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sábado, outubro 11, 2008

O lugar mais triste do mundo


Cartaz do filme The Happening


Uma das minhas maiores dúvidas existenciais, maior ainda do que saber se Deus existe, tem a ver com a capacidade de manutenção de certo estilo de vida muito caro pelos meus vizinhos.
Observo-os, e não me parece que tenham empregos onde ganhem melhor do que eu. Às vezes até fico com a impressão que, ganhando eu pouco, ganho mais do que eles. E estranho. O meu ordenadito dá para as despesas, para comprar o carro mais barato do mercado, pagar um mínimo de água, luz, telefone, internet, e meia dúzia de extravagâncias, como comer fora uma vez por mês, uns livros, duas idas ao cinema, e pouco mais. Tenho que ser sincera: tendo casa, comida, entretimento e conforto tenho a vida assegurada. Mas aos meus vizinhos isto não chega. Exibem Mercedes, BMW's, écrans plasma, ipods, telefones portáteis complicados, roupas de marca, e muitos, muitos sinais exteriores de uma riqueza que não possuem. Não percebo onde vão arranjar o dinheiro. Coloco a hipótese de que não sejam todos carjackers, traficantes de droga, investidores corruptos, totalistas do Euromilhões ou herdeiros abastados. Sendo assim, o financiamento só lhes pode vir do crédito. Ora, isto do crédito é uma chatice, porque tem de se pagar. Se não tenho dinheiro para comprar uma única casa, mas o peço emprestado com juros altos e comissões de toda a espécie, como raio conseguirei eu, mesmo que em 35 anos, pagar duas casas e viver o resto do mês?
Tanto quanto percebo, anda toda a gente a gastar dinheiro que não tem, e a viver acima das suas reais possibilidades, alimentando o monstro do consumo. A economia actual vive deste monstro, como todos sabem. Somos mensalmente pagos para que possamos ser consumidores. As empresas recebem de volta todos os tostões que nos creditam como subsídios de Natal e de férias, não nos fazendo, portanto, favor nenhum. Se cada um de nós recebesse o ordenadinho e se recusasse a gastá-lo, a economia parava, como está de facto a parar, porque o nosso ordenadinho já não dá para comprar tantos pares de collants, e os que compramos já não podem ser de fantasia.
Gosto da actual crise porque veio finalmente alertar os meus vizinhos para este cancro do consumo, do endividamento, do excesso de riqueza. Não advogo que voltemos todos à natureza integral, mas é uma verdade que nos afastamos cada vez mais do canteiro de alfaces e tomates, e que os canteiros nos davam trabalho mas nos punham comidinha no prato. Estou convencida que hoje em dia comemos demasiados bifes de alcatra, desnecessariamente, e isto não pretende ser uma metáfora. Não temos dinheiro para carne nem precisamos dela. À mesa, como na economia, como em tudo, convém que a refeição seja natural, saudável, económica, e não provoque o sofrimento alheio. A economia de mercado, o capitalismo no qual todos estamos envolvidos é um matadouro industrializado: é o lugar mais triste do mundo, não apenas para os animais que são abatidos como coisas, mas para quem lá trabalha e se transformou, a pouco e pouco, numa criatura tão abatível como aquelas que abate sem ver, ouvir, falar, pensar.
Gosto da actual crise porque escancarou as portas desta enorme desumanidade assente no dinheiro como valor máximo. Para mim, esta crise é ainda pouco. Gostaria de a ver revelar a extensão máxima dos cancros que tem produzido. Isso sim, seria expressivo.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...