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domingo, janeiro 25, 2009

Os outros vão


João Aguardela morreu a semana passada, vítima de cancro. Não foi a única pessoa muito jovem e conhecida a morrer por estas causas, a semana passada, mas parei um ou dois minutos a pensar no seu caso particular.
Na primeira metade dos anos 90 tive uma paixão platónica pelo Aguardela. Conheci-o. Entrevistei-o numa Festa do Avante. Não faço a menor ideia se cantava bem, e nunca tive nenhum amor especial pelas músicas dos Sitiados. Era uma paixão centrada no indíviduo, ou melhor, no aspecto do indivíduo, que combinava bem a simbologia estética de duas figuras histórias: Jesus Cristo e Jim Morrison. João Aguardela deu corpo a um ideal romântico. Era uma figura romântica e eu, claro, sendo como sou, apaixonei-me. E, agora, pronto, morreu. Eu estou aqui vivinha da silva, cheia de projectos e de esperanças, e o meu ideal de beleza, morreu. Sobreviver aos que passaram por mim, mesmo que eu não tenha passado muito por eles, que é o caso, causa-me uma sensação de estranheza. Como se eu estivesse em falta. Como se fosse muito velha. Como se já tivesse vivido muitos anos.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

O valor de uma Nossa Senhora de Fátima



Estou sempre a pensar no valor dos objectos, que é completamente aleatório, e não depende em absoluto do seu valor de custo.

Ultimamente deitei fora uma série de objectos que eventualmente teriam algum valor de troca, mas de que apenas pensava ver-me livre. Poupei outros que julgo não terem valor algum, mas que considero serem marcos dos quais não posso separar-me por agora. Destaco um de sândalo trabalhado que poderá servir como capa de esferográfica, se é que isto existe, e que trouxe da Índia quando lá estive há muitos anos. Não me lembro onde o comprei. Em tempos teve um bico e uma carga e escreveu. Agora é só um objecto que me evoca a Índia, sobretudo o desejo de voltar a esse continente. Tenho objectos da minha infância. Por exemplo, o valor do pisa-papéis que foi do meu pai, quando era menina, e que aqui está, é impossível de calcular para mim.

Quanto à bomboneira vermelha, da fábrica Raul da Bernarda, que a minha mãe levou para África no enxoval, que regressou nos contentores dos retornados, e que agora me serve de porta-lápis, é possível quantificar o seu valor, para mim?


Outro exemplo: quando o meu pai morreu, a minha mãe apareceu na capela mortuária com uma pequena estátua de Nossa Senhora de Fátima em plástico pintado, mostrou-ma às escondidas, e disse-me, ele tinha por Ela uma fé muito grande, era a sua madrinha, e devia ir com ele, vê lá se lha escondes no corpo. Deixou-ma nas nãos, e eu olhei para a pobre figurinha barata pensando que não valia a pena dizer-lhe que aquilo era apenas um objecto. Há situações em que mais vale deixarmo-nos ir na onda. Era verdade, o meu pai tinha uma fé enorme na santa; fora sua madrinha de baptismo e para a minha mãe era importante que aquele objecto o acompanhasse. Acerquei-me do caixão e num movimento muito rápido e sem testemunhas, que os rituais supersticiosos envergonham a morte católica, abri uma das mãozorras mortas do meu pai, não sei qual, e tentei fechá-la de novo sobre a Nossa Senhorazinha de faces doces. Não se fechou como eu queria. Apertei-a, tentando moldá-la com a minha, mas não se fechou. Ficou semi-fechada com a Nossa Senhora lassa no seu interior. Lembro-me das mãos inertes do meu pai, muito brancas e frias, mas ainda não enrijecidas. A santa lá foi para baixo de terra escondida no ninho da carne do meu pai, e por lá foi ficando, meia dúzia de anos, por entre a carne putrefacta do meu pai, os ossos descarnados do meu pai. Ainda lá estaria no dia em que lhe levantaram os restos mortais e a terão deitado para o lixo, descolorida, juntamente com a prótese da anca, o ferro no joelho, os restos do fato de boa fazenda, os sapatos e atacadores, e aquelas matérias que pertenceram aos defuntos, os fizeram, e contudo os vermes rejeitaram e não se consideram suficientemente dignas para ocupar espaço nas gavetas de ossadas.

