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sexta-feira, junho 27, 2008

Serão as mulheres capazes de chefiar uma estação espacial?



Não sei se Golda Meir, Indira Ghandi, Margaret Thatcher exerceram política como mulheres, porque não sei o que seja a política exercida por mulheres, ou seja, com a sua marca. Creio que cada uma delas fez o que os homens esperariam ver feito, porque disso dependia a sua credibilidade enquanto agentes governativos. Todos estariam à espera de vê-las ser diferentes, de vê-las falhar, para concluírem, agiram como mulheres! Elas sabiam.

As mulheres, todas, eu não fui excepção, têm sido educadas profissionalmente para agir como homens, ou seja, para agir de acordo com um status quo que não reflecte uma voz feminina. Angela Merkel governa como uma mulher ou como um homem? Vejamos, como se detecta a voz feminina de Merkel? E o que é uma voz feminina? A minha voz é feminina?
Há neste momento mulheres desempenhando altos cargos na Europa, sobretudo a Norte e no Leste. Fazem melhor que os homens? Pergunto, realmente. Quero saber.
Se eu fosse deputada agiria de acordo com os meus valores humanos e profissionais aprendidos num mundo de homens, para homens. Que tipo de política seria a minha? Terei eu conseguido subtrair-me a essa ordem? Serei capaz de ser diferente?

Os fenómenos históricos e sociais repetem-se; e só muda o motivo, não o modus operandi: quando as mulheres começaram a conduzir automóveis, haviam de ter acidentes porque eram mulheres e nada percebiam de pedais de embraiagem, e quando começaram a exercer profissões liberais, seriam piores profissionais porque eram mulheres, e teriam dores na data da menstruação. Daqui a uns anos haveremos de discutir se as mulheres serão eficientes como responsáveis máximas por estações espaciais. Vai ser igualzinho. Os argumentos de sempre.

A feminização de uma actividade tem tido como tendência a sua descredibilização, o que aconteceu, por exemplo, com a classe docente, que perdeu poder à medida que as escolas se encheram de mulheres. Vamos ver o que acontecerá com a classe médica, dentro de dez anos, quando os mais velhos se reformarem.
De igual forma, ainda hoje, uma escritora não vale o mesmo que um escritor, porque o escritor debruça-se sobre assuntos universais e sérios, enquanto uma escritora mergulha em intimidades, no amor, na vida quotidiana, etc., etc. Em literatura, os interesses das mulheres inferiorizam as obras que publicam. Porque os homens, como o Pedro Paixão, entre outros, podem à vontade escrever sobre amor e intimidades que permanecem escritores de créditos firmados.

Por esta ordem de ideias, feminizar a política implicaria uma diminuição do seu poder, consciência que as mulheres que a praticam têm tido, mantendo o adequado low profile. Não o manter tem consequências que passam pela não inclusão em listas eleitorais ou não nomeação para cargos.

Não me interessa saber que diferenças e semelhanças juntam ou separam homens e mulheres no que respeita às capacidades das suas naturezas biológicas. Estou para além das influências determinantes da cultura na formação das identidades femininas e masculinas. Sempre houve homens com capacidades ditas femininas, e vice-versa. Toda essa fronteira que ao longo dos tempos, e na nossa cultura, se estabeleceu entre feminino e masculino, cada vez menos se aplica. Eu diria que vai morrendo devagar. Mas que morre.

O que interessa, na política, e fora dela, é que quem a faz, a faça com justiça, respeito e cuidado pelo que cuida. Ouvindo, reflectindo e executando. E que essa execução não ignore que, à partida, somos todos gente de bem, porque os que não forem, tratam-se à parte.
E que se fale claramente, sem medo dos lobbies de poder. Sem medo. Sem farsas. Sem medo. Sem nada de especial para mostrar, a não ser a vontade de melhorar. Pedindo ajuda, quando for necessário. E como tem sido.
Como mulher, como ser humano, falo muito, digo muito o que penso, com sinceridade, e peço muita ajuda, porque preciso, e pergunto, e indigno-me, e ralho, e dou atenção, e ouço, ouço, e respondo, e recuso padrinhos e subornos. Sou um ser racional e emocional. Tenho dois lados e não escondo nenhum. Isto é feminino? Não, pois não?! São valores humanos. É isso que quero ver na política.
Claro que quero ver muitas mulheres na política, mas se um homem for capaz de governar desta forma, para mim serve lindamente.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Querida, vou trocar-te por outra

