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sexta-feira, outubro 10, 2008

Migalhas aos passarinhos


Há pessoas que atiram as migalhas para o chão e outras que as guardam para os passarinhos. Entre umas e outras vai um mundo de princípios. É bem provável que a geografia ideológica que interessa se divida neste gesto.

Eu sempre fui uma mulher intolerante, e exigente, e não vou agora pôr-me com mudanças, só porque gastei uns milhares de euros em psicanálise para perceber que sou... intolerante e exigente, entre outros lindos defeitos de construção. A intolerância e a exigência também têm um lado solar. Por exemplo, ao longo dos anos consegui manter apenas os amigos que guardam migalhas para os passarinhos. E isto foi uma sorte.


sábado, julho 26, 2008

Deseducação à hora do lanche


Quando chega o bom tempo gosto de ir ler para a esplanada. Levo comigo as cadelas, que se deitam no chão, ao lado da cadeira, ou debaixo dela, e ali ficam contemplando o movimento, pachorrentas, lambendo as patas ou dormitando à sombra enquanto leio. Numa mesa perto, há de vez em quando uma criança lanchando, cuja mãe incentiva a beber o leite apontando para as minhas cadelas e dizendo, olha os cães, se não bebes vêm os cães maus e bebem-te tudo, olha os cães. Levantou a cabeça, vês?!, já está a olhar para ti, se não te despachas...
Tenho pena da mãe, mas tenho muito mais pena da criança.

quinta-feira, julho 10, 2008

Extrema solidão



Não gostamos dos homossexuais porque são homossexuais, e as suas práticas são contra naturam. Não gostamos dos pretos porque são pretos e cheiram a catinga. Não gostamos dos imigrantes porque são imigrantes e nos roubam trabalho. Não gostamos dos brasileiros porque são brasileiros e vivem às três famílias no mesmo apartamento e fazem muito barulho. Não gostamos dos gordos, porque são gordos, e não controlam o que comem. Não gostamos dos magros, porque são magros e nós também gostaríamos de ser. Não gostamos dos baixinhos porque são baixinhos e ainda por cima não há nada que os faça ficar altos. Não gostamos dos altos, porque são altos e o que daríamos por mais cinco centímetros! Não gostamos dos mal vestidos porque são mal vestidos, e isso os categoriza como pobres e de mau gosto. Não gostamos dos peludos, porque são peludos, e os pêlos são feios. Não gostamos de mulheres a ocupar cargos de responsabilidade porque são mulheres e têm aquele andicape de engravidar e ter de faltar ao trabalho. Não gostamos de reciclar, porque reciclar é chato e não conseguimos aprender a que cor corresponde cada embalagem. Não gostamos nem de cães nem de gatos, porque são animais e cheiram mal e deitam pêlo e têm doenças. Não pensamos no sofrimento dos animais que comemos porque são animais para comer e não podemos desenvolver afectos por gado. Não gostamos de nos deitar na relva porque a relva está plantada na terra e a terra tem bichos. Não gostamos de andar descalços porque o chão é porco e sujamos os pés. Não gostamos de quem passa por nós na rua, porque ocupa o nosso espaço, e é gente feia, nós somos bem melhores. Não gostamos dos ricos porque são ricos e têm mais do que nós. Não gostamos dos pobres porque são pobres e têm menos que nós. Não gostamos dos nossos vizinhos porque são nossos vizinhos e levam vidas que não percebemos. Não gostamos das nossas famílias porque são nossas famílias e tinham a obrigação se lembrarem mais de nós ou de nos convidarem para isto e aquilo. Não gostamos dos nossos pais porque são nossos pais e estão velhos e chatos e dão trabalho e já viveram a vida deles. Não gostamos dos nossos colegas porque são apenas colegas e não se pode confiar neles para nada.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.

quinta-feira, junho 26, 2008

História sem moral I


O passageiro que está sentado à minha frente, de costas para mim, viaja no Metropolitano de superfície em Almada, entre a estação do Pragal e a da Cova da Piedade.
Um rapaz muito negro, usando dois piercings sobre a sobrancelha esquerda, e dois anéis na mão do mesmo lado. Tudo ouro pesado, do amarelo, do bom, com um certo ar de velho, contrastando com a pele escuríssima, ligeiramente baça. A abundância de ouro, e a forma como sobressai, atraiu a minha atenção. Uns 17 anitos. 15h30. Calor. Fala ao telemóvel.
Querida, estou a ligar-te, quero só falar contigo um bocadinho. Estou aqui. Aqui no metro. E tu? Não percebo. Não estou a perceber. Diz. Nessa loja de roupa? Mas posso falar contigo, amor? Só quero falar agora contigo, amor. Só faltam três dias... Mas, olha, tens de dizer aos teus pais que não dormes em casa. Não dá, não dá. Isso não é assim. Casamento de preto não é igual ao casamento dos brancos. Toda a gente vai beber e dançar a noite toda. Não, não. Nem penses; os meus pais não vão querer vir antes das oito da manhã. Depois dormes em minha casa. Tá bem, amor, não esquece, tá? Olha, agora vou sair. Depois ligo, amor.
Saiu. Pude vê-lo melhor. Um formidável negro com traços do rosto perfeitos, simétricos. Bonito. Usava calças de ganga descaídas no rabo, mostrando totalmente os boxers cinzentos que tapavam as nádegas.

segunda-feira, junho 23, 2008

Como se não fosse preta

Foto: Mary Ellen Mark


Para o Carlos Narciso


Já disse à minha filha, tem cuidado, que o teu marido é homem, e, como se não bastasse, preto, por isso, se vais lá para Cabo Verde ter com ele, tem cuidado; qualquer dia estás metida na cozinha a fazer petiscos para ele e para os amigos, enquanto vêem bola e bebem que nem esponjas. Já lhe deixei o sermão. Oh, há lá homem que seja diferente.... não é por ele ser meu genro que há-de ser melhor que os outros.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.

Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...