A Nossa Senhora era um objecto sem valor. Tenho a certeza que o meu pai não foi para a morte mais protegido porque a levou fechada na mão. Contudo, foi para nós um acto importante, que de alguma forma nos alivou relativamente à desprotecção que aquele homem sofria agora que não lhe podíamos valer. Se já lá não estávamos nós, estivesse ao menos ao santa na qual ele cria. Um bocado de plástico que os coveiros deitaram para ao lixo, enquanto praguejavam contra a quantidade de objectos que as pessoas metem nos caixões, não perecebendo que nenhum ouro do mundo podia substituir aquela Senhora de plástico.

domingo, novembro 02, 2008

Não quero morrer


Foto P.Gelonik

Comemorou-se ontem mais um dia dos mortos, ao qual nunca sou indiferente, embora já não vá ao cemitério neste dia, nem em nenhum. Desde que os restos mortais do meu pai passaram para uma gaveta, no cemitério do Feijó, acabaram-se as flores, não as homenagens. O assunto parece ter-se tornado tabu para a minha mãe, e para mim está bem assim: ir ao cemitério foi, durante os primeiros quatro ou cinco anos após a sua morte, uma trabalheira de fim-de-semana; o meu pai continua a ser recordado e homenageado, por mim e por ela, tenho a certeza, não tivesse a sua existência sido importante demais para conseguirmos esquecê-la.
Os cemitérios são lugares tenebrosos e solenes, como são todos aqueles cujo terreiro, alguns palmos abaixo dos nossos pés, se encontra juncado de cadáveres. Por dois motivos que me ocorrem: porque a putrefacção nos produz nojo (anunciou-se, nesta data, o concurso público para um incineradora no cemitério do Feijó) e porque o território de um cemitério pertence a essa gente sem corpo que teve uma vida, se alegrou, entristeceu, enraiveceu, pariu, matou, criou, sofreu, fez sofrer e, como recompensa, morreu. Tal intuição provoca-nos imenso respeito. Não queremos tomar grande consciência disso, afastamos os pensamentos com as duas mãos, mas aquele também será o nosso lugar. Hoje pude ver o sol, escutar os barulho dos pássaros nas árvores, escrever um texto, pintar as unhas de vermelho berrante, mas um dia as minhas mãos estarão debaixo de terra, o que é uma ideia insuportável, porque não imaginamos o nosso corpo desabitado, porque acreditamos ser a morte apenas esse lugar debaixo de terra. Se eu morresse agora, o meu cadáver apodreceria com as unhas impecavelmente esmaltadas, e este paradoxo faz-me sorrir.
Tenho medo da morte, como todos os animais. Não quero morrer nunca, o que é bastante normal no contexto dos seres encarnados. Contudo, acredito que a morte não é um drama, porque não destrói a existência do espírito. Creio, cega e firmemente, que o espírito perdura pelo infinito. Para mim, e para o padre Anselmo Borges, a morte é um lugar sem tempo: "sai-se do tempo e entra-se na eternidade. Na eternidade do nada ou na eternidade de Deus."
Comecei a desenvolver este pensamento razoavelmente cedo, creio que na adolescência. A ideia de uma falta de sentido para a existência, num mundo natural em que tudo tem obrigatoriamente um sentido, uma lógica, apavorava-me. Estas minhas preocupações encontraram refúgio na filosofia religiosa e aí se albergaram.
Por isso, para mim, comemorar o dia dos mortos implica lembrar e saudar o seu espírito eterno, e é isso que faço todos os anos.