No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.


domingo, dezembro 09, 2007

Os que têm vergonha de ser feministas

Foto: Craig Buchan, Boot


Os crimes relacionados com o tráfico de pessoas têm vindo a substituir os que consistiam no tráfico de droga. A maioria das vítimas são mulheres oriundas dos países da ex-URSS, África e Brasil, usadas como matéria-prima no mercado da prostituição ocidental.
É normal que os cidadãos de um país em crise pensem fazer biscates ou emigrar para encontrar trabalho, mas vender o corpo e a dignidade não surge como uma primeira opção, como acontece com as cidadãs. Que tragédia, a dos que são levados a encarar a prostituição, e a sua esclavização, como forma de sobrevivência! E como isto nos grita a realidade sobre o pensamento do mundo em que vivemos! Do mundo civilizado, imagine-se. Por que motivo a prostituição, e respectiva escravatura, haveria de custar menos às mulheres do que aos homens? Não custa. O que houve, foi, desde sempre, e não terminou ainda, uma legitimação generalizada da prostituição feminina como destino natural daquelas que a fortuna desafortunara. Hoje, chegámos mais longe: a prostituição profissionalizou-se para servir eficazmente o mercado do sexo como anestesia da vida, substituindo-se às drogas. Hoje, as prostitutas têm orgulho no seu trabalho, e publicam livros, o que é centenas de milhar de vezes pior para a dignidade das mulheres como um todo, e, portanto, pior para a humanidade, do que a vulgar prostituição das miseráveis, ou das que foram culturalmente destituídas dos meios de sobrevivência que não adviessem da sua sexualidade. É que essas queriam ser outras, tinham alguma consciência da sua exploração, mas as prostitutas de hoje, não. Oferecem-se voluntariamente à prostituição! Por amor à arte! Que cordeiros de Deus! Uma mulher feliz porque é prostituta não pode ser feliz, nem livre, porque, dêem-lhe as voltas que derem, o sexo nunca poderá, sem desvirtuamento, transformar-se num produto de consumo. A existência de um comércio sexual sólido e lucrativo, desde sempre, mas actualmente sem paralelo, não tornará essa realidade em algo desejável, elegível segundo os princípios básicos de uma moral transversal à maior parte das culturas mundiais. Tenho muita pena, mas é exactamente assim. O sexo que temos lá fora, rápido, industrializado, em muitos casos vil, é bem o reflexo desta filosofia tão sombria para a dignidade das mulheres como o foi a subalternização dos papéis, aceite através do casamento tradicional e respectivos deveres, aos quais algumas sobreviveram mediante continuadas estratégias de guerrilha.
De que outra grande prova necessitamos para compreender que o estatuto social das mulheres não mudou como se pensa, e que estas permanecem culturalmente subalternizadas, como regra? Este é o motivo pelo qual as reivindicações feministas continuam, hoje, tão actuais como o foram ao longo do século XX.
Há quem tenha vergonha de ser feminista. Não há qualquer vergonha sobre ser-se ecologista, anti-racista, defensor dos animais, mas feminista é que não, porque hoje já não se justifica lutar pela igualdade dos géneros. Somos todos tão iguais, pois não somos?

sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


sábado, fevereiro 24, 2007

Adoração aos gajos

Para alguns homens, o feminismo bom é o feminismo sossegadinho, suavezinho, delicado. Sobretudo, calado. Que não se perceba. O feminismo "eu já sou independente, já somos todas independentérrimas, e adoramos gajos!"
Para alguns homens, a feminista ideal é a que aborda as maravilhas da liberdade sexual, na vertente "vale tudo, inclusivé tirar olhos", ao estilo Marta Crawford; ao estilo "adoro gajos".
Igualmente, a feminista ideal, tal como a mulher ideal, não questionará as idiossincrasias da sexualidade masculina, nem pensará nisso. A queca masculina é sagrada, mesmo quando não passa da punhetada. A feminista ideal adorará os gajos, exteriorizando a
ideia socialmente correcta de que eles são, hoje, tão diferentes, que até ajudam em casa! Certo, de vez em quando até lavam a louça, e arrumam-na. E até dão banho aos filhos. Alguns admitem também adorar gajos, mas eu admiro essa rara gente que admite!
A feminista ideal é a que já não é, ou a que nunca foi. A que defende serem, as mulheres, as piores inimigas umas das outras, porque as mulheres só são fiéis aos gajos, só adoram gajos. Claro que não sei se escrever estas coisas será mau feminismo! Não quero ser má feminista! Gosto sempre de pedir autorização antes de emitir opiniões! Como sou uma mulher tenho tantas hesitações!

quarta-feira, março 08, 2006

Um blogue enquanto speakers corner


Respondo por esta via a uma pergunta que um leitor me enviou para o e-mail:


Se achas que as mulheres são tão mal tratadas pela sociedade que fizeste até hoje para alterar essa situação? (o blog não conta)

1. Embora no blogue dê muita atenção as questões relacionadas com o enquadramento sociocultural de mulheres e homens, sou sensível a quaisquer outras que configurem situações de injustiça: racismo, xenofobia, homofobia ou misoginia, violência contra o ser humano, os animais ou a natureza.

2. O mundo sempre nos pareceu demasiado complexo, grandioso, pesado para as nossas capacidades. Pensamos que é preciso ser muito inteligente, ter muito dinheiro ou talentos especiais para fazer alguma coisa. Que não está nas nossas mãos. Demoramos muito tempo a livrar-nos desse medo de crianças: “não seremos capazes de nos tornar responsáveis como eles, não conseguiremos tirar a carta, fazer o exame do 9º ano, trabalhar todos os dias de manhã à noite, cozinhar, criar filhos, substituir lâmpadas”.
A certa altura descobrimos já conseguir fazer tudo isso, mas achamos ser impossível mudar o mundo. Esquecemos que as pessoas que fazem o mundo, as outras pessoas que nos governam, que criam as Leis, que determinam, esses tais "eles", são como nós. São exactamente como nós, e, o que fazem, cada um de nós, com maior ou menor vontade, seria igualmente capaz de fazer.
O mundo não é grande. É tão pequeno que os estilhaços das explosões no Médio Oriente batem nos vidros da minha janela.
Para mudar o mundo precisamos apenas da nossa consciência, que nos contenta ou nos indigna, de não pactuar com a iniquidade, de não temer a speakers corner a que temos direito. Uma speakers corner é exactamente isso: chegar à rua e falar – não precisamos de blogue, mas o blogue ajuda.
Fomos educados para ter medo, para falar baixo, melhor, para nos calarmos. Temos de desaprender isso: não nos calarmos. Fazer um barulho ensurdecedor. É nessa altura que se vai cumprir o 25 de Abril. Aprender a falar.
São os discursos que mudam o mundo, porque são os discursos que têm poder para influenciar acções. Por isso é que me preocupa o cartaz do “Eles não gostam de celulite”. Por isso foi possível um filho-dum-cabrão convencer todo um povo da excelência da raça ariana. Através do discurso. Discurso é poder.

