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terça-feira, março 07, 2017

Uma doce tarde de sesta

Não vou dizer que ela saltou para cima da cama e me lambeu a cara toda. Seria mentira. Ela já estava em cima da cama há muito tempo, procurou a minha cara, a arfar, e lambeu-ma toda.
Tinha-a tirado do seu cestinho, umas horas antes, dizendo-lhe, agora vamos dormir uma sestinha as duas, e metia-a comigo na cama. Eu tinha frio, e ela é um cobertor, o meu conforto. Dormimos uma bela sesta.
Depois ela acordou-me. Eram horas de comer. Ri-me e disse-lhe, conheço-te tão bem, conheço-te tão bem, e correspondi aos seus beijos e fiz-lhe festas. Sei-te de cor, disse ainda, e comecei a cantar-lhe o Sei-te de Cor do Paulo Gonzo, sei porque becos te escondes/ sei ao pormenor o teu melhor e o pior/ sei de ti mais do que queria /numa palavra diria / sei-te de cor, e percebia-se que ela estava a gostar. É praticamente o único ser que gosta de me ouvir cantar. Ela e o meu pai. A minha prima afastada diz que o meu pai compreendia-se, porque era meu pai.

sábado, novembro 22, 2008

Tudo o que há para aprender sobre o amor


Lucien Freud

Fomos as três à praia, corremos, fizemos buracos na areia, lemos 20 páginas de um livro do Coeetze, bebemos chá e chegámos a casa bem ensonadas. Deitámo-nos, ainda havia réstias de sol no horizonte, e adormecemos na paz do universo. Acordámos por volta das 9; ouviam-se as múltiplas sirenes das ambulâncias e dos carros de bombeiros misturadas com as luzes poéticas da cidade. Um grande rebuliço lá fora e nós muito quentinhas na cama. Levantámo-nos brevemente. Comemos porque tínhamos fome. Fizémos xi-xi porque era uma urgência. Concluimos que se estava bem no ninho, por isso metemo-nos outra vez na cama, umas a ler, outras a dormir. Tapei as pernas da Micas e disse-lhe, se não estiverem quentinhas depois vão doer-te. Disse à Morena, chega-te para lá, que estás toda no meu lugar. Mexeu-se um bocado. Estivemos assim toda a noite. Apagámos a luz por volta da uma. Dormimos embaladas pelos sonos mútuos, ouvindo sem ouvir os ruídos produzidos, sentindo sem sentir os movimentos em que se muda o corpo de posição, uma perna, um braço, o tronco todo, e nos empurramos, e aconchegamos, e quando acordámos percebemos sem perceber, porque era sobretudo um sentimento inexprimível, que há muitos anos nos havíamos transformado em apenas uma.

sábado, novembro 01, 2008

Este amor


Às seis da manhã, talvez às sete ou às oito, se calhar às cinco, a Morena enfiou-se por dentro da roupa e aninhou-se no ângulo entre as minhas coxas e barriga, e ficou ali muito quentinha, muito cheia de pêlo macio e eu acordei e adormeci confortada com este amor.

domingo, setembro 28, 2008

Um Domingo na vida da Morena




Acordar. Lamber o nariz da dona e receber festas. Ir à rua. Correr atrás do melro que se esconde no arbusto grande da escola. Ir cheirar outros cães. Deitar-se debaixo da mesa da esplanada enquanto a dona bebe o galão e come o pãozinho autorizado. Pedir bocadinhos de pão à dona. Receber festas de crianças e lamber-lhes as mãos. Ir com a dona até ao supermercado e ficar à porta sossegadinha, mas inquieta. De regresso a casa, visitar o contentor do lixo em frente ao café e verificar se alguém deixou cair ossos, espinhas ou outra porcaria qualquer. Entrar em casa. Beber água. Ir dormir debaixo da cama da dona. Acordar e ir para a cozinha quando sente o cheiro do almoço. Ouvir a dona falar, mas não perceber nada do que diz. Receber festas e beijinhos. Comer alguns grânulos de ração. Beber água. Dormitar perto da dona. Sentar-se a olhar para ela com um olhar angélico e desesperado ao longo de todo o almoço. Chamar a atenção da dona com uma patada na perna porque quer provar, seja o que for. Ir dormir para qualquer sítio. Ladrar porque ouve mexida junto ao elevador. Vir receber festas. Ouvir a voz da dona, na-na-na, na-na-na, na-na, na-na. Não perceber nada, mas gostar da ladaínha. Ir dormir. Acordar porque tem fome. Comer. Mostrar os dentes à Micas. Beber água. Ir à rua. Dar uma volta muito grande porque a dona precisa de andar. Ficar muito cansada com a língua de fora. Receber festinhas. Regressar a casa e atirar-se para um sítio qualquer a dormir profundamente. Fazer uma grande festa à dona, como se não a visse há dois anos, porque saiu de casa e não a levou, mas entretanto regressou. Receber muitas festinhas. Ir à rua outra vez. Fazer a ronda dos caixotes do lixo. Ouvir um ralhete e levar um safanão porque traz na boca uma cabeça de peixe podre. Chegar a casa frustrada e beber água. Ir para cima da cama da dona a cheirar a peixe podre. Chamar a dona para ir dormir com ela. Aturar a dona a dar-lhe beijinhos e a fazer-lhe festinhas na barriga. Dormir.
Quem quer experimentar a vida da Morena?