domingo, outubro 19, 2008

A morte é ridícula


Robert Capa, 1936


No piso 0 do Centro Cultural de Belém encontra-se uma interessante exposição temporária de Alexandre Perigot, para quem aprecie arte moderna.
Integra esta exposição um video intitulado Kill Kill, com cerca de cinco minutos, projectado numa enorme parede, no qual uma série de pessoas de ambos os sexos, todas as idades, raças e estilos, sem qualquer banda sonora, apenas a imagem, coreografam a morte de alguém atingido por uma bala. Há muito tempo que não me ria com tanto gosto. Contudo, senti-me estranha ao não controlar o riso perante uma coisa tão séria como a morte, mesmo que apenas representada. Por que motivo são aquelas encenações tão reais e tão risíveis?
Obriguei-me a pensar sobre isto, e cheguei à conclusão que o meu riso incontrolável perante as imagens de Kill Kill não era completamente descontextualizado. Os actores, atingidos pela bala imaginária, mimavam imagens vistas no cinema, agarrando-se ao peito, olhando de seguida as mãos manchadas de sangue e caindo sem apelo, ou atiravam-se espectacularmente para trás, para o lado, para a frente, atingidos pelo impacto do projéctil brutal. Em qualquer das hipóteses, as cenas eram de extrema comicidade. Uma palhaçada.

Passa-se que os gestos de morte, sem morte, são ridículos. E é fácil de prová-lo. Tiremos o som a um filme de cowboys com muitos tiros ou a qualquer uma das xaropadas do Quentin Tarantino vendidas como filme de qualidade. A queda dos corpos é ridícula, porque se torna apenas uma queda. E nós rimo-nos da queda. É primário, não tem sentido algum, mas é assim.

domingo, novembro 04, 2007

Momentos felizes

Há dias em que desejo morrer, como toda a gente. Afortunadamente, nessas alturas lembro-me que tenho de levar a minha mãe à injecção, que as cadelas estão aflitas para ir à rua, que não tenho batatas nem espinafres para a sopa, e isso muda tudo: continuo a desejar a morrer, muito gulosa, mas não morro. Não posso. Além do mais, este mês ainda não paguei a renda. Para o senhorio era chato.

sábado, novembro 03, 2007

Para onde vais, agora?

Caiu a noite sobre todas as coisas que nascem da terra, que tocam a terra, que confinam os seus limites. Tu estás sobre a terra. Quero dizer, revolves-te nela. Estendeste o teu corpo ao comprido entre os arbustos, quieta, sentindo comichão pelos insectos que deixas subirem-te os braços, sorvendo o odor enjoativo do chão, agora em repouso, o odor acre das folhas que a frescura da noite humedeceu. Era isto que querias. Este cheiro. Sentas-te. Sorris. É exactamente como imaginavas. Purpurinas multicolores brilham entre os ramos das árvores, iluminando os vultos das aves caladas. Fragmentos de luz que se ateiam e apagam na escuridão, suspensos como libélulas. Libélulas. Barulhos tão leves. Asas. Uma ave piou. A brisa levanta folhas. Folhas batem em folhas. O peso de patas quebra ramos. Os cães selvagens espreitam-te. Os que como tu não são nada bem definido, nem cães nem lobos. Não te ladram. Os cães nunca te ladraram. Cheiras-lhes os sexos. Sim, são da tua laia. Boa companhia. Lambes-lhes os focinhos. Podes lamber. Dormir enroscada na matilha. Se quiseres. O cheiro doce do sono, do calor. Tão embalada. Não te importa a terra no cabelo nem nas unhas. Esfregas-te. Ris. Ouves o teu riso incomodar a noite. Que silêncio. Que ternura. Tudo é verdade. Trincas terra. Lambe-la contra o céu da tua boca. Claro que recordas esse sabor. Sabias que havias de recordar esse sabor. O chão tem todo o mesmo travo final a argila e a osso de vaca moído. A terra é doce. E agora podes subir de novo às árvores. Os limoeiros. Recordas. Ainda não o vais fazer. Já não. A seu tempo. Mas podes fazê-lo. Sentes-te leve. Se calhar podes voar, como outrora voaste. Tinhas saudades. Confessas para ti própria, tinhas saudades disto. A liberdade.
A noite caiu longa, e a noite é o teu dia. Vais adaptar-te. Uma vida tem muitas vidas, tu sabes. É a primeira noite que dormes na rua. Que não tens cama. Estás eufórica. Como vai ser a tua primeira noite? A que casa regressarás? Quanto tempo vais permanecer sobre a cova onde o teu corpo apodrece? Não devias pisar a tua campa, Isabela. Para onde vais? Para onde vais, agora?








quinta-feira, novembro 01, 2007

As aves

Shen Quan, Pássaro voando sobre peónia e bambu, dinastia Quing, cerca de 1760


Quando morrer só peço um par de asas.



