Uma criança do sexo masculino, com seis anos de idade, surda-muda, a qual acumulava graves deficiências motoras e mentais morreu a semana passada, vítima de um inumerável rol de torturas que lhe foram infligidas pelo namorado da mãe: uma outra criança do sexo masculino, com dezasseis anos de idade, e graves deficiências psicológicas, aparentemente nunca detectadas.
Ambos nasceram em famílias sem recursos económicos, como tantas outras; pior, ambos nasceram em famílias sem quaisquer recursos socio-afectivos.
O primeiro vivia publicamente num bairro com vizinhos, como tantos outros bairros com vizinhos; recebia apoio diário numa instituição pública, supostamente capaz de dar resposta a crianças com tais necessidades, e morreu, publicamente, num hospital público onde já havia dado entrada, urgente, oficial e pública, dias antes, exactamente pelos motivos que o conduziram à morte.
Esta criança morreu vítima de dois agentes que operam de forma cíclica, e, por vezes, articulada:
1) A herança do desamor perpetuado geracionalmente, que insensibiliza a um ponto em que não é possível reconhecer grande diferença valorativa entre Bem e Mal.
2) O exercício abusivo e incontrolado de poder, de quem o tem, sobre quem o não tem.
A criança a que me refiro morreu completamente indefesa pela impossibilidade de comunicar a sua dor.
A Joana do Algarve, de quem tanto se falou o ano passado, alegadamente assassinada pela mãe e pelo tio, que não era surda-muda nem possuía deficiências mentais ou motoras, também não pôde comunicar a sua dor. Se a comunicou, ninguém foi capaz de a ouvir.
A dor existe publicamente. Existe, todos os dias, a cada ínfimo grau de todos os nossos pontos cardeais. Cruza-se fisicamente connosco. Fingimos que não a vemos, mas, muitas vezes, é ela quem não se deixa encarar. Não é capaz.
A dor ocorre neste momento, perto de mim e de quem lê este texto, onde quer que esteja; está a acontecer, profunda e inominavelmente, no momento em que digito esta última sílaba: ba. Agora.
A maior parte de nós pensa que sofre ou que já sofreu, mas a dor verdadeira, a dor a que me refiro, poucos conhecem.
A dor destrói e cala, mesmo quando não somos mudos.
A dor é pública, mas ninguém a vê. Não é remediada nem socorrida nem tratada, porque a dor sobrevive no silêncio e na escuridão. Para a dor não existem médicos nem advogados nem psicólogos: nem justiça nem esperança. A dor não conhece esses vocábulos nem ideais.
A dor reconhece apenas o alívio, quando este chega.
O menino que morreu na segunda-feira, e a Joana, o ano passado, reconheceram-no, no momento em que chegou.