Nota: as 24 horas na vida da Micas ficam para outra oportunidade.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Malgas de arroz


As cadelas comem ao final da tarde, numas boas malgas de cerâmica vidrada. A comida é quase sempre arroz ou massa com carne. O arroz é cozinhado com legumes ou azeite ou refogado, ou sem. A carne pode ser de frango, aparas mistas do talho ou uma pasta que vem em latas do Minipreço. Às vezes, sopa. Gostam.
A Morena come lambendo a malga com vagar. A Micas devora o jantar afogueadamente, esfocinhando e abocanhando. Quando acaba, prepara-se para roubar a parte lenta da Morena,e por isso estou sempre de atalaia. A Morena arrepia-lhe o focinho, mas, se está no fim, afasta-se e vai lamber a malga luzidia da companheira. É sempre assim. Os cães têm rotinas que nunca mudam.
No outro dia fui fazer um piquenique com as meninas. Levei mantas, e era minha intenção dormirmos uma bela sesta proletária, ao ar livre, mas não estiveram de acordo. Aproximavam-se do carro, emitiam gemidos que conheço bem. Queriam estender-se dentro do carro, que consideram um prolongamento da casa, ou seja, queriam vir dormir a sesta a casa. O desassossego foi tal que tive de as trazer de volta.
A Micas tem outro hábito muito engraçado: quando levanta a cabeça da malga de comida para descansar do afocinhamento, traz uma pirâmide de arroz com carne sobre o nariz. Rio-me sempre, e digo-lhe, esfomeada.

sexta-feira, junho 13, 2008

Toca-me



Penso que o Estado ou a Igreja ou uma instituição de solidariedade social devia obrigar os donos de cães como a minha Morena a prestar serviço voluntário obrigatório em hospitais, lares de terceira idade, centros de acolhimento para crianças... qualquer lugar onde uma alma precisasse de alívio.
Devia mesmo receber uma carta registada em casa a dizer, olhe, faz favor, a senhora apresente-se com o seu animal de estimação no serviço de oncologia do Hospital Garcia da Horta, no dia tal, às tantas horas. E eu ia com gosto, punha-lhes a Moreninha onde quisessem, e deixava que a tocassem. Tão simples quanto isto. O pêlo da Morena devia vir no Simposium médico. O pêlo da Morena cura. Deslizar as mãos pelo pêlo longo e macio da Morena, senti-lo correr entre os dedos, como fios de lã, dá vida. Ofereço-me como voluntária para ajudar a melhorar a vida de qualquer doente grave com a simples presença da Morena, e respectivas festas. Alguém me lê no hospital? Num hospital qualquer? Num lugar onde existam crianças ou pessoas que precisem de doçura nas suas vidas? Não tem mistério nenhum: um ser todo de carne, redondinho e morno, muito macio, eu diria doce, muito mais puro que um santo. A minha Morena é mais santa que Nossa Senhora, peço muita desculpa pela heresia ao senhor padre da freguesia, mas é merecida.
Eu sei que quando Nossa Senhora apareceu a Lúcia, e aos outros desgraçados que a segunda matou, à força de os convencer a passar fome e suplícios, lhe mostrou o Inferno. Ora, a minha Morena não sabe o que é o Inferno nem o Céu. Tudo irrelevante. Só conhece a... rua. E o... agora não vais (sentimento desagradável). E a... comidinha. Por isso, a minha Morena é melhor que a Nossa Senhora, mas claro que a Nossa Senhora pode entrar à vontade no Garcia da Horta, e pouco cura, enquanto o pêlo terapêutico da minha menina fica de fora. É o mundo em que vivemos. O maravilhoso mundo das pessoas higiénicas.
Mas chegado o calor, o pêlo longo, demasiado cerrado, causa sofrimento à Morena. Não sei se a inteligência blogosférica sabe, se calhar não sabe, mas os animais têm esta impertinência que é sofrer, e depois dão-nos preocupações, ou fazem-nos gastar dinheiro, o que é piroso. Com a tosquia, por exemplo. É que hoje a Moreninha vai à tosquia, perderá o pêlo, ficará a parecer um rapazinho, mas em cão, e era só isto que eu queria escrever; esta piroseira sobre as minhas cadelas: a ida da Morena à tosquia. O que os leitores têm de suportar para lograr ler um texto de jeito de vez em quando! Que violência!