3. O que é que eu faço, fiz? Falo. Falo que me desunho. Chateio toda a gente. Nunca me calei. Aos 13 não me calava, nem aos 23, nem aos 33. Portanto, não me calaria hoje. Não obedeci ao que achei que não merecia obediência. Não. Me. Calei. Em todos os lugares por onde passei – escola, emprego, café, cabeleireiro, sala de espera dos consultórios, praça, bomba de gasolina, grupo de amigos, cidadão anónimo na rua - disse o que pensava, não escondendo a minha visão do mundo, alertando para discursos e atitudes potencial ou efectivamente discriminatórias, como faço aqui no blogue.
Claro que isto tem um preço. Para mim teve um preço. Paguei-o. Voltaria a pagar. Talvez as minhas filhas, se existirem, não tenham de pagar o mesmo preço. Isso seria mudar, e valeria a pena ter andado a vida inteira à pancada.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Como nasce um(a) feminista?

As diferenças fisiológicas homem/mulher, logo, maior força física/menor força física condicionaram, ao longo dos milénios, a construção de uma diferenciação cultural, a qual tem vindo a suportar uma ideologia que, por analogia à força física, assenta sobre o pressuposto de uma maior capacidade geral masculina versus menor capacidade feminina.

Condicionaram-nos; condicionaram-me, e eu, hoje, não sou apenas aquilo que vim cá ser – isso perdeu-se, esqueceu-se, ficou pelo caminho - sou a falha do que perdi, e o muito pouco que consegui salvar à moldagem do que os outros acharam que eu deveria ser.
O que digo sobre mim, vale para todos; vale para cada um dos homens e mulheres que lêem este parágrafo. Somos a falha perdida e a mais-valia do que lográmos salvar ao saque.

Quando era criança, antes de me dizerem, “Isabela uma menina não faz isto, não faz aquilo”, para mim, o mundo era perfeito e tudo estava acessível. O mundo era perfeito?! Oh, não, eu sabia que o mundo não era remotamente perfeito, mas não o encarava de acordo com essa separação.
Via-me com uma pessoa pequena capaz de realizar um determinado número de acções indefinidas, desconhecidas, mas que não dependiam do facto de ser uma menina. Nunca fez sentido, para mim, ser menos capaz que um rapaz em termos mentais, ou, sequer, diferentemente capaz.

Sei isto, porque o confronto com a noção de género, “sou uma menina”, não apenas um ser humano como qualquer outro, mas uma classe humana, uma menina, foi algo muito estranho. Estranho neste sentido: nunca compreendi! Não possuía lógica, e eu sempre gostei de lógica, mesmo quando arrisco não a seguir. E, como nunca compreendi, nunca aceitei.
Penso que seja igualmente estranho para os rapazes a primeira vez que lhe dizem, "és um menino e os meninos são fortes: não choram como as meninas". Devem, sem saber, sem compreender, sentir-se roubados da verdade, da pureza, roubados de sentir, porque não poder chorar é a pior da maldições.

Quando, pela primeira vez na vida, já com os meus 17 anos, escutei um verdadeiro discurso dito feminista, não fui educada por ele, reconheci-o como já meu.

Se entre homens e mulheres existem diferenças, para além das biológicas, essas indiscutivelmente felizes, que sirvam agora para nos juntar, não para nos separar. Para nos tornar pares verdadeiros.

sábado, setembro 17, 2005

O buço das feministas

Estou aqui entretida a pintar umas flores brilhantes nas unhas dos pés, a seguir vou rapar os pelos das pernas e das axilas, depois tenho de pôr uma máscara hidratante de jojoba na pele da cara, bem como uma outra, para cabelos, que costumo usar sempre a seguir ao verão, para que os ondados fios de ouro se mantenham reluzentes.
Antes de me deitar tenho ainda de passar o creme de mãos, pelas mãos; o dos pés, pelos pés e o da cara, pela cara.
Isto, como compreendem, embora tenha de se fazer, rouba muito tempo à postagem e ao pensamento, porque só para acertar as pétalas na unha do pé...
Resumindo, hoje, a bem da work in progress art que faz de mim a Vénus Citereia que alguns de vós conhecem, não tenho tempo nenhum para me dedicar às minhas causas habituais, mas, felizmente, tenho quem me ajude, e isso alegra-me mais que a máscara de jojoba: aqui.

