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segunda-feira, setembro 08, 2008

Ética 1



A dor

"A dor é má e quantidades similares de dor são igualmente más, seja quem for aquele que sofre. Incluo aqui no termo «dor» todos os géneros de sofrimento e de angústia. Isto não significa que a dor seja o único mal ou que seja sempre errado infligir dor. Por vezes pode ser necessário infligir dor e sofrimento a nós próprios ou aos outros. Fazemo-lo a nós próprios quando vamos ao dentista e fazemo-lo ao outro quando repreendemos uma criança ou prendemos um criminoso. Mas isso justifica-se porque a longo prazo conduzirá a menos sofrimento; a dor em si não deixa de ser um mal. Inversamente, o prazer e a felicidade são bons, seja quem for aquele que os possui, mas pode ser errado fazer certas coisas, como maltratar os outros, de modo a conseguir prazer ou felicidade."


Peter Singer, Escritos sobre uma Vida Ética

segunda-feira, novembro 05, 2007

Tenho uma dor

ferrada na clavícula direita.



Série Azulejo (casa-de-banho - junto ao armário dos medicamentos)

terça-feira, outubro 16, 2007

Desmanchos



Da série Conversas com a Minha Mãe


Mãe
- A minha avó era muito má. Rogava pragas à minha mãe.
Isabela - A tua avó rogava pragas à tua mãe?!
M. - Rogava. Zangava-se com o filho, e quem pagava era a minha mãe.
I. - Era fresca.
M. - E caíam. Rogou uma praga à minha mãe em como ela haveria de ter tantos filhos que nem os distinguisse uns dos outros. E a minha mãe, coitada, era uns fora, outros dentro.
I. - Fez muitos abortos?
M. - Ora... era quase todos os meses na Adénia. A Adénia vivia daquilo. Era especialista. Toda a gente lá ia. Era uma mulher gorda, baixa. Lembro-me dela. Tinha sete filhas. Andavam todas aperaltadas.
I. - Era parteira.
M.- Não, mas sabia. Tinha um moinho, mas pouca gente lá ia moer. A freguesia era para os desmanchos. Sabes lá os que foram por aquele rio Baça abaixo!
I. - Mas sabia dar anestesias.
M. (com indignação) - Não. Antigamente não se davam anestesias.
I. - Sem anestesia?! As mulheres eram raspadas sem anestesia?
M. - Sim. A sangue-frio.
I. (fazendo uma grande careta) - Não me contes mais nada.
M. - As mulheres antigamente sofriam muito. Sabes lá!
I. - E as mulheres não ficavam doentes, não ganhavam infecções?
M. - Nas mãos da Adénia, não. Ela sabia daquilo. Era muito conhecida. Chegou a ir presa. Mas ia presa e depois punham-na cá fora outra vez.
I. - Se calhar também fazia abortos às mulheres dos juízes.
M. (rindo) - Pois. Era a todas.


sábado, agosto 25, 2007

Pão ou dor, tanto faz

Pain. De um dia para o outro, o vocábulo apareceu grafitado numa parede aqui ao lado.
Li à francesa [], considerando-o o suprasumo dos grafitis: pão: farinha amassada com água e sal, e nada mais. Tudo o que há para dizer numa única palavra: pão. Todas as lutas, todas as tréguas.
Mas tratava-se de um grafiti a negro, com caligrafia dura, pelo que o repensei: provavelmente estaria em inglês [peine]". Não vejo que os miúdos do bairro se ofereçam grandes ímpetos poéticos e filosóficos. Enfim, a poesia da rua... Encontro, então, mais sentido na segunda versão: dor. A que nos é infligida. A que infligimos. E desgostei.
De seguida, num exercício gratuito, inevitável, relacionei semanticamente os vocábulos homónimos nas diferentes línguas, e considerei que, especulativamente, algo os ligava: em todas as línguas o pão se conquista com dor. Ou não se conquista. Mas a dor permanece. Matizes, níveis de dor. Mas dor. Portanto, pão ou dor, tanto faz. O grafiti é perfeito.


segunda-feira, setembro 12, 2005

A Dor (pública)

Uma criança do sexo masculino, com seis anos de idade, surda-muda, a qual acumulava graves deficiências motoras e mentais morreu a semana passada, vítima de um inumerável rol de torturas que lhe foram infligidas pelo namorado da mãe: uma outra criança do sexo masculino, com dezasseis anos de idade, e graves deficiências psicológicas, aparentemente nunca detectadas.
Ambos nasceram em famílias sem recursos económicos, como tantas outras; pior, ambos nasceram em famílias sem quaisquer recursos socio-afectivos.
O primeiro vivia publicamente num bairro com vizinhos, como tantos outros bairros com vizinhos; recebia apoio diário numa instituição pública, supostamente capaz de dar resposta a crianças com tais necessidades, e morreu, publicamente, num hospital público onde já havia dado entrada, urgente, oficial e pública, dias antes, exactamente pelos motivos que o conduziram à morte.
Esta criança morreu vítima de dois agentes que operam de forma cíclica, e, por vezes, articulada:
1) A herança do desamor perpetuado geracionalmente, que insensibiliza a um ponto em que não é possível reconhecer grande diferença valorativa entre Bem e Mal.
2) O exercício abusivo e incontrolado de poder, de quem o tem, sobre quem o não tem.
A criança a que me refiro morreu completamente indefesa pela impossibilidade de comunicar a sua dor.
A Joana do Algarve, de quem tanto se falou o ano passado, alegadamente assassinada pela mãe e pelo tio, que não era surda-muda nem possuía deficiências mentais ou motoras, também não pôde comunicar a sua dor. Se a comunicou, ninguém foi capaz de a ouvir.
A dor existe publicamente. Existe, todos os dias, a cada ínfimo grau de todos os nossos pontos cardeais. Cruza-se fisicamente connosco. Fingimos que não a vemos, mas, muitas vezes, é ela quem não se deixa encarar. Não é capaz.
A dor ocorre neste momento, perto de mim e de quem lê este texto, onde quer que esteja; está a acontecer, profunda e inominavelmente, no momento em que digito esta última sílaba: ba. Agora.
A maior parte de nós pensa que sofre ou que já sofreu, mas a dor verdadeira, a dor a que me refiro, poucos conhecem.
A dor destrói e cala, mesmo quando não somos mudos.
A dor é pública, mas ninguém a vê. Não é remediada nem socorrida nem tratada, porque a dor sobrevive no silêncio e na escuridão. Para a dor não existem médicos nem advogados nem psicólogos: nem justiça nem esperança. A dor não conhece esses vocábulos nem ideais.
A dor reconhece apenas o alívio, quando este chega.
O menino que morreu na segunda-feira, e a Joana, o ano passado, reconheceram-no, no momento em que chegou.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...