domingo, junho 08, 2008

Meu amor eterno

Entraste. Ouvi os teus passos. Andaste a trabucar fora do quarto, e depois entraste, estava tão concentrada, e no meu inconsciente pensei, entrou, e pensei, entrou uma pessoa, mas depois lembrei-me que estava sozinha, e voltei-me, e eras tu, Morena.

terça-feira, maio 20, 2008

O que a Morena vê quando está debaixo da cama

Foto de William Eggleston, do álbum Fourteen Pictures


Menos os sapatos de homem e aquele objecto de madeira, que parece um velho relógio, e também não tem carpete, graças a Deus, que é chãozinho de madeirinha nua.

Monólogo da maternidade



Podias ter vindo de dentro de mim.
Quase que cabes dentro da minha barriga.
(Muito encostadinha a mim, ligeiro movimento muscular pedindo-me que continue a massajar-lhe a barriga.)
Se tivesses nascido de mim... podia ter sido inseminação artificial... nascias pequenina como uma cachorrinha, como quando te vi, e vinhas toda embrulhada no meu líquido amniótico, e punham-te sobre o meu peito enquanto diziam, tem aqui uma bela menina, e eu beijava-te, e achava-te linda, embora fosses feiazita, atordoada e de olhos fechados, e havia de te chamar, logo, assim que olhasse para ti, Morena, a minha Moreninha. Moninha.
...
(Tremura, tipo coice, na perna esquerda, pedindo que continue a fazer-lhe festinhas.)
Não gosto menos de ti por não teres saído de mim, mas podias ter saído. Havia de ser bonito sermos do mesmo sangue, e isso.
...
É pena seres mijona, e carraçuda, e disfuncional! Por que não te portas bem como a Miquinhas? O que vais tu fazer para a obra para chegares de lá com as patas cheias de cimento? E chamei-te duas vezes, olhaste para mim e fizeste de conta que eu era uma parede. Antigamente não eras assim.
A Miquinhas é uma cadela normal, vem quando a chamo, e não se enfia debaixo da cama como tu. O que há de tão fascinante debaixo da cama, não me dizes?! Mesmo que a Miquinhas tenha a mania de trazer porcarias da rua, olha que ser mijona é bem pior.
(Ligeiro movimento de pernas a lembrar-me que continue a sessão de festas na barriga.)

sábado, maio 03, 2008

Os sinais do amor

Eu e a Morena estivemos ontem com insónias, e perguntei-lhe se me queria ajudar a comer um pacotinho de pinhões que sobrou do Natal. Tendo ela concordado, fui procurá-lo, metemo-nos entre os lencóis, muito encostadinhas, e fomos partilhando o saquinho. A Micas ouviu-nos tasquinhar e veio à cabeceira da cama exigir o seu quinhão. Ou bem que é para todas, ou não é para ninguém. E foi dois à Micas, dois à Morena, dois a mim.
Hoje de manhã, ao fazermos cama de lavadinho, descobrimos mais de 30 pinhões espalhados pelos lençóis, e debaixo das almofadas. Comemo-los directamente, enquanto lhes dizia, "eis a nossa cama manchada pelos sinais do amor".

segunda-feira, abril 21, 2008

Máximas e sentenças da minha prima afastada I

Sobre a extrema importância da poesia para a salvação do mundo:

Coitadinha da Morena, anda aqui no mundo de um lado para o outro, e nem sabe que tu lhe escreves poemas tão bonitos.