sábado, outubro 13, 2007

Ensaio sobre a Lucidez II

Sonhei matá-lo de tantas formas. Havia de o deixar esvair-se em sangue, e esfregar-me no seu corpo lacerado, para que, vivendo, trouxesse o peito sujo e cheio do que a vida me roubara. Sonhei matá-lo.
Mas em nome da sua paz, e do que para mim estava perdido, abdiquei do projecto. Todos nós pensamos um dia matar um amor impossível. Viveríamos em sossego - a culpa da sua morte não haveria de ser pior do que isto. Mas não matamos. Chama-se uma pinga de lucidez. Chama-se ser vencido e aceitar.
Parece um filme rasca, mas a vida é o raio de um filme de péssima qualidade.

segunda-feira, junho 18, 2007

Flávia



Para Flávia, a velha dos gatos, que morreu há dias.


Era o fim desta tarde, e havia já sombra no baldio de ervas secas onde costumo levar as cadelas. E era tão triste essa sombra das sete. Fria, silenciosa, solitária como a mulher dos gatos que morreu há dias. Os caules secos das ervas altas tombavam-se uns nos outros, criando um barulho só, muito só, de palha que se emaranhava sem vida, como a mulher dos gatos que morreu há dias.
Que lugar tão solitário, e tão puro na réstia de luz que ainda escapava. Que lugar tão silencioso desse barulho que era uma dança seca. Tão puro, tão só, tão frio.
A velha dos gatos devia estar ao meu lado. Devia estar a contar-me, "o meu marido morreu muito novo. Depois morreu o meu filho. Tinha diabetes. Primeiro amputaram-lhe as pernas, coitadinho. Sofreu muito." A velha dos gatos devia estar a repetir-me a mesma história pela centésima vez, mesmo perto do meu ouvido. Mas agora eu não ouvia, e não pensava, "é como se estivesses morta - morreste com eles". Não podia. Agora eu não pensava, "fala, fala - alguém tem que te ouvir!"
A velha dos gatos morreu há uma semana, e eu sei que não abandonaria os seus queridos. Portanto, ali estava ela, velando pela comida deles, para que a Micas não fosse lambiscá-la, ou a chamá-la de longe, "minha querida, minha linda, estás tão gordinha", e eu, furiosa, porque me atrasava o passeio; eu que estou sempre com pressa.
A velha estava ali. No meio da erva seca, em pé, ao meu lado, contemplando a cadela, "que linda, que gordinha; só não quero que me vá comer a comida dos gatos; e a sua mãezinha, como vai?" Olhei para os dois lados. Para trás. Para a frente. Olhei mesmo, e hei-de ter acertado. Com os olhos postos adiante disse-lhe, "vai-te embora, Flávia, agora vai em paz. Aqui já não há nada para ti." E sei que chorou. Quem não choraria? Não é fácil ser-se mandado embora. Nem mandar. A Flávia sempre chorou como uma criança, e falava gemendo, e fazia-me chorar, como se eu não tivesse outra profissão. Chorar o choro dela.
Chamei a Micas. "Vamos embora. Está frio. São horas". A Flávia ficou a ver-nos partir, abraçada ao peito, como fazia, com os braços deformados. Abraçada ao velho peito só, e alheado. Abraçada com os gatos pretos e os gatos brancos e os gatos malhados, todos num grande molho que aquecia no encolhido peito oco.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

A terra come-nos

Sento-me de frente para a janela matinal completamente transparente. Os barcos do Barreiro cruzam-se no Mar da Palha, sulcando um risco de espuma na água do rio. O meu chá arrefece, atravessando a minutos o panorama cinzento. Acabou-se-me o chá preto. Sinto-me ligeiramente agoniada. Devia vestir-me e ir ao cemitério. Já comprei o lençol com que amanhã de manhã embrulharão os ossos descarnados do meu pai. O musgo cresce nas paredes, muito devagarinho, e hoje não há palhaços no circo.