terça-feira, julho 12, 2005

As mudanças da minha prima afastada



A minha prima afastada, antigamente, não era feminista. Mas o convívio, já se sabe, tem os seus efeitos, e quem anda com um coxo...
Antigamente, era uma mulher endurecida pela vida, uma rapariga amarga, com uma visão deturpada do maravilhoso mundo masculino. Cheguei a ouvi-la afirmar, seriamente, em remate de conversa (e peço desculpa pela dureza do seguinte discurso, mas sou apologista do realismo, de um estilo informtivo duro, que nos afronte, nos inquiete, como o da TVI):
"Os homens são como os cães! Tem que se lhes dar ordens claras, senão estão sempre a mijar fora do sítio!"
"Os homens tem de ser como os cães: patinha..."
Novamente, peço desculpa, sei que é duro, mas a minha missão, aqui, limita-se ao eco da vida lá de fora, da realidade, tal como um cineasta que queira revelar o horror da guerra no Vietnam. Compreenda-se que não subscrevo!
Eu bem tentava argumentar, mas em vão. Respondia-me sempre igual:
"Escusas de me dar já com essa conversa da mulherada, que eu não sou da vossa seita!"
Coitada, lá tinha as suas razões... Nós também cá temos os nossos telhados de vidro...
Felizmente, agora que é feminista, a minha prima afastada encara o mundo com outra clareza. Os homens já não são as suas vítimas de estimação. Nutre por eles incontrolável ternura, e mostra-se arrependida de todo o seu passado de intolerância relativamente a este sexo tão forte, tão racional, tão perfeito, que tanto prazer nos dá, intelectualmente.
O feminismo trouxe-lhe clarividência, esclareceu todos os traumas limitativos.
Ainda ontem tive oportunidade de verificar o quanto mudou. Rematou uma conversa de café, sobre filosofia pura, com esta ternura de frase, aquela querida:
"Olha, tu tens cães, e isto é simples, as teorias que servem para os cães, servem para os homens!"

quarta-feira, junho 29, 2005

As mulheres são um perigo


Swordfish, 2001

Hoje esgotei o tempo.
Apliquei a máscara capilar "especial brilho"; passei o habitual creme hidratante pelo corpo: White Musk, lait scintillant pour le corps; usei o hidratante podológico e o creme facial de dia, claro.
Até aqui tudo bem.
Perdi meia hora a escolher a roupa: decidi-me pela saia rosa, com a blusa branca. Calcei as minhas "sandálias Marilyn" brancas. Coloquei os brincos rosa-translúcido e uma écharpe, também rosa, esvoaçante, mais o anel com as pedras brancas opalescentes. Gostei do que vi.
Até aqui tudo bem.
O pior é que gora tenho que me ir pintar. Espalho uma base para disfarçar irregularidades da pele e fixo-a com pó do mesmo tom. Ponho um toque de sombra branca nas pálpebras, depois o rimel transparente, que apenas separa e alonga as pestanas, a seguir o gloss rosado, muito brilhante, e, por último o baton corrector de olheiras.
Mas até aqui tudo bem.
O problema é que, esta tarde, tenho uma reunião na minha associação (feminista), e não quero aparecer de qualquer maneira. Uma reunião conjunta com outras associações. Até ontem, tínhamos recebido a confirmação da Faces de Eva - Centro de Estudos sobre a Mulher, da Associação Mulheres em Acção, da Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher, da Associação Portuguesa de Estudos sobre a Mulher, do Movimento Democrático de Mulheres, da Rede Lilás, da De Mulher para Mulher - Jovens para a Igualdade, da Associação das Mulheres Agricultoras Portuguesas, da Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias, da Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas e da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas.
Da Ordem de Trabalhos constam os seguintes pontos:
1) O feminismo existe? (se concluirmos que sim, e só nesse caso, passaremos ao ponto seguinte.)
2) Os/As feministas têm sido úteis para a instauração/manutenção de equilíbrios sociais, económicos e políticos? (se concluirmos que sim, e só nesse caso, passaremos ao ponto seguinte.)
2) O feminismo poderá considerar-se um movimento sócio-politico, transpartidário, trabalhando na área dos direitos humanos universais?
(se concluirmos que sim, e só nesse caso, passaremos ao ponto seguinte.)
3) Como sensibilizar homens e mulheres para o reconhecimento e exercício cívico dos direitos humanos básicos consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem?