Máximas e sentenças da minha prima afastada II

Sobre a auto-suficiência do meu celibato e certas queixas de solidão:

Tu não precisas de homem nenhum, já tens a tua mãe e as cadelas, e chegam-te bem.


segunda-feira, abril 14, 2008

Do parasita (literal)

Um ninho de carraças pretas, em desenvolvimento, numa prega da orelha direita. Uma carraça igualzinha a uma uva branca de mesa, e do mesmo tamanho, a meio do pavilhão auricular da esquerda. E dormiu toda a noite com a cabeça encostada à minha. Não há sabão suficiente para me lavar capazmente a ponta dos dois dedos. Adiante. Adiante.

quinta-feira, abril 10, 2008

O que é a felicidade?



Uma mulher casa aos 46, e vive com felicidade esse relacionamento tardio. Trata-se de um casamento pacífico, atravessado pelo companheirismo. Gostam um do outro. Têm rotinas nas quais se apoiam. Adoptam um cão, e, certo dia, correndo atrás do animal que lhe fugiu para a estrada, o marido é gravemente atropelado, sofrendo um traumatismo craniano profundo que alterará a sua percepção da realidade. A mulher fica sozinha, na casa sozinha, com o inocente cão que não consegue culpar.
Uma Vida e Três Cães
, de Abigail Thomas, oferece-nos as memórias desta mulher, jornalista, escritora, a sua relação com a doença do marido, internado numa clínica para doentes com lesões cerebrais irreversíveis, com os seus familiares, vizinhos, os cães, que vai adoptando, e que dormem todos na sua cama. Mas a obra é, antes de mais, uma simples reflexão, redigida com grande despojamento literário, sobre a natureza da felicidade, a importância dos hábitos do dia-a-dia, das coisas que nos vão dando alento, como comer gelados, fazer malha, sentir a respiração morna dos cães contra a pele do nosso braço, ver e escutar os outros. É um livro sobre a felicidade, porque é um livro sobre a aceitação da vida. Ofereceram-mo porque a autora e protagonista era uma mulher como eu, uma mulher que dorme com os cães. Voltei a questionar-me sobre a felicidade, assunto que é muito recorrente em mim, que vai e volta, mas permanece pairando sobre tudo o que penso ou escrevo. A felicidade. O que eu julgava que ela seria, aos 18 anos, e o que penso a esse respeito, agora. Ser livre, pensava eu. Ser feliz era ser livre. E o que penso hoje sobre a natureza da liberdade, sobre as múltiplas prisões que a seguram pela corrente. Li-o e fui sorrindo. Dou comigo sentada no sofá a dizer à Morena e à Micas, somos tão felizes as três, não somos?! Não respondendo, dizem-me que sim. Somos mesmo felizes as três, cum caraças! Demorei muito anos a descobrir a enorme felicidade disponível, gratuita, à solta dentro de mim. Achava que não podia existir na solidão. A felicidade está na solidão. Achei que não poderia encontrá-la dentro de casa. A felicidade está dentro de casa. Pensava que para ser feliz precisaria da viver experiências ruidosas e coloridas. Tropeço em felicidade nos passeios que vou dando através da Serra do Louro, ou quando vou à praia, a S. João da Caparica, e deixo as cadelas de bofes à boca. Não têm pedalada para mim, as gordas. Às vezes, se me meto pelo mato, apanho carraças nas pernas, e isso também é a felicidade. Não conseguia imaginar a minha vida quando tivesse 40 anos. Achava que seria uma infeliz mulher rejeitada, de meia idade, quase velha, demasiado velha. Mas agora, que tenho 45, não me sinto velha nem rejeitada nem de meia idade nem infeliz, mas viva, e cada vez mais capaz de me maravilhar, de me deixar tocar pelos elementos. Também cada vez mais capaz de responder aos outros, de destrinçar o certo do errado. Sei muito bem o que me faz bem e o que me faz mal, mas aí não incluo os rissóis nem os bolos de arroz. Não passei a ganhar mais dinheiro, nem fiz mais amigos, nem nada. Limitei-me a aceitar que esta é a minha vida, e que é boa, que tive sorte. A felicidade resulta dessa aceitação.