segunda-feira, abril 10, 2006

A face tão breve da memória

Margarida, 10/04/1903 - 17/12/1995

O corpo físico desfaz-se. Acabamos. Também o que fizemos, dissemos, sentimos. Os momentos de graça e desgosto recebidos. Isso tudo que morre e arrasta para o esquecimento o amor vivido, o ciúme, a raiva. A memória de nós, que desaparece sem remédio.
Os nossos filhos recordarão as nossas piadas repetidas mil vezes, e os netos hão-de lembrar-se que lhes contávamos a história do meio-pinto, mas os nossos bisnetos mal saberão o nosso nome próprio, se souberem. Desaparecer da face da memória. Como se chamavam as minhas trisavós? Desapareceram da face da memória.
Hoje, se fosse viva, seria o aniversário da minha avó Margarida. Ninguém no mundo lembra a minha avó Margarida. Ninguém sabe que no dia de hoje faria 103 anos, e que cegou muito cedo, e que teve de lavar escadas, muitas escadas, para alimentar o meu pai. Que tinha numa caixa de madeira, aninhada em palha sempre fresca, uma galinha entrevada que lhe viveu décadas. Chamava-se Micas. Por isso é que a minha cadela Micas se chama assim. Foi o meu pai que lhe pôs o nome quando eu a trouxe da rua.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Isabel

Sonhei que fazíamos, a pé, o caminho da escola, o das laranjeiras, das oliveiras, em direcção ao meu sotão. Que era Primavera. Eu sabia-a doente, e ela sabia que eu sabia.
Ríamos depreocupadamente, porque a vida é leve, as pessoas é que complicam muito. Costumávamos dizer.


A minha ex-colega Isabel morreu, ontem, vítima de cancro geralizado, o qual lhe foi inicialmente detectado nos gânglios, removidos há 10 anos atrás.
Isabel era da minha idade, nunca fumou, e sei que bebeu e comeu menos que eu. Dizia que eu a levava melhor. Levei-a à minha maneira. Não sei se foi melhor.
A Isabel tinha uma vidinha regrada: trabalho das nove às cinco; o marido putanheiro, o normal; um puto insuportavelmente malcriado, o normal. Sabia alemão.
Fazia quimioterapia pesada, desde que a conheci. Ficava em casa nos dias seguintes, sem força. A certa altura, as veias não aguentavam mais picadas e puseram-lhe um cateter.
Usou uma peruca igualzinha ao seu cabelo. O mesmo tom louro claro, o mesmo corte. Passou a andar muito penteadinha sempre. A Isabel sorria sempre, e era uma pessoa muito doce e, provavelmente, uma das melhores pessoas que conheci.

Gostava muito, muito da Isabel.
Devia ter ido hospital, na segunda-feira, mas não tive tempo, porque precisei de preparar uma merda que não interessa a ninguém.

Não me despedi de ti, minha querida.

terça-feira, janeiro 10, 2006

O meu grande amor

Eu vi a morte nos seus olhos. Já se deixava perceber nas pupilas murchas. Ela sorria para nós, enquanto o comia por dentro.
Ele cuspia o arroz-doce que a Ana lhe dava à boca, com a colher. Grunhia. Batia.
Li-lhe a morte nos olhos. Ele disse-me, em silêncio, "vou-me embora, tu ficas, não nos vamos beijar mais, tocar, cantar juntos as canções do Nat King Cole".
Ele tinha a minha culpa nos seus olhos. Não, os meus olhos carregavam a culpa que transferia para os seus. Não sei. Havia culpa. A de ambos. A de tudo o que não pudemos ser um para o outro. A do tempo que nos afastou. A do que nos negámos por teimosia, por raiva das nossas duas vidas tão amantes, tão orgulhosas, tão cheias de certezas.
Se tivéssemos atirado ao ar as certezas e nos tivéssemos beijado e abraçado, e dito muitas vezes "eu gosto tanto de ti" e "vamos ao cinema", "vamos beber", "vamos cantar Nat King Cole?!"
Lembro-me dos seus olhos escuros. Estava sentado na cama, olhava-me de baixo para cima e dizia-me, em silêncio, "vou morrer". E eu ralhava-lhe, em silêncio, "não me olhes assim, como um carneiro mal morto" e pensava, "já és um carneiro mal morto, sim, morre, é melhor para ti, para mim, para todos. Morre".
E ele morreu. Disse, "isto hoje está mau", e morreu.
Foi melhor para todos, mas agora não está aqui e eu queria que estivesse, para sempre, aqui.
Estará, para sempre, aqui.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...