
Morreu ontem Dinis Machado, o escritor que não escreveu muito. Acreditar que o enorme sucesso de O que diz Molero não podia ser ultrapassado refreou-lhe a publicação. Escrever não sai bem todos os dias. Saramago tem dias maus e obras menores.
Eis por que ficaste a dever-nos, Dinis. Espero que tenhas deixado as gavetas cheias.
Tive um único encontro com Dinis Machado há precisamente 20 anos. Gostava dele por causa do Molero, era uma referência, mas sobretudo porque tinha os olhos cheios de vida, e um ar verdadeiro, sem mentiras. A mim sempre me fizeram impressão os escritores que falam da literatura como uma água, um sopro, uma transparência. Não acredito em nada disso. Não acredito em retiros literários nem em exclusões nem em bolsas para escrever. Para o Dinis Machado escrever era algo de sólido, cavava-se, recavava-se, lia-se alto e a certa altura a coisa tinha música e saía. E sobretudo, andávamos no meio dos outros e olhávamos para eles. E depois para nós. Ou pela ordem inversa.
Depois, Dinis Machado tornou-se aquele a cujas afirmações me cabia corresponder, ser fiel. Sob o horizonte, abstractamente, ao longo destes anos em que não voltámos a encontrar-nos, pairava a vontade de o visitar, de lhe contar que não deixei de escrever, mesmo quando não me saía uma palavra, porque esse tempo aconteceu. Queria dizer-lhe que havia de escrever, e que havia de escrever melhor. Que me faltava tempo para ler.
O Dinis Machado é-me muito querido. Acreditou numa miúda sem nome, sem família, sem influências, que escrevia umas redacções velozes numa máquina de escrever velha, apenas porque se divertia com isso. Não me esqueci, Dinis. Um grande abraço atrasado, muito forte, muito forte, através do éter.
Eis por que ficaste a dever-nos, Dinis. Espero que tenhas deixado as gavetas cheias.
Tive um único encontro com Dinis Machado há precisamente 20 anos. Gostava dele por causa do Molero, era uma referência, mas sobretudo porque tinha os olhos cheios de vida, e um ar verdadeiro, sem mentiras. A mim sempre me fizeram impressão os escritores que falam da literatura como uma água, um sopro, uma transparência. Não acredito em nada disso. Não acredito em retiros literários nem em exclusões nem em bolsas para escrever. Para o Dinis Machado escrever era algo de sólido, cavava-se, recavava-se, lia-se alto e a certa altura a coisa tinha música e saía. E sobretudo, andávamos no meio dos outros e olhávamos para eles. E depois para nós. Ou pela ordem inversa.
Depois, Dinis Machado tornou-se aquele a cujas afirmações me cabia corresponder, ser fiel. Sob o horizonte, abstractamente, ao longo destes anos em que não voltámos a encontrar-nos, pairava a vontade de o visitar, de lhe contar que não deixei de escrever, mesmo quando não me saía uma palavra, porque esse tempo aconteceu. Queria dizer-lhe que havia de escrever, e que havia de escrever melhor. Que me faltava tempo para ler.
O Dinis Machado é-me muito querido. Acreditou numa miúda sem nome, sem família, sem influências, que escrevia umas redacções velozes numa máquina de escrever velha, apenas porque se divertia com isso. Não me esqueci, Dinis. Um grande abraço atrasado, muito forte, muito forte, através do éter.