Abigail Thomas (2008), Uma Vida e Três Cães, Lisboa, Sextante Editora (12,60€ na FNAC)

terça-feira, março 25, 2008

Animais


A Morena dorme comigo; a Micas, no bercinho de verga aos pés da cama, porque sofre dos ossos, e tem ciúmes, ou dormiríamos enroladas as três, lobas enjeitadas da mesma matilha. Quando me deito, abraço o corpinho da Morena, bêbeda de sono, puxo-a para mim, beijo-a, digo-lhe, minha bebezinha, suspira, penteio-a com os dedos, no escuro, e deixo-os pousados entre os fios de manteiga do seu pêlo. Durante a noite, viramo-nos uma para a outra, sobressaltamo-nos, escutamo-nos respirar - às vezes ladram baixinho - e os nossos corações batem a mesma pancada de amantes eternas.

sexta-feira, março 21, 2008

A complexidade do cérebro humano

Olhei lá para fora pelos janelões da sala. Que lindo dia! Entretanto, ouvi a Morena coçar-se furiosamente nas minhas costas, e pensei com os meus botões, é hoje que a meto na banheira, é hoje! Virei-me e disse-lhe, sorrindo, é hoje! Levantou-se com o rabo entre as pernas e foi-se esconder no quarto, debaixo da cama.
Ainda ontem tinha ouvido, num programa sobre fauna, no canal Odisseia, a seguinte frase: "o ser humano possui o cérebro mais complexo de todos os animais." Deviam estar a referir-se a uma outra raça humana, talvez noutro planeta.

domingo, março 16, 2008

Foi Domingo de Ramos



Gosto muito da igreja da minha freguesia, embora não a frequente. É um edifício recente, de interiores claros, sóbrios, minimalistas. Apetece-me muito rezar na minha igreja. Enchê-la dos pai-nossos e avé-marias que me esqueço de rezar em casa. De muitas preces belas que ouço a minha mãe murmurar pelas seis da tarde, e promessas, e dores e aspirações, mas para ser uma boa católica precisaria de esquecer que a minha igreja é católica, e que nela, alguns filhos de Deus, imaculados filhos de Deus, estão proscritos.
Hoje, a missa de Domingo de Ramos era campal. O padre trouxe os fiéis para o jardim, e, enquanto passeávamos os cães, líamos o jornal, íamos ao minimercado, escutávamos os améns e os cânticos entoados por mulheres e homens empunhando ramos de oliveira.
O padre da minha freguesia é um homem duro, de poucas palavras, diria arrogante. No dia em que enterrou o meu pai pronunciou umas palavras desapiedadas e breves sobre a vida eterna, e o sofrimento dos que ficam, não dos que partem. Aquilo tocou-me. Tentei agradecer-lhe, com lágrimas, mas o homem evitou-me, mostrou-se apressado, indisponível para receber a minha gratidão. Não me esqueci. Hoje, ele lá estava ao ar livre, com os seus fiéis, imitando uma igreja aberta. Como se aquele fosse um grupo aberto, um verdadeiro grupo aberto, e não um círculo fechado como um punho. Não me juntei a eles. Estava com as cadelas, e para as pessoas que adoram o Senhor, os animais não comem à mesa do sagrado. Andei.


sábado, março 15, 2008

Monólogo da solteirona II

Foto: Pejotek

Cenário: quarto de dormir.

Morena salta para cima da cama, ainda por fazer, e amersenda-se sobre os lencóis, suspirando fundamente, o focinho na almofada, como um cão dos filmes. Atiro-lhe, o que é que vieste cá esconder desta vez? (Silêncio, olhando-me de lado, porque estou a incomodá-la.) Um osso velho aos pés da cama? Um rato podre debaixo da almofada? (Nada, ignorando-me.) És a coisa mais porca que já dormiu nesta cama... e olha que já cá dormiu muita desgraça à qual nunca devia ter franqueado aquela porta... (Silêncio compreensivelmente despiciente).

segunda-feira, março 10, 2008

O carácter relativo da putrefacção

Está um vento de loucos e o passeio das meninas teve de ser muito curto.
A Morena abocanhou uma massa orgânica castanha e espalmada, e manteve-se muito ciosa dela. Não tentei arrancar-lha da boca, pelo que a trouxe para cima.
Dói-me tudo, enquanto na cozinha se delicia às escondidas com o pitéu. Pode ser uma posta de peixe-espada putrefacta ou uma rata dos canos atropelada. Prefiro que seja uma rata dos canos, só por causa do nauseabundo cheiro a peixe que me há-de ficar no tapete.

domingo, novembro 25, 2007

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...