Se concluirmos pela inexistência do feminismo (ponto 1), vamos todos dedicar-nos à ecologia ou à defesa dos animais - esperamos que ninguém conteste tais movimentos humanistas!

segunda-feira, abril 25, 2005

As idealistas


Maria Lamas (1893-1983) foto de San Payo, 1930.
(capa do nº3 da revista Faces de Eva, UNL-FCSH)

Carta de Maria Lamas a Eugénio Ferreira *
"Paris, 29 de Março de 1968
Muito Querido e sempre lembrado Amigo:
(...)
Sim, vale a pena lutar para que os nossos sonhos de vida melhor e de paz entre todos os homens se concretizem numa realidade clara e justa, que torne possível a realidade tormentosa e desumana que estamos vivendo. Vale a pena acreditar, viver a amizade a solidariedade, em cada instante da existência, dar e receber afecto e confiança, que é a maneira de ir construindo em nós mesmos o mundo novo a que aspiramos, e de ajudar os outros a construí-lo também em si próprios, quando têm o mesmo ideal. E os laços criados por esta solidariedade e afecto resistem ao tempo, às vicissitudes dos destinos inquietos e atormentados, transformando-se numa força protectora, mesmo quando deixa de haver contactos e notícias directas. Basta que o encontro se tenha dado entre pessoas de boa vontade, com idêntica sensibilidade e sincero anseio de servir a dignidade humana.
Este encontro deu-se connosco, querido Amigo. Sempre o senti. E a sua amizade passou a ter logo um lugar insubstituível no mundo fraterno onde vivo, interiormente, e fora do qual me sinto exilada - muito mais do que vivendo num País estrangeiro. (...)"

Mulheres que fizeram Liberdade


Barreiro, 1943 , "A polícia obrigando as famílias dos operários grevistas a abandonar as imediações das fábricas."

Nas imagens que guardamos da Revolução, e que hoje aparecerão na Imprensa e nos blogs, as mulheres são o objecto decorativo que aplaude, distribui cravos, beija, sorri, abraça soldados. Dão colorido ao preto-e-branco. Repartem o pão e o vinho que os soldados recebem; cumprem o papel para que a natureza as talhou... gerar os homens que (lhes) roubam ou oferecem a liberdade, vesti-los, alimentá-los... Tudo isto estaria muito certo (a nobreza de uma dádiva de pão, de vinho, de vida...) num mundo que não toldasse tudo o resto que realizaram, realizam. Fazem!
O 25 de Abril começou quarenta anos antes!, e, à excepção de Maria Lamas, a História não deu, até a hoje, a justa visibilidade às mulheres que o prepararam, que colaboraram activamente nas diversas etapas dos movimentos oposicionistas ao Estado Novo!
Quem foram as camponesas e operárias que arriscaram protestos e greves? Catarina Eufémia. Que outras?
A acção clandestina, no interior do Partido Comunista, foi amplamente assegurada pelas "companheiras", as quais mantinham, no interior das "casas", a necessária aparência de normalidade para que funcionassem como tipografia, armazém de propaganda, local de reunião. Quem eram as companheiras? Quem escreveu a sua história?
Fala-se muito dos prisioneiros políticos, pouco de prisioneiras. Muito dos exilados, pouco das exiladas.

Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, de Vanda Gorjão, editado pela Imprensa de Ciências Sociais, em 2002, constitui um importantíssimo estudo sobre o papel desempenhado pelas mulheres na acção contra a Ditadura.
Penso que seja, até agora, em Portugal, a única obra que surgiu como resultado de uma investigação séria sobre o assunto. Encontram-na aqui.

quarta-feira, abril 13, 2005

Biologia para agricultores

On ne naît pas une femme: on le devient. Aucun destin biologique, psychique, économique ne définit la figure que revêt au sein de la société la femelle humaine; c’ est l’ensemble de la civilization qui elabore ce produit intermédiaire entre le mâle et le castrat qu’ on qualifie de féminin.[1]

Intriga-me a curiosidade mórbida que cada um dos meus vizinhos tem sobre as pessoas com quem durmo (ia dizer fodo, desculpem!). Não percebo o interesse.

A mim tanto se me dá que o Sr. Marques sodomize o Bernardo, do 2º dto, que está no 3º ano de Filosofia; que a Dona Maria do Céu e a Dona Maria da Piedade, do número três, brinquem com as bichaninhas uma da outra, todas as tardes; dia sim, dia não; como que o GNR de bigode, da cave esquerda, faça a mulher, à canzana, nos dias de folga... Façam o que quiserem, como quiserem, quando quiserem, desde que o façam com consentimento mútuo, e, de preferência, com pouco barulho!
Não me incomoda nada que aqui o Zezinho, do 4º esq., passe os fins-de-semana no regabofe com a namorada, enquanto os pais vão à terra; acho é que podiam baixar o volume, porque a banda sonora ouve-se toda no meu quarto, e aquilo não é para qualquer um – uma pessoa que não soubesse rezar o Pai-nosso e a Ave-maria poderia cair em tentações! Quem diria que o Zezinho, aquele menino tímido, introvertido de há 20 anos, fosse capaz de proporcionar tão sonora alegria à namorada: uma rapariga de óculos, com ar estudioso e católico!

Esta introdução vem a propósito da absoluta necessidade, da cultura falogocêntrica, em controlar a sexualidade das mulheres, em geral; e, em particular, das que, se destacam em áreas que, para os essencialistas biológicos, não lhes pertenceriam, dada a sua "natureza feminina": gritar, por exemplo, como Andrea Dworkin, atirar umas verdades incómodas, trancender a sua função biológica de parir e amamentar!
Uma mulher pode ter acabado de receber o Prémio Nobel, mas o que interessa é saber com quem a gaja dorme e se gosta de foder! Quantos homens e/ou mulheres teve. Importante é arranjar forma de as reduzir a uma insignificância qualquer. Chamar-lhes, com sarcasmo e cinismo, "sumidade"!
O Papa também acabou de morrer. Ninguém está interessado em falar da sexualidade do Papa? Supostamente, também não fodia... O Papa fez mais pelo mundo do que Andrea Dworkin? Teríamos de ver bem que interesses serviram um e outro. Qual deles “iluminou” mais, fez mais "milagres"?
(Não se preocupem - já recebi em casa a carta de excomunhão! Acho que não me posso casar pela Igreja; dizia lá!)

O que nos interessa se Dworkin era ou não lésbica, se fodia ou usava a cama para descansar entre conferências feministas? Quando morre um homem importante, um ícone qualquer, costumam referir-se às suas preferências na cama? Não, protegem-se-lhe as idiossincracias sexuais, e nunca se escreve, nunca, jamais, que o gajo era um sado-masoquista dos piores ou a maior bicha da Península Ibérica! Agora, a Virgínia Woolf e a Marguerite Yourcenar eram fufas. A Anais Nin e a Marguerite Duras, era o que viesse à rede...
Isto fode-me a sério!

O meu corpinho é meu; tão meu como o meu espírito. E com ambos faço o que me der na real gana. Sou totalmente dona de mim, e isso é que custa aos gajos! A posse que eu possuo sozinha.

Pela biologia, uma mulher nasce dotada de aparelho reprodutor e, de facto, pode reproduzir, se quiser; pela biologia, uma mulher nasce com o mais belo apetrecho orgânico criado pela natureza: um par de mamas; que ela usará para amamentar, se quiser. Porque o corpo das mulheres, o meu!, não pertence à merda da sociedade, nem aos homens, nem às outras mulheres; tal como, inquestionavelmente, o corpo dos homens lhes pertence em exclusivo! No que toca aos machos, a questão nem se põe. Um homem deve ou não desperdiçar sémen? Isso, sim, é um assunto de Estado! Um espermatozóide, desculpem lá, é metade de uma vida! Mas o assunto não vai à Assembleia da República nem é objecto de referendo. Os gajos não são julgados e sujeitos a pena de prisão por terem batido umas às escondidas!
- Então, olha lá, pá, o que é que andaste a fazer para vir aqui parar? Mataste? Roubaste? - pergunta o companheiro de cela.
- Tenho vergonha de dizer, ó 95... foi muito pior... estou arrependido... não imaginas como sofri! Mas teve de ser, não tinha outra saída: quando tinha 14 anos (soluços!) , num só mês amandei duas punhetadas valentes...! Agora denunciaram-me! Hoje já não o faria! Porque, acima de tudo, está o aumento da taxa de natalidade; acima de tudo, não matar metade de um filho... desperdiçar um espermatozóide ou matar uma criança que acabou de nascer, é a mesma coisa!
Chegar ao mundo equipadas com um aparelho reprodutor e a capacidade de amamentar não significa nada mais para além disso – reproduzir e fornecer leite! Os machos, se quiserem, podem ficar em casa criando a prole que fazem connosco; que, às vezes, até fazem sozinhos, enquanto olhamos para o tecto sem dar por nada! Podem muito bem, devidamente aculturados, ficar com o leitinho no biberon, já devidamente bombeado da teta materna, mudar a fraldinha, levantá-los para o arroto, levá-los ao jardim no carrinho, enquanto nós estamos a trabalhar, como eles sempre trabalharam, embora melhor.
Ou, em alternativa, deixam-se as crianças nas creches, onde encontraremos educadores e educadoras de infância habilitados(as), e onde estão muito bem! Porque nós queremos os homens livres, independentes e satisfeitos! Não que eles nos desejem o mesmo, mas nem todos podemos atingir, ao mesmo tempo, a mesma maturidade civilizacional!

Quando a minha consciência acordou e me interroguei sobre as diferenças que existiam entre mim e os meninos, descobri apenas uma: eles tinham uma pilinha e eu não. Na altura não fiz juízos de valor, embora não visse utilidade naquilo; hoje já faço: felizmente, não tenho esse penduricalho mal jeitoso! De resto, não havia nada que o Manelinho pudesse fazer ou pensar que eu não pudesse fazer ou pensar. E, se me tivessem explicado muito bem, “tu és uma menina, tens de ser forte e não chorar!"; "tu és uma menina e tens de ter força para trabalhar e sustentar a tua família"; eu seria forte, não chorava, desenvolvia a necessária força muscular para carregar bilhas de gás, e sustentava a família... Aliás, relativamente ao que acabei de enumerar, mesmo sem a aculturação necessária, só não cumpro um item.
Se o meu pai me tivesse chamado para o ajudar a mudar as lâmpadas dos faróis, eu saberia mudar lâmpadas de faróis... Se, ao Manelinho, o tivessem ensinado a fazer rendas e bordados, e a gostar muito de bebés, ele quereria fazer rendas e bordados, e, aos 17, começava a deter-se frente às lojas de roupinhas, deliciado com umas botinhas de lã esmeralda. Que pena o Manelinho não ter vindo devidamente equipado para parir! Haveria justiça. "Tens tu ou tenho eu?" No meu caso, não havia grande discussão, tinha ele! Eu ajudava, óbvio. Até podia apertar-lhe a mãozinha na sala de partos, e dizer "força, força; está quase; tu és capaz, força!"

Metade deste blog gostaria de informar que não está de luto. Algumas pessoas, as que gritam, as que chateiam com razão, as que vieram cá fazer alguma coisa, as que realmente interessam, "libertam-se da lei da morte".

[1] BEAUVOIR, Simone de (1949), Le Deuxième Sexe II. L´Expérience Vécue, Paris: Gallimard

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...