
Ontem, pelas sete e trinta da alvorada, ouvi Manuel António Pina dizer, na TSF, algo em que penso muito, no contexto de uma entrevista sobre a sua conferência na Fundação Luso-Americana a propósito de Ezra Pound. Parece que o escritor Ezra Pound tinha dois defeitos: era excelente escritor e melhor fascista, ou que, pelo menos, era excelente escritor e fazia a vénia a Mussolini, diz Manuel António Pina - eventualmente fa-lo-ia sobretudo por razões estéticas. Mas o que me ficou foi a afirmação de Manuel António Pina sobre não podermos esperar que um escritor não seja um homem como os outros homens, inclusive má pessoa, como qualquer um de nós.
Tenho a pior ideia possível dos escritores. Foi uma coisa que me aconteceu com a perda de inocência. Também acreditei, quando criança e adolescente, e jovem adulta, que os escritores estavam mais perto de Deus. Que esse dom da expressão, que é também um talento para construir viagens interiores, os excluía do odor pútreo da natureza humana. Mas não, uma boa parte dos escritores são más pessoas, e temos de viver com isso. São vaidosos ou corruptos ou arrogantes ou perversos ou tudo junto. Dizia Manuel António Pina que é absolutamente necessário separar a obra e o autor. Concordo. Teoricamente, defendo o mesmo. Não há, aliás, atitude intelectual mais séria. Contudo, na minha vida pessoal de leitora ainda tenho direito a escolhas, uma ou outra. E uma daquelas em que faço finca-pé é a de não ler a obra de filhos-da-puta. Não leio, pronto. Eh, pá, se calhar vou perder grandes lições de vida que até souberam enunciar embora não praticassem. Paciência. Livros de filhos-da-puta, fora da minha biblioteca. Renego todos os que já li. Foram por engano. Não quero escritores, quero boas pessoas. Estou cansada de génios, de gente bestial que tem nas mãos o poder da criação e dele se serve para destruir a pureza, a bondade, tudo o que resta de genuíno e bom. E os escritores não se salvam desta minha revolta. Quero lá saber se têm um ar tão frágil, tão terno, tão sensível!
