa.

Esta memória permanece tão fresca, que podia ter sido ontem à noite.
Na noite, as formas lentas, claras dos camelos encimados por homens de turbante. A toda a volta, uma escuridão apocalíptica. Nem uma luz. Foi há 33 anos.

É o aeroporto de Dakar. Acabámos de fazer escala no Senegal por imperativos técnicos. Não saímos do avião, não podemos levantar-nos nem desapertar os cintos de segurança.
Lembro-me que é o Senegal porque na altura pensei, é o sítio de onde vem a margarina. Havia uma margarina muito boa do Senegal e barravamo-la no pão. Em Lourenço Marques. Margarina do Senegal. Não me lembro se fizemos escala em Joanesburgo ou em Luanda. Se calhar fizemos. Só me lembro da margarina do Senegal, e dos homens de turbante sobre camelos, rodeados pela mais funda escuridão.

Digo à hospedeira que preciso de procurar o anel de esmeraldas da minha madrinha, um que trazia, que me caiu dos dedos, que não dei por nada, que deve ter rolado para trás, ou para a frente. Diz-me que não posso levantar-me. Estou desesperada, é um anel de esmeraldas, não me pertence, tenho de o entregar a alguém, depois, não sei quando, está-me largo, caiu, preciso de me levantar e de o procurar. Ela diz-me que não. Só quando chegarmos a Lisboa. Que tenha paciência.

A forma como olhámos para as nossas mãos aos 10 anos, e a forma como olhamos para elas, agora, estou a olhar para as minhas mãos agora, não muda. As mesmas mãos. Como puderam envelhecer e ser ainda as mesmas? As unhas iguais. Os nós. Os mesmos olhos. O mesmo pensamento, quando olhamos, com os mesmos olhos, as mesma mãos.
Reacções iguais perante os acontecimentos, a expressão dos sentimentos, como a alegria, mas sobretudo o medo, não mudam relevantemente ao longo do tempo. A partir de certa idade, muito cedo na infância, já somos nós, o que há-de perseguir-nos sempre.

Não me lembro de sobrevoar Lourenço Marques, a baía. Não guardei essa imagem. Às vezes vou ao Google Earth para ter uma ideia, mas é algo completamente novo. Aquela cidade vista do céu já não é Lourenço Marques, e eu não posso ter qualquer memória da cidade vista de cima. Tento encontrar lugares que não estão lá. Que não reconheço.

Já era muito crescida. Eu pensava que era muito crescida, e na viagem para Lisboa confirmaram-mo. Anunciaram-me poucos dias antes que tomaria conta de irmãs gémeas uns anos mais novas, as quais não conhecia e que nunca mais encontrei na vida. Não sei como se chamavam, se eram louras, altas, como se vestiam, de quem eram filhas, onde viviam e para onde foram viver, nada. Eram umas miúdas, pessoas que ali se atravessavam na minha vida sem qualquer consequência: cabia-me mantê-las no lugar, e dar-lhes segurança. Iam do lado da janela, e ao meio, comigo na coxia, por isso não vi a baía de Lourenço Marques, ou talvez estivéssemos do lado errado do avião.

Quando partimos, muito ao final da tarde, Lourenço Marques ficou para trás do pôr-do sol, muito doce, muito madura, mas já longe quando levantámos; era o lugar onde nunca voltaria; eu sabia; agora tinha de me preparar para ser uma mulher, começar uma vida nova, fazer tudo bem, tudo certo. Sabia que era difícil. Que estava marcada onde não se podia ver, e também não sabia como tinha acontecido nem porquê. Mas sabia-o sem palavras, sem grande vontade. Sei-o, porque reconheço o meu pensamento seguindo pelos mesmos caminhos, enformado nos mesmos moldes. Porque sou a mesma. Lembro-me de como pensava. Era assim. Todos podem testemunhar. Já estou aqui, contudo ainda estou lá, e não sei se interessa sair, o que interessa isso? Na verdade, todo o passado, presente e futuro ali se fundiram, naquela viagem, e eu só posso falar usando as palavras de fronteira, de transição, manchadas, duais que aí se formaram.


Aeroporto do Maputo (imagem Google Earth)

No aeroporto de Lourenço Marques, nos momentos que antecederam a entrada para a alfândega, lembro-me de uma porta de vidro. Quando se atravessava, não tinha regresso.
Via os que tinham entrado, já distribuídos por filas.
Tínhamos chegado tarde, porque o meu pai esquecera-se do anel da minha madrinha, o que perdi no avião, e era agora preciso cumprimentar todos aqueles brancos que se foram despedir da filha do electricista, levando recados, cartas, pequenas encomendas que eu deveria encaixar na bagagem de mão, avisos sobre como deveria contar tudo na Metrópole, tudo o que nos têm feito, diz que perdemos tudo, que o dinheiro não vale nada, que não há que comer, que mataram os Monteiros, que a filha do Sousa, mais o marido, estão presos, conta que estamos quase a ir.

Mas, agora, vai, depois lá nos encontraremos e falaremos. A gente vai a seguir. Agora vai que já é tarde, vai, vai, e agora, neste instante em que tudo está perdido, em que já não há volta, em que entro por essa porta de vidro, após os beijos formais, um sentimento estranho que não consigo controlar, um vazio, nunca mais vou voltar, uma coisa que se perde, um vazio, e esse amor tão escondido, tão evidente pelo meu pai, que me projecta para os seus braços, contra a minha vontade, como uma bala que o atravessa e o torna exangue, eu chorando a fio, não conseguindo largar o seu corpo, e os seus braços enormes, o seu corpo enorme, as suas mãos enormes, a sua carne enorme que beijo, que não quero largar. E volto atrás, chorando a fio, abraçada a qualquer parte desse corpo sagrado, chorando, chorando-o, arranhando-o de amor, como se o mundo acabasse ali, e, oh, acabava, depois a minha mãe, que me sacudia, envergonhada, ela, e eu estava envergonhada, tanta gente, não chores, filha, olha as pessoas, não chores, filha, agora vai que já é tarde, e o corpo doce, doce, ácido, suado do meu pai, o corpo querido do meu pai, a camisa branca e doce, ácida, suada, encharcada das lágrimas que eu não percebia nem controlava. E agora vai, agora vai, e atirou-me para dentro da porta de vidro, ao colo atirou-me para dentro da porta de vidro, e eu voltei-me e vi o seu rosto contrito, do outro lado já, as suas duas mãos inteiras espalmadas contra o vidro. As duas mãos iguais às minhas mãos. Estas, de carne, que agora escrevem esta frase. As mesmas.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...