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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

O mito do amor maternal instantâneo


O amor maternal instantâneo é um dos grandes mitos sagrados associados à maternidade. Prefiro trocá-lo pela realidade da preocupação e desespero maternais a partir do momento em que uma criança atravessa o colo do útero e emerge para sofrer décadas de penoso purgatório, se tiver sorte.
Há umas semanas, no hospital de Torres Vedras, uma enfermeira desmotivada, e eu até posso compreender, trocou duas crianças. As mães tiveram alta, levaram os bebés para casa, e só uma delas, muitas horas mais tarde, estranhou que o seu filho tivesse o nome de outra mulher na pulseirinha que o identificava. Reparou melhor, e a criança pareceu-lhe mais magra. Voltou à maternidade, pedindo a troca do artigo; parece que teve sorte, que ainda estava nos prazos estipulados pela Lei.
Ora, penso cá comigo, enquanto mães e bebés tiveram visitas na maternidade, quem não terá cedido à tentação de comparar recém-nascidos e progenitores?! "Ah, é tal e qual o queixo do pai; ah, tem o nariz todo da mãe; ah, parece a avó Maria Emília!"
Tais atribuições de parecenças nos primeiros dias de vida parecem-me bastante irrealistas. Qual queixo e qual nariz?! Os recém-nascidos não passam de um naco de carne vermelhusca e engelhada! São todos iguais. Está bem, uns têm mais cabelos, outros menos, uns são mais compridos ou mais pesados, de resto, eu gostava de ver uma mãe ou um pai à procura do filho da sua carne e do seu sangue num berçário sem nomes, sem referências.
O que é espontâneo relativamente a um recém-nascido é o sentimento de propriedade e de merecimento. "Eu quis ter isto, isto custou-me a ter, isto é meu!" A minha mãe, que teve comigo um parto especialmente difícil, não me amou no momento seguinte ao nascimento. Percebo-o pelas perguntas que lhe faço. Amou-me depois. Mas o meu pai, o meu pai levou ao extremo a sua decepção com a minha vinda. Recusou ir buscar-me à maternidade, porque eu não era um rapaz! Sempre admirei no meu pai a sua total incapacidade para fingir e para fazer fretes! E isto não é ironia.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...