Jacques-Louis David, Helena e PárisAi, vem tudo nos clássicos; ai, quem não leu os clássicos não leu nada; ai, ela leu Homero a eito e eu fiquei-me pelas duas primeiras páginas da Odisseia, e sinto um complexo de culpa enorme; ai, tenho de ir já a correr fazer o frete; ai, ai, ai. Não há pachorra, não há, não há.
A minha versão dos clássicos é distinta. Descomplexemo-nos, leiamos o que nos der na gana, leiamos porque nos agrada: não se apanhe é seca - a vida é espinhosa, guarde-se a paciência para a bicha da ponte e para o espírito natalício que este fim-de-semana abarrota os centros comerciais urbanos.
A verdade é que os clássicos são chatos. Muito chatos. Tenho pena! E pior, ainda, é a obrigação de os ler. O raio da obrigação desentesa logo uma pessoa. E os títulos das obras são muito maus. Édipo-Rei, peço desculpa, mas não é um título que puxe; eu teria escrito, E depois furou os olhos. Até no Iraque havia de ser um best-seller. Antígona, o mesmo. Se fosse eu, havia de ser Enterro-me, enterrando-te. Parece logo um Herberto Hélder. E o estilo… muito teatral ou muito bíblico. Ou ambos. Eu confesso que na altura em que li os clássicos poupei muito em benzodiazepinas, copos de leite morno ao deitar, banhos quentes e chás de camomila. Bastava-me pegar no Sófocles.
As histórias existem, pronto, e não vem mal ao mundo lê-las, conhecê-las, até investigá-las, pois há malucos para tudo; tirada a palha toda, admito que possam contar-se às crianças que se portam mal, como castigo; agora, que tenhamos de comparar tudo o que é acto da cultura contemporânea com os símbolos da cultura clássica é que me parece um bocado repetitivo, chato, nada, mesmo nada original.
Já não tenho olhos nem neurónios para críticas de cinema, de literatura, de pintura repletas de parágrafos intragáveis sobre personagens trágicas como Jocastas e Telémacos. Ou seja, trágicas como a malta do café, como as das letras do cd de Adriana Calcanhotto que aqui tenho à frente! O café da rua pode ser muito mais produtivo do ponto de vista hermenêutico. É! Mas crítico que é crítico tem que seguir o cânone, logo, todas as mulheres que esperam o amor são Penélopes, desgraçados condenados ao trabalho repetitivo e desesperante são Sísifos, filhos em busca de pais são Telémacos, e maridos cornudos são furiosos Menelaus. Para mim, o cânone está para a arte como o conjuntinho de saia e casaco para as mulheres: não é bonito nem deixa de ser; não chama a atenção mas também não ofende; não está na moda, contudo usa-se: é, resumindo, mais um uniforme que não se assume. E, como todos os uniformes, não aquece nem